César Lattes
Cesare Mansueto Giulio Lattes, mais conhecido como César Lattes, foi um físico brasileiro, codescobridor do méson-π, descoberta que levou à concessão do Prêmio Nobel de Física de 1950 a Cecil Frank Powell, líder da pesquisa. Lattes é um dos mais ilustres físicos do Brasil e seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da física atômica no país. Foi também um grande líder no meio científico brasileiro e um dos principais responsáveis pela criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Primeiros anos
Nascido no dia 11 de julho de 1924, era filho de Giuseppe Lattes, que veio ao Brasil em 1912 e retornou à Itália com a Primeira Guerra Mundial em 1914 e Carolina Maroni Lattes, ambos imigrantes italianos originários da região do Piemonte - ele, de Turim, e ela, de Alessandria. Os dois se conheceram no período em que o pai de Lattes lutava na guerra e quando retornou ao Brasil Giuseppe criou o Banco Brasul. Apesar de serem judeus sefarditas, o filho foi batizado na Igreja Católica como Cesare Mansueto Giulio. Após se casarem, Giuseppe e Carolina retornaram ao Brasil em 1921 e César veio a estudar na Escola Americana. Com a Revolução de 1930, a família passou seis meses na Itália. Seu pai era gerente do Banco Francês e Italiano, onde César conheceu o cientista Gleb Wataghin, que mais tarde seria seu mentor.
Entre 1946 e 1948, Lattes começou a sua principal linha de pesquisa, o estudo dos raios cósmicos, descobertos em 1932 pelo físico estadunidense Carl David Anderson. Montou um laboratório a mais de 5 000 metros de altitude em Chacaltaya, uma montanha dos Andes, na Bolívia, onde empregou chapas fotográficas para registrar os raios cósmicos. Em sua viagem para a Bolívia, ele resolveu embarcar em um avião da Panair em vez de uma empresa britânica - o avião britânico que o traria à América do Sul caiu no Senegal.
Méson-π
Viajou para a Inglaterra graças ao seu professor Occhialini, onde foi trabalhar no H. H. Wills Laboratory, da Universidade de Bristol, dirigido por Cecil Frank Powell, com uma bolsa de 15 libras por mês. Após melhorar uma nova emulsão nuclear usada por Powell, pedindo à empresa britânica Ilford para adicionar boro a ela, em 1947 realizou, com a ajuda dessas chapas, uma grande descoberta experimental, a de uma nova partícula atômica, o méson π (ou pion), a qual se desintegra em um novo tipo de partícula, o méson μ (méson mu ou muon). O processo histórico dessa observação tem suas raízes em um período de férias de Giuseppe Occhialini, que foi esquiar nos Pic du Midi, na França, e levou consigo chapas fotográficas para serem expostas à radiação cósmica. Ao retornar com essas chapas e analisá-las ao microscópio, Occhialinni perguntou a Lattes, que havia feito um trabalho de padronização da identidade de traços visuais deixados por partículas carregadas geradas por aceleradores de partículas em chapas fotográficas assim que chegou em Bristol em 1946, o que teria causado os traços observados na emulsão exposta no Pic du Midi. Lattes não titubeou. Pela diferença dos traços com os quais estava familiarizado, cravou que eram traços provocados pela passagem de mésons.
Retorno ao Brasil
Em 1948, Lattes retornou ao Brasil e tornou-se professor da USP após ter recusado uma proposta de Harvard. Foi também professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Depois de outra estada nos Estados Unidos como pesquisador visitante na Universidade de Chicago (de 1955 a 1957), voltou para o Brasil e ingressou na Academia Brasileira de Ciências (ABC). Depois de ter se mudado para Campinas, em 1963, ajudou a fundar o Instituto de Física. Em 1967, Lattes aceitou a posição de professor titular no novo Instituto de Física Gleb Wataghin na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), nome que se originou de seu professor fundador, o qual ele também ajudou a fundar.
Lattes é um dos mais destacados e homenageados físicos brasileiros e seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da física atômica. Foi também um grande líder científico da física brasileira e uma das principais personalidades por trás da criação do importante Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Brasil. Por sua contribuição nesse processo, a Unicamp decidiu homenageá-lo denominando sua biblioteca central como "Biblioteca César Lattes". Além disso, o banco de dados científico nacional brasileiro, a Plataforma Lattes, também foi batizada em sua homenagem. Lattes também recebeu várias honrarias ao longo de sua vida, dentre elas destacam-se o título de Cavaleiro da Grande Cruz, outorgado pela Ordo Capitulares Stellae Argentae Crucitae (1948); Prêmio Einstein, da Academia Brasileira de Ciências (1951); o Prêmio Ciências, do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (1953); o Prêmio Evaristo Fonseca Costa, do Conselho Nacional de Pesquisas (1957); Cidadão Honorário da Bolívia (1972); a Medalha Carneiro Felipe, do Conselho Nacional de Energia Nuclear (1973); a Medalha dos 25 anos da SBPC (1973); o Prêmio Moinho Santista – Física (1975); a Comenda Andrés Bello, outorgado pelo Governador da Venezuela (1977); o Prêmio Bernardo Houssay, da Organização dos Estados Americanos (1978); o Prêmio em Física, da Academia de Ciências do Terceiro Mundo, sediada em Trieste, Itália (1987); a Medalha dos 40 anos da SBPC (1988); a Medalha Santos Dumont (1989); e o Símbolo do Município de Campinas (1992). Além dessas honrarias, Lattes é nome de logradouros e edifícios em algumas cidades e universidades brasileiras.
No final de 1947, César Lattes casou-se com a matemática pernambucana Martha Siqueira Neto, com quem teve quatro filhas. Ele dizia que, para ser um grande cientista, só havia duas alternativas: nascer em Pernambuco ou se casar com uma pernambucana — em referência a cientistas recifenses do seu convívio, como Mário Schenberg, José Leite Lopes e Leopoldo Nachbin. Durante sua vida, Lattes enfrentou a depressão. Costumava declarar-se agnóstico, mas, em 2001, numa entrevista ao Jornal da Unicamp, declarou acreditar na versão bíblica de que Deus havia criado a matéria. Politicamente, Lattes se dizia Stalinista. Mesmo depois de se aposentar, continuou a viver numa casa situada no distrito próximo ao campus da Universidade de Campinas. Entre seus contemporâneos, Lattes disse que o físico Brasileiro mais importante foi Marcelo Damy.
César Lattes morreu em 8 de março de 2005, aos 80 anos de idade, em Campinas. Estava internado no Hospital das Clínicas da Unicamp e foi vítima de uma parada cardíaca em decorrência de um câncer na bexiga e edema pulmonar. Foi sepultado no Cemitério Parque Flamboyant, em Campinas.
O primeiro artigo de Lattes sobre o méson pi foi publicado pela revista Nature em 24 de maio de 1947: Lattes publicou ainda diversos outros trabalhos, entre os quais podem ser destacados os seguintes:


