Carl Philipp Emanuel Bach
Carl Philipp Emanuel Bach foi um músico, compositor e professor alemão.
Primeiros anos
Carl Philipp Emanuel Bach nasceu em Weimar em 8 de março de 1714, como o segundo dos filhos de Johann Sebastian Bach com sua primeira esposa, Maria Barbara Bach, que era sua prima. Embora seu pai seja universalmente conhecido como "Bach", neste artigo o nome "Bach" remeterá sempre a Carl Philipp Emanuel. Ao contrário da sua música, que vem sendo intensamente estudada, sua biografia está ainda cheia de lacunas. Escassa correspondência de caráter pessoal sobreviveu, outras fontes coevas quase só mencionam seu trabalho musical e a autobiografia que deixou é muito breve e imprecisa. Bach fazia parte de uma família que há gerações vinha dando músicos notáveis. Seu pai hoje é tido como um dos maiores gênios da música ocidental, vários de seus irmãos foram músicos talentosos, e teve como padrinho um famoso compositor, Georg Philipp Telemann. Sua mãe faleceu quando ele tinha seis anos, mas o pai casou novamente e sua madrasta, Anna Magdalena Wilcke, como toda a família Bach, tinha pendor musical. Bach cresceu, pois, em um ambiente saturado de música, revelando seu próprio talento muito cedo. Em 1720 o pai mudou-se para Leipzig, um dos maiores centros culturais da Alemanha, onde Bach foi matriculado na escola da Igreja de São Tomás, da qual o pai havia se tornado kantor.
Berlim
Ainda em 1738 mudou-se para Berlim, onde provavelmente logo entrou para o serviço de Frederico, príncipe herdeiro da Prússia, mas só foi oficialmente efetivado após sua subida ao trono em 1740 como Frederico II, mais tarde chamado O Grande, que rodeou-se de intelectuais e artistas e manteve uma corte brilhante, sendo ele mesmo um bom flautista e compositor de algum mérito. Para ele Bach dedicou em 1742 uma de suas primeiras composições importantes, um ciclo de seis sonatas para teclado. O rei deve tê-lo estimado muito, uma vez que lhe pagava um dos mais altos salários entre os músicos da corte. Frederico tornou Berlim uma das mais importantes capitais da Europa, e a nobreza e a burguesia acompanhavam o interesse da corte pela arte, criando condições para um grande florescimento cultural, onde a música ocupava um lugar de destaque.
Hamburgo
Estabelecendo-se em Hamburgo, ali sucedeu a seu padrinho Telemann como kantor do colégio latino Johanneum e diretor musical municipal, com responsabilidade pela música executada nas cinco principais igrejas e em cerimônias cívicas, sendo instalado oficialmente em 9 de abril. Não são muito claras as razões pelas quais abandonou sua posição bem remunerada e confortável na corte prussiana, mas o contexto já não era o mesmo que havia encontrado no início e ao que parece ele considerou que ali se haviam esgotado as possibilidades de crescer em sua carreira. Hamburgo, de fato, era um campo muito dinâmico musical e culturalmente. Era uma grande cidade e tinha uma elite intensamente dedicada ao mecenato artístico, constituindo um largo mercado para a música, sendo também um dos principais centros operísticos da Alemanha. Bach nunca se dedicou à ópera, mas eram organizados cerca de 200 concertos anuais nas cinco principais igrejas. Assumir o cargo municipal representou para Bach manter uma atividade intensa e incessante, mas o colocou em uma posição de grande prestígio e influência. Também organizava concertos em sociedades musicais laicas, onde tocava e regia. Desta forma, Bach veio a dominar grande parte da vida musical de uma cidade que era uma das principais referências culturais da Alemanha.
Visão geral
Os trabalhos de Bach foram catalogados diversas vezes. O primeiro catálogo, incompleto, foi criado pelos seus testamenteiros, e uma versão revisada, ampliada e erudita foi oferecida em 1814 por Johann Friedrich Reichardt. Alfred Wotquenne em 1905 publicou uma nova versão, revisada e ampliada em 1989 por Ernst Eugene Helm. Wotquenne identifica as obras com as letras Wq seguidas de um número, e Helm com a letra H seguida de um número. O catálogo Helm lista 750 composições, mas nas últimas décadas várias outras peças vieram à luz, incluindo arranjos, cantatas e peças para teclado dos seus primeiros anos. Tanto o catálogo Wotquenne quando o catálogo Helm já estão ultrapassados mas ainda estão em uso, e está em preparação um catálogo atualizado com as últimas descobertas.
