Carijitas
Os Carijitas foram o primeiro ramo a formar-se no Islão durante a Primeira Guerra Civil Islâmica de 655—661 entre Ali e Moáuia I sobre quem deveria ser o califa. Inicialmente partidários de Ali na contenda, rejeitaram as suas pretensões em 657, opondo-se igualmente às de Moáuia.
Após a morte do terceiro califa, Otomão, gerou-se uma disputa em torno de quem deveria ser o novo líder da comunidade muçulmana. Dois homens reclamavam essa dignidade: Ali, primo do profeta Maomé e esposo de sua filha Fátima, e Moáuia I, governador de Damasco e primo do último califa. Em Julho de 657 as forças de Ali e Moáuia enfrentam-se na batalha de Sifim, sem que nenhum dos lados se consagre vencedor. Moáuia propõe então uma arbitragem que Ali aceita. Esta decisão provoca a revolta de uma parte dos apoiantes de Ali que consideraram essa decisão uma concessão imperdoável, proclamando, de acordo com um verso do Alcorão, que o "julgamento apenas a Deus pertence". O grupo retirou-se para a localidade de Harura, sob a liderança de Abedalá ibne Uabe Arracibi. A eles se juntam mais tarde outros dissidentes, quando a arbitragem a que Ali se submeteu se revelou desastrosa. Alguns indivíduos haviam manifestado sua oposição em Sifim apenas clamando lā ḥukma illā li-llāh (“não há julgamento senão o de Deus”), mas seu número cresceu durante o retorno do exército de Ali a Cufa. Aqueles que se reuniram em Harura — de onde passaram a ser conhecidos como haruraítas — em Rabi Alual de 37/agosto–setembro de 658 somavam vários milhares, talvez cerca de 12 mil. Tratou-se de um verdadeiro motim, pois, embora esses opositores inicialmente se limitassem à escolha provisória de um dirigente para conduzir a oração (Abedalá ibne Alcaua Aliascuri) e de um chefe militar (Xabate ibne Ribi Atamimi), já não reconheciam a autoridade de Ali. Proclamavam que a baia deveria ser prestada a Deus, de acordo com o preceito do al-amr bi-l-maʿrūf wa-l-nahy ʿan al-munkar (“ordenar o que é correto e proibir o que é reprovável”), e que um conselho (xura) deveria então escolher o chefe da comunidade. Isso não impediu que os dissidentes, antes de partirem para Naravã, adotassem como líder Abedalá ibne Uabe Arracibi.
Asraquitas
A facção mais radical dos Carijitas nasceu da revolta de Nafibe Alasraque na cidade de Baçorá, a sul do Iraque, em 684. Consideravam como pecadores todos os outros grupos de muçulmanos e advogavam a luta contra o poder instituído, praticando actos de verdadeiro terrorismo político. Distinguiam-se por duas práticas peculiares: a primeira era uma prova de sinceridade do recém-convertido ao movimento na qual se exigia que este decapitasse um prisioneiro adversário (imtiane) e a segunda constituía o assassinato religioso, que autorizava matar homens, mulheres e crianças fora do grupo (istirde). Entendiam que o território no qual viviam os outros muçulmanos era território de infiéis (dar cafir), onde era permitido pilhar e matar.
Najadate
Os Najadate constituíam um grupo moderado dos asraquitas que se desenvolveu na Arábia central. Rejeitavam o assassinato político. Conquistam o Barém em 685, uma parte do Iêmem e penetram no Omã.
Ibaditas
Devem o seu nome a Abedalá Ibade que viveu em Baçorá no século VII e que rejeitou as posições extremistas dos asraquitas, conservando no entanto a intransigência moral. Desempenharam um importante papel na queda da dinastia omíada. Em 752, protagonizam uma revolta em Omã, mas foram derrotados. Apesar disso, o carijismo não desaparece daquele território. Em 791 elegem o seu primeiro imame, Aljundala ibne Maçude, na cidade de Nizua. O relativo isolamento de Omã permitiu que o carijismo ali perdurasse até aos nossos dias, apesar das perseguições que lhe foram movidas. Durante o período da dinastia abássida o Norte de África foi o principal foco do carijismo ibadita. Um grupo de missionários carijitas ali tinham chegado vindos de Baçorá com o objectivo de pregar a doutrina às populações locais. Tribos berberes aliadas aos Carijitas ibaditas instalam a sua capital em Trípoli em 757. No ano seguinte, os Carijitas conquistam a cidade tunisina de Cairuão, da qual o ibadita de origem iraniana Abederramão ibne Rustão se torna governador. Forma-se então um estado carijita num território correspondente ao que é hoje o noroeste da Líbia, Tunísia e região oriental da Argélia, mas este terá uma vida efémera, sendo destruído em 772 pelos abássidas. Apesar da destruição desta formação política, em 776 ibne Rustão funda um emirado ibadita em Taerte, perto da actual cidade de Tiarete na Argélia, que perdura até 909, ano em que é destruído pelos Fatímidas. No século XI o poder carijita é ainda mais abalado com a invasão do Norte de África pela tribo árabe dos Banu Hilal. Mas o verdadeiro toque de finados ocorreu a partir do século XVI com o domínio otomano.


