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Joana Grey

Joana Grey, conhecida após seu casamento em 25 de maio de 1553 como Joana Dudley, foi uma rainha não coroada da Inglaterra e Irlanda, reinando de 10 a 19 de julho de 1553. Na tradição popular, ficou conhecida como a "Rainha dos Nove Dias". Bisneta do rei Henrique VII, filha do duque de Suffolk, foi criada em um ambiente protestante e recebeu uma educação excepcional para sua época.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 25/10/2026
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Parentesco e crise sucessória

Imagem: pfig · BY-SA · Openverse

A dinastia dos Tudor, que governou a Inglaterra de 1485 a 1603, era pouco numerosa. Filhos homens eram particularmente raros na linhagem. Dos três filhos legítimos do fundador da dinastia, Henrique VII (1457–1509), o primogênito, Artur, Príncipe de Gales (1486–1502), morreu aos quinze anos, e o caçula, Edmundo (1499–1500), faleceu ainda na primeira infância. A coroa foi herdada pelo único filho sobrevivente, Henrique VIII (1491–1547). Sua irmã mais velha, Margarida (1489–1541), tornou-se rainha da Escócia, enquanto sua irmã mais nova, Maria (1496–1533), foi rainha da França, ainda que por breve período: seu primeiro marido, Luís XII, faleceu três meses após o casamento. Na geração seguinte, a história se repetiu. Dos filhos de Henrique VIII, apenas sobreviveram o herdeiro Eduardo VI (1537–1553) e suas duas irmãs, Maria (1516–1558) e Isabel (1533–1603). Dos descendentes de Margarida, sobreviveram apenas o filho Jaime (1512–1542) e a filha do segundo casamento, Margarida Douglas (1515–1578). Os poucos descendentes desse ramo escocês dos Tudor saíram da disputa pela coroa inglesa antes do início do século XVII. Dos filhos de Maria (filha de Henrique VII), que retornou à Inglaterra e casou-se em segundas núpcias com Carlos Brandon, apenas duas filhas chegaram à idade adulta: Leonor (1519–1547) e Francisca (1517–1559), mãe de Joana Grey. A ausência de herdeiros do sexo masculino na linhagem causou uma crise dinástica em 1553, que culminou na morte de Joana.

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Nascimento

A data e o local de nascimento de Joana são desconhecidos. De acordo com a tradição, ela teria nascido na propriedade de caça de seu pai, Casa Bradgate (em inglês: Bradgate House), perto de Leicester, em outubro de 1537, no mesmo mês que o futuro rei Eduardo VI, falecendo aos dezessete anos Segundo Eric Ives e Leanda de Lisle, é mais provável que Joana tenha nascido na primavera de 1537, na Casa Dorset em Londres. De acordo com Stephen Edwards, Joana pode ter nascido ainda mais cedo, no segundo semestre de 1536. A chamada "Torre de Joana Grey" (em inglês: Lady Jane’s Tower) preservada em Bradgate não possui qualquer ligação com a Joana histórica: a casa principal onde Joana cresceu foi completamente reconstruída e posteriormente destruída por um incêndio ainda no século XVIII. Tampouco há registros sobre a infância precoce de Joana, exceto o fato de que, a partir de 1545, sua educação passou a ser supervisionada pelo bispo John Aylmer, graduado em Cambridge e protegido de Henrique Grey. A vida privada da jovem família, então em situação de relativo ostracismo, não despertava interesse entre os contemporâneos. O rei continuava a considerar Francisca e sua irmã como suas "sobrinhas favoritas", mas impedia Henrique Grey de ocupar cargos públicos. Os direitos de Francisca e de seus descendentes não são mencionados em nenhuma das três leis de sucessão promulgadas por Henrique VIII. Somente em 1546 ele voltou a incluir os descendentes de Francisca na linha de sucessão e conferiu a Grey seu primeiro encargo significativo, o comando da infantaria durante o cerco a Bolonha. A verdadeira carreira de Henrique Grey só teve início durante o reinado de Eduardo VI, sob o patrocínio de Tomás Seymour, tio do novo rei, irmão mais novo e rival político do regente Eduardo Seymour.

