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Cânone bíblico

Cânone bíblico ou cânone das Escrituras é a lista de textos religiosos que uma determinada comunidade aceita como sendo inspirados por Deus e autoritativos. A palavra "cânone" vem do termo grego κανών. Os cristãos foram os primeiros a utilizar o termo para fazer referência às suas Escrituras, mas Eugene Ulrich considera que a ideia é derivada do judaísmo.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 29/06/2026
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Cânones judaicos

Judaísmo pré-rabínico

Antes do surgimento do judaísmo rabínico com a Mishna (final do século II), o cânone estava aberto entre as diversas vertentes israelitas. Entre os Manuscritos do Mar Morto, a edição The Dead Sea Scrolls Bible (1999) citam como livros dotados de autoridade o livro de Jubileus e 1 Enoque. Este último livro era popular entre correntes místicas do judaísmo. Já autores como Filo de Alexandria, Josefo e os autores do Novo Testamento citam os livros da Torá e dos Profetas sem problemas como dotados de autoridade, variando na citações sobre os Escritos.

Judaísmo rabínico

O Judaísmo rabínico (em hebraico: יהדות רבנית) reconhece os vinte e quatro livros do texto massorético, geralmente conhecidos como Tanakh (em hebraico: תַּנַ"ךְ) ou Bíblia hebraica. Evidências sugerem que o processo de canonização ocorreu entre 200 a.C. e 200 d.C.; um ponto de vista popular é que a Torá foi canonizada por volta de 400 a.C., Nevi'im ("Profetas") por volta de 200 a.C. e Ketuvim ("Escritos") por volta de 100,. A hipótese, antes popular entre alguns círculos acadêmicos, de que houve um Concílio de Jâmnia no qual as autoridade judias discutiram o cânon hoje é rejeitada. Segundo Marc Zvi Brettler, as escrituras judaicas além da Torá e Nevi'im são fluidas, com diferentes grupos considerando diferentes livros como autoritativos.

Beta Israel

Os judeus etíopes, conhecidos como Beta Israel (em ge'ez:ቤተ እስራኤል, "Bēta 'Isrā'ēl"), possuem um cânone escritural distinto do cânone do judaísmo rabínico. "Mäṣḥafä Kedus" ("Sagradas Escrituras") é o nome da literatura religiosa destes judeus, escrita primordialmente em ge'ez. O livro mais sagrado, chamado "Orit", consiste no Pentateuco (equivalente à Torá) acrescido de Josué, Juízes e Rute. O resto do cânone é considerado como de importância secundária e consiste no restante do cânone hebraico — com a possível exceção do Livro das Lamentações — e vários livros deuterocanônicos. Entre eles, Sirácida, Judite, Tobias, I e II Esdras, I e IV Baruque, os três livros conhecidos como Meqabyan ("Macabeus etíope"), Jubileus, Enoque, Testamento de Abraão, Testamento de Isaac e o Testamento de Jacó. Estes três últimos testamentos patriarcais são únicos dos judeus etíopes[b].

Cânone samaritano

Outra versão da Torá, escrita no alfabeto samaritano, também existe e está associada aos samaritanos (em hebraico: שומרונים; em árabe: السامريون), um povo cuja história, nas palavras da Enciclopédia Judaica, "começa com a captura da Samaria pelos assírios em 722 a.C." (a Samaria corresponde, a grosso modo, com o território do antigo Reino de Israel). A relação da Torá samaritana com o texto massorético ainda é tema de disputas. Algumas diferenças são menores, como as idades das diferentes pessoas mencionadas nas listas genealógicas, mas outras são maiores, como o mandamento da monogamia, que só existe na versão samaritana. Mais importante, o texto samaritano também diverge do massorético ao afirmar que Moisés recebeu os Dez Mandamentos no monte Gerizim (e não no monte Sinai) e que foi no alto desta montanha que os sacrifícios deveriam ser feitos a Deus (e não no Templo de Jerusalém). Apesar disto, os estudiosos consultam a versão samaritana para apoiar na determinação do texto original da Torá e também para retraçar o desenvolvimento das famílias textuais. Alguns rolo entre os Manuscritos do Mar Morto foram identificados como sendo do texto-tipo proto-samaritano da Torá. Comparações também já foram feitas entre a Torá samaritana e o Pentateuco da Septuaginta grega.

