Comparação entre nazismo e stalinismo
Diversos autores realizaram comparações entre o nazismo e o stalinismo, nas quais buscaram compreender se ambas ideologias eram semelhantes ou diferentes, como essas conclusões afetaram a compreensão da história do século XX, que relação existia entre os dois regimes e por que ambos tiveram proeminência ao mesmo tempo. As respostas a todas essas perguntas são disputadas. Durante o século XX, a comparação entre stalinismo e nazismo foi feita sobre temas como totalitarismo, ideologia e personalidade. Ambos regimes foram vistos em contraste com o Ocidente liberal, com ênfase nas semelhanças entre os dois, enquanto as suas diferenças foram minimizadas.
Embora o partido nazista alemão fosse ideologicamente contrário ao comunismo, Adolf Hitler e outros líderes nazistas frequentemente expressaram o reconhecimento de que só na Rússia Soviética os seus homólogos revolucionários e ideológicos podiam ser encontrados. Em numerosas ocasiões, Hitler elogiou publicamente Stalin e ele via o stalinismo positivamente, como uma busca de purificação do Partido Comunista da União Soviética de influências judaicas, observando a purga de judeus comunistas como Leon Trótski, Grigori Zinoviev, Lev Kamenev e Karl Radek (ver: Grande Expurgo).
Biopolítica
O stalinismo e o nazismo enfatizaram mutuamente a importância da biopolítica utópica, especialmente no que diz respeito à reprodução. Essa ênfase por si só não era única, pois muitos outros países europeus praticavam a eugenia naquele momento e os ideais stalinistas e nazistas eram muito diferentes. Afirma-se que o nazismo baseava-se numa "falsa biologia." A semelhança fundamental era a ligação das políticas de reprodução com os objetivos ideológicos do Estado. Havia, porém, diferenças substanciais entre as abordagens dos dois regimes. Nunca a União Soviética de Stalin apoiou a eugenia oficialmente como os nazistas o fizeram - o governo soviético chamava a eugenia de uma ciência fascista (ou "pseudociência burguesa"). No entanto, realmente existiam eugenistas soviéticos. Os dois regimes também tiveram abordagens diferentes da relação entre a família e o trabalho remunerado - o nazismo promoveu a família de um único homem provedor, enquanto o stalinismo promoveu a dupla responsabilidade para os casais.
Violência política
Tanto o stalinismo como o nazismo a utilizaram a violência em massa. Tanto a União Soviética stalinista como a Alemanha nazista utilizaram campos de concentração liderados por agentes do Estado (NKVD na União Soviética e SS na Alemanha nazista). Ambos os regimes estavam envolvidos em violência contra as minorias com base em xenofobia. A violência xenófoba dos nazistas era franca, mas racionalizada sob forma de atos contra elementos antissociais, enquanto a violência xenófoba dos stalinistas estava disfarçada sob forma de atos contra elementos socialmente perniciosos, um termo que visava nacionalidades de diásporas. Tanto a União Soviética de Stalin como a Alemanha nazista eram sociedades violentas, onde a violência em massa foi aceita pelo Estado, como no Grande Terror de 1937-1938 na União Soviética e no Holocausto na Alemanha nazista e nos seus territórios ocupados durante a Segunda Guerra Mundial. A União Soviética stalinista estabeleceu os chamados assentamentos especiais, para onde foram expulsos os socialmente prejudiciais ou socialmente perigosos, que incluíam ex-presidiários, criminosos, vagabundos, desprivilegiados e elementos desclassificados. Os assentamentos especiais estavam em grande parte na Sibéria, no extremo norte, nos Montes Urais ou em outros territórios inóspitos.
Campos de concentração
Obras de historiadores, como Ernst Nolte, Andreas Hillgruber e outros na década de 1980, compararam as políticas de Adolf Hitler e Josef Stalin e traçaram um paralelo entre o sistema de campos de concentração na União Soviética e na Alemanha nazista. Estudiosos defendem a tese de que os campos de concentração nazistas foram claramente inspirados no modelo do sistema Gulag soviético. Margarete Buber-Neumann disse em suas memórias que tanto os campos de concentração comunistas (1937-1940) como os nazistas (1940-1945) em que ela esteve tinham métodos muito similares. Depois que foi prisioneira de um campo de concentração de Ravensbrück, ela resumiu suas observações da seguinte forma:
Criação do Novo Homem
Tanto o stalinismo como o nazismo compartilharam uma visão ideológica de criação de um tipo de "homem novo", ambos identificando o mundo burguês, o velho mundo, como obsoleto, e ambos envolvendo uma rejeição total do liberalismo, bem como dos direitos e das liberdades individuais, pretendendo criar uma sociedade nova e antiliberal. Essa visão do Homem Novo diferiu entre eles: os stalinistas concebiam o Novo Homem que, necessariamente, envolveria a libertação de toda a humanidade, uma meta global e não étnica (ver: Novo homem soviético), enquanto os nazistas concebiam o Novo Homem como uma raça superior (Übermensch ou "super-homem") que organizaria uma nova hierarquia racial na Europa. A historiadora Françoise Thom argumenta que, enquanto o nazismo baseava-se numa falsa biologia, o comunismo apoiava-se numa falsa sociologia.
