Iara
Iara ou Uiara é uma entidade lendária da Amazônia, a sereia do folclore brasileiro, metade mulher e metade peixe, de canto irresistível, e confundida com a Mãe-d'Água.
Trata-se de uma lenda amazônica surgida no século XIX, não havendo referência a ela nos textos coloniais. Surgiu quando confundiram a sereia europeia com a mãe-d'água das águas brasileiras, que é a cobra-d'água e não tem poder algum de sedução. Segundo o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo, Iara é a Mãe-d'Água dos brancos, vinda dos portugueses, que trouxeram as sereias da Europa, com modificações negras, desconhecida pelo indígena brasileiro. A mãe-d'água do rio São Francisco, também uma iara, é uma mulher-peixe idosa muito alta e muito feia, sem atrativos de sedução, diferentemente da descrição popular dessas sereias fluviais; também conhecida como "avó-d'água", ela é profundamente humana e rege os destinos dos pescadores do Velho Chico. Já no rio Amazonas, "mãe-d'água" (paranamaia, "mãe do rio"), registrado pelo botânico e antropólogo Von Martius no século XIX, é o nome que os indígenas dão à cobra-d'água — a Boiuna ou Boiaçu —, que não tem o poder de se tornar mulher nem metade mulher; encontrá-la ou, pior ainda, matá-la trará ruína a toda a tribo.
No chamado "furo do Aturiá" no Estreito de Breves, Pará ("furo" é um caminho natural entre dois rios, braço de rio que liga dois caudais, ou entre um rio e um lago), os pescadores e os tripulantes de embarcações, que por aí passam, costumam jogar na água uma peça de roupa qualquer. Segundo dizem, é para abrandar a cólera de uma iara, a rainha das águas, e da velha pobre, que lá habitam. Num encontro entre as lendas da iara e do boto, diz-se que ela pode transformar uma pessoa nesse animal após a morte, se ela foi, em vida, "abençoada" pelo boto: quando uma pessoa vai à margem do rio, ao sol da manhã ou da tarde, deixando a sombra refletir num perau (declive no leito de um rio), se um boto-vermelho, nessa ocasião, passar-lhe sob a sombra, isto é, cortá-la, ficará "botada"; mas para que a pessoa botada fique encantada, é preciso que, depois de morta, seja o seu corpo posto à mercê das águas, e que seja posto por qualquer parente ou amigo, pois Iara há de transformá-lo em boto-vermelho.
Falsa lenda
Uma suposta versão da lenda da Iara que tenta atribuir-lhe uma origem indígena aparece frequentemente em mecanismos de busca e nas redes sociais. Nessa história, Iara é uma guerreira bela e corajosa cujas habilidades excepcionais despertaram a inveja de seus irmãos, levando-os a armar uma emboscada contra ela. Iara sobreviveu ao ataque, mas matou os irmãos ao se defender. Seu pai, desolado, condenou-a à morte, e seu corpo foi lançado ao rio Solimões. Compadecidos da jovem, os peixes pediram à Lua que zelasse por ela; assim, ela renasceu como Iara, a sereia brasileira. Apesar de sua mensagem inspiradora e de empoderamento, a origem dessa história não consta em nenhum registro histórico — nem nos escritos dos primeiros cronistas, nem nas interpretações de antropólogos, folcloristas e pesquisadores contemporâneos ou mesmo em contos literários de escritores reconhecidos. Seu registro mais antigo conhecido é uma postagem em um blog do início dos anos 2000, o que mostra que a narrativa é uma invenção puramente ficcional, e não parte do folclore de qualquer cultura específica.
Literatura
Diversos escritores notáveis da literatura brasileira já escreveram sobre a Iara. O poeta maranhense Gonçalves Dias, em seu poema "A Mãe d'Água" (1851), apresentou a personagem-título como uma sereia (ele não a chama de “Iara” aqui), descrevendo-a como uma fada de cabelos loiros tocadora de harpa como as sirenas da mitologia grega e dona de um palácio de cristal no fundo da água como as nereidas também da Grécia. Uma descrição clássica da sereia "indígena", mais europeia impossível e digna de um conto de fadas, está em O Tronco do Ipê (1871) do escritor cearense José de Alencar, que dedica todo o capítulo VIII da primeira parte do romance à Mãe-d'Água. O trecho conta a história de uma princesa das águas, filha da Mãe-d'Água, que se casa com um rei humano e divide sua vida entre o reino terrestre e o palácio submerso da mãe. Quando a fada é transformada em uma flor pelo rei das fadas, a princesa parte em sua busca e, ao retornar, descobre que o marido, enganado por calúnias, casou-se novamente e permitiu que seu filho fosse maltratado. Revoltada com a traição e a injustiça, ela leva o príncipe para o fundo do mar e faz as águas destruírem o reino. Desde então, passa a emergir ocasionalmente para afogar pessoas e levar crianças consigo, explicando, segundo a tradição popular, a origem do temor em relação à Mãe-d'Água.
Artes visuais
Conhecidas também como "As Banhistas", as esculturas de bronze "As Iaras" (1958) foram criadas pelo artista plástico mineiro Alfredo Ceschiatti, que também esculpiu a estátua "A Justiça" em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal (STF). Instaladas no espelho d'água do Palácio da Alvorada, em Brasília, as figuras femininas transmitem uma sensação de leveza e movimento, dialogando perfeitamente com a arquitetura de Oscar Niemeyer.
Audiovisual
Na adaptação para os cinemas de 1969 do livro Macunaíma de Mário de Andrade, a Uiara foi interpretada pela atriz Maria Lúcia Dahl. Ela aparece no final do filme, onde seduz o anti-herói, arrastando-o para o fundo do rio e devorando-o. A série de TV Cidade Invisível (2021) da Netflix apresentou a atriz Jessica Córes no papel da sereia Camila, uma meia-entidade com os poderes da Iara.
Ciência brasileira
Em 2024, pesquisadores descobriram uma nova espécie de vírus marinho no litoral brasileiro, pertencente à uma nova ordem taxônomica que foi nomeada em homenagem à Iara, chamada "Iaravirales", da classe Caudoviricetes.


