Grande Mesquita de Cairuão
A Grande Mesquita de Cairuão, também chamada Mesquita de Uqueba ibne Nafi, Mesquita de Uqueba ibne Nafi ou Mesquita de Sidi Oqueba em homenagem ao seu fundador, é uma das principais mesquitas da Tunísia e situa-se na cidade de Cairuão.
A mesquita encontra-se na parte nordeste da almedina (centro histórico) de Cairuão, no bairro intramuros de Humate Aljami (literalmente: "bairro da Grande Mesquita"). Originalmente, esta localização deve ter correspondido ao centro do tecido urbano da cidade fundada por Uqueba ibne Nafi, mas, devido à natureza do terreno, atravessado por várias linhas de água, a cidade expandiu-se para sul. As perturbações sofridas por Cairuão devido à invasões hilalianas c. 1057 que provocaram o declínio da cidade também contribuíram para a mesquita deixar de estar no centro e atualmente se situar na periferia, próxima das muralhas. O edifício é um vasto quadrilátero irregular com mais de 9 000 metros quadrados de área, alongado na direção norte-sul, mais comprido no lado oriental (com 127,6 metros) do que no lado oposto (125,2 m) e mais largo no lado sul (78 m) do que no lado norte (72,7 m), a meio do qual ergue-se o minarete.
Construção, ampliações e restauros
Quando fundou Cairuão em 670, o general conquistador árabe Uqueba ibne Nafi decidiu colocar a mesquita no centro da cidade, perto da sede do governador. O local de culto inicial foi erigido entre 670 e 675. Pouco tempo depois da construção, cerca de 690, a mesquita foi destruída durante a ocupação de Cairuão pelos Berberes, inicialmente liderados por Kusaila. Foi reconstruída pelo general gassânida Haçane ibne Numane em 703. Com o crescimento progressivo da população de Cairuão e do consequente aumento do número de fiéis, Hixame ibne Abedal Maleque, califa omíada de Damasco, por intermédio do seu governador Bixer ibne Safuane, ordenou que fossem feitos melhoramentos na cidade, que incluíram a renovação e alargamento da mesquita cerca dos anos 724–728. Esta ampliação obrigou à demolição do edifício existente à exceção do mirabe. Foi durante estas obras que foi construído o minarete.
Relatos e testemunhos históricos
Alguns séculos depois da sua fundação, a Grande Mesquita de Cairuão foi objeto de numerosas descrições por parte de historiadores e geógrafos árabes da Idade Média. Estes relatos incidem principalmente sobre as diferentes fases de construção e ampliação do santuário, bem como as contribuições sucessivas de numerosos príncipes para a decoração do interior (mirabe, mimbar, tetos, etc.). Entre os autores que escreveram sobre a mesquita cujas obras chegaram até nós figuram Albacri, um geógrafo e historiador do Alandalus morto em 1094 que escreveu detalhadamente sobre a história e descrição da mesquita na sua obra Descrição da África do Norte, Anuairi (historiador egípcio morto em 1332) e ibne Nagi (jurista e hagiógrafo de Cairuão morto c. 1435). Referindo-se a um texto mais antigo de Altujibi (autor cairuanês morte em 1031), ibne Nagi, a propósito das contribuições para o edifício e seu embelezamento pelo soberano aglábida Abul Ibrahim, relata: «Ele construiu no interior da mesquita de Cairuão a cúpula que encontra-se na entrada da nave central bem como duas colunatas que a flanqueiam em ambos os lados, e as galerias foram lajeadas por sua iniciativa. Em seguida fez o mirabe.» Salientando o empenho do príncipe na decoração do mirabe, acrescenta que «o emir deu ao mirabe esta decoração maravilhosa, empregando mármore, ouro e outros belos materiais.»
O mirabe, que indica a quibla (direção de Meca) e diante do qual o imã dirige a oração, encontra-se a meio da parede sul da sala de oração. É formado por um nicho em quarto de esfera, com duas colunas de mármore e coroado por uma semicúpula em madeira pintada. O nicho mede dois metros de largura, 4,5 metros de altura e 1,6 metros de profundidade. Considerado como o exemplo mais antigo do mirabe côncavo,, pensa-se que o seu estado atual data dos anos 862–863. O mirabe, cuja decoração constitui um testemunho notável da arte muçulmana dos primeiros séculos do islão, distingue-se pelo seu aspeto harmonioso e a qualidade dos ornamentos. Na parte superior é rodeado por 139 azulejos com brilho metálico, cada um medindo 21,1 centímetros de lado e dispostos em xadrez. Divididos em dois grupos, datam do início da segunda metade do século IX e, pelo seu estilo e pela sua técnica de fabrico, têm grandes semelhanças com as peças executadas na mesma época na Mesopotâmia dos Abássidas (atual Iraque). A sua proveniência foi tema de controvérsia entre os especialistas, que colocavam as hipóteses de terem sido fabricados em Bagdade ou em Cairuão por um artesão de de Bagdade, mas estudos recentes demonstraram que eles foram fabricados na Mesopotâmia e depois importados para Cairuão.
