Cânfora
Cânfora é uma substância cerosa, semi-sólida ou parcialmente cristalina, branca ou translúcida, inflamável, com um forte e penetrante odor acre. É um terpenoide com a fórmula química C10H16O, historicamente extraído da árvore Cinnamomum camphora (a canforeira), mas presentemente maioritariamente obtido por síntese química. A molécula é quiral, com dois possíveis enantiómeros, como mostrado nos diagramas estruturais no quadro anexo. A estrutura à esquerda é o estereoisómero que ocorre naturalmente (forma R), enquanto o oposto é mostrada à direita (forma S). A cânfora é utilizada para fins medicinais (especialmente em medicina tradicional), como repelente de insectos e animais, pelo seu aroma como ingrediente em cosméticos, na preparação de fluidos de embalsamamento e como base para a produção de outros compostos. Nalgumas regiões, especialmente na Índia, é utilizado como ingrediente para acentuar o sabor de alguns alimentos e em cerimónias religiosas.
Fontes naturais
A cânfora é um terpenoide que ocorre naturalmente na seiva e nos tecidos de diversas plantas, aparentemente como uma defesa contra o ataque por insectos e, nalguns casos, eventualmente como defesas vegetais contra a herbivoria. O composto é abundante na madeira da canforeira, a espécie Cinnamomum camphora, uma grande árvore perenifólia nativa do sueste da Ásia (particularmente de Samatra e Bornéu, mas presente na Indochina e sueste da China). Embora a canforeira tenha sido historicamente a principal fonte de cânfora natural, outras espécies são igualmente ricas, ou mesmo mais ricas, neste composto. Entre as espécies historicamente usadas para produção de cânfora estão diversas espécies da família Lauraceae, com destaque para Ocotea usambarensis, e as pertencentes ao género Dryobalanops (árvores kapur), da família Dipterocarpaceae, um grupo de grandes árvores madeireiras da região indo-malaia.
Síntese
Nos finais do século XIX era sabido que o ácido nítrico oxida a cânfora em ácido canfórico. Em 1896 Albin Haller publicou um artigo demonstrando a possibilidade da síntese parcial da cânfora, seguido por outro, em colaboração com Gustave Blanc, publicando uma semi-síntese de cânfora a partir de ácido canfórico. Embora tivessem demonstrado a estrutura do composto, não foram capazes de provar indiscutivelmente que a síntese tinha sido conseguida. A primeira síntese total completa de ácido canfórico foi publicada por Gustaf Komppa em 1903. Os seus composto de partida foram oxalato de dietilo e ácido 3,3-dimetilpentanóico, que reagiram por via da condensação de Claisen produzindo o ácido dicetocanfórico. A metilação com iodeto de metilo e um complexo procedimento de redução permitiu produzir ácido canfórico. William Perkin publicou pouco tempo depois outro método de síntese.
O vocábulo «cânfora» deriva do latim medieval camfora, por sua vez derivado do árabe al-kafur, termo com origem no sânscrito, कर्पूरम् / karpūram. A cânfora era bem conhecida na Índia durante o período védico. O termo sânscrito provavelmente tem origem no antigo idioma malaio, no qual a cânfora era designada por kapur Barus, expressão que significa "giz de Barus", pois naquele tempo era aos comerciantes malaios que os comerciantes indianos compravam a cânfora, os quais a designavam por kapur, "giz", devido à sua coloração esbranquiçada. Barus era o nome de um antigo porto situado na costa oeste da ilha de Sumatra, próximo da moderna cidade de Sibolga, de donde os comerciantes traziam aquele produto. O porto de Barus era o local onde se concentrava o comércio da cânfora extraída da madeira de Cinnamomum camphora, a canforeira, árvore que era abundante naquela região. Mesmo na actualidade, naquela região e em boa parte da Indonésia, as bolas aromáticas de naftaleno e as bolas de naftalina são designadas por kapur Barus.
Biossíntese
A biossíntese da cânfora tem como base o pirofosfato de geranil, via ciclização do pirofosfato de linaloil para pirofosfato de bornil, seguido por hidrólise para borneol e oxidação para cânfora.
Reacções típicas
A cânfora apresenta as seguintes reacções típicas: A cânfora também pode ser reduzida para isoborneol usando borohidreto de sódio. Em 1998, um grupo de investigadores trabalhando na Indian Association for the Cultivation of Science, Kolkata, prepararam um filme fino de diamante usando cânfora como precursor para deposição química em fase vapor. Em 2007, nanotubos de carbono foram sintetizados com sucesso usando vapor de cânfora num processo de deposição química em fase vapor.
As propriedades químicas e bioquímicas da cânfora, aliadas à capacidade de rápida sublimação, dão a este composto utilizações diversificadas. Os usos modernos da cânfora são múltiplos: para além dos usos farmacológicos, é utilizada como plastificante do nitrato de celulose em explosivos e em pirotecnia, como repelente de traças, como substância antimicrobiana e como bálsamo. Os cristais de cânfora são usados para prevenir os danos provocado por insectos nas colecções de insectos e em herbários. Uma forma de gel anticomichão comum utiliza cânfora como princípio activo. A cânfora é rapidamente absorvida pela pele, produzindo uma sensação de resfriamento similar à do mentol e actua como um anestésico local leve e como antimicrobiano. Pode ser administrado em pequenas quantidades (50 mg) para sintomas de fatiga e sintomas cardíacos menores. É usado como saborizante de doces na Índia e na Europa.


