Pesquisa · Mapa mental

Bóris III da Bulgária

Bóris Clemente Roberto Maria Pio Luís Estanislau Xavier foi o penúltimo Czar da Bulgária. Bastante popular entre seus súditos, foi uma das figuras-chave nos Balcãs durante o período entre guerras e a Segunda Guerra Mundial.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 10/07/2026
01

Família e primeiros anos

Batismo controverso

Bóris nasceu no Palácio de Vrana na madrugada de 30 de janeiro de 1894, sob uma salva de 101 tiros de canhão. Primeiro filho de Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, então príncipe-regente da Bulgária, e da princesa Maria Luísa de Bourbon-Parma, recebeu logo após o nascimento o título de "Príncipe de Turnovo". Seu nascimento ocorreu num momento em que a Bulgária atravessava um complexo e curioso contexto político: um jovem principado integrante do muçulmano Império Otomano, onde a maioria da população professava a fé ortodoxa e era governado por um casal de católicos devotos. Nessas condições, a religião assumia uma grande importância na região. O fato de Fernando ser um oficial austríaco, filho de um príncipe alemão (Augusto de Saxe-Coburgo-Gota) aliado da Inglaterra e de uma francesa (Clementina de Orléans) e eleito por uma assembleia anti-russa, tornaram ruins as relações com a ortodoxa Rússia.

Educação

Em 31 de janeiro de 1899, um dia após dar à luz a princesa Nadežda, a princesa Maria Luísa morreu por complicações no parto, agravadas por uma pneumonia. A educação do príncipe Bóris foi, então, confiada à avó paterna, a princesa Clementina de Orléans, filha do rei Luís Filipe I de França. Com a morte desta, em 16 de fevereiro de 1907, Fernando assumiu a responsabilidade pela educação do filho. Escolheu como tutor do príncipe um suíço-francês, mas fez questão de escolher pessoalmente todos os professores, de quem exigiu uma instrução rigorosa. Bóris estudou todas as disciplinas ensinadas nas escolas búlgaras, além dos idiomas francês e alemão. Mais tarde aprenderia também a falar italiano, inglês e até mesmo o albanês. A educação militar ficou a cargo de oficiais búlgaros.

Testemunha de grandes eventos

Em 22 de setembro de 1908, aproveitando-se da crise política decorrente da Revolução dos Jovens Turcos no Império Otomano, Fernando declarou a Independência da Bulgária e tomou para si o título de czar, como Fernando I. A partir de 1911, Bóris conseguiu uma relativa liberdade do controle paterno e passou a viajar e a conhecer o mundo. Estas viagens marcaram sua entrada no cenário internacional. Assim, num mesmo ano, compareceu à coroação de seu primo Jorge V em Londres a aos funerais da rainha Maria Pia de Portugal em Turim, ocasiões em que pôde manter contato com a realeza e com outros chefes-de-Estado. Em 1 de setembro de 1911, em visita ao seu padrinho, o czar Nicolau II, Bóris foi testemunha do atentado que resultou na morte do primeiro-ministro russo Piotr Stolypin, ocorrido diante de seus olhos, durante uma apresentação na Ópera de Kiev.

02

Czar dos búlgaros

Sob o reinado de seu pai, a Bulgária colecionou fracassos militares: Pressionado pelo povo búlgaro e pelos vencedores, Fernando I abdicou em 3 de outubro de 1918 e partiu para o exílio em Coburgo com seus outros filhos. Nesse mesmo dia, o príncipe-herdeiro foi proclamado czar, com o título de Bóris III. Seu reinado, entretanto, começou sob maus auspícios: isolado da família, só voltaria a ver suas irmãs em 1921 e seu irmão Cirilo em 1926. As más colheitas de 1917 e 1918, os racionamentos e a ocupação estrangeira deram impulso aos partidos de esquerda: a União Nacional Agrária Búlgara e o Partido Comunista. No entanto, de todos os Estados derrotados em 1918, apenas a Bulgária continuava a ser uma monarquia.

