Carlos II de Inglaterra
Carlos II foi o Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda de 1660 até sua morte. Seu pai Carlos I foi executado no Palácio de Whitehall em 31 de janeiro de 1649, no auge da Guerra Civil Inglesa. O parlamento escocês o proclamou rei, porém Oliver Cromwell o derrotou na Batalha de Worcester, em 3 de setembro de 1651 e Carlos fugiu para a Europa continental. Cromwell se transformou no governante da Inglaterra, Escócia e Irlanda; Carlos passou nove anos em exílio na França, Províncias Unidas e nos Países Baixos Espanhóis.
Carlos nasceu em 29 de maio de 1630 no Palácio de St. James, Londres. Seus pais eram o rei Carlos I e a rainha Henriqueta Maria, irmã do rei Luís XIII de França. Carlos era o segundo filho do casal. O primeiro nasceu um ano antes, porém morreu com menos de um dia. Os reinos da Inglaterra, Escócia e Irlanda de seu pai eram predominantementes anglicano, presbiteriano e católico, respectivamente. Carlos foi batizado na Capela Real do palácio em 27 de junho por Guilherme Laud, Bispo de Londres, e levado aos cuidados da protestante Maria Curzon, Condessa de Dorset, apesar de seus padrinhos incluírem católicos como sua avó Maria de Médici. Ao nascer, ele automaticamente tornou-se o Duque da Cornualha e o Duque de Rothesay, além de vários outros títulos associados. Ele foi designado Príncipe de Gales por volta de seu aniversário de oito anos, apesar de nunca ter sido formalmente investido como tal.
As chances de Carlos de reconquistar o trono permaneceram pequenas quando Cromwell morreu em 1658 e foi sucedido por seu filho Richard Cromwell. Entretanto, o novo Lorde Protetor não tinha uma base de poder no parlamento e no Exército Novo. Ele foi forçado a renunciar no ano seguinte e o Protetorado foi abolido. Seguiram-se tumultos militares e civis, com George Monck, Governador da Escócia, temendo que a nação fosse parar na anarquia. Monck e seu exército marcharam para a Cidade de Londres e forçou o parlamento a readmitir membros do Parlamento Longo de Carlos I, excluídos em 1648 durante o Purgo de Pride. O parlamento se auto-dissolveu pela primeira vez e houve uma nova eleição geral depois de quase vinte anos. O parlamento em retirada definiu as qualificações eleitorais para garantir a volta de uma maioria presbiteriana. As restrições contra os candidatos e votantes realistas foram amplamente ignoradas e as eleições resultaram em uma Câmara dos Comuns bastante dividida politicamente entre realistas e parlamentaristas, e religiosamente entre anglicanos e presbiterianos. Um novo Parlamento de Convenção se reuniu em 25 de abril de 1660 e logo depois recebeu notícias da Declaração de Breda, em que Carlos concordava em perdoar muitos dos antigos inimigos de seu pai, entre outras coisas. O parlamento inglês resolveu proclamar Carlos como rei e convidá-lo a voltar, numa mensagem que chegou em 8 de maio. Na Irlanda, uma convenção havia se reunido mais cedo naquele ano e acabou declarando-o como rei em 14 de maio.
Código Clarendon
O Parlamento de Convenção foi dissolvido em dezembro de 1660 e um segundo parlamento se reuniu pouco depois da coroação em abril de 1661. Chamado de Parlamento Cavalier, era esmagadoramente realista e anglicano. Procurou desencorajar a não-conformidade na Igreja Anglicana e aprovou vários decretos para garantir uma dominação anglicana. O Decreto de Corporação de 1661 requeria que funcionários públicos municipais prestassem um juramento de lealdade; o Decreto de Uniformidade de 1662 fez obrigatório o uso do Livro de Oração Comum; o Decreto Conventículo de 1664 proibiu reuniões religiosas com mais de cinco pessoas, exceto quando sob os auspícios da Igreja Anglicana; e o Decreto das Cinco Milhas de 1665 proibiu que clérigos não-conformistas expulsos se aproximassem menos que cinco milhas (8 km) das paróquias que haviam sido banidos. Os decretos do Conventículo e das Cinco Milhas permaneceram em vigor durante todo o reinado de Carlos. Os decretos ficaram conhecidos como "Código Clarendon" por Eduardo Hyde, 1.º Conde de Clarendon, mesmo ele não tendo sido diretamente responsável e até mesmo ter discursado contra o Decreto das Cinco Milhas.
