Carlos Chagas
Carlos Ribeiro Justiniano Chagas foi um cientista, médico sanitarista, professor, infectologista e bacteriologista brasileiro. Atuante na saúde pública do Brasil, iniciou sua carreira no combate à malária. Destacou-se ao descobrir o protozoário Trypanosoma cruzi e a tripanossomíase americana, conhecida como doença de Chagas. Ele foi o primeiro e até os dias atuais permanece como o único cientista na história da medicina a descrever completamente uma doença infecciosa: o patógeno, o vetor (Triatominae), os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia.
Carlos Ribeiro Justiniano Chagas nasceu em Oliveira, Minas Gerais, no dia 9 de julho de 1878, filho de José Justiniano Chagas e Mariana Candida Ribeiro de Castro Chagas. O lugar de seu nascimento foi a Fazenda Bom Retiro, a 20 km da cidade, onde seus antepassados, de ascendência portuguesa, se estabeleceram. Seu pai, cafeicultor, morreu quando Chagas tinha quatro anos de idade, ficando a cargo de sua mãe a administração do cultivo do café e da criação dele e de seus outros quatro irmãos: Maria Rita, José (que morreu com três anos de idade), Marieta e Serafim. Eles foram morar em outra propriedade da família, a Fazenda Bela Vista, próxima a Juiz de Fora, também no estado de Minas Gerais. Em Oliveira teve convivência direta com três tios maternos: Cícero, Olegário e Carlos. Os dois primeiros eram advogados formados em São Paulo e incentivaram o sobrinho a se dedicar aos estudos. Porém, o último era formado em Medicina e proprietário de uma casa de saúde em Oliveira. As ações desse tio o influenciaram a seguir a carreira médica.
Durante o tempo de recuperação em sua cidade natal, seu tio Carlos fortaleceu a vontade de Chagas em ser médico e o ajudou a vencer a barreira de sua mãe, que acabou aceitando a opção do filho. Seguiu, então, para São Paulo com o intuito de obter os diplomas básicos exigidos para a matrícula no curso médico. Conseguindo tais documentos, em fevereiro de 1897 seguiu para o Rio de Janeiro a fim de cursar medicina. Aos 18 anos, em abril de 1897, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro). Tal faculdade estava passando por um processo de renovação, além de viver um clima de "revolução pasteuriana" em seu conteúdo programático. Ao longo do curso dois professores exerceram grande influência em sua carreira. Miguel Couto, que apresentou a Chagas as noções e as práticas da clínica moderna e com quem passaria a ter uma estreita amizade, e Francisco Fajardo, que o colocou em contato com temas ligados àsdoenças tropicais, especialmente a malária, e que seria de grande importância para sua futura carreira. Esses dois professores apresentaram os dois caminhos que se abriram para Chagas no decorrer de seu curso médico: a clínica e a pesquisa científica.
Chagas acreditava que a ciência médica era sustentada por dois pilares: o primeiro defendia uma estreita articulação entre o ensino e a pesquisa. O segundo defendia a introdução nos cursos de Medicina do estudo específico de doenças tropicais e o combate dos problemas de saúde pública brasileira, como malária, ancilostomose e tripanossomíase americana. Com isso, o país teria profissionais qualificados para tratar dos problemas sanitários. Em 1925 Chagas foi nomeado primeiro professor catedrático de medicina tropical da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro. Um ano depois, no âmbito dessa faculdade, criou o Curso Especial de Higiene e Saúde Pública, que garantia vagas nos cargos da administração sanitária federal aos aprovados.
Combate à malária
Por causa de sua tese de doutoramento sobre malária, em 1905 foi recrutado por Cruz para a missão de controlar a doença em Itatinga, interior de São Paulo, que atacava a maioria dos trabalhadores da Companhia Docas de Santos, que construía uma represa na região, causando a paralisação das obras. Realizou a primeira ação bem-sucedida contra a malária no Brasil, colocando em prática procedimentos que mais tarde se tornariam corriqueiros em outras campanhas. Segundo ele, para se impedir a propagação da doença em regiões em que não havia ações sistemáticas de saneamento, era necessário concentrar as medidas preventivas nos locais onde viviam os homens e os mosquitos infectados com o parasita da malária. Seguindo tal orientação, em cinco meses Chagas conseguiu debelar o surto da doença.