Impotência diante de regimes autoritários

Em 6 de outubro de 1919, um ano após a ascensão de Bóris III, a União Agrária venceu as eleições, forçando o czar a nomear seu líder, Aleksandar Stamboliysky, como primeiro-ministro. Muito popular entre os camponeses, que compunham a maior parte da população, Stamboliysky deixou clara sua oposição à monarquia. Ao instalar uma "ditadura camponesa", ganhou a hostilidade das classes média e militar. A União Agrária governou o país até 9 de junho de 1923, quando um golpe militar tomou o poder. Aleksandar Tsankov, um dos líderes golpistas, assumiu o governo e implantou um regime autoritário. Durante seu governo, a Bulgária mergulhou num período de grande instabilidade. Em 23 de setembro de 1923, uma fracassada insurreição comunista serviu de pretexto para um "terror branco", onde terrorismo e contra-terrorismo fizeram mais de 20 mil vítimas. Estima-se que, em 1924, houve 200 assassinatos por motivos políticos.

Os dois atentados

Em 13 de abril de 1925, Bóris III e outras quatro pessoas voltavam de uma viagem de caça em Arabakonak, próximo da pequena cidade de Botevgrad. No trajeto de volta, foram vítimas de uma emboscada que culminou com a morte de dois membros do grupo. O motorista do czar também foi baleado e perdeu o controle do veículo, que bateu num poste. Bóris e os sobreviventes salvaram-se entrando num ônibus que passava pelo local. No mesmo dia, o ex-general e deputado Konstantin Georgiev foi assassinado. Três dias depois, durante os funerais do general Georgiev - evento que contava com a presença de diversos líderes búlgaros -, comunistas e anarquistas instalaram bombas na Catedral de Sveta-Nedelya. A explosão ocorreu no meio da cerimônia fúnebre, vitimando 128 pessoas, incluindo o prefeito de Sófia, 11 generais, 25 oficiais superiores, o chefe de polícia e um grupo de meninas. Bóris III safou-se porque estava nos funerais de um de seus amigos mortos no atentado anterior e só chegou à catedral após as explosões. Este segundo ataque, além de ter perdido seu alvo, motivou uma grande repressão por parte das autoridades, que prenderam 3194 pessoas e condenaram 268 à morte.

A popularidade do czar

Desde a sua ascensão, Bóris havia sido afastado dos assuntos de Estado. Assim, passava a maior parte de seu tempo completando suas coleções de flores selvagens e borboletas, dedicando-se à mecânica (especialmente de locomotivas) ou viajando pelo país. Visitava cidades, vilas, fábricas e fazendas - onde comia e dormia nas casas dos agricultores. Tais atitudes criaram um forte laço entre o czar e o povo búlgaro. A personalidade de Bóris aumentava sua popularidade e a imprensa retratava constantemente seu caráter "heroico", como quando salvou seis pessoas do afogamento no mar Negro em 1931, ou quando assumiu o controle do trem em que viajava em 1934, durante uma pane e um consequente princípio de incêndio.

Uma czarina para os búlgaros

Em 1927, aos 30 anos de idade, Bóris continuava solteiro e especulava-se por toda a Europa sobre quem seria a escolhida como futura czarina. Finalmente, após três anos de busca em diversas cortes europeias, Bóris apaixonou-se pela princesa Joana de Saboia, terceira filha do rei Victor Emmanuel III e de Helena de Montenegro. Em janeiro de 1930, após o casamento do príncipe herdeiro italiano Umberto (futuro Umberto II), Bóris pediu a mão de Joana ao rei. A religião do futuro príncipe herdeiro tornou-se uma questão problemática pois, de acordo com a Constituição da Bulgária, o herdeiro do trono deveria pertencer à Igreja Ortodoxa. Entretanto, para o Papa Pio XI, estava fora de cogitação abençoar o casamento se toda a descendência vindoura não fosse batizada como católica - um impasse que colocava Joana em risco de excomunhão. Mas, graças ao núncio apostólico na Bulgária, Angelo Roncalli (o futuro Papa João XXIII), Bóris chegou a um acordo com a Santa Sé. Em 25 de outubro de 1930, a cerimônia católica foi celebrada em Assis, seguida da cerimônia ortodoxa, em 9 de novembro, em Sófia.