Peste e Grande Incêndio
Carlos enfrentou em 1665 uma grande crise sanitária: a Grande Praga de Londres. As mortes chegaram a sete mil na semana de 17 de setembro. O rei, sua família e a corte deixaram Londres em julho e foram para Salisbury, com o parlamento se reunindo em Oxford. Piorando a situação, mas por sua vez encerrando a peste, foi aquilo que posteriormente ficou conhecido como o Grande Incêndio de Londres, que começou em 2 de setembro de 1666. O fogo consumiu aproximadamente 13 200 casas e 87 igrejas, incluindo a Catedral de São Paulo. Carlos e seu irmão Jaime, Duque de Iorque e Albany, participaram e comandaram os esforços para combater o fogo. O público culpou conspiradores católicos pelo incêndio, apesar dele ter se iniciado em uma padaria na Pudding Lane.
Portugal lutava desde 1640 uma guerra contra a Espanha para restaurar sua independência depois de uma união dinástica entre as duas coroas ocorrida em 1580. Portugal recebia ajuda da França, porém acabou abandonado por seu aliado em 1659 após o Tratado dos Pireneus. As negociações de Portugal para o casamento de Carlos com Catarina de Bragança começaram durante o reinado de seu pai e, depois da Restauração, a rainha Luísa de Gusmão como regente reabriu as discussões que resultaram em uma aliança com a Inglaterra. Um tratado de casamento foi assinado em 23 de junho de 1661, com o dote de Catarina dando aos ingleses Tânger no norte da África e as sete ilhas de Bombaim na Ásia, privilégios comerciais no Brasil e nas Índias, liberdade religiosa e comercial em Portugal e dois milhões de coroas portuguesas; enquanto Portugal conseguiu apoio militar e naval contra a Espanha e liberdade religiosa para Catarina na Inglaterra. Ela viajou para Portsmouth entre os dias 13 e 14 de maio de 1662, porém foi visitada por Carlos apenas no dia 20. Os dois se casaram no dia seguinte em duas cerimônias – uma católica realizada em segredo e depois uma anglicana em público.
O Parlamento Cavalier, apesar de anteriormente favorável a Carlos, foi alienado pelas guerras e políticas religiosas do rei durante a década de 1670. Carlos emitiu em 1672 a Real Declaração de Indulgência, em que ele pretendia suspender todas as leis penais contra católicos e outros dissidentes religiosos. No mesmo ano, ele abertamente apoiou a França católica e iniciou a Terceira Guerra Anglo-Holandesa. O parlamento foi contra a Declaração de Indulgência por questões constitucionais ao afirmar que Carlos não tinha o direito de arbitrariamente suspender leis aprovadas pelo parlamento. O rei retirou a declaração e também concordou com o Ato de Prova, que inicialmente exigia que funcionários públicos recebessem a eucaristia sob as formas prescritas pela Igreja Anglicana, e depois também os forçava a denunciar certos ensinamentos da Igreja Católica como "supersticiosos e idolátricos". Clifford, que já havia se convertido ao catolicismo, renunciou ao invés de prestar o juramento e cometeu suicídio pouco tempo depois. Por volta de 1674, a Inglaterra não tinha ganho nada com a Terceira Guerra Anglo-Holandesa e o parlamento recusou-se a dar mais fundos, forçando Carlos a fazer a paz.