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Cânones bíblicos cristãos

Cristianismo primitivo

Essa Igreja utilizava o Antigo Testamento, especificamente a Septuaginta (LXX) entre os falantes do grego. Os Apóstolos não deixaram um conjunto definido de novas Escrituras e o Novo Testamento se desenvolveu ao longo do tempo. Textos atribuídos aos Apóstolos circulavam livremente entre as primeiras comunidades cristãs. As epístolas paulinas já circulavam de forma conjunta no final do século I. Justino Mártir, no início do século II, menciona as "memórias dos Apóstolos", que os cristãos chamaram de "evangelhos", e que eram consideradas tão autoritativas quando o Antigo Testamento. Marcião de Sinope (c. 140) foi o primeiro líder cristão histórico a propor e delinear um cânone unicamente cristão (apesar de depois ter sido considerado herético). Ela excluiu todos os livros do Antigo Testamento e incluiu apenas dez epístolas paulinas e uma versão do Evangelho de Lucas conhecida como "Evangelho do Senhor". Ao fazê-lo, Marcião estabeleceu uma forma de analisar textos religiosos que ainda hoje permanece no pensamento cristão.

Igreja Oriental

Orígenes (c. 184–c. 253), um dos primeiros estudiosos cristãos envolvidos na codificação do cânone bíblico, teve uma boa educação tanto na teologia cristã quanto na filosofia pagã, mas acabou sendo postumamente condenado no Segundo Concílio de Constantinopla (553) por causa de algumas obras que foram consideradas heréticas. O seu cânone incluía todos os livros do moderno cânone do Novo Testamento, com exceção de quatro livros: Tiago, II Pedro, II João e III João. Ele também incluiu o Pastor de Hermas, uma obra que depois foi descartada. O estudioso Bruce Metzger descreveu os esforços de Orígenes assim: "o processo de canonização representada por Orígenes ocorreu através de seleção, partindo de muitos candidatos para a inclusão para poucos".

Igreja ocidental

O primeiro concílio a discutir o cânone pode ter sido o Sínodo de Hipona (393), no norte da África, mas não restaram documentos desse evento. Um breve sumário de seus atos foi lido e aceito pelo Concílio de Cartago (397) e pelo Concílio de Cartago (419). Estes concílios foram realizados sob a autoridade de Agostinho, que considerava o cânone como já fechado na época. O Concílio de Roma (382), realizado sob o pontificado do papa Dâmaso I, possivelmente proclamou um cânone idêntico, se é que é possível relacionar o Decretum Gelasianum a ele. Da mesma forma, a encomenda de Dâmaso de uma versão em latim da Bíblia (a Vulgata), por volta de 383, foi instrumental para a fixação do cânone no ocidente, com a inclusão, a contragosto do tradutor Jerônimo, dos livros deuterocanônicos.

Cânones das várias tradições cristãs

Apesar disto, articulações plenamente dogmáticas sobre o cânone só foram feitas no Cânone de Trento (1546) para a Igreja Católica, a Confissão Gálica da Fé (1559) para o calvinismo, os Trinta e Nove Artigos (1563) para a Igreja da Inglaterra e o Sínodo de Jerusalém (1672) para a Igreja Ortodoxa. Outras tradições, como os luteranos e anabatistas, apesar de defenderem cânones fechados, não estabeleceram uma data exata para sua fixação. As tabelas seguintes refletem a situação atual dos diversos cânones. Todas as grandes tradições cristãs aceitam os protocânone hebraico inteiramente como sendo livros inspirados e autoritativos. Além disto, todas elas, com exceção dos protestantes, aceitam também os livros deuterocanônicos. É importante lembrar que mesmo estes livros aparecem em algumas bíblias protestantes, como é o caso da Bíblia do Rei Jaime e da Bíblia de Lutero, numa seção chamada "Apócrifa".

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Fontes consultadas

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