Canção dos Nibelungos
A Canção dos Nibelungos é um poema épico escrito na Idade Média por volta de 1200 em alto alemão médio. Embora use-se o termo "canção", o significado de liet em alto alemão médio abrange ainda 'estrofes', 'saga'. A "canção" dos Nibelungos é a mais famosa das versões da saga dos Nibelungos, que remonta à era do nomadismo dos povos bárbaros.
O rastro do poema foi perdido no fim do século XVI, porém manuscritos da canção, datados do século XIII em diante, foram redescobertos no século XVIII. Na atualidade há trinta e cinco manuscritos medievais conhecidos da canção, o que indica a grande popularidade da história durante a Idade Média. Onze desses manuscritos estão essencialmente completos, e vinte e quatro são fragmentários, incluindo uma versão em neerlandês (manuscrito T). O texto contém aproximadamente 2400 estrofes divididas em 39 âventiuren (capítulos). Em forma e conteúdo, as fontes do manuscrito têm uma tendência a desviar-se significativamente umas das outras. Os manuscritos completos mais antigos, todos datados do século XIII e contendo várias diferenças um em relação aos outros, são denominados "A" Hohenems-Münchener Handschrift (c. 1275), "B" St. Galler Handschrift (c. 1250 ou antes) e "C" Hohenems-Laßbergische ou Donaueschinger Handschrift e encontram-se hoje na Biblioteca Estadual Bávara de Munique, na Abadia de São Galo (Suíça) e na Biblioteca Estadual de Baden, em Karlsruhe, respectivamente.
Versão primitiva
Embora o manuscrito original da Canção dos Nibelungos tenha desaparecido, sabe-se que a epopeia transcrita no século XIII, com base na tradição oral, não é a primeira versão. Segundo o germanista francês Jean Fourquet, a análise dos manuscritos disponíveis indica que a versão primitiva da Canção dos Nibelungos (Ur-Nibelungenlied) pode ter sido escrita por um jogral do século XII, perto de Worms, em frâncico renano. Seu estilo é inspirado nas canções de gesta francesas e seria o resultado de uma compilação coerente de um corpus simultaneamente germânico e escandinavo.
A Canção dos Nibelungos é uma implementação medieval alemã do chamado Mito dos Nibelungos, um grupo de lendas cuja origem remonta à heróica época das migrações dos povos bárbaros. Nesse período, várias tribos germânicas invadiram o Império Romano e colonizaram vastas áreas da Europa ocidental. Uma destas tribos foi a dos burgúndios, que estabeleceram um reino na região do Reno, com capital em Worms. Um dos eventos históricos que possivelmente está nas origens da lenda é a destruição do reino burgúndio, por volta do ano de 436, pelo romano Flávio Aécio, com ajuda de soldados hunos. O poema se refere à destruição dos burgúndios numa luta travada no reino de Átila, o Huno. Outro evento histórico que pode ter influenciado o mito é o casamento de Átila com a princesa germânica Idico, em 453. No poema, Átila se casa com a princesa burgunda Kriemhild (em português, Cremilda). Outro acontecimento com possível reflexo no mito é o conflito na casa dos Merovíngios, entre a rainha Brünhild (em português, Brunilda) e a amante do rei, Fredegunde (em português, Fredegunda), ocorrido no século VI. Esse evento histórico tem um paralelo no poema na relação conflitiva entre as rainhas Brünhild e Kriemhild.
Como é frequente nos poemas épicos da época, o nome do autor da Canção dos Nibelungos não é indicado no texto. A opinão geral dos estudiosos é a de que o autor seria um poeta anônimo, de refinada educação, da região do Danúbio, entre Passau e Viena, e que a composição inicial dataria do período entre 1180 e 1210. Uma possibilidade é que o autor fosse da corte de Wolfger de Erla, bispo de Passau entre 1191 e 1204, que foi um grande incentivador da literatura, tendo sido mecenas de Walther von der Vogelweide, entre outros. Na Lamentação dos Nibelungos, um poema anexo à maioria dos manuscritos da Canção, há uma explicação fantasiosa para a escritura do conto. O texto indica que um tal "Mestre Conrado" foi encarregado de transcrever a história para o bispo Pilgrim de Passau (971-991). Esse bispo teria sido, supostamente, testemunha ocular dos acontecimentos. Não é claro o sentido dessa menção a Pilgrim. Isso poderia dever-se a que o autor utilizou fontes da época de Pilgrim para compor a Canção, talvez da autoria de um mestre Conrado. Também poderia ser simplesmente uma homenagem ao ilustre predecessor de Wolfer, responsável pela cristianização dos húngaros.
