Brasão de armas de Portugal
O brasão de armas de Portugal constitui o principal emblema heráldico e um dos mais tradicionais símbolos de Portugal. É frequentemente apelidado de Cinco Quinas ou simplesmente Quinas, como referência à designação popular de cada um dos cinco escudetes que constituem o elemento principal do seu escudo de armas.
Após a implantação do regime republicano em Portugal a 5 de outubro de 1910, o Governo Provisório da República nomeou, a 15 de outubro do mesmo ano, uma comissão para apresentar o projeto para uma nova bandeira nacional, da qual fazia parte o pintor Columbano Bordalo Pinheiro, que se encarregou do seu desenho. A comissão apresentou não só um modelo de bandeira nacional, mas também os modelos de outros símbolos visuais tais como as bandeiras regimentais para as unidades militares, o jaque para os navios de guerra e o emblema oficial (ou seja o brasão de armas) a usar pelos diferentes departamentos governamentais. Os modelos propostos foram aprovados pelo Governo Provisório a 29 de novembro, sendo a nova bandeira nacional — contendo as novas armas nacionais — apresentada ao público no 1º de dezembro, dia que havia sido estabelecido como o da Festa da Bandeira. Depois de muita polémica e acesos debates sobre os modelos escolhidos, os mesmos vieram a ser aprovados formalmente pelo Decreto da Assembleia Nacional Constituinte de 19 de junho de 1911, sendo os seus detalhes especificados pelo parecer da comissão da nova bandeira nacional publicado no Diário do Governo n.º 150 de 30 de junho daquele ano.
Heraldicamente, as armas de Portugal podem ser descritas do seguinte modo: A tradição indica que as primeiras armas usadas por D. Afonso Henriques seriam as herdadas de seu pai, o conde D. Henrique, descritas como «um escudo de prata, com uma cruz de azul». Os cinco escudetes e besantes teriam supostamente surgido numa fase posterior do reinado de D. Afonso Henriques, ainda que só existam evidências históricas da sua existência a partir do reinado de seu filho, o rei D. Sancho I. A origem e o significado original das cinco quinas como armas de Portugal têm vindo a ser explicados por várias teorias, mas nenhuma das quais definitivamente comprovada. Não foi ainda descoberto qualquer esclarecimento contemporâneo da própria época em que as armas terão surgido, sendo que só cerca de 200 anos depois é que surge a teoria mais antiga hoje conhecida, apresentada por D. Pedro Afonso, conde de Barcelos e filho natural do rei D. Dinis.
As armas completas de Portugal são constituídas pelo escudo — ele próprio constituído por um campo central carregado com as quinas e uma bordadura carregada com castelos — e pelos elementos exteriores — que incluem a esfera armilar, rodeada por ramos de louro e respetivo laço nalgumas versões das armas.
Escudo de Portugal
"Quina" é a designação popular - entretanto consagrada pela heráldica - de cada um dos cinco escudetes que constituem o elemento central do escudo das armas de Portugal. A sua importância nas armas leva a que, por sinédoque, a totalidade das mesmas seja frequentemente referida por "Cinco Quinas" ou simplesmente "Quinas". A sua perceção popular como símbolo do país leva a que a palavra "Quinas" seja inclusive empregue como um quase metónimo de "Portugal", em diversos contextos. A bandeira de Portugal é assim frequentemente referida por "Bandeira das Quinas" e as seleções portuguesas de vários desportos são referidas por "seleções das Quinas". As cinco quinas são ocasionalmente usadas como um emblema em si mesmo próprio, não contidas em qualquer escudo, como acontecia nos uniformes da Seleção Portuguesa de Futebol usados até à década de 1960 ou no modelo de cartão de cidadão em vigor até 2024.
Elementos exteriores
A esfera armilar é um importante emblema nacional desde o início do século XVI, mas a sua integração nas armas de Portugal propriamente ditas é relativamente recente. Foi introduzida como empresa ou emblema pessoal do rei D. Manuel I (1495-1521), sendo largamente usada no reinado deste como um complemento das armas reais (frequentemente, em conjunto com a cruz da Ordem de Cristo). Acabou por deixar de ser um emblema meramente pessoal e adquiriu o estatuto de emblema nacional, continuando o seu uso para além da morte daquele rei. A esfera armilar foi especialmente associada à expansão marítima e ao Ultramar Português onde era usada frequentemente em substituição do brasão de Portugal, como eram os casos das moedas portuguesas emitidas em África, Ásia e América.
Os símbolos heráldicos nacionais de Portugal desenvolveram-se a partir dos símbolos régios, com as armas reais a adquirirem gradualmente o estatuto de armas nacionais. As atuais armas nacionais Portuguesas resultam de uma evolução ao longo de quase mil anos de história. Começando com o escudo de prata com uma cruz de azul que constituira as hipotéticas armas do conde D. Henrique no início do século XII, sucessivos elementos foram sendo alterados, acrescentados ou removidos, culminando no atual modelo oficial de armas nacionais estabelecido em 1910.
