Bossa nova
Bossa nova é o gênero musical resultante de um movimento de transformação do samba irradiado a partir da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro no final da década de 1950 e que, por conseguinte, passou a dar nome ao estilo de interpretação e acompanhamento rítmico dele surgido, que ficou conhecido como “batida diferente”. De acordo com o musicólogo Gilberto Mendes, a vertente era uma das “três fases rítmicas do samba”, na qual a "batida" da bossa havia sido extraída a partir do "samba de raiz". Segundo o jornalista Ruy Castro, a bossa nova era “uma simplificação extrema da batida da escola de samba”, como se dela tivessem sido retirados todos os instrumentos e conservado apenas o tamborim.
A palavra "bossa" apareceu pela primeira vez na década de 1930, em "Coisas Nossas", samba de Noel Rosa: "O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas coisas (...)". A expressão "bossa nova" passou a ser utilizada também na década seguinte para aqueles sambas de breque, baseado no talento de improvisar paradas súbitas durante a música para encaixar falas. Alguns críticos musicais destacam uma certa influência que a cultura americana do pós-guerra,[nota 4] de músicos como Stan Kenton, combinada ao impressionismo erudito, de Debussy e Ravel, teve na bossa nova, especialmente do cool jazz. Embora tenha influência da música estrangeira, a bossa nova possui elementos de samba sincopado. Além disso, havia um inconformismo com a temática das letras dos sambas-canções da época, os chamados sambas de fossa, que não eram adequados para uma juventude que vivia na praia e não nas boates sem janelas.
Precursores da Bossa Nova
Os cantores Dick Farney e Lúcio Alves, que fizeram sucesso nos anos da década de 1950 com um jeito suave e minimalista de cantar - em oposição a cantores de grande potência sonora de gerações anteriores como Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Silvio Caldas e Dorival Caymmi - foram influências nos futuros artistas da bossa nova. Dick Farney tocou piano na orquestra de Carlos Machado no Cassino da Urca e gravou a música "Copacabana" em julho de 1946, aos 25 anos. Com seu piano jazzístico passou dois anos e meio tocando nos Estados Unidos. Retornou ao Brasil em dezembro de 1948. Após sua volta foi fundado o Sinatra-Farney Fan Club, clube que segundo o escritor Ruy Castro foi uma espécie de manjedoura para a bossa nova, já que foi frequentado por muitos futuros destaques do movimento, exceto Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Luis Bonfá e Billy Blanco. Em 1949 um grupo fundou o Dick Haymes-Lúcio Alves Fan Club. Haymes era um crooner de Big Bands norte americanas e Lúcio Alves era crooner, violonista e arranjador vocal de seu grupo Os Namorados da Lua. Alves também tinha um jeito suave de cantar e como Farney também tentou fazer carreira nos EUA por um ano. Ao voltar ao Brasil, retomou sua carreira como cantor independente.
O marco inicial da bossa nova foi o lançamento da música "Chega de Saudade", de autoria de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, lançada originalmente por Elizeth Cardoso em abril de 1958, em seu álbum Canção do Amor Demais. Convidado por Jobim, João Gilberto tocou violão nessa faixa e em "Outra Vez" (Tom Jobim). Canção do Amor Demais não foi um sucesso de vendas ao ser lançado pelo pequeno selo Festa, um selo não-comercial que não tinha sequer departamento de divulgação e dependia de outras gravadoras para ter os seus disco prensados e distribuídos. É considerado um disco histórico pelas primeiras gravações da batida de violão de bossa nova e pelo seu repertório, só de canções da dupla recém formada, Jobim e Vinícius. Apesar da batida de violão presente na gravação da Elizeth, foi com a versão de Chega de Saudade por João Gilberto, lançada em agosto de 1958, que a revolução da bossa nova se completou: um modo diferente de cantar, sem vibrato, quase falado, e uma forma inovadora de se tocar bateria no samba, usando apenas o contratempo e a caixa, tocada por vassourinhas.