Doença de Chagas
Em junho de 1907 Chagas foi enviado pelo instituto à cidade de Lassance, Minas Gerais, perto do Rio São Francisco, para combater uma epidemia de malária entre os trabalhadores de uma nova linha da Estrada de Ferro Central do Brasil. Instalou-se durante dois anos em um vagão de trem, onde montou um pequeno laboratório e um consultório para atendimento dos doentes. Diversos métodos de inseticidas foram utilizados na época, como enxofre ou piretro, que décadas mais tarde popularizou-se com o advento do DDT. Nesse tempo, capturou, classificou e estudou os hábitos dos anofelinos, mosquitos transmissores da doença, e examinou o sangue de animais em busca de parasitas. Chagas identificou no sangue de um sagui uma nova espécie de protozoário, ao qual deu o nome de Trypanosoma minasense. Um engenheiro da ferrovia alertou-o para a infestação de um inseto hematófago nas residências rurais, da espécie Triatoma infestans, conhecido como barbeiro, assim chamado porque suga o sangue das pessoas durante a noite, atacando o rosto delas. Chagas levou alguns deles ao seu laboratório e percebeu que nos seus intestinos havia tripanossomas que poderiam ser da espécie Trypanosoma minasense, já numa fase evoluída.
Expedição à Amazônia
Na década de 1910 o Instituto Oswaldo Cruz promoveu viagens científicas ao interior do país com o objetivo de investigar os problemas médicos que lá ocorriam. Em 1912, com a crise do extrativismo da borracha na Amazônia, o governo federal firma parceria com a instituição para verificar as condições de salubridade do vale do Rio Amazonas e elaborar um plano de exploração racional dos recursos naturais. Assim, em agosto daquele ano Chagas liderou um grupo que incluía mais dois cientistas e um fotógrafo. Visitaram a população ribeirinha dos rios Solimões, Negro e Purus e analisaram as condições de moradia, abastecimento de água, esgoto, alimentação e assistência médica. Também realizaram observações clínicas sobre as epidemias que assolavam a região, em especial a malária. Também foram recolhidas amostras de plantas de cunho medicinal, insetos causadores de doenças e peixes, que foram analisados em busca de novos parasitas.
Gripe espanhola
A gripe espanhola chegou ao Brasil em 1918 e atacou no Rio de Janeiro dois terços da população (por volta de seiscentos mil habitantes). Ela fez mais de dez mil vítimas devido à falta de assistência médica e às precárias condições de higiene e saneamento encontradas na cidade. Tal quadro fez com que o presidente da República Venceslau Brás convidasse Carlos Chagas para assumir o controle da situação. Chagas criou um serviço especial de postos de atendimento à população em diferentes pontos da cidade. Ao mesmo tempo que providenciou tal tarefa, criou hospitais emergenciais, publicou cartazes e panfletos de alerta para os habitantes e buscou apoio de profissionais da sua área, quando conseguiu ajuda da maioria dos clínicos cariocas e de vários membros da Academia Nacional de Medicina.
Direção do Instituto Oswaldo Cruz
Em 14 de fevereiro de 1917, três dias após a morte de Oswaldo Cruz, Chagas foi nomeado para a direção do Instituto Oswaldo Cruz através de um decreto presidencial. Ao assumir o cargo, buscou consolidar o modelo estabelecido por Cruz semelhante ao praticado no Instituto Pasteur, onde a autonomia administrativa e financeira eram as características principais. Além disso, estreitou a relação entre a pesquisa, o ensino e a fabricação de produtos medicinais e veterinários. No campo da pesquisa sua administração ficou marcada pela investigação das principais epidemias que assolavam a zona rural brasileira em sua época. Com o objetivo de controlá-las, inaugurou em 1918 o Hospital Oswaldo Cruz nas dependências do instituto para ser um centro de estudos para seus cientistas. Mais tarde, em 1942, o hospital passaria a ser chamado de Hospital Evandro Chagas.
