César Guerra-Peixe
César Guerra-Peixe foi um compositor brasileiro de música erudita, arranjador e estudioso da música brasileira.
Inícios
Nasceu em Petrópolis, filho dos imigrantes portugueses Francisco Antonio Guerra-Peixe e de Anna Adelaide Guerra-Peixe, que haviam chegado ao Brasil em 1893. Era o caçula de dez irmãos. Seu pai, que trabalhava como ferrador de cavalos e era músico amador, começou a ensinar-lhe a tocar violão aos seis anos de idade. Aos sete tocava o bandolim, aos oito violino e aos nove piano. Começou estudos musicais formais na Escola de Música Santa Cecília, em sua cidade natal, onde foi aluno de violino do professor Gao Omacht, entre outros. Rapidamente ganhou prêmios na Escola pelo seu desempenho no instrumento. Em 1928 conseguiu seu primeiro trabalho, como violinista em sessões de cinema mudo em Petrópolis. A partir de 1929 começou a desempenhar-se como professor na Escola.
De Mário de Andrade ao dodecafonismo
Em 1944, terminado o curso, Guerra Peixe, ansioso por conhecer as novidades no campo da música, entrou em contato com o professor Koellreutter. Suas peças eram, até então, compostas dentro do modelo clássico com melodia brasileira, sendo a Suíte infantil n.º 1 para piano a expressão maior desse período. Guerra Peixe decidiu destruir todas as obras compostas anteriormente, passando a adotar a técnica dodecafônica. Na primeira fase da concepção dodecafônica, sua primeira composição, Sonatina para flauta e clarinete, foi intencionalmente antinacionalista. Compôs também a obra Noneto, interpretada por Hermann Scherchen em diversos centros europeus. Nessa época, participava do grupo Música Viva, com Cláudio Santoro, Edino Krieger e Eunice Katunda.
Por uma dodecafonia nacionalizada
Depois de compor uma obra em que todas as características dodecafônicas se realizam alheias aos valores musicais brasileiros, Música n.º 1 para piano e solo, suas obras seguintes acentuaram a intenção de nacionalizar os 12 sons, como a Sinfonia n.º 1 para pequena orquestra, executada pela BBC de Londres, o 1º quarteto de cordas, as Miniaturas para piano. A peça Trio de Cordas foi um marco na pesquisa da dodecafonia, no sentido de conferir-lhe tons nacionais. Composta em 1945, nota-se, no segundo movimento (andante), um desprendimento no manejo da técnica dos doze sons. A fase dodecafônica encerrou-se em 1949 com a Suíte para flauta e clarinete.
Um sulista nordestinizado
Entre 1948 e 1950 trabalhou como arranjador na Rádio Jornal em Recife. A decisão de aceitar um trabalho na região nordeste foi tomada com o objetivo de conhecer melhor o folclore nordestino. Suas pesquisas musicais foram anotadas em cadernos, com várias melodias sendo utilizadas em obras compostas na década de 1950. Parte do resultado das pesquisas foi publicada em 1955, sob o título Maracatus do Recife (editado pela Ricordi). Guerra Peixe passou a conhecer o folclore brasileiro como poucos, ganhando sua música uma nova dimensão a partir do estudo de ritmos nordestinos como o maracatu, coco, xangô, frevo. O compositor descobriu que os passos do frevo foram trazidos por ciganos de origem eslava e espanhola, e não por negros africanos, como se pensava até então.
Músico, professor e arranjador
Guerra Peixe compôs trilhas para os filmes Terra É sempre Terra e O Canto do Mar, sendo premiado em 1953 como melhor autor de música de cinema. Também realizou trabalhos no campo da música popular brasileira, foi diretor musical de toda uma série intitulada 'A grande música do Brasil', nesta coleção foram lançados quatro álbuns, cada um dedicado a um artista da música popular, como Chico Buarque, Luiz Gonzaga e Tom Jobim, com arranjos sinfônicos de Guerra-Peixe para as músicas destes artistas. Integrou a Orquestra Sinfônica Nacional como violinista, onde estreou, gravou e regeu muitas de suas obras, também dedicou-se à carreira de professor, dando aulas de composição e de orquestração nos Seminários de Música Pro-Arte, no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, no Centro de Estudos Musicais (criado por ele), na Escola de Música Villa-Lobos, instituições onde foi responsável pela formação de inúmeros compositores (como Ernani Aguiar, Jorge Antunes, Guilherme Bauer, Nestor de Hollanda Cavalcanti, Carlos Vianna Cruz, Antônio Guerreiro, Antônio Jardim, José Maria Neves, Clóvis Pereira, Murillo Tertuliano dos Santos), e, por fim, na Universidade Federal de Minas Gerais. Ali, durante toda a década de 1980 até a sua morte, Guerra-Peixe formou um grupo de músicos que ficou conhecido então como "Escola Mineira de Composição" e que reunia os nomes de Gilberto Carvalho, Nelson Salomé, Lucas Raposo, João Francisco de Paula Gelape, Sérgio Canedo, Marden Maluf, Alina Paixão Sidney, Clarisse Mourão, Felix Down Gonzalez e Dino Nugent Cole, Márcio Miranda Pontes, entre outros. Nélson Salomé, um dos discípulos mais diretamente ligado a Guerra-Peixe, escreveu um livro sobre o período.
Homenagem
Desde 2009 a prefeitura de Petrópolis realiza o Prêmio Maestro Guerra-Peixe de Cultura que destaca os artistas nascidos ou residentes que mais se destacam a cada ano. O nome da premiação presta uma homenagem ao compositor petropolitano.