Durante as décadas de 1940 e 1950, a música brasileira estava se modernizando, em termos harmônicos e melódicos, mas a chegada do ritmo novo na batida de violão de João Gilberto foi o estopim para a revolução que se chamou bossa nova. Segundo Tom Jobim, a chegada de João trouxe novas perspectivas para a música brasileira, pois o ritmo é um fator vital. Jobim escreveu o texto na contracapa do disco Chega de Saudade que João Gilberto era um baiano "Bossa Nova" (grifo do texto original) que em pouco tempo tinha influenciado toda uma geração de músicos, e é a primeira vez que esse termo é utilizado num disco brasileiro. Músicos da geração seguinte e que na época eram adolescentes, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo e Gilberto Gil, foram impactados com a chegada da bossa nova e isso influenciou na escolha profissional deles. Tom Jobim e Newton Mendonça escreveram juntos, letra e música, dois manifestos musicais da bossa nova, "Desafinado" e "Samba de uma nota só", lançados respectivamente no primeiro e no segundo LP de João Gilberto. Na letra de "Desafinado" a expressão bossa nova é citada como substantivo e não como adjetivo, o que ajudou a popularizar o termo. Essa canção tem caminhos harmônicos e melódicos complexos, o que não a impediu de se transformar num grande sucesso nacional e também num standard de jazz. Já "Samba de uma nota só" se caracteriza pela economia de notas na melodia com uma sequência de acordes dissonantes que harmonizam a mesma nota, em cada acorde a nota da melodia está fazendo uma função diferente. Essas duas canções são como os lados diferentes de uma mesma moeda, segundo Pedro Bustamante Teixeira.
A bossa nova experimentou uma projeção internacional em escala jamais vista com outra vertente da música popular brasileira. Em 1962, o saxofonista Stan Getz em conjunto com o guitarrista Charlie Byrd lançaram o LP Jazz Samba, o que chamou a atenção do meio musical nos Estados Unidos para a bossa nova. Naquele mesmo ano, um concerto no Carnegie Hall de Nova York, que reuniu Tom Jobim e João Gilberto, entre outros, abriu de vez as portas do mundo para o estilo. Com o lançamento em 1964 do LP Getz/Gilberto, parceria entre o violonista brasileiro e o saxofonista americano, tornou a vertente conhecida mundialmente, além de arrebatar o Grammy Award para álbum do ano de 1965. A versão cantada por Astrud Gilberto de "The Girl from Ipanema" ganhou o prêmio de melhor gravação no Grammy desse mesmo ano, e foi a primeira vez que uma mulher ganhou esse prêmio. Em 1967, Frank Sinatra gravou essa música no disco Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, com arranjo de Claus Ogerman. Um dos principais nomes do gênero Marcos Valle compôs Samba de Verão onde tornou-se um dos maiores sucessos, em 1966, a versão do Walter Wanderley Trio foi a mais vendida nos EUA, alcançando a posição #26 na Billboard Hot 100 e #3 na parada Easy Listening. A composição ainda é uma das favoritas nas estações de rádio Adult Standards.No ano seguinte, Sérgio Mendes & Brasil 66 lançou uma versão da canção de Jorge Ben, Mas que Nada em seu álbum Herb Alpert presents Sergio Mendes & Brazil 66, tornou-se outro grande sucesso da Bossa Nova nas paradas norte-americanas, alcançando a posição #4 na parada "Adult Contemporary" e #47 na parada "Pop Singles" - ambas da Billboard. A importância da versão de Sérgio Mendes é traduzida por inúmeras versões feitas por artistas como Ella Fitzgerald, Al Jarreau, Trini Lopez e José Feliciano. Em 2013 ela foi incluída no Hall da Fama do Grammy Latino. Nos anos 70 canção Águas de Março obteve sucesso nacional e internacional com a versão em inglês chegou a inspirar uma campanha publicitária da empresa Coca-Cola na década de 1980, com um arranjo mais próximo do rock e outros versos. A versão em inglês da música foi também utilizada, já na década de 1990, como tema publicitário para o lançamento do Ayala Center, nas Filipinas.