Monarca absoluto

A Bulgária começou a atravessar um período difícil. Com a cessação dos atentados, houve uma melhora da situação interna, mas a Bulgária começou a atravessar um período difícil com a Grande Depressão. A produção havia caído 40% em dois anos e o número de desempregados subiu para 200 mil, para uma população de sete milhões. O governo eleito em 1931, o bloco popular, decepcionou por sua incapacidade em reverter a situação. A vitória dos comunistas nas eleições municipais de 1932 em Sófia levou o governo a dissolver rapidamente o Conselho. Com a situação agravando-se a cada dia, um grupo de intelectuais e militares, a Zveno, decidiram dar um golpe de Estado. Em 19 de maio de 1934 os coronéis Damian Velchev e Kimon Georgiev assumiram o poder e obrigaram Bóris a aceitar o novo governo. Foi instaurada uma ditadura corporativista que recuperou rapidamente o país, mas seus líderes mostravam-se fortemente contrários à monarquia e planejavam a criação de uma república. Bóris decidiu, então, tomar os assuntos em suas mãos. Em 22 de janeiro de 1935, oito meses após a tomada do poder por Kimon Georgiev, o czar encarregou o general Pentcho Zlatev de "caçar os republicanos" e formar um novo governo. Bóris, que até então manteve-se afastado da vida política do país, assumia as rédeas do poder.

Instauração da ditadura real

Num primeiro momento, Bóris manteve as bases do governo de Georgiev. O novo gabinete foi composto por três generais, três membros dos principais partidos proibidos e três civis. Gradualmente os militares foram afastados do poder pelo czar, que fortaleceu seu poder pessoal e estabeleceu uma monarquia absoluta. Ele definiu este novo regime como transitório, com a ditadura da Zveno até o retorno ao sistema parlamentar tradicional. No outono de 1936, a liberdade de imprensa e o direito às reuniões políticas foram restaurados, mas os partidos políticos permaneceram proibidos. Nas eleições municipais de 1937, mulheres casadas e com filhos tiveram direito ao voto. Em 1938, a Assembleia Nacional foi reaberta para as eleições legislativas.

03

Política externa

Reaproximação com a Alemanha Nazista

Nos termos do Tratado de Neuilly, o exército búlgaro não poderia ter características ofensivas e, em muitas ocasiões, o governo solicitou a revisão dessa cláusula. Em 1935, uma oportunidade surgiu quando a Turquia, para defender seus direitos territoriais, fortaleceu militarmente a Trácia ocidental. O equilíbrio de forças na região foi quebrado e a Bulgária reclamou o direito de defender-se contra eventuais ataques - pretexto aceito pelas grandes potências. Apesar de procurar apoio francês e inglês para renovar seu arsenal bélico, somente a Alemanha respondeu favoravelmente aos búlgaros. Bóris aceitou a oferta, mas evitou assinar qualquer tratado de envolvimento militar com o regime nazista alemão.

Czar diplomata

Desde 1935, Boris e Georgi Kyoseivanov se esforçavam para estabelecer boas relações com as democracias ocidentais. O czar foi diversas vezes à França e à Inglaterra tentando fechar, em vão, contratos comerciais. Durante uma dessas viagens à Inglaterra, em agosto de 1938, ofereceu-se como mediador entre o primeiro-ministro Neville Chamberlain e Adolf Hitler sobre a Crise dos Sudetos. Em seguida, Bóris foi à Alemanha, onde teve um encontro secreto com o führer. Após esta entrevista, escreveu a Chamberlain aconselhando-o a entrar em contato direto com Hitler e ceder-lhe a região dos Sudetos. Bóris não era um homem facilmente manipulável. Em 1935, quando a Liga das Nações impôs sanções econômicas à Itália após a invasão da Etiópia, o monarca não hesitou em apoiar publicamente a decisão. Mussolini lembrou-o sobre os laços familiares que o ligavam à dinastia italiana, ao que Bóris respondeu: Não faço política servindo-me de meus sentimentos por meus sogros."

Neutralidade

Nos primeiros momentos Segunda Guerra Mundial, a opinião pública búlgara dividiu-se entre o apoio à Alemanha, que prometia restituir os territórios perdidos em guerras anteriores, e uma simpatia pelos opositores às Potências do Eixo. Bóris III declarou, em 1940: Em fevereiro de 1940, o sucesso de Adolf Hitler forçou Bóris a substituir seu primeiro-ministro pró-ocidente por Bogdan Filov, um germanófilo notório. Em 22 de julho de 1940, após uma visita a Hitler, Filov anunciou ao czar a intenção romena em ceder Dobruja. Efetivamente, o Tratado de Craiova, de 7 de setembro de 1940, ratificou a devolução da Dobruja do Sul à Bulgária. Bóris, então, enviou seus agradecimentos a Hitler e Mussolini, mas também à União Soviética e à Inglaterra.