Recinto
O recinto da Grande Mesquita de Cairuão, cujos muros são suportados por contrafortes de diversas formas e tamanhos, tem atualmente nove portas: seis dão acesso aos pórticos do pátio, duas dão acesso à sala de oração e a nona permite aceder à sala do imã e à maqsura. A distribuição das portas é a seguinte: quatro em cada uma das fachadas ocidental e oriental, uma na fachada sul e nenhuma na fachada norte. Algumas das portas, como a Bab al-Gharbi ("Porta do Ocidente"), no lado oeste, são precedidas por alpendres salientes, flanqueados por possantes contrafortes e cobertos por cúpulas assentes em tambores quadrados, em cujos ângulos se desenham trompas de três arquivoltas.
Pátio
O acesso ao pátio é feito por seis entradas laterais que datam dos séculos IX e XIII. O pátio é um vasto espaço trapezoidal a céu aberto cujos lados medem 67 metros (oeste), 67,25 metros (leste), 50,25 metros (norte) e 52,45 metros (sul). É rodeado em três dos lados (sul, leste e oeste) por um pórtico com duas fileiras de arcadas; o lado norte, cuja disposição é interrompida pelo minarete, tem igualmente um pórtico, mas com apenas uma arcada. Os pórticos abrem-se em arcos ligeiramente ultrapassados que se apoiam sobre colunas de mármores diversos, de granito e de pórfiro, reutilizados de monumentos romanos, paleocristãos ou bizantinos provenientes nomeadamente de Cartago. Os capitéis são de estilos muito variados: jónicos, compósitos, mais frequentemente coríntios ou corintizantes (com folhas de acanto aveludadas, espinhosas ou serrilhadas), alguns com figuras de animais (águias e carneiros), mas significativamente modificados durante o processo de reutilização, outros são apenas impostas com faces trapezoidais e outros ainda em forma de medalhão, etc.
Minarete
O minarete, situado no meio da fachada sul, a mais estreita do edifício, domina a mesquita do alto dos seus 31,5 m e assenta sobre uma base quadrada com 10,7 metros de lado. Situado no interior do recinto e não dispondo de acesso direto pelo exterior, é constituído por três níveis degressivos sobrepostos, sendo o de cima coroado por uma cúpula. O primeiro nível, com 18,9 metros de altura, adelgaça-se cerca de 50 cm desde a base até ao seu topo. O segundo nível, com cinco metros de altura e 7,65 metros de lado, é decorado em cada um dos seus quatro lados com três nichos de fundo plano encimados por arcos de volta inteira ultrapassados. O terceiro nível é um lanternim com 5,45 metros de altura não contando com a cúpula por 5,5 metros de largura. Apresenta nas quatro faces uma arcada em ferradura flanqueada por colunas que é ladeada por dois arcos cegos mais estreitos. No cimo de cada face há cinco pequenos nichos de volta inteira, todos cegos e com fundo plano à exceção do que está ao centro da face sul, o qual é aberto. O lanternim é coberto por uma cúpula sobre trompas caneladas com 35 nervuras, indubitavelmente posterior à construção original. O primeiro e segundo andares dispõem de um guarda-corpos ameado com merlões arredondados. O minarete servia simultaneamente de torre de sentinela e de ponto de chamada para a oração.
Sala de oração
A sala de oração situa-se no lado sul do pátio e é acessível por 17 portas em talha de madeira de cedro. Um pórtico com duas filas de arcadas precede a vasta sala, que se apresenta sob a forma de um retângulo com 70,6 metros de comprimento por 37,5 metros de largura. A sala hipostila é dividida em 17 naves e oito tramos. As naves estão orientadas perpendicularmente à parede da quibla (que corresponde à parede sul da sala). Mais larga que as outras, a nave central e o tramo que se estende ao longo da parede da quibla cruzam-se em ângulo reto em frente ao mirabe. Esta disposição, dita "em T", que surge pela primeira vez de forma clara em 836 na Grande Mesquita de Cairuão, também se encontra nas duas mesquitas iranianas de Samarra — a Grande Mesquita e a Mesquita de Abu Dulafe, construídas, respetivamente, em 847 e 859 — foi copiada em numerosas mesquitas magrebinas e andalusinas, pelo que se tornou uma caraterística. Esta disposição, ilustrada de forma exemplar na mesquita de Cairuão, confere a ela um equilíbrio notável que outorga um lugar de escolha na arquitetura religiosa muçulmana.