No fim da década de 1950 Carlos Lyra trabalhou em São Paulo com o Teatro de Arena, participando das montagens de peças de dramaturgos e diretores como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Junto com Oduvaldo Viana Filho, Leon Hirzman e Ferreira Gullar, participou da fundação do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, o CPC da UNE. Como diretor musical do CPC, a ideia do Carlos Lyra era levar a bossa nova para as ruas, mas também levar a música do povo para a classe média universitária. Com o apoio de Sérgio Cabral, ao mesmo tempo um intelectual da zona sul carioca e uma pessoa com trânsito com os então chamados sambistas de morro, o CPC promoveu shows de sambistas como Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e Zé Keti, artistas que estavam à época ignorados pelas gravadoras e pela grande mídia. Carlos Lyra promoveu reuniões em sua casa com esses sambistas e gravou fitas com o repertório dos mesmos. Fitas que foram repassadas por ele para Nara Leão, durante a escolha do repertório para o seu primeiro disco, Nara. Nara estava próxima dos cineastas do Cinema Novo, que deram a ela uma nova consciência social. O repertório dos primeiros discos da Nara expressam a busca da artista por temáticas mais nacionalistas e distantes do lirismo da bossa nova, ainda que, formalmente, a sonoridade ainda seja bossa-novista.
Com a internacionalização, através do êxito nos Estados Unidos que a exportou para o resto do mundo, a bossa nova se tornou referência em escala global. Em meados dos anos 80 surgiu na Europa a New Bossa, em trabalhos da cantora nigeriana Sade Adu e em grupos como Matt Bianco e Style Council. Nos anos 90, através de DJ´s como Joe Davis e Gilles Peterson, a bossa ressurgiu integrada com o drum´n´bass e artistas como Marcos Valle, Joyce Moreno a o grupo Azymuth passaram a dialogar com novas gerações com novos discos e turnês constantes. Novos artistas brasileiros com trabalhos muito inspirados em bossa nova fizeram trabalhos de repercussão internacional na virada para o século XXI, e o mais bem sucedido comercialmente foi o de Bebel Gilberto, filha de João Gilberto e da cantora Miúcha, que vendeu mais de um milhão de discos com o seu CD Tanto Tempo. O grupo Bossacucanova (que tem entre os seus integrantes Marcio Menescal, filho de Roberto Menescal), a cantora Fernanda Porto e o DJ Patife também mesclaram a bossa nova com o drum´n´bass e tiveram boa aceitação nos EUA e na Europa no início dos anos 2000.
A peça de teatro intitulada Tom & Vinicius – o Musical, foi encenada de 09 a 12 de 2008. Estrelado por Marcelo Serrado, escrito por Daniela Pereira de Carvalho e Eucanaã Ferraz e dirigido por Daniel Herz. A direção musical foi de Josimar Carneiro. Nara Leão rejeitava o título de "Musa da Bossa Nova" que foi atribuído a ela. Dada sua influência, obtida através da presença constante na atuação e inovação nas parcerias musicais e sua postura engajada. Ainda assim, passados 35 anos de seu falecimento, sua contribuição para a Bossa Nova, se desdobrou em um espetáculo teatral em 29 de Fevereiro de 2024, que contou com Zezé Polessa na interpretação do papel da cantora, sob direção teatral de Miguel Falabella e direção musical de Josimar Carneiro. O espetáculo foi exibido no Teatro Firjan SESI Centro, na cidade do Rio de Janeiro. Neste espetáculo foram interpretadas diversas canções, sejam do período bossa novístico e do período que Nara inovou em outros gêneros musicais, como por exemplo o samba de raiz. Também foram mencionados diversos álbuns, como seu álbum de estréia. Nara, de 1964.
Esta seção lista alguns filmes onde a Bossa Nova é a temática principal do enredo e/ou também nos quais houve largo uso de seu repertório na sua trilha sonora. Em 2023 chegou às telas brasileiras o documentário "Elis & Tom, Só Tinha de ser com você". Dirigido por Jom Tob Azulay e Roberto de Oliveira, com roteiro de Nelson Motta e Roberto de Oliveira. O filme mostra o processo de gravação do disco "Elis & Tom", de 1974 no estúdio em Los Angeles com imagens guardadas por 50 anos. Os músicos que participaram foram: É um Documentário de 2018 dirigido por Georges Gachot que é Inspirado no livro HO-BA-LA-LÁ - À Procura de João Gilberto, do escritor alemão Marc Fischer, jornalista alemão que tentou se encontrar com o pai da bossa nova. O cineasta francês Georges Gachot decide refazer os passos do autor no Rio de Janeiro em busca do recluso ícone da música brasileira. Contou com a participação de Miucha, Georges Gachot, João Donato, Marcos Valle.


