Boné
O boné é, segundo o dicionário Michaelis, um tipo de chapéu de copa redonda, sem abas, com uma pala sobre os olhos.
O boné é um acessório derivado do chapéu, tendo sua origem diretamente relacionada a ele. Assim, ao longo da história, o chapéu desempenhou um papel marcante nas sociedades, tendo diversos fins, sendo utilizado para identificar tribos, períodos históricos e estilos diversos, por exemplo. Se buscarmos as origens da palavra, "chapéu" tem origem no latim antigo cappa, que significa uma peça usada para cobrir a cabeça. Além disso, no que diz repeito ao objeto, o primeiro registro conhecido do que seria um tipo de chapéu é o do "Pétaso", existente aproximadamente por volta de 2000 a.C. na Grécia. Com o passar dos anos, surgiram diversos tipos de chapéus, originados em diferentes sociedades, de acordo com os aspectos culturais próprios de cada uma delas, assim, se tornaram adornos e indicadores de status social, a exemplo do renascimento. Dessa forma, durante o período da Renascença (séculos XIV a XVI), os chapéus masculinos adquiriram diferentes formas, sendo ricamente decorados e utilizados por homens poderosos, nessa mesma época, as boinas também surgiram na Itália. Além disso, durante a Revolução Francesa (1789-1799), que trouxe uma simplificação nas vestimentas, surgiram os chapéus de copa alta com formato côncavo, que posteriormente evoluíram para as cartolas.
Os New York Knickerbockers, considerados pioneiros do beisebol e o primeiro time oficial formado em 1845, levaram quatro anos para adotar o uso de bonés específicos para o esporte. A decisão de adotar os bonés foi motivada pelo reconhecimento de que eles proporcionariam melhor visibilidade, ajudando os jogadores a acompanhar as bolas lançadas no ar, especialmente sob a luz solar intensa. No entanto, ao invés dos bonés de beisebol que estamos acostumados a ver atualmente, os Knickerbockers optaram por utilizar chapéus de palha. Essa escolha peculiar refletia a moda da época e marcou uma etapa importante na evolução dos equipamentos utilizados no beisebol. Durante os anos 1850, especialmente no final dessa década, há uma abundância de imagens que retratam pessoas usando um tipo de chapéu que hoje associamos a um boné de beisebol. Esse boné apresentava uma coroa e uma aba que se projetava em apenas uma direção, diferentemente dos modelos que cobrem toda a circunferência da cabeça. Por muitos, esse objeto não foi considerado uma inovação revolucionária, uma vez que algo similar já era usado por jóqueis em corridas de cavalos há muitos anos. O termo "boné de beisebol" é utilizado devido à associação cultural com o esporte, especialmente nos Estados Unidos, mas vale ressaltar que ele não foi inventado especificamente para o beisebol, já existindo há muito tempo.
Produção em larga escala
Em abril de 1980, a New Era trouxe uma mudança significativa para o mercado de bonés ao veicular um anúncio na edição do Sporting News. Consciente de que os fãs ocasionalmente entravam em contato diretamente com a fábrica em busca de bonés personalizados, a empresa decidiu testar a demanda por esses produtos através do anúncio. Inicialmente, eles estimaram que apenas algumas dezenas de leitores seriam motivados a adquirir os bonés. Algumas semanas após a veiculação do anúncio, David Koch, pai do atual CEO Chris Koch, foi buscar a correspondência na agência dos correios e acabou descobrindo que havia sete sacos enormes cheios de envelopes de pedidos por correio. Ao retornar à fábrica e jogar as encomendas no chão, Koch percebeu que havia um problema, pois toda a produção era feita sob encomenda. A partir daí, o mercado de bonés para fãs decolou.
Devido à sua versatilidade, utilidade e baixo custo, o boné também conquistou o mercado publicitário e se tornou uma das peças mais utilizadas para a divulgação de marcas, produtos ou eventos, se expandindo muito além dos limites estadunidenses, grandes responsáveis pela popularização do acessório. Assim, em transmissões esportivas, por exemplo, é comum observar a preocupação dos entrevistados em destacar a logomarca do patrocinador por meio do uso do boné. Esse novo uso para o boné também impulsionou a produção dos bonés, que antes era artesanal, familiar e limitada, passando a ser fabricada em larga escala por empresas especializadas. Tom Shieber, curador sênior do National Baseball Hall of Fame and Museum, afirmou: "O boné de beisebol é uma ferramenta de marketing incrivelmente eficaz. Por muito tempo, eles não perceberam seu potencial como uma ferramenta de marketing. No entanto, atualmente as pessoas já entenderam isso, não é mesmo? Quero dizer, existem negócios inteiros que se baseiam nisso. Porque o boné está ali, bem visível. É como um outdoor sobre sua cabeça, capturando a atenção das pessoas."
Os bonés na cultura pop
Conforme os bonés se popularizaram e os fãs passaram a adquiri-los freneticamente, foi a cultura pop que consagrou o boné de beisebol como um elemento indispensável da cultura americana e uma peça de moda totalmente aceitável. A série "Magnum, P.I." transformou as camisas havaianas e os bonés dos Tigers em itens elegantes, enquanto Tom Selleck, solucionava crimes no Havaí. Devido ao seu amor por Roberto Clemente, Chuck D do Public Enemy usava um boné dos Pirates, levando o "P" preto e dourado às massas. Eazy E do N.W.A transformou o boné preto e branco dos White Sox em um item de moda indispensável, que combinava com qualquer roupa, e ganhou um novo destaque quando Chance the Rapper adotou-o como seu acessório icônico.
Embora tenha suas origens internacionais, na contemporaneidade os bonés se difundiram à ponto de estarem presentes em escala mundial, variando conforme a cultura na qual se desenvolvem. Assim, no cenário nacional também há espaços de destaque para os bonés, a exemplo de Apucarana que é uma cidade localizada no Vale do Ivaí, no estado do Paraná, Brasil. Conhecida como a capital brasileira do boné, grande parte da economia e da cultura local giram em torno do mercado dos bonés Nela os visitantes são "recepcionados" por um boné gigante logo que chegam na cidade, sinalizando que estão adentrando a capital nacional dos bonés. Observando as ruas do município é possível confirmar a vocação local, onde até os pontos de ônibus têm o formato do acessório. Além disso, o setor de bonés é um dos segmentos incluídos no programa "Feito no Paraná", criado pelo Governo do Estado para promover e valorizar empresas e produtos paranaenses.
Como todo item de moda, tendo sua formação histórica e usos sociais levados em consideração, