Charles Messier
Charles Joseph Messier foi um astrônomo francês, conhecido pela compilação e publicação, com a coautoria de Pierre Méchain, de seu catálogo de objetos de céu profundo, uma lista de 110 objetos astronômicos como nebulosas, aglomerados estelares e galáxias que vieram a ser conhecidos como os "objetos Messier". Pretendia, com a publicação do catálogo, auxiliar a si mesmo e outros astrônomos e observadores em sua atividade astronômica principal durante sua carreira, a investigação de cometas, listando todos os objetos que pôde identificar e que poderiam ser facilmente confundidos com cometas transientes, mas que, na realidade, tinham naturezas completamente diferentes e eram fixos no céu noturno. Contudo, Messier, sem intenção, catalogou alguns dos astros mais interessantes para a atual astronomia amadora.
Charles Messier nasceu em Badonviller, atualmente no departamento de Meurthe-et-Moselle, Lorena, à época pertencente ao Principado de Salm-Salm, pequeno estado independente nas montanhas Vosges, encravado entre o Ducado da Lorena e o Reino da França. Era o décimo dos doze filhos de Nicolas Messier, que servia na administração do Principado, e de Françoise B. Grandblaise. Em 1741, quando tinha 11 anos, seu pai morreu e seu irmão mais velho, Hyacinthe, tornou-se chefe de família e responsável por sua educação. Por oito anos treinou Charles em tarefas metódicas e administrativas e este adquiriu um senso de observação de detalhes finos, habilidade importante para a conquista de seu primeiro e único emprego como astrônomo. Interessava-se pela observação do céu e pela astronomia desde a adolescência: alguns raros eventos astronômicos, como a passagem do grande cometa de seis caudas e o eclipse solar anular visível em Badonviller em 25 de julho de 1748, podem ter estimulado ainda mais seu interesse pela astronomia.
O observatório de Delisle foi fundado em 1748 em uma torre do Hôtel de Clugny (atualmente Museu de Cluny), construído em 1480 sobre as ruínas de termas romanas do século IV. No século XVIII, o local foi alugado para a administração da Marinha Real Francesa. Com Delisle, Messier aprendeu a usar os instrumentos astronômicos e anotar cada detalhe de suas observações. A primeira observação registrada foi o trânsito de Mercúrio em 6 de maio de 1753. O próprio Delisle introduziu-o à astronomia elementar e convenceu-o sobre a utilidade das medições exatas das posições dos objetos em todas as suas observações, característica encontrada em seu futuro catálogo.
Primeiras descobertas
Em 1757, Messier iniciou sua busca pelo cometa Halley. O retorno deste corpo celeste era esperado para 1758, o que muitos astrônomos consideravam ser apenas uma especulação científica. O auxiliar de astrônomo chegou a elaborar uma carta celeste com a provável trajetória do cometa, calculada erroneamente por Delisle. Durante sua procura por Halley, descobriu outro cometa em 14 de agosto de 1758, observando e anotando suas posições na abóbada celeste dia após dia cuidadosamente até 2 de novembro daquele ano.[nota 2] A descoberto desse objeto levou-o à procura de novos cometas com auxílio de telescópios, inventando, assim, a "caça de cometas", uma nova área da astronomia.
Início da compilação de seu catálogo
Desde então, Delisle apoiou e deixou seu empregado realizar seu próprio trabalho de observação de forma independente. Messier descobriu sua segunda nebulosa, M2, descoberto originalmente por Jean-Dominique Maraldi anos antes. Inseriu-o em um mapa que mostrava também a trajetória do cometa Halley. Messier observou o trânsito de Vênus de 6 de junho de 1761 e a reaparição dos anéis de Saturno. Também observou o cometa de Klinkenberg (C/1762 K1) entre maio e julho daquele ano, e no ano seguinte descobriu mais um cometa (C/1763 S1). Nos primeiros dias de 1764, descobriu mais um cometa (C/1764 A1), que já apresentava magnitude aparente 3 no momento da descoberta. A primeira tentativa para entrar na Académie royale des sciences em 1763 não obteve sucesso.
No início de 1765, Delisle se aposentou e Messier encontrou o aglomerado de estrelas M41. Continuou a observar no observatório do Hôtel de Clugny, mas sua nomeação como astrônomo da Marinha Real Francesa ocorreu muito mais tarde, apenas em 1771. Em 1766, descobriu mais dois novos cometas, sendo uma descoberta original. Em 1767, participou da única viagem naval de sua vida, a serviço da Real Marinha Francesa, com o propósito de testar e regular alguns cronômetros marítimos novos, construídos pelo relojoeiro Julien Le Roy. Ficou a bordo do navio L'Aurore por três meses e meio no Mar Báltico. Durante sua ausência, entre 12 de maio e 1 de setembro de 1767, Jérôme Lalande continuou o programa de observação no Hôtel de Clugny. No início em 1769, Messier decidiu publicar sua primeira versão de seu catálogo e, para ampliar o número de objetos catalogados, incluiu outros objetos bem conhecidos, como a Nebulosa de Órion (M42), a Nebulosa de Mairan (M43), o Aglomerado do Presépio (M44) e as Plêiades (M45). Descobriu mais um novo cometa (C/1769 P1 (Messier)), o grande cometa daquele ano e, ao enviar a descrição e um mapa da trajetória desse novo cometa para o rei da Prússia, este ficou tão impressionado que, sob sua influência, Messier foi eleito membro da Academia das Ciências de Berlim em 14 de setembro daquele ano. Ele já havia sido selecionado anteriormente como membro da Academia Real da Suécia, em Estocolmo.
No final de 1771, Messier e sua esposa mudaram-se da residência de Delisle no Collège de France para um alojamento dentro do Hôtel de Clugny. No ano seguinte, a Sra. Messier deu à luz um filho, batizado de Antoine-Charles Messier. Após o nascimento da criança, tanto a Sra. Messier quanto o menino morreram dentro um intervalo de tempo de apenas 11 dias. Segundo o relato biográfico de Jean-François de la Harpe, escrito em 1801, a morte da esposa de Messier impediu-o de descobrir mais um cometa, que teria sido o seu décimo terceiro. Messier teria ficado mais desesperado pela descoberta perdida do que pela morte de sua esposa (especialmente que esse cometa - 3D/Biela - foi descoberto por Jacques Leibax Montaigne, seu desafeto). No entanto, isso não encontra apoio histórico: Montaigne já havia descoberto o cometa em 8 de março, uma semana antes de seu filho nascer. Mais tarde, acrescentou outro aglomerado estelar para sua lista, M50, e tirou três meses de férias em Lorena, de setembro a novembro daquele ano. Na mesma época, foi eleito membro da Academia de Bruxelas (Bélgica) e da Academia Real da Hungria. A partir de então, o ritmo das descobertas de novas nebulosas e aglomerados foi se tornando cada vez mais reduzido: Em 1773, descobriu o segundo companheiro brilhante da "nebulosa" de Andrômeda, M110, mas devido a razões desconhecidas, não o catalogou. Descobriu, também, mais um cometa no final de 1773; esse foi encontrado quando ainda era "precariamente visível a olho nu" (4,5 de magnitude aparente).[nota 4] Descobriu mais dois outros objetos (M51 e M52) em 1774, e observou o cometa daquele ano, descoberto por Montaigne. Também em 1774, Pierre Méchain foi apresentado a Messier por Jérôme Lalande, o principal astrônomo francês à época, que, segundo o astrônomo e historiador da astronomia Owen Gingerich, conhecia Messier desde tempos antigos.
Desde que Pierre Méchain começou a trabalhar no observatório de Messier, também começou a encontrar novos objetos para a confecção catálogo. No início de 1779, Messier codescobriu o cometa C/1779 A1, 13 dias após a descoberta original por Bode dias antes. Ao acompanhar este cometa, descobriu seis outros objetos (M56 a M61) quando o cometa passou pela constelação de Virgem e pelo aglomerado de galáxias de Virgem, observado tanto por Messier quanto Johann Gottfried Koehler, de Dresden, e por Barnabus Oriani, de Milão. Koehler descobriu M59 e M60 em 11 de abril de 1779, mas negligenciou M58, que foi descoberto por Messier quando ele, de forma independente, também descobriu os outros dois em 15 de abril. Oriani foi o primeiro a identificar M61 em 5 de maio de 1779. Messier descobriu o objeto de Oriani no mesmo dia, mas confundiu-o com o cometa que estava acompanhando, percebendo a sua natureza nebulosa, finalmente, em 11 de maio. Messier finalmente definiu uma boa posição para M62, que tinha descoberto oito anos antes. M63 foi a primeira descoberta de Méchain. Tinha definitivamente começado a observar nessa época e, como Messier, focou sua atenção na pesquisa e observação de cometas.
Ainda naquele ano, em 6 de novembro, o trabalho de Messier foi interrompido por um acidente terrível. Ao visitar o jardim de Monceau com seu amigo Saron, Messier interessou-se por uma passagem que dava acesso a uma caverna, mas esta passagem dava acesso a uma gruta de gelo com 7,5 metros de profundidade. Ele caiu nessa gruta, quebrando uma perna, um braço, um pulso e duas costelas. Teve que ficar em repouso por mais de um ano, tendo liberação médica apenas em novembro do ano seguinte. Nesse meio tempo, em abril de 1782, Méchain havia descoberto outra "nebulosa", que finalmente tornou-se o último objeto Messier a ser descoberto, M107. Estimulado pelo catálogo de Messier, William Herschel, assistido por sua irmã Caroline, começou a observar objetos do céu profundo. Herschel havia adquirido uma cópia do catálogo de Messier de seu amigo, o cientista William Watson. Em setembro daquele ano, fez sua primeira descoberta original de um objeto do céu profundo, a Nebulosa Saturno (NGC 7009), e no ano seguinte, depois de algumas pesquisas e elaboração de técnicas de observação, começou sua extensa pesquisa do céu profundo, catalogando mais 1 000 objetos do céu profundo até 1786, e um total de mais de 2 500 até 1802.
Três dias depois de sua liberação médica, Messier observou um trânsito de Mercúrio. No ano seguinte, Méchain escreveu uma carta para Johann III Bernoulli, da Academia de Berlim, publicado por Bode no Berliner Astronomisches Jahrbuch de 1786, juntamente com a tradução do catálogo de Messier. Nesta carta, entre outros assuntos, Méchain comunica os últimos três objetos descobertos por ele (agora M105 a M107), mas nega a descoberta do M102, iniciando assim uma polêmica ainda em aberto sobre a identificação do objeto. Segundo o próprio Méchain, M102 é uma duplicata de M101, mas suas anotações originais apontam para o objeto diferente, NGC 5866. Messier retomou suas observações, assíduas como antes, mais uma vez concentrando-se em cometas. Parece ter usado, também, a sua cópia pessoal do seu catálogo por vários anos, mas aparentemente não investiu grandes esforços em novas tentativas de encontrar novos objetos nebulosos e não trabalhou muito para melhorar ainda mais o catálogo. Isto se deve, talvez, porque ele sabia da pesquisa de Herschel e, como ele não poderia competir em instrumentação, pode ter perdido o interesse. Messier provavelmente estava ciente de que futuros caçadores de cometas poderiam também usar a compilação de Herschel. No entanto, há uma série de exceções notáveis: suas medições do posicionamento de estrelas de aglomerados abertos, como as estrelas pertencentes ao aglomerado do Presépio (M44) e das Plêiades (M45), realizadas em 1785, 1790 e 1796; uma série de observações, por volta de 1790, de nebulosas e aglomerados, marcadas a mão na sua cópia pessoal do catálogo, correções das posições, também em 1790, para a "nebulosa" de Andrômeda (M31) e sua companheira M32, bem como as suas investigações e desenhos da "nebulosa" de Andrômeda (M31) e ambos os seus satélites M32 e M110, em 1795.
Enquanto isso, a Revolução Francesa começou com a tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789. Em sua cópia pessoal, Messier acrescentou mais notas sobre observações de nebulosas e aglomerados mesmo nessa época turbulenta da história da França. Quatro anos depois, a revolução culminou no "Ano do Terror". O rei francês Luís XVI foi guilhotinado em 21 de janeiro, e o amigo de Messier, Saron, também foi guilhotinado em 20 de abril de 1794, pouco depois de ter calculado a órbita do cometa que Messier havia descoberto meses antes (C/1793 S2). O astrônomo chegou a notificá-lo secretamente que ele mesmo havia seguido o cometa através de sua trajetória calculada. O terrorismo chegou ao fim quando finalmente Robespierre foi guilhotinado ainda em 1794. Durante essa época, Messier ficou sem receber salários e pensões: teve até mesmo emprestar de Lalande os recursos mais necessários para o seu trabalho. Méchain estava na Espanha, empregado na investigação de meridianos, onde descobriu um outro cometa em janeiro de 1793. Sua família perdeu seus bens durante a Revolução e Méchain teve que partir para a Itália, retornando a Paris em 1795. Juntamente com Messier, Méchain tornou-se membro do novo Instituto Nacional de Ciências e Artes, sucessor da Real Academia de Ciências. Méchain também foi selecionado como um dos quatro astrônomos oficiais do Bureau des Longitudes; Messier também entrou para organização em junho de 1796, após a saída de Jean-Dominique Cassini, conde de Cassini.
Entretanto, este plano nunca foi concretizado. Em 1801, quando o primeiro "asteroide", Ceres, tinha acabado de ser descoberto por Giuseppe Piazzi em 1 de janeiro, Charles Messier, agora com 71 anos, participou de um projeto de observação de ocultações da estrela Spica (Alpha Virginis) pela Lua, entre 30 de março e 24 de maio. Fez a sua última descoberta de um cometa em 12 de julho de 1801, quando ele de forma independente codescobriu o cometa C/1801 N1; isso trouxe o número de descobertas suas de cometas a 20, 13 sendo originais e sete codescobertas independentes. Fez também algumas observações dos "planetas" (asteroides) recém-descobertos de Piazzi (Ceres) e de Heinrich Olbers (Pallas). Pierre Méchain tornou-se diretor do Observatório de Paris, cargo que viria a ter por vários anos. Mas como ele estava preocupado com algumas determinações de latitude e longitude em suas pesquisas, finalmente conseguiu a permissão de Napoleão para estender seu trabalho para as Ilhas Baleares. Deixou Paris em 1803 e, depois de completar parcialmente seu trabalho, contraiu febre amarela e morreu em Castelló de la Plana, Espanha, em 20 de setembro de 1804.
Charles Messier foi homenageado pela comunidade astronômica com o batismo de uma cratera lunar com seu nome, situada na região de Mare Fecunditatis. O asteroide 7359 Messier, descoberto em 16 de janeiro de 1996 pelo checo Miloš Tichý no Observatório de Klet', provisoriamente designado como BH 1996, também foi batizado como "Messier". Ainda quando Messier vivia, em 1775, seu amigo e astrônomo Jérôme Lalande tinha proposto o nome de uma constelação em sua homenagem: Custos Messium. Esta constelação era formada na atual região de fronteira das constelações de Cefeu, Cassiopeia e Camelopardalis. No entanto, a constelação teve uma vida curta e está extinta atualmente. De qualquer forma, a honra mais óbvia certamente é o sistema de nomenclatura ainda em uso dos objetos do céu profundo contidos em seu catálogo. Cada um desses objetos é catalogado com a designação "Messier" ou "M" seguido de seu número de catálogo, como Messier 42 ou M42 para a nebulosa de Órion, ou M31 para a galáxia de Andrômeda.