Colunas
Na sala de oração, 414 colunas de mármores preciosos, granito e pórfiro (das mais de 500 que existem na mesquita), retiradas de construções antigas da região, como Sbeitla, Cartago, Hadrumeto e Chemtou, suportam os arcos, que na sua maior parte são de volta inteira ultrapassada. Uma lenda conta que não se podem contar sem cegar. Os capitéis apresentam uma grande diversidade de formas e estilos (coríntios, jónicos, compósitos, etc.). Alguns foram esculpidos para a mesquita, mas a maior parte deles são provenientes de edifícios romanos ou bizantinos, datáveis dos séculos II a VI, que foram reutilizados. Para o arqueólogo alemão Christian Ewert, a disposição particular dos materiais reutilizados que rodeiam o mirabe obedeceria a um programa bem definido que representaria simbolicamente a planta da Cúpula da Rocha de Jerusalém. Os fustes das colunas foram talhados em mármores de diferentes cores e origens diversas. Os de mármore branco provêm de Itália, alguns situados na zona do mirabe são em pórfiro vermelho importado do Egito, enquanto que os de mármore esverdeado ou rosa vieram de pedreiras de Chemtou, no noroeste do que é hoje a Tunísia. Apesar de terem alturas variadas, as colunas estão dispostas engenhosamente de forma a sustentarem harmoniosamente as bases dos arcos. As diferenças de altura são compensadas pela altura variável das bases dos capitéis e das impostas, algumas das quais em madeira de cedro.
Cúpulas e tetos
A cobertura da sala de oração é realizada por tetos pintados com motivos vegetalistas e duas cúpulas: uma no início da nave central e outra em frente ao mirabe. A primeira, que se eleva em frente da grande porta mediana que se abre para a nave central, está desenhada como a cúpula do bahou, ou cúpula da galeria-nártex (pórtico que precede a sala de oração). A sua construção remonta originalmente à época aglábida, no século IX, durante as obras levadas a cabo durante o reinado de Aboboerim Amade, em 862–863. Segundo Albacri, historiador e geógrafo andalusino, «é rodeada por 32 colunas de belo mármore; no interior, é coberta de esculturas magníficas e de arabescos trabalhados com uma precisão admirável. Todas as pessoas que a vêm não hesitam declarar que seria impossível encontrar alhures um monumento mais belo.»
A Grande Mesquita de Cairuão é um dos raros edifícios religiosos do islão que conserva, intactos e autênticos, a quase totalidade dos seus elementos arquitetónicos e decorativos. Graças à riqueza do seu repertório ornamental, é um autêntico museu de arte e de arquitetura islâmicas. A maior parte das obras que fazem a reputação da mesquita são ainda conservadas in situ, embora uma parte delas tenha sido reunida nas coleções do Museu Nacional de Arte Islâmica de Racada, situado a uma dezena de quilómetros a sudoeste de Cairuão. Da biblioteca da mesquita provém uma importante coleção de pergaminhos e manuscritos caligrafados, os mais antigos remontando à segunda metade do século IX. Segundo M'hamed Hassine Fantar, professor de arqueologia da Universidade de Tunes, esta preciosa coleção é «na opinião geral, uma das coleções de pergaminhos mais importantes do mundo muçulmano e a mais célebre.» Divulgada desde o fim do século XIX pelos orientalistas franceses Octave Houdas e René Basset, que a evocaram no relatório da sua missão científica à Tunísia publicado no “Boletim de correspondência africana” em 1882, segundo o inventário realizado no período haféssida em 1293–1294 inclui vários exemplares do Alcorão, tafsirs (comentários do texto corânico), obras de direito muçulmano que versam principalmente sobre a fiqh (jurisprudência) maliquita e as suas fontes. Estas últimas constituem os fundos mais antigos de literatura jurídica maliquita que chegaram aos nossos dias.
À época do seu maior esplendor, entre os séculos IX e XI, Cairuão foi um dos maiores centros da civilização muçulmana, cuja reputação como centro de erudição se estendia ao conjunto do Magrebe. Durante esse período, a Grande Mesquita da cidade foi simultaneamente um lugar de oração e um centro de ensino das ciências islâmicas da corrente maliquita, cujo papel e importância se pode comparar, por exemplo, à da Universidade de Paris durante a Idade Média na Europa Ocidental. Além dos estudos consagrados ao aprofundamento do pensamento religioso e à jurisprudência maliquita, a mesquita acolhia igualmente cursos nas mais diversas matérias profanas, como as matemáticas, astronomia, medicina e botânica. A transmissão do saber era assegurada por sábios ilustres e teólogos, entre os quais figuraram, por exemplo, o imã Sanune (ca. 776–854) ou Assade ibne Alfurate (759–828), juristas eminentes que contribuíram muito para a difusão do pensamento maliquita, os médicos Algizar (898–980) e Isaque ibne Inrane, ou os matemáticos Abu Sal de Cairuão e Abde Almonim Alquindi. A mesquita era a sede de uma prestigiada universidade dotada de uma importante biblioteca que contava com um número considerável de obras científicas e teológicas, constituindo o polo cultural e intelectual mais notável do Norte de África durante os séculos IX, X e XI.