Militarismo
Tanto a União Soviética sob Stalin como a Alemanha Nazista exibiram militarismo. Ambas colocaram uma grande ênfase na criação de um partido-exército, com as forças armadas regulares controladas pelo partido, como os comissários políticos da União Soviética e os equivalentes oficiais de orientação nacional-socialista em 1943. Evidências histórias indicam que, o III Reich só conseguiu construir sua nova Wehrmacht (forças armadas) graças à ajuda decisiva da URSS. E, que a NKVD soviética treinou oficiais da SS nazista. Existiu uma real possibilidade de a URSS tornar-se uma quarta potência do Eixo (ver: Negociações sobre a adesão da União Soviética ao Eixo).
O historiador Conan Fischer argumenta que os nazistas eram sinceros em seu uso do adjetivo "socialista", que eles o viam como inseparável do adjetivo "nacional" e o sentiam como um socialismo da raça-mestre, em vez do socialismo dos desfavorecidos e oprimidos em busca de justiça e igualdade de direitos. No entanto, ambas as ideologias defenderam a teoria da nação proletária (have-not, proletarian-nation). Lênin iria adotá-la somente depois que ela foi introduzida na Itália. Além disso, Hitler, por razões táticas, tinha retoricamente usado chavões socialistas na plataforma do partido em 1920. Segundo o historiador britânico George Watson: "Ele [Hitler] declarou que tinha aprendido muito do marxismo, por ler Marx. Que todo nacional-socialismo foi, doutrinadamente, baseado nele." Na verdade, muitos parágrafos do programa do partido eram obviamente apenas um apelo demagógico ao humor das classes mais baixas, usando slogans socialistas, que foram colocados por insistência de Anton Drexler e Gottfried Feder, os quais aparentemente acreditavam no socialismo do nacional-socialismo. Na prática, esses pontos eram meros slogans, a maioria deles esquecidos quando o partido chegou ao poder. O líder nazista mais tarde viria a ser constrangido quando se lembrasse de alguns deles. Enquanto isso, Stalin era consistente em sua implementação da completa nacionalização e comunização do país.
Atrocidades
Em O Livro Negro do Comunismo, Stéphane Courtois afirma que o regime nazista adotou o sistema de repressão da União Soviética, em particular do sistema Gulag, e que a repressão durante a era soviética foi semelhante à das políticas do nazismo. Courtois considera o comunismo e o nazismo sistemas totalitários ligeiramente diferentes. Ele afirmou que "mais recentemente, um foco único sobre o genocídio judeu, na tentativa de caracterizar o Holocausto como uma atrocidade única, também impediu a avaliação de outros episódios de magnitude comparável no mundo comunista". Courtois afirmou que o genocídio de uma classe pode muito bem ser o mesmo que o genocídio de uma raça e que a morte de uma criança por fome na URSS (ver: Holodomor e Democídio) era igual à morte de crianças judias em um gueto de Varsóvia.
Há uma longa tradição de fascismo e comunismo, ou, mais especificamente, de nazismo e stalinismo sendo comparados um ao outro. Na década de 1920, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), sob a liderança do chanceler da Alemanha Hermann Müller, adotou a visão de que "vermelho é igual a marrom", ou seja, de que os comunistas e nazistas eram perigos iguais à democracia liberal. Kurt Schumacher disse que os dois movimentos eram iguais. Ele argumentou que o Partido Comunista da Alemanha, que era ferrenhamente stalinista, era feito de nazistas pintados de vermelho. Essa comparação foi espelhada pela teoria de que a social-democracia foi uma das muitas formas de fascismo, junto com o nazismo e outras ideologias. Um trabalho seminal de Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo (1951), descreve e analisa os dois principais movimentos totalitários do século XX, o nazismo e o comunismo. Ela conclui que tanto o nazismo como o comunismo eram movimentos totalitários que buscaram eliminar todas as restrições sobre o poder do Estado. Um grande número de instituições de pesquisa estão se concentrando na análise comparada do fascismo/nazismo e do stalinismo/comunismo, incluindo o Instituto Hannah Arendt para a Pesquisa sobre o Totalitarismo na Alemanha, o Instituto para o Estudo dos Regimes Totalitários da República Checa e o Instituto da Memória Nacional da Polônia.
Esta questão por muito tempo provocou controvérsia política e levou a disputas de historiadores na Alemanha na década de 1980. O debate continuou depois da dissolução da União Soviética e da expansão da União Europeia para o ex-território da União Soviética, resultando em pronunciamentos como a Declaração de Praga sobre Consciência Europeia e Comunismo e vários desenvolvimentos relacionados, conhecidos como O Processo de Praga, apoiados principalmente pelos membros da União Europeia mais afetados pelo stalinismo. Depois das revoluções de 1989, organismos europeus, como a União Europeia e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, estão cada vez mais tratando o nazismo e o stalinismo (ou às vezes, de forma mais ampla, o fascismo e o comunismo) como duas formas comparáveis de totalitarismo. Foram feitos esforços crescentes para ligar os dois sistemas em museus, monumentos públicos, dias comemorativos e eventos.