Direção do Departamento Nacional de Saúde Pública
Ao tomar posse em 1919 o presidente Epitácio Pessoa nomeou Carlos Chagas para a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP) com o objetivo de reorganizar a saúde pública nacional. Ele acumulou essa função com aquela praticada no Instituto Oswaldo Cruz. No ano seguinte tal instituição se chamaria Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), ligado ao Ministério da Justiça e Negócios Exteriores. Sua primeira atitude, exposta na Biblioteca Nacional em fevereiro de 1921, foi a descentralização das atividades, no qual estados e municípios brasileiros tinham maior liberdade de organizar seus sistemas sanitários. Acordos com os mesmos foram essenciais para a segunda ação - a interiorização em busca da erradicação das doenças rurais, principalmente malária, ancilostomose e tripanossomíase americana. Em paralelo a esse projeto, criou medidas referentes à higiene pública. Com apoio da Fundação Rockefeller, Chagas criou o Serviço de Enfermeiras e com o desdobramento desse serviço fundou, em 1923, a Escola de Enfermagem Anna Nery, introduzindo o ensino profissionalizante de Enfermagem no Brasil. Os alunos foram instruídos também no Hospital São Francisco de Assis, fundado também por Chagas para tal finalidade.
Carlos Chagas morreu aos 56 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro. A causa de sua morte foi um infarto do miocárdio. Ele foi sepultado no Cemitério São João Batista.
Idealizador do Centro Internacional de Leprologia, Carlos Chagas recebeu diversas homenagens. Uma herma na Praia de Botafogo foi construída em sua memória, de autoria do escultor Modestino Kanto. Um município do estado de Minas Gerais recebeu seu nome, além de cédulas de 10.000 Cruzados terem circulado com sua imagem durante a década de 1980. A Casa da Cultura de sua cidade natal, Oliveira, Minas Gerais, leva seu nome, sendo Carlos Chagas o mais reconhecido de seus cidadãos ilustres. Quanto aos prêmios recebidos, em 1912 chegou o primeiro, o prêmio Schaudinn do Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, Alemanha. Em 1921 foi nomeado artium magistrum honoris causa da Universidade Harvard. Em 1923 ganhou o prêmio hors-concours na Conferência Comemorativa sobre o Centenário de Louis Pasteur, em Estrasburgo, França, e em 1925 o prêmio Kümmel da Universidade de Hamburgo, Alemanha. Ainda recebeu em 1926, 1929 e 1934 outros títulos honoris causa vindos das universidades de Paris, Lima e Livre de Bruxelas, respectivamente.
Controvérsia sobre o Prêmio Nobel
A descoberta de Carlos Chagas foi reconhecida no país e no exterior como uma das mais importantes conquistas da parasitologia. Chagas foi duas vezes indicado ao Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina (em 1913 e 1921), cada vez por apenas um único indicador brasileiro, mas nunca recebeu o prêmio. Em 1913, 63 cientistas foram indicados para o prêmio, os dois primeiros receberam nove e oito indicações, respectivamente. Em 1921, 42 cientistas foram indicados para o prêmio, os quatro primeiros receberam 11, nove, sete e sete indicações, respectivamente. Cem anos após a descoberta da doença ainda persistem especulações sobre as duas indicações oficiais de Carlos Chagas ao Prêmio Nobel. O motivo pelo qual o prêmio não foi concedido pode ter sido a forte oposição que ele enfrentou no Brasil de alguns médicos e cientistas da época. Chegaram a questionar a existência da doença de Chagas, o que possivelmente influenciou a decisão do Comitê do Nobel de não lhe conceder o prêmio. A análise da base de dados dos arquivos do Prêmio Nobel, com a revelação dos nomes dos indicados e vencedores dos anos 1901-1951, trouxe informações não apenas sobre o que era considerado uma conquista científica na época, mas também sobre quem eram os cientistas importantes e quais eram as relações entre eles. As conexões dos membros do Comitê do Nobel com a comunidade científica internacional, quase exclusivamente centrada em cientistas europeus e estadunidenses, também influenciaram suas escolhas. O não reconhecimento das descobertas de Carlos Chagas pelo Comitê do Nobel parece ser mais corretamente explicado por esses fatores do que pelo impacto negativo da oposição no Brasil.