Música para teclado solo
As composições para teclado perfazem o grosso da sua obra completa, com mais de 300 obras catalogadas nesta categoria, principalmente sonatas, que chegam a mais de 150, das quais em torno de uma centena foi publicada ainda em vida do autor. O restante das peças para teclado solo incluem fugas, suítes de danças, rondòs e fantasias. Os dois primeiros gêneros já estavam um pouco fora de moda em seu tempo, e nos dois outros ele deixou contribuições substanciais para a consolidação de sua fama como compositor original. Incluem-se neste grande grupo uma miscelânea de outras peças de dimensões variáveis e arranjos para teclado solo de sinfonias e concertos e algumas peças para órgão. As mais importantes coleções para teclado solo são as seis Sonatas Prussianas Wq 48, as seis Sonatas Württemberg Wq 49, as seis Sonatas com Reprises Variadas Wq 50 e as seis Coleções para Conhecedores e Diletantes Wq 55 / 56 / 57 / 58 / 59 / 61.
Música orquestral
Neste grupo se incluem seus concertos, sinfonias e sonatinas. Escreveu concertos para flauta, oboé, violoncelo e teclado, vários deles são arranjos de sinfonias ou outras composições, e vários não especificam claramente qual deveria ser o instrumento solista. Bach escreveu concertos ao longo de toda a sua carreira, compondo um total de mais de cinquenta, e eles refletem as variadas circunstâncias de sua gênese. Enquanto os primeiros são derivações diretas das tradições mais antigas e das práticas dos colégios musicais, dos quais Bach fez parte, os do período médio são influenciados pelo ambiente cortesão de Berlim e refletem os gostos típicos da elite, e os últimos almejavam atingir um público basicamente burguês que era habitual nos concertos públicos de Hamburgo. Segundo Peter Wollny, o estilo dos concertos é tão diversificado quanto os públicos distintos para os quais foram compostos. Os primeiros surgiram quando o gênero do concerto para solista e orquestra ainda era novidade, e por isso as obras de Bach são uma contribuição importante para a história do gênero. Contudo, em termos de forma eles ainda são bastante convencionais, derivando sua estrutura do antigo concerto grosso em sua separação clara entre as intervenções do solista e da orquestra, mas seu idioma harmônico já é personalizado. As transformações que o gênero sofreu nas suas mãos se mostram na crescente variedade dos diálogos entre o solo e a orquestra, nas suas dimensões ampliadas, e na progressiva complexidade da sua escrita e do seu caráter sinfônico. Em sua maioria, exigem solistas profissionais de alto gabarito, embora alguns fossem compostos provavelmente para amadores. Os concertos hamburgueses são os mais progressistas em termos de estrutura e estilo, e mostram uma crescente preocupação com a unidade formal, expressa no uso mais sistemático e avançado da forma sonata, às vezes até recapitulando material dos primeiros movimentos no último, criando uma arquitetura muito integrada.
Música de câmara
Mesmo que sua música de câmara não tenha a mesma amplitude que suas obras para teclado solo ou orquestra, nem tenham exercido influência comparável, ainda assim seu valor artístico não é inferior às outras. Nesta categoria entram trios e duos com baixo contínuo ou solo, quartetos e peças para vários instrumentos mistos, incluindo teclado, muitas vezes consistindo em música de ocasião ou para ser usada no ambiente doméstico ou nas récitas semipúblicas promovidas pelas sociedades musicais de seu tempo. No entanto, em geral elas mostram uma grande compreensão das capacidades específicas de cada instrumento e são peças expressivas e perfeitamente acabadas. A maioria segue os padrões estruturais da trio sonata, empregando recursos polifônicos mais abundantemente, harmonias atraentes e melodias cantabili, mas em muitos casos, como ocorreu em suas obras mais ambiciosas, a forma da sonata é trabalhada progressivamente. Aparecem também danças e peças mais livres.
Música sacra
Bach deixou um grosso corpo de composições sacras, muitas delas de largas dimensões, como oratórios, cantatas e paixões. Embora seja uma parte de grande importância em sua obra completa, com trabalhos de elevado mérito, é talvez a parte menos conhecida do grande público e a menos estudada de sua produção. Ao suceder Georg Philipp Telemann como diretor musical de Hamburgo, ele continuou tendo que organizar a música das cinco principais igrejas da cidade: São Pedro, São Nicolau, São Jacó, Santa Catarina e São Miguel. Isso exigia a composição de cantatas sacras, paixões, pequenas peças corais para vésperas, salmos e dias festivos, obras laudatórias para a instalação de novos pastores e outros oficiais do clero. Também estava associada ao cargo a obrigação de compor peças fúnebres para grandes burgueses e funcionários públicos, ou serenatas festivas para cerimônias civis, como a posse de novos burgomestres ou outros altos funcionários públicos. Nem sempre ele ofereceu obras suas nesses serviços, usando também um grande repertório que estava à disposição, como era uma praxe da época.