Evolução do escudo
O elemento fundamental e sempre constante das armas portuguesas é e sempre foi o escudo de Portugal. Este resultou numa evolução de cerca de 300 anos, ocorrida entre os séculos XII e XVI. A teoria mais comum aponta para que D. Afonso Henriques, como conde e mais tarde primeiro Rei de Portugal, fizesse uso de um escudo de prata, com uma cruz de azul. Este seria o escudo já usado pelo seu pai, o conde D. Henrique. Não há contudo certezas nem de quais as armas realmente usadas por D. Afonso Henriques, nem de quais as usadas pelo seu pai ou mesmo se ambas eram idênticas. Numa altura em que a heráldica estava ainda muito nos seus primórdios e em uso muito limitado, não há sequer certeza que os mesmos fizessem já uso de brasões de armas.
Elementos exteriores do escudo
Até ao início do século XIV, as armas de Portugal limitavam-se ao próprio escudo, não havendo quaisquer evidências históricas do uso de elementos exteriores do mesmo. O primeiro elemento exterior a aparecer foi a coroa real sobreposta ao escudo, que começa a ocorrer em algumas representações das armas a partir do século XIV. Inicialmente, é representada uma coroa aberta de formato tosco que evolui posteriormente para um formato idêntico ao atual coronel de duque, consistindo portanto num círculo de ouro, cravejado de joias, sotoposto a florões do mesmo. O uso da coroa nas representações das armas de Portugal intensifica-se sobretudo a partir do reinado de D. Manuel I (1495-1521). Quando ocasionalmente, as armas são representadas incluindo um elmo, a coroa real é nele assente. Contudo, na maioria dos casos, as armas são representadas sem elmo e com a coroa diretamente assente no escudo. Desde o século XVI e até à implantação da república em 1910, a coroa real passa a estar virtualmente presente em praticamente todas as representações das armas de Portugal, sendo ao mesmo tempo o único elemento constante exterior ao escudo. No reinado de D. Sebastião (1557-1578), a coroa aberta é substituída por uma coroa fechada com um único arco. No século XVII, passa a ter dois arcos. Finalmente, no reinado de D. Pedro II (1683-1706), a coroa real passa ter quatro arcos, passando a de dois arcos a ser a coroa do Príncipe herdeiro de Portugal.
Ao longo dos séculos, as armas de Portugal foram colocadas em edifícios, moedas, documentos, bandeiras e inúmeros outros suportes, sendo representadas sob a forma de escultura, gravura, pintura, desenho e outras formas de artes visuais. Desde o final do século XX, a arte digital tem vindo também a ser utilizada como forma de representação das armas em páginas de rede ou outros suportes multimédia. Tirando partido da liberdade artística permitida pela heráldica, as representações plásticas das armas foram variando ao longo dos tempos, seguindo normalmente os estilos preferidos nas diversas épocas. O escudo de ponta redonda veio a ser fixado já no século XX como o formato de padrão oficial. Antes desta altura, nunca tinha existido qualquer padrão fixo, em linha com a boa heráldica na qual o formato do escudo utilizado nas representações plásticas das armas não deve ser definido no ordenamento das mesmas, devendo sim ser deixado à liberdade artística. Os formatos foram assim variando de acordo com as modas das épocas e o tipo de aplicação. O escudo de ponta redonda foi contudo o mais utilizado ao longo da história, com maior intensidade nos períodos do século XIII ao início do XIV, do final do século XVI ao XVIII e a partir do século XX. Devido ao seu uso comum na heráldica portuguesa, este formato veio também a ser conhecido como "escudo português". Outros formatos foram contudo também usados. Assim, no século XII, usou-se o escudo em amêndoa (dito "normando"), sendo neste formato a mais antiga representação dos cinco escudetes das armas de Portugal, nomeadamente nos morabitinos cunhados no reinado de D. Sancho I (1185-1211). O escudo ogival (dito "clássico") foi o mais representado do final do século XIV e ao início do XVI. Sobretudo no período do reinado de D. Manuel I (1495-1521), é frequentemente representado um escudo de formato peculiar, com a ponta redonda terminando em bico e com o bordo superior duplamente chanfrado formando três pontas. Na segunda metade do século XIV e até final do século XVII, volta a privilegiar-se o uso do escudo de ponta redonda. Do final do século XVII até ao início do século XX, o principal formato representado é o do escudo com a ponta boleada nos cantos e terminando em bico (dito "francês moderno" ou simplesmente "francês"). Apesar do escudo dito "francês" ter sido o mais utilizado durante esta época, a influência do rococó que se fez sentir no século XVIII, levou ao uso de uma série de formatos complexos, incluindo o escudo de cabeça de cavalo (dito "italiano"), os escudos em forma de cartelas recortadas e os escudo enquadrados por molduras ou tarjas. Na primeira metade do século XIX, usa-se frequentemente o escudo de formato oval.