A Canção dos Nibelungos está composta por estrofes de quatro versos denominadas Nibelugenstrophe ou Kürenbergerstrophe, uma métrica que influenciou diversos poemas épicos e o Minnesang. Elas estão organizados em pares de versos rimados chamados de Langzeile. As cerca de 2.400 estrofes da Canção dos Nibelungos estão subdivididas em 39 âventiure (aventuras), capítulos de tamanho variável com subtítulos. Estes subtítulos variam muito de manuscrito a manuscrito e são fruto de adições posteriores.
A Canção dos Nibelungos está constituída por duas partes. A primeira parte descreve a viagem de Siegfried à terra dos burgúndios, o amor de Siegfried e Kriemhild, a conquista de Brünhild pelo rei Gunther com a ajuda de Siegfried, o casamento de Siegfried e Kriemhild e a morte de Siegfried por Hagen. A segunda parte narra a vingança de Kriemhild, que se casa em segundas núpcias com Átila, o Huno e atrai os cavaleiros burgundos para uma emboscada na corte huna, o que causa um massacre em que morrem quase todos os protagonistas. O manuscrito "C" começa com uma estrofe que antecipa o final trágico e que se acredita que é uma adição posterior ao poema. Embora seja o manuscrito mais antigo que se conhece, acredita-se que sua versão seja posterior às versões *A e *B. Uns ist in alten mæren wunders vil geseit von helden lobebæren, von grôzer arebeit, von freuden, hôchgezîten, von weinen und von klagen, von küener recken strîten muget ir nû wunder hœren sagen.
Primeira parte
O poema começa apresentando a corte burgunda em Worms, onde mora a bela princesa Kriemhild junto a seus três irmãos: Gunther, rei dos burgúndios, Gernot e Giselher. Siegfried von Xanten, príncipe de extraordinária força e orgulho, filho do rei Sigmundo e da rainha Siglinda, escuta sobre a beleza da princesa Kriemhild e resolve viajar a burgúndia e conhecê-la. Siegfried chega a Worms, capital do reino burgúndio, com o objetivo de casar-se com Kriemhild, porém não o revela a princípio. No momento da chegada do herói, desconhecido no país burgúndio, as aventuras da juventude de Siegfried são contadas por Hagen von Tronje, vassalo de Gunther. Hagen conta a Gunther que Siegfried obteve o tesouro dos nibelungos após vencer os irmãos Nibelungo e Schilbungo e um exército de guerreiros nibelungos. Hagen também menciona que Siegfried matou um temível dragão, o que lhe conferiu invencibilidade quando seu corpo cobriu-se com o sangue da fera. O único lugar vulnerável do corpo de Siegfried, conhecido apenas por ele, é um ponto onde uma folha de tilia impediu o contato do sangue com sua pele.
Segunda parte
A segunda parte começa no capítulo 20. A partir desse ponto os burgúndios são chamados de nibelungos no poema, presumivelmente por haverem tomado o tesouro. Kriemhild jura vingar-se pela morte do marido e o roubo do seu tesouro, passando seu tempo entre o lamento e a oração. Muitos anos depois, o rei Átila, o Huno (Etzel) pede Kriemhild em casamento, que aceita e viaja ao país dos hunos (correspondendo aproximadamente à atual Hungria). Após o casamento, os dois tem um herdeiro. Usando o batismo do filho como desculpa, ela convida seus parentes para uma festa no castelo de Átila. Desconfiado, Hagen não quer ir, mas termina sendo convencido pelos parentes de Kriemhild.
A Canção dos Nibelungos, a saga Thidreks e a saga Völsunga serviram como material para a obra de Richard Wagner, O Anel do Nibelungo. Certamente, alguns dos elementos de ambas as versões da lenda germânica foram inspirações para a obra de J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, bem como para o seu conto The Legend of Sigurd and Gudrún. Em 1924, o épico foi transformado em uma série de dois filmes, a saber; Die Nibelungen: Siegfrieds Tod e Die Nibelungen: Kriemhilds Rache, do diretor alemão Fritz Lang, com roteiro escrito por Thea von Harbou. Mais remakes foram feitos em 1966.