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Educação

Após alguns dias da morte de Henrique VIII, Tomás Seymour sugeriu a Grey entregar sua filha para ser educada em sua própria casa. A educação de crianças em famílias de igual ou maior posição social (em inglês: wardship) era prática comum na época: a criança adquiria conexões e experiência no convívio social, os tutores tinham a oportunidade de organizar seus próprios planos matrimoniais, e, em caso de falecimento dos pais, ficavam com uma parte da herança; os pais, por sua vez, exigiam pagamento dos tutores em troca dessa parte. A proposta de enviar a filha para a casa de um solteiro era algo inusitado: em janeiro de 1547, Seymour, ainda solteiro, cortejava a viúva rainha Catarina Parr. Grey recusou firmemente, e então Seymour (de acordo com os depoimentos de Henrique Grey durante o inquérito) revelou seu plano de casar Joana Grey com Eduardo VI e prometeu a Grey um crédito de duas mil libras. Após uma semana de reflexão, Grey cedeu, e Joana passou um ano e meio na casa de Seymour e Parr. O escândalo envolvendo a corte de Seymour por outra de suas pupilas, a jovem Isabel, de quatorze anos, não afetou as relações de Grey com Seymour. Henrique Grey só tentou recuperar sua filha em setembro de 1548, após a morte de Catarina Parr, mas Seymour conseguiu manter Joana consigo: o controle sobre ela era um ativo político de grande valor. Joana, conforme as cartas preservadas, preferia a liberdade da casa de Seymour às rígidas regras da casa de seu pai.

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Aparência

O aspecto físico de Joana é de fato desconhecido. Os autores tradicionais de descrições verbais, incluindo diplomatas estrangeiros e mercadores, não se interessaram por ela antes da crise de 1553. Como rainha, ela foi mostrada ao público apenas uma vez, na entrada para a Torre em 10 de julho de 1553. O único testemunho preservado sobre a aparência de Joana nesse dia, supostamente registrado pelo mercador genovês Baptista Spinola: "Ela é muito baixa e magra, mas bem formada e se mantém com dignidade. Tem traços pequenos, um nariz bonito, a boca flexível e os lábios vermelhos. As sobrancelhas são arqueadas e muito mais escuras que seus cabelos quase ruivos. Seus olhos brilham, de cor castanho-avermelhada. Quando fiquei próximo de sua graça, notei que sua pele, embora boa, estava coberta de sardas. Quando sorria, apareciam seus dentes afiados e brancos". No entanto, verificou-se que este testemunho é uma falsificação do início do século XX. Não foram encontrados quaisquer registros de retratos contemporâneos de Joana. O primeiro registro desse tipo data dos anos 1560: um retrato de uma tal "Lady Joana Grey" estava na posse de Isabel de Hardwick (1527–1608), parente distante e boa amiga da família Grey. No final da vida, Hardwick transferiu o retrato para sua neta, Arabella Stuart; em 1601, ele desapareceu definitivamente dos inventários da família. Tentativas de localizar o perdido "retratro de Chatsworth" entre as inúmeras imagens anônimas do século XVII não tiveram sucesso. Algumas dessas pinturas foram identificadas como retratos de Catarina Parr e Maria Neville, Baronesa Dacre, enquanto outras continuam sendo "retratos de desconhecidos". Historiadores do início do século XXI acreditam que nenhum deles pode ser confiavelmente atribuído como "retratro de Joana Grey"; as opiniões sobre qual imagem "poderia ser" o retrato dela variam.

