Hoplosternum littorale
O Hoplosternum littorale, popularmente chamado no Brasil de tamoatá é uma espécie de peixe demersal de água doce, com preferência por águas pantanosas, pertencente à família Callichthyidae, ordem Siluriformes.
Tamuatá, tambuatá, camoatá, tamboatá provêm do tupi antigo tamuatá.
É nativo das bacias amazônicas do Amazonas e do Orinoco, embora tenha ampla distribuição na América do Sul na porção leste dos Andes, desde o norte da Argentina até os rios das Guianas e Venezuela, incluindo as bacias do Paraná e rio Paraguai e sistemas costeiros do sul do Brasil. Foi identificado em pequena quantidade no Alto Paraná e na bacia do rio São Francisco; foi sugerido que essas ocorrências representem que tenham ali sido introduzidas, o que certamente ocorreu no Indian River Lagoon, da Flórida.
Considerado peixe de tamanho médio, os machos podem atingir um comprimento de 24 cm. O H. littorale possui uma carapaça de placas e tem a região dorso-ventral comprimida. Os machos crescem até um tamanho médio e máximo maior que as fêmeas e, durante a estação reprodutiva, desenvolvem depósitos de gordura na barbatana peitoral e uma espinha peitoral recurvada alongada que muitas vezes assume uma cor avermelhada. Machos com espinhas peitorais recurvadas não são encontrados fora do período reprodutivo.
Suas atividades não-reprodutivas, como alimentação e deslocamentos, são principalmente noturnas. Atinge a idade máxima de quatro anos de vida. A dieta do H. littorale consiste essencialmente em invertebrados bentônicos e detritos. Prefere habitar as áreas alagadas e pantanosas, como as da foz do rio Amazonas e do Orinoco, Dessa forma não é encontrado em riachos de florestas tropicais e rios de águas claras que drenam o solo das regiões pré-cambrianas da Guiana ou o Escudo Brasileiro, onde a água é extremamente pobre em minerais dissolvidos. Esta espécie está restrita aos pântanos da América do Sul tropical e subtropical e às planícies aluviais dos rios de águas claras da Amazônia originários dos Andes. Tais ambientes são caracterizados por baixos níveis de oxigênio dissolvido e condições marcadamente sazonais causadas principalmente por flutuações pluviométricas. Sua respiração ocorre tanto pelas guelras quanto pelos intestinos. Porém, a respiração intestinal não se manifesta já quando eclode dos ovos, e o desenvolvimento do intestino respiratório ocorre durante todo o período juvenil (até 32 dias de idade). As larvas recém-eclodidas não têm a capacidade de respirar ar pelos intestinos; entretanto, é possível que elas absorvam oxigênio através da pele neste ponto, antes que as placas da armadura se desenvolvam. Logo depois, entre 12 e 23 dias de idade, os jovens têm a capacidade de respirar ar, mas o intestino respiratório ainda não terminou de se desenvolver. O intestino respiratório está bem desenvolvido entre 24 e 32 dias de vida.
A primeira reprodução ocorre após um ano de vida. A desova é desencadeada pelas primeiras chuvas e ocorre na estação quente e chuvosa. Como os demais membros da família Callichthyidae, constrói um ninho de bolhas; entre os Callichthyidae, esta espécie é relatada como tendo a estrutura de ninho mais complexa. O ninho, em forma de cúpula, é rico em oxigênio: nas condições hipóxicas da água dos pântanos tropicais, a principal função do ninho de bolhas parece ser fornecer oxigênio aos ovos em desenvolvimento, elevando-o acima da superfície da água e, ao mesmo tempo, protegendo-o da dessecação. Pode também servir para proteger a ninhada contra predadores, regular a temperatura, identificar o centro do território do macho e sincronizar as atividades reprodutivas. As atividades de construção de ninhos geralmente duram de 1 000 a 1 500 horas, mas apenas em dias claros e quentes, especialmente durante as horas mais quentes, podendo ocorrer também à noite. A maioria dos ninhos é construída em pântanos recentemente inundados, especialmente em águas abertas na área periférica do pântano. É observada uma distância mínima de 10 metros entre os ninhos. O ninho é o centro de um território que é vigorosamente defendido pelo macho, utilizando os seus espinhos peitorais alargados. O diâmetro e a altura do ninho são em média 30 e 6 cm, respectivamente.
É economicamente importante, amplamente pescado nos deltas do Amazonas e do Orinoco. Na Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Trinidad, é um peixe bastante popular na alimentação. Também é uma espécie apreciada no aquarismo. O H. littorale é cultivado comercialmente em Trindade e Tobago, Guiana e Suriname, onde atende o mercado local e de exportação, tendo atingido em 2001 um preço por quilograma de 8 dólares.
Pesca amazônica
O tamoatá é um dos principais pescados da Ilha de Marajó, embora sua produção esteja em declínio: a região chegava a exportá-lo ao Suriname, na década de 1950. No Mercado Ver-o-Peso da cidade paraense de Belém, principal da região, a espécie chega a representar 6% do total de peixes desembarcados para venda. As formas de captura principais são a tarrafa (redes circulares com pesos de chumbo distribuídos na borda) e o arrasto - quando dois ou três pescadores atravessam uma lagoa puxando uma rede e, assim, capturando os peixes ali existentes. No período de defeso a pesca é feita apenas para subsistência dos ribeirinhos.