Carlos enfrentou uma tempestade política sobre a sucessão ao trono. A perspectiva de um monarca católico enfrentava veemente oposição em Antônio Ashley Cooper, agora 1.º Conde de Shaftesbury e antigo membro do Cabal que havia se desfeito em 1673. A base de poder de Cooper foi fortalecida em 1679 quando a Câmara dos Comuns apresentou o Projeto de Lei da Exclusão, que queria excluir Jaime, Duque de Iorque e Albany, da linha de sucessão. Alguns até queriam colocar a coroa em Jaime Scott, 1.º Duque de Monmouth e filho ilegítimo mais velho de Carlos. Os Abhorrers – que achavam que o Projeto de Lei da Exclusão era abominante – foram chamados de tories por causa de um termo para bandidos católicos irlandeses despojados, enquanto que os Petitioners – aqueles que apoiavam uma campanha de petição em favor da lei – foram chamados de whigs por causa de um termo para rebeldes presbiterianos escoceses.
Morte
Carlos sofreu uma apoplexia repentina na manhã do dia 2 de fevereiro de 1685, morrendo após quatro dias, às 11h45min de 6 de fevereiro de 1685, aos 54 anos, no Palácio de Whitehall. A subtaneidade de sua doença e morte levaram a suspeitas de envenenamento, incluindo por parte de um dos médicos reais; entretanto, uma análise mais moderna diz que os sintomas da doença eram similares as de uma uremia (uma síndrome clínica devido à disfunção renal). Carlos, em seu leito de morte, pediu para seu irmão Jaime cuidar de suas amantes: "seja bom com Portsmouth e não deixe a pobre Nelly passar fome". Ele também disse a seus cortesãos que "Me desculpem, cavalheiros, pelo tempo da morte". Ele foi recebido na Igreja Católica na última noite de sua vida, apesar de não ser claro o quanto ele estava consciente ou comprometido e ainda da onde a ideia se originou. Carlos foi enterrado na Abadia de Westminster "sem qualquer tipo de pompa" em 14 de fevereiro.
Carlos não teve nenhum filho legítimo com Catarina de Bragança, porém reconheceu vários ilegítimos com sete amantes, incluindo cinco com a notória Barbara Palmer, com quem o Ducado de Cleveland foi criado. Suas outras amantes incluem Moll Davis, Nell Gwyn, Isabel Killigrew, Catarina Pegge, Lúcia Walter, Mary Sackville e Luísa de Kéroualle, Duquesa de Portsmouth. Como resultado, ele tinha o apelido durante a vida de "Velho Rowley", o nome de um de seus cavalos que era notável por ser um garanhão. Seus súditos ressentiam pagar impostos que eram gastos com suas amantes e filhos, muitos dos quais receberam ducados e condados. Os atuais duques de Buccleuch, Richmond, Grafton e St Albans todos descendem de Carlos através da linhagem ilegítima. Diana, Princesa de Gales, é descendente do rei através de dois de seus filhos ilegítimos: Henrique FitzRoy e Carlos Lennox. Seu filho mais velho, Jaime Scott, 1.º Duque de Monmouth, liderou uma rebelião contra Jaime II & VII, porém acabou derrotado na Batalha de Sedgemoor em 6 de julho de 1685, sendo capturado e executado alguns dias depois. Jaime eventualmente foi deposto em 1688 por seu sobrinho e genro Guilherme III, Príncipe de Orange, durante a "Revolução Gloriosa". Ele foi o último monarca católico da Grã-Bretanha.
Títulos e estilos
Seu título completo como rei era: "Carlos Segundo, pela Graça de Deus, Rei da Inglaterra, Escócia, França e Irlanda, Defensor da Fé, etc." O título de "da França" era apenas nominal e foi usado por todos os monarcas britânicos desde Eduardo III até Jorge III.
Brasões
Como Príncipe de Gales, seu brasão de armas era o brasão real diferenciado por um lambel argente de três pés. Como rei, Carlos usava o mesmo brasão que seu pai: esquatrelado, I e IV esquatrelado, azure três flores-de-lis or (pela França) e goles três leões passant guardant em pala (pela Inglaterra); II or um leão rampant dentro de um treassure flory-contra-flory goles (pela Escócia); III azure, uma harpa or com cordas argente (pela Irlanda). Na Escócia, as armas escocesas eram colocadas nos quarteis I e IV enquanto as inglesas e francesas ficavam no II.