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Casamento

Em fevereiro de 1553, o rei Eduardo adoeceu gravemente, doença que se revelou fatal. Em abril, quando a possibilidade de recuperação ainda não era posta em dúvida, Henrique Grey e o regente João Dudley, por intermédio de Isabel Parr, Marquesa de Northampton, firmaram um acordo de noivado entre Joana Grey e o filho mais novo do regente, Guilford Dudley. A primeira evidência do noivado já consumado data de 24 de abril: nesse dia, os servos de Dudley entregaram presentes de casamento às casas da noiva e da casamenteira. Na mesma ocasião, Henrique Grey organizou o noivado de sua filha do meio com o filho mais velho do Conde de Pembroke. A cerimônia dupla, realizada no Domingo de Pentecostes (Festa do Divino Espírito Santo), em 21 de maio, surpreendeu os embaixadores franceses e italianos pela opulência sem precedentes e pela ostensiva ausência dos enviados imperiais entre os convidados. Segundo historiadores do século XIX e das três primeiras quartas partes do século XX, o casamento de Joana Grey com Guilford Dudley fazia parte do plano de João Dudley para a tomada do poder no país. O regente, apavorado com a possibilidade da católica Maria ascender ao trono, promoveu o casamento do filho com a protestante Joana Grey e convenceu o rei gravemente enfermo a deserdar Maria e Isabel, nomeando Joana como herdeira. Dudley usou persuasão e ameaças para forçar o Conselho Privado e os magistrados a aprovarem a alteração na linha sucessória, embora não tenha ousado torná-la pública. No final do século XX, estudiosos revisaram substancialmente essa visão. Pesquisas de Wilbur Kitchener Jordan, David Loades, Linda Porter, Leanda de Lisle, Jerri Macintosh e outros autores indicam que Eduardo, entre 1552 e 1553, não era uma marionete nas mãos de Dudley, mas um governante autônomo. Foi o próprio rei quem propôs nomear herdeiros — em detrimento de Maria e Isabel — os ainda não nascidos filhos de Joana Grey. Nessa interpretação, o casamento de Grey e Guilford, realizado antes de o estado de Eduardo se tornar desesperador, não fazia parte de um plano premeditado, mas constituía uma circunstância "favorável" acidental. As primeiras iniciativas para modificar a sucessão foram tomadas por Eduardo e Dudley apenas na primeira década de junho. É provável que, por iniciativa de Dudley, o rei substituísse a expressão "descendentes de Joana Grey" da primeira versão pela formulação "Joana Grey e seus descendentes". Em 11 de junho, já moribundo, Eduardo convocou os juízes para discutir o projeto de testamento; onze dias depois, após Dudley convencer aristocratas, bispos e juízes mediante ameaças e persuasão, o testamento de Eduardo adquiriu força de lei.

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Rainha dos Nove Dias

O rei Eduardo VI faleceu por volta das nove horas da noite de 6 de julho de 1553. Roberto Dudley, enviado por seu pai para prender Maria, chegou atrasado: a princesa perseguida havia fugido antecipadamente de sua residência campestre e já cavalgava rumo às suas propriedades em Norfolk. No dia 8 de julho, Maria, estando fora do alcance da família Dudley, deu início ao plano previamente arquitetado para um levante armado. Já em Londres, o interregno persistia: antes de proclamar Joana como rainha, era necessário convencê-la a aceitar a coroa. De uma carta de Joana a Maria, escrita enquanto Joana estava presa na Torre e preservada em traduções italianas, sabe-se que em 9 de julho Maria Sidney, filha de João Dudley, levou até Chelsea uma ordem do Conselho Privado para que Joana fosse imediatamente à Casa Sion — o palácio suburbano de Eduardo Seymour — a fim de "receber aquilo que havia sido designado pelo rei". Quando o barco transportando as mulheres chegou pelo rio Tâmisa ao destino, o palácio ainda em construção estava vazio. Somente algum tempo depois apareceram João Dudley e os altos dignitários Francisco Hastings, Guilherme Herbert, Guilherme Parr e Henrique Fitzalan João Dudley informou Joana de que o rei havia morrido e que, por vontade dele, Joana deveria aceitar a coroa. Após sua recusa inicial, Dudley envolveu na negociação Francisca Grey, Joana Dudley e Ana Parr; depois de outra recusa, Henrique Grey e Guilford Dudley também foram chamados. Por fim, sob pressão dos pais e do marido, Joana concordou.