O novo aliado da Alemanha

Em janeiro de 1941, após o colapso italiano na Grécia, Hitler enviou auxílio a Mussolini. As tropas alemãs teriam que atravessar a Romênia e, por bem ou por mal, a Bulgária. Dessa forma, Bóris foi obrigado a aderir ao Pacto Tripartite. Bogdan Filov assinou a adesão em 1 de março de 1941 e, no mesmo dia, o exército alemão entrou no território da Bulgária. Uma vez que Bóris recusava-se a participar das operações militares, os alemães propuseram, em 19 e 20 de abril, que as tropas búlgaras ocupassem os territórios já conquistados da Trácia e da Macedônia. A Alemanha, abordando o problema do irredentismo, concedia à Bulgária a função de administrar grande parte dos Balcãs. Este evento valeu a Bóris o cognome de "O Reunificador".

Os judeus búlgaros

Em 29 de dezembro de 1940, o governo criou o Brannik, organização de jovens inspirada na Juventude Hitlerista. Quatro dias antes, a Assembleia Nacional já havia aprovado a "Lei de Proteção da Nação", a primeira medida anti-semita, que afetava cerca de 50 000 judeus. Apesar da rápida reação popular contrária à aprovação da lei, ela entrou em vigor em 13 de janeiro de 1941. Em 26 de agosto de 1942, atendendo uma exigência de Hitler, que exigia a resolução da "questão judaica" no território búlgaro, foi criada uma comissão para assuntos judaicos, responsável, inicialmente, por aplicar restrições: toque de recolher obrigatório, prisão domiciliar, racionamento de alimentos, uso da estrela amarela nas roupas. Num segundo momento, a comissão passou a organizar a deportação de judeus para os campos de concentração. Para que as medidas fossem colocadas em prática, Hitler enviou um especialista: Theodor Dannecker, oficial da SS.

04

Morte misteriosa

Em 1943, o progresso da guerra sofre uma reviravolta com a Batalha de Stalingrado e os ventos começam a virar contra a Alemanha. Percebendo isso e querendo evitar o mesmo erro que seu pai 25 anos antes, Bóris iniciou contatos secretos com diplomatas americanos. Ciente desses rumores, Hitler convocou-o, em 14 de agosto de 1943, ao quartel-general da frente oriental, próximo a Rastemburgo, na Prússia Oriental. A reunião foi bastante tensa: o chanceler lembrou-lhe o quanto devia à Alemanha, sem que nunca lhe fosse cobrado nada. Na verdade, desde o início da guerra, a Bulgária não esteve muito envolvida no conflito. Sua ajuda resumiu-se ao envio de um comboio médico à Frente Oriental, em outubro de 1941. Hitler ordenou que Bóris dispusesse suas tropas numa nova frente no sudoeste, na esperança da dispersão das forças soviéticas. O czar, recusando-se a atendê-lo, deixa o gabinete 45 minutos mais tarde, bastante abatido, e retorna a Sófia no dia seguinte em um avião alemão. Nove dias depois do encontro, em 23 de agosto, sem que apresentasse qualquer sintoma de doença, Bóris foi subitamente acometido de vômitos violentos, morrendo em 28 de agosto de 1943, aos 49 anos de idade.

05

A Bulgária após sua morte

O súbito desaparecimento do czar levou ao trono seu filho de seis anos, Simeão II, sob a regência de um conselho composto por seu tio, o príncipe Cirilo, o primeiro-ministro Bogdan Dimitrov Filov (apelidado de "vice-czar") e o ministro da guerra Nikola Mihov (o representante metropolitano da Igreja Ortodoxa Búlgara, Filaret Lovchansky, também foi convidado a compor o Conselho de Regência, mas declinou do convite). Neste período, os aliados passaram a dominar a guerra. O governo tentou declarar-se neutro no conflito, mas já era tarde demais: em 5 de setembro de 1944, a União Soviética declarou guerra à Bulgária. No dia seguinte, uma insurreição levou ao poder a Frente patriótica, uma coligação dominada pelos comunistas e pela Zveno. O novo governo, liderado pelo ex-primeiro-ministro republicano Kimon Georgiev, promoveu violentos expurgos, onde cerca de 16 000 pessoas foram executadas sem julgamento. Então, em outubro de 1944, iniciaram-se uma série de processos que condenaram 2730 pessoas à morte. Entre estes havia diversos representantes do antigo regime, como os três regentes,[nota 2] 22 ex-ministros, 67 deputados, oito conselheiros do czar e 47 oficiais superiores. Após a conclusão dos expurgos, o governo passou a ocupar-se da família real.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando