Cântico dos Cânticos
O Cântico dos Cânticos é um dos livros do Tanakh e do Antigo Testamento que integra a seção do ketuvim e dos livros poéticos. É composto por um conjunto de poemas eróticos atribuídos ao rei Salomão, que narram o desejo sexual entre um homem e uma mulher, acompanhados de um coro feminino.
Há um amplo consenso que, embora o livro não tenha uma trama, ele tem o que se pode chamar de estrutura, evidente pelas ligações entre o seu começo e fim Porém, fora isto, há pouca concordância entre os estudiosos: tentativas de encontrar uma estrutura quiástica não receberam aceitação e tentativas de analisá-lo em unidades utilizaram diferentes métodos e chegaram a diferentes conclusões. O seguinte esquema, de Kugler et al., é, por conta disto, meramente indicativo:
Sumário
A introdução chama o poema de "Cântico dos cânticos", uma construção superlativa frequente na Bíblia hebraica para demonstrar algo como o maior e mais belo de sua classe (como o Santo dos Santos). O poema propriamente dito começa com a expressão do desejo da mulher por seu amante e sua auto-descrição às "filhas de Jerusalém": ela insiste em sua cor negra, igualando-a às "tendas de Quedar" (nômades) e às "cortinas de Salomão". Segue um diálogo entre os amantes: a mulher pede um encontro ao homem; ele responde atiçando-a ligeiramente. Os dois competem nos elogios mútuos ("o meu amado é para mim como um ramalhete da hena", "a macieira entre as árvores do bosque", "qual uma açucena entre espinhos"). Esta seção termina com a mulher pedindo às filhas de Jerusalém que não despertem um amor como o dela antes de ele estar pronto.
O Cântico dos Cânticos não dá nenhuma pista sobre a data, o local e em quais circunstâncias foi escrito. Cantares 1:1 afirma que o autor é Salomão, mas mesmo se este versículo puder ser entendido como uma declaração de autoria, ele não pode ser lido da mesma forma como se lê uma afirmação moderna do mesmo tipo. A mais confiável das evidências para sua ata de composição é a língua na qual foi escrito: o aramaico gradualmente substituiu o hebraico depois do cativeiro na Babilônia no final do século VI a.C. e as evidências do vocabulário, morfologia, uso do idioma e sintaxe claramente indicam uma data séculos mais tarde do o período do reinado de Salomão. O texto é similar a outras obras de poesia romântica mesopotâmicas e egípcias do primeiro milênio a.C. e também as obras idílicas de Teócrito, um poeta grego da primeira metade do século III a.C. Por conta disto, há especulações sobre a data que variam dos séculos X ao II a.C., com maior probabilidade para uma data no final do período helenístico (depois de 330 a.C.).
Judaísmo
Cânticos foi aceito no cânone da Bíblia hebraica por volta do século II depois de um período de controvérsia no século I. Ele foi aceito como canônica por sua suposta autoria por Salomão e com base numa leitura alegórica na qual o tema é entendido como não sendo de natureza sexual e sim do amor de Deus por Israel. Como exemplo, o famoso Aquiba, dos séculos I e II, proibiu o uso de Cânticos em festas populares pois, segundo ele, "aquele que conta o Cântico dos Cânticos em tabernas de vinho, tratando-o como se ele fosse apenas uma música vulgar, abandona sua parte no mundo que virá". Porém, ele famosamente defendeu a canonicidade de Cântico dos Cânticos. Quando a questão apareceu sobre se ele deve ser considerado uma obra impura, ele teria dito: "Deus me livre! [...] Pois toda a eternidade em toda sua dimensão não é tão valiosa quanto o dia no qual Cântico dos Cânticos foi dado a Israel, pois todos os Escritos são santos, mas Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos".
Cristianismo
Os cristãos admitiram a canonicidade do Cântico dos Cânticos desde o princípio, mas, depois que exegetas judeus começaram a interpretar o Cântico de forma alegórica, como um símbolo do amor de Deus por seu povo, os exegetas cristãos seguiram o mesmo caminho, tratando o amor celebrado pelo livro como uma analogia ao amor entre Deus e sua Igreja Depois de séculos, a ênfase na interpretação mudou: a partir do século XI foi acrescentado um elemento moral e, no século XII, a Virgem Maria passou a ser a noiva. Cada nova interpretação absorvia a anterior sem substituí-la e o comentário bíblico foi se tornando cada vez mais complexo, com diversas camadas de significado. Esta abordagem levou a conclusões não encontradas nos livros mais claramente teológicos da Bíblia, que consideram a relação entre Deus e o homem como desigual. Por outro lado, a leitura de Cântico dos Cânticos como uma alegoria do amor de Deus por sua Igreja sugere que os dois parceiros são iguais, unidos numa relação emocional livremente consentida.
Marc Chagall pintou um ciclo de cinco pinturas chamado "Cântico dos Cânticos", atualmente abrigado no Museu Marc Chagall em Nice, na França. "Wachet auf, ruft uns die Stimme, BWV 140", de J. S. Bach, se baseia principalmente na Parábola das Dez Virgens, mas também faz referência a imagens de Cântico dos Cânticos. Toni Morrison, vencedora do prêmio Nobel de literatura, lançou uma obra em 1977 chamada "Song of Solomon". "Hortus conclusus", que significa "jardim fechado", foi um tema popular da arte cristã medieval e renascentista que surgiu de forma repentina em pinturas e manuscritos iluminados por volta de 1330 e tem sua origem numa imagem de Cântico dos Cânticos: «Um jardim fechado é minha irmã, minha noiva; Um manancial fechado, uma fonte selada» (Cantares 4:12), um simbolismo para a castidade.


