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Cristina de Pisano

Cristina de Pisano foi uma poetisa e filósofa italiana que viveu na França durante primeira metade do século XV. Ela era conhecida por criticar a misoginia presente no meio literário da época, predominantemente masculino, e defender o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher francesa de letras a viver do seu trabalho.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 05/08/2026
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Biografia

Cristina de Pisano tinha quatro anos de idade quando mudou-se com a família para Paris, onde seu pai, Tommaso de Pizzano, foi nomeado secretário do rei Carlos V de França, em 1368 e trabalhou como astrólogo. Em 1380, ela casou com Etinenne de Castel, secretário da chancelaria do rei, com quem teve dois filhos e uma filha. Um evento de grande importância em sua biografia é a morte inesperada de seu marido em 1389, pouco depois do falecimento de seu pai. Uma vez viúva, ela se vê obrigada a encontrar meios para o sustento próprio e de sua família. Cristina começou compondo poesias a partir de 1390, as quais lhe renderam significativa atenção na corte. Em um de seus textos autobiográficos, Le livre de l’Advision Cristine, a personagem Philosophie lembra Cristina que se ela não tivesse ficado viúva, não teria se dedicado aos estudos e à escrita, mas teria se ocupado exclusivamente de responsabilidades domésticas – como era esperado de uma esposa de sua classe social. Convém observar que no período medieval a viuvez entre aristocratas representava um estado de grande liberdade para as mulheres, já que elas podiam decidir não se casar novamente. Ela se tornou autora, editora e publicadora e também se envolveu diretamente na confecção de seus livros: orientava copistas e artistas para ilustrar seus manuscritos, agiu como própria copista, e muito astutamente presenteou compilações dedicadas a potenciais mecenas, buscando com isso segurança financeira e renome. De fato, ela é considerada a primeira mulher escritora profissional no ocidente.

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Contexto cultural e intelectual

Cristina de Pisano gozou de considerável reputação em vida e seu lugar no cânone da literatura ocidental está assegurado – o que ainda não é o caso em relação ao cânone filosófico. Com efeito, avaliar a pertinência dos seus escritos para a compreensão da atividade filosófica dessa época implica levar em conta as condições singulares em que esta escreveu, e isso inclui notadamente a distinção sociocultural entre o meio laico e o meio clerical. Enquanto mulher, ela esteve necessariamente excluída do meio clerical e, ao mesmo tempo, não pode ter acesso a uma educação formal universitária. Ela pertenceu ao meio intelectual e cultural que se desenvolveu na corte de Carlos VI, onde conviveu e debateu com nomes centrais do nascente pensamento humanista francês (como Jean Gerson, Jean Montreuil e Gontier Col). De modo geral, era muito incomum que mulheres desenvolvessem a prática da escrita na Idade Média fora dos contextos monásticos, onde a educação religiosa vinha acompanhada de certa instrução. Cabe notar que esse fato se reflete na iconografia da época, onde são raras as representações de mulheres autoras ou como autoridades intelectuais. Nesse sentido, as ilustrações de Cristina de Pisano estudando entre os livros, escrevendo e discutindo com homens em nítida posição de autoridade são surpreendentes e pouco comuns. Em seu autobiográfico Le livre de Mutacion de Fortune (1403) ela descreveu uma alegoria intrigante: após a morte de seu marido, uma transformação dramática faz-se necessária – ela é transformada pela Fortuna em um homem, que agora possui força suficiente para conduzir a embarcação que representa sua existência. Mais que uma mera construção literária, tal metamorfose reflete uma realidade social, na medida em que escrever e viver de sua escrita, especialmente sobre assuntos de natureza teórica e política, são atividades percebidas como masculinas. Tal relato se vale de um topos literário (virago) para reclamar a mesma autoridade de um homem.

Defesa do sexo feminino e a Querelle des Femmes

Cristina de Pisano ficou particularmente conhecida por sua defesa das mulheres contra o sexismo nos meios literários e filosóficos. Os textos mais importantes para a análise desses argumentos contra a inferioridade da mulher são a série de correspondências reunidas sob o título Querelle de la Rose (ou Debate da Rosa) e A Cidade das Damas. A Querelle de la Rose é considerado o primeiro debate público em defesa do gênero feminino, onde Cristina debateu com Jean de Montreuil e Gontier Col. O debate se deu a partir de uma troca de cartas envolvendo a crítica do célebre Romance da Rosa de Jean de Meung, cujos versos apresentam uma visão pouco elogiosa das mulheres, as quais são sistematicamente representadas como ardilosas e desleais. A disputa se iniciou formalmente em 1401 quando Cristina escreveu uma primeira carta diretamente em resposta a Jean de Montreuil denunciando os intelectuais que elogiavam o autor em defesa do conteúdo dos seus versos. Ela entendia que todo autor deve assumir a responsabilidade moral sobre suas obras e que a literatura deve ter como função a boa orientação moral, para além da qualidade estética. O retrato difamatório do sexo feminino teria um efeito corrosivo sobre seus leitores, levando à desarmonia entre os sexos e a uma compreensão equivocada do amor. Gontier Col solicitou uma cópia da carta de Cristina e a criticou duramente, pedindo que se retratasse. Esta se recusou a fazê-lo e reiterou sua posição. Cristina compilou a correspondência e a enviou a seus protetores, dentre os quais a rainha Isabel de Baviera, garantindo com isso a exposição do debate. Nas cartas, ela fala explicitamente em nome do seu gênero e usa sua condição de mulher como posição privilegiada para a argumentação.

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Obras

Cristina de Pisano foi uma escritora prolífica: produziu mais de 40 obras em uma gama variada de gêneros literários (todas em francês médio, ou seja, o francês falado nos séculos XIV e XV) e para públicos diversos. Destacam-se os livros de instrução moral para o cultivo das virtudes, guias políticos para membros da corte e a defesa do sexo feminino. Ela escreveu uma série de tratados de natureza política, dentre os quais o Caminho de Longo Estudo (Le livre du chemin de long estude, 1402–1403), uma espécie de narrativa da história universal em verso, e o já mencionado Livro dos fatos e bons costumes do sábio rei Carlos V (Livre des faits et bonnes moeurs du sage Roy Charles V), uma biografia do rei Carlos V encomendada pelo Duque da Borgonha em 1404. O Livro do Corpo Político (Le livre du corps de policie), composto entre 1404 e 1407, discorre sobre o bem comum e as qualidade do “bom príncipe”. Em 1400 escreveu um tratado mitológico em prosa e verso intitulado Cartas de Otea a Héctor (L’Epistre Othea). Este é um texto reproduzido em 47 manuscritos, alguns deles muito luxuosos e ricamente iluminados – o que indica o prestígio de seus proprietários. Suas alegorias procuram orientar os leitores ilustrando as virtudes a serem cultivadas e os vícios a serem evitados: Otea representa aqui prudence, a maior das virtudes, reminiscente da phronesis aristotélica. Significativa atenção tem sido dada aos tratados políticos de Cristina de Pisano e sua compreensão da prudência como uma virtude, bem como de seus antecedentes filosóficos. Assim como nas Cartas de Otea a Héctor, em O Livro da Paz (Livre de la paix, 1414) verifica-se uma compilação ética profundamente marcada pela influência da Ética a Nicômaco de Aristóteles e sua recepção medieval. Encontramos nesses textos uma discussão sobre a sabedoria, entendida como equivalente à prudência e soma de todas as virtudes.

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