Canções
Outra seção importante mas menos conhecida de sua produção é constituída pelos lieder (canções alemãs), tendo deixado mais de 250 exemplos, o que o torna um dos mais prolíficos compositores do gênero e um elemento fundamental na sua evolução histórica. Deixou peças em todas as fases de sua carreira, mas elas se distribuem irregularmente ao longo do tempo. Na fase berlinense provavelmente foi influenciado pelo ativo grupo de cançonetistas da cidade, onde formou-se verdadeira escola, sendo de fato um dos seus melhores representantes, mesmo que sua posição exata dentro desta escola ainda não tenha sido bem determinada. Não há sinais de que tenha participado ativamente do debate estético em torno do gênero, que em sua época polemizava em torno dos méritos do lied em comparação com a chanson francesa, e em certos aspectos suas obras deste período se afastam das convenções locais. Na fase hamburguesa a produção de lieder tomou novo fôlego, como prova a ampla difusão dos seus exemplares, impressos em várias coletâneas e avulsamente ou em séries pessoais, e recebidos pela crítica em geral com muito agrado e, não raro, entusiasmo. Seu modelo básico consiste na musicalização de poesia com várias estrofes, com a mesma música repetida em todas elas ou com seções contrastantes, com um cantor solista e um teclado de acompanhamento, embora haja uma grande variedade de abordagens, que dependiam do conteúdo textual. Algumas canções são extensas e de estrutura variável, aproximando-se do perfil de uma cantata de câmara. Muitas vezes a parte de teclado deixa de ser mero acompanhamento e assume um protagonismo comparável ao da voz. Apesar do caráter profano dos seus lieder, visível em particular na sua fase berlinense, onde cultivou com frequência um tratamento lírico e de inspiração pastoral, muitos outros, especialmente os tardios, têm textos parafraseados das Escrituras ou são devocionais, destinando-se à edificação moral e espiritual do público, com um tratamento mais austero e solene; vários foram arranjados como corais e usados em suas paixões, salmos e motetos sacros. Bach tinha grande cultura literária e filosófica e aguda sensibilidade para a poesia, e os poetas que preferia eram escritores renomados, incluindo Carl Friedrich Cramer, Christoph Christian Sturm, Christian Fürchtegott Gellert e Friedrich Gottlieb Klopstock.
A educação que Bach recebeu de seu pai sem duvida foi ampla e sólida. Johann Sebastian ensinava seus filhos e outros discípulos começando com o teclado e usando suas próprias composições como material didático, e chegou mesmo a escrever um pequeno manual para iniciantes contendo peças elementares. As lições tinham como ponto de partida o entendimento do sistema do baixo cifrado e sua realização prática. Este sistema, característico da música barroca, em geral definia apenas a voz superior e a inferior, e as intermédias eram indicadas apenas através de cifras convencionais (daí o nome), deixando ao cargo do intérprete sua transformação em linhas melódicas e acordes que proviam o recheio harmônico da obra. A etapa seguinte consistia na harmonização de melodias de corais luteranos, e depois o domínio avançado da técnica do teclado, incluindo exercícios com fugas em várias vozes e de dedilhado complexo. Instrução em técnicas de composição original só era ministrada quando o mestre percebia no aluno um talento especial, como ocorreu no seu caso. Esboços que sobreviveram de pequenas peças de sua fase juvenil, bem como cópias de obras de outros autores, mostram que seu talento para a composição foi cedo reconhecido, e o artista, em sua autobiografia, disse que não teve outro mestre em teclado e composição além de seu pai.
Segundo Doris Powers, autora de um importante estudo, não se conhece muito bem a dimensão da reputação que Bach adquiriu como compositor enquanto viveu, ao que parece foi mais apreciado como virtuoso do teclado, e sua obra, bem como sua biografia, parecem ter recebido pouca atenção da crítica, acrescentando que a pesquisa sobre a repercussão de seus trabalhos entre seus contemporâneos ainda é fragmentária. Esta opinião, porém, é minoritária. Geoffrey Hindley e Dorothea Schröder, por exemplo, junto com David Schulenberg e Paul Corneilson, que estão entre os principais pesquisadores de sua vida e obra, afirmam que, embora ainda haja sim muitos aspectos a conhecer melhor sobre sua carreira, suas composições foram altamente admiradas ainda em vida, a larga difusão de suas obras impressas, que ia de Moscou a Londres e de Copenhague a Viena, também fala de um grande prestígio, Charles Burney, um dos principais historiadores da música de sua geração, não se cansou de elogiá-lo, e várias outras fontes primárias do século XVIII que têm sido descobertas tecem-lhe efusivos louvores, como é exemplo um relato de Christian Friedrich Daniel Schubart citando que "Bach em Hamburgo lidera os cravistas assim como Klopstock lidera os poetas. Ele marca uma época. [...] Tanto suas composições quanto sua técnica de teclado são inimitáveis. [...] Seu estilo único, seu espírito, suas elusões, seus artifícios harmônicos, são insuperáveis. [...] Não há quem se compare em sensibilidade, em sua pletora inesgotável de modulações, em tão rica harmonia". O comentário provou ser correto até na acepção literal. Ainda que exercesse influência sobre muitos outros músicos e seu tratado teórico fosse continuamente usado como material didático por mais de um século, ele não chegou a criar uma verdadeira escola de composição onde seu estilo fosse emulado consistentemente — neste sentido, foi uma figura "inimitável" e bastante isolada.