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Prisão e execução

Nas primeiras semanas do governo, a ira de Maria foi dirigida exclusivamente contra a família Dudley e só em segundo lugar contra Joana e os funcionários de Londres, não tanto pela tentativa de usurpação do poder, mas pelas proclamações insultuosas sobre sua "ilegitimidade".[nota 3] Ela não tinha intenção de perseguir os Grey: Henrique Grey, conduzido à Torre em 27 de julho, três dias depois comprou seu perdão por vinte mil libras, e em novembro Maria perdoou até essa dívida. Maria estava disposta a perdoar Joana também, mas em cena entraram os embaixadores de Carlos V, João Scheyve e Simão Renard, que exigiam sangue. Sob sua influência, a rainha manteve Joana sob custódia e em 12 de agosto assinou o ato acusando-a de traição ao Estado, o que no século XVI significava sentença de morte inevitável. Contudo, Maria não pretendia executar a sentença e buscava ativamente maneiras de libertar Joana que agradassem tanto os embaixadores imperiais quanto a sociedade inglesa, onde predominava a opinião da inocência de Joana e da misericórdia de Maria. De fato, dos envolvidos na crise de 1553, foram executados apenas João Dudley, João Gates e Tomás Palmer; a maioria dos seus apoiadores, para desgosto de Renard, recebeu apenas sanções financeiras (em inglês: composition). No final de agosto, restava na Torre apenas um punhado de prisioneiros.

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Representações na cultura

Literatura

A execução fez de Joana a primeira mártir protestante da Inglaterra. e gerou uma onda de literatura hagiográfica, bastante distante da realidade histórica. As primeiras edições das cartas de Joana, secretamente impressas na Inglaterra, surgiram logo após a execução; depois, à medida que as repressões aumentaram, a edição mudou-se para o continente, e após a morte de Maria, voltou para a terra natal. Quase todas as cartas de Joana chegaram até nós apenas em reimpressões do século XVI, às vezes em tradução reversa do italiano. Uma rara exceção são os originais de suas cartas para Henrique Bullinger, que estão guardadas na Biblioteca Central de Zurique.

Arte

A difusão de retratos "artísticos", tanto pintados quanto gravados, de Joana Grey, tanto na Inglaterra quanto na Europa continental, data do início do século XVII. Na primeira metade do século XVIII, graças aos editores e ilustradores de peças teatrais populares e da crônica de Foxe, os retratos estáticos foram sendo gradualmente substituídos por cenas de gênero da vida de Joana. Por volta de 1760, com a ascensão do classicismo inglês, essas imagens deram lugar ao "grande gênero" da pintura histórica moralizante, mas somente nas décadas de 1820 o imaginário em torno de Joana tornou-se verdadeiramente popular. Em cinquenta anos (1827–1877), apenas na Academia Real de Artes de Londres foram exibidas 24 novas telas sobre a tragédia de Joana.

Cinema

Joana, como personagem secundária, aparece em diversas séries ambientadas no período Tudor e adaptações de O Príncipe e o Mendigo (em inglês: The Prince and the Pauper) de Mark Twain; como protagonista de um longa-metragem, contudo, ela só teve esse papel em três ocasiões ao longo da história do cinema. Todos os três filmes foram produzidos e lançados no Reino Unido. Em 1923, foi lançado o filme mudo de 39 minutos Lady Joana Grey, ou A Corte da Intriga (em inglês: Lady Jane Grey/The Court of Intrigue), pertencente a uma série de baixo orçamento sobre "as grandes mulheres do mundo". O diretor Edwin Greenwood confiou o papel de Joana à atriz de 21 anos Nina Vanna (de origem iugoslava. Nesta obra, Joana é retratada tanto como vítima inocente quanto como uma pregadora protestante; João Dudley é representado como um vilão absoluto, e Maria como uma mulher hesitante, mas não mal-intencionada. O filme foi filmado em interiores "históricos", com tons sombrios e uma montagem peculiar e enérgica.

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Fontes consultadas

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