Capela Sistina
A Capela Sistina, dedicada a Maria Assunta ao Céu, é uma das capelas mais importantes do complexo do Palácio Apostólico, a residência oficial do Papa, situada na Cidade do Vaticano. Seu nome deriva do Papa Sisto IV, que a mandou restaurar entre os anos de 1473 e 1481. Desde então, a capela tornou-se um dos principais espaços religiosos e cerimoniais da Igreja Católica. Arquitetonicamente, a Capela Sistina foi concebida com inspiração no Templo de Salomão, conforme descrito no Antigo Testamento. Sua planta retangular, o teto abobadado e as proporções remetem à solenidade e transcendência do espaço sagrado. Destaca-se sua decoração em afrescos, pintada pelos maiores artistas da Renascença, incluindo Michelangelo, Rafael, Perugino e Sandro Botticelli.
A virada do Quattrocento para o Cinquecento foi um dos momentos mais marcantes para a história da arte ocidental. A Itália, com epicentro em Florença, deu ao mundo uma tal gama de geniais artistas que parece milagrosa. "Não há como explicar a existência do gênio. É preferível apreciá-lo", diz Gombrich, tentando entender por que tantos grandes mestres nasceram no mesmo período. A Capela Sistina é um dos locais mais propícios para aquilatar a dimensão desta explosão criativa. Para a sua feitura concorreram os maiores nomes de que dispunha a Itália no momento. Sisto IV, como parte da política que empreendia para o restabelecimento do prestígio e fortalecimento do papado, convocou a Roma os maiores artistas da Itália. Florença era o centro de excelência até então. De lá e da Úmbria vieram os maiores nomes, fato que deslocaria para Roma a capitalidade cultural, que atingiria o zênite algumas décadas depois, com a eleição de Júlio II para ocupar a Cátedra de São Pedro.
Baccio Pontelli foi o autor do projeto arquitetônico para a construção da capela. Este florentino era um dos responsáveis pela reformulação e revitalização urbanística que Sisto IV efetuava em Roma, tendo realizado dezenas de obras públicas. No projeto, construído com a supervisão de Giovannino de Dolci entre 1473 e 1484, emprestaram seus dons: Perugino, Botticelli, Ghirlandaio, Rosselli, Signorelli, Pinturicchio, Piero di Cosimo, Bartolomeo della Gatta, Rafael e outros. Coroando este festival, alguns anos depois, um dos maiores gênios artísticos de todos os tempos: Michelangelo Buonarroti. As dimensões do projeto de Baccio Pontelli tiveram como inspiração as descrições contidas no Antigo Testamento relativas ao Templo de Salomão. A sua forma é retangular medindo 40,93 m de longitude, 13,41 m de largura e 20,70 m de altura. Os numerosos artistas vestiram o seu interior, esculpindo e pintando as suas paredes, transformando-a em um estupendo e célebre lugar conhecido em todo o mundo pelas maravilhosas obras de arte que encerra.
Afrescos
Afrescos inspirados em cenas do Antigo e do Novo Testamento decoram as paredes laterais, assim como o teto. Precisamente, na parede esquerda, a partir do altar, estão as cenas do Antigo Testamento a representar: Na parte direita, também a partir do altar, as cenas do Novo Testamento: Entre as janelas, seis de cada lado, figuram 24 retratos de papas, pintados por Botticelli, Ghirlandaio e Fra Diamante. Na abóbada estão os famosos afrescos de Michelangelo, pintados entre 1508 e 1512. O mesmo artista realizaria entre os anos de 1535 e 1541, na parede do altar, o Juízo Final.
Cartões de Rafael
São conhecidas como Cartões de Rafael ao conjunto das obras do pintor do Renascimento Rafael realizados entre 1515 e 1516, e a partir das quais se criaram as tapeçarias para cobrir as paredes da Capela Sistina. As obras celebram os Atos dos Apóstolos e foram encomendadas pelo Papa Leão X. As tapeçarias foram tecidas no estúdio de Pieter Coecke van Aelst em Bruxelas e são feitas de lã, seda e ouro. As últimas tapeçarias foram expedidas para Roma alguns meses depois da morte do artista. Concebidos entre os anos de 1515 e 1516 para servirem de protótipos às sumptuosas tapeçarias destinadas ao registro narrativo das paredes inferiores da Capela Sistina, em complemento aos afrescos miguelangelescos, os Cartoni di Raffaello foram executados em têmpera sobre vastas folhas de papel colado. As obras retratam com especial relevo às figuras fundacionais de São Pedro e São Paulo, entre os quais se destacam A Pesca Milagrosa, A Entrega das Chaves e A Morte de Ananias. Encaminhadas a Bruxelas, compõem uma das mais esplêndidas realizações da arte têxtil europeia. As composições revelam o equilíbrio entre a majestade clássica e a sensibilidade narrativa que singularizam a maturidade rafaelesca, instaurando um paradigma iconográfico de valor teológico e estético incomparável. Esses cartões constituem não apenas um testemunho da engenhosidade do pintor de Urbino, mas também uma das matrizes mais fecundas da tradição visual ocidental.
As Cenas de Botticelli
As "Cenas de Botticelli" na Capela Sistina, executadas entre 1481 e 1482 sob o pontificado de Sisto IV, integram o vasto ciclo mural destinado a ilustrar o paralelismo entre a vida de Moisés e a de Jesus Cristo, símbolo da continuidade entre a Antiga Aliança e a Nova Aliança. Entre os mestres convocados — Perugino, Ghirlandaio, Rosselli e Signorelli —, Sandro Botticelli destacou-se pela nobreza do desenho e pela densidade teológica de sua narrativa. Suas composições As Provações de Moisés e As Tentações de Cristo articulam episódios múltiplos em um único espaço pictórico, seguindo o princípio da narração contínua, herdado da tradição trecentista. Nelas, a elegância linear e o senso de ritmo compositivo revelam a influência de Fra Filippo Lippi, seu mestre, associada à monumentalidade aprendida em Roma. Botticelli combina, assim, uma espiritualidade introspectiva com uma clara intenção doutrinária, sublinhando a autoridade divina da Igreja e do pontífice. O resultado é uma síntese de beleza ideal e catequese visual, na qual o humanismo florentino se converte em linguagem teológica de poder e salvação.
O teto da Capela Sistina (Michelangelo)
Na realização desta grandiloquente obra concorreram amor e ódio. Segundo consta, Michelangelo teria feito este trabalho contrariado, convencido que era mais um escultor que um pintor. Encarregado pelo Papa Júlio II, sobrinho de Sisto IV, de pintar o teto da capela, julgou ser um conluio de seus rivais para desviá-lo da obra para a qual havia sido chamado a Roma: o mausoléu do Papa. Mas dedicou-se à tarefa e o fez com tanta maestria que praticamente ofuscou as obras primas de seus antecessores na empresa. Os afrescos no teto da Capela Sistina são, de fato, um dos maiores tesouros artísticos da humanidade. É difícil acreditar que tenha sido obra de um só homem, pois dispensara os assistentes que havia contratado inicialmente, insatisfeito com a produção destes, e que o mesmo ainda encontraria forças para retornar ao local, duas décadas depois, e pintar na parede do altar, sacrificando, inclusive, alguns afrescos de Perugino, o Juízo Final, entre 1535 e 1541, já sob o pontificado de Paulo III.
O Juízo Final (Michelangelo)
A parede do altar foi destinada a conservar a maior pintura na qual Michelangelo dedicou, desde 1534, todo seu engenho e força: o Juízo Final. O afresco ocupa inteiramente a parede atrás do altar. Para sua execução, duas janelas foram fechadas e algumas pinturas da época de Sisto IV apagadas: os primeiros retratos de papas; a primeira cena da vida de Cristo e a primeira da vida de Moisés. Uma imagem da Virgem da Assunção de Perugino, e os afrescos das duas lunettes, onde o próprio Michelangelo havia pintado os ancestrais de Cristo. A grandiosidade da personalidade do grande mestre se revela aqui, com toda sua potência, devido sobretudo à concepção e a força de realização da obra.
No último quartel do século XX, obras empreendidas no teto da Capela Sistina no intuito de recuperar o brilho original do tempo de Michelangelo foram motivo de inúmeras controvérsias. Restauros vinham sendo feitos ao longo dos anos, e desde a década de 1960 já se trabalhava nos frescos mais antigos. O projeto mais audacioso, a cargo do restaurador Gianluigi Colalucci, iniciou-se em 1979 com a limpeza da parede do altar: o Juízo Final, de Michelangelo. Durante este período a capela esteve fechada ao público que visita o Museu do Vaticano - cerca de três milhões de visitantes por ano - só voltando a ser reaberta em 8 de abril de 1994.
Na Capela Sistina são realizados há muitos séculos os conclaves, a reunião do Colégio dos Cardeais, para a eleição de um novo Papa da Igreja Católica Apostólica Romana. Na sequência, encontra-se a listagem das eleições já realizadas sob abrigo desta capela:
Nas últimas décadas, médicos de diferentes áreas têm defendido a tese que, entre os afrescos, Michelangelo retratou órgãos humanos disfarçados entre as figuras. Em 1990, Frank Lynn Meshberger publicou um artigo no Journal of the American Medical Association, indicando a semelhança entre a cena A Criação de Adão a um corte do cérebro humano. Em 2000, o nefrologista Garabed Ekynoyan identificou um rim direito no manto da figura de Deus em A Separação das Águas da Terra. Em 2004, o médico Gilson Barreto e o químico Marcelo de Oliveira publicaram o livro A Arte Secreta de Michelangelo identificando um órgão diferente em cada uma das 38 cenas do afresco.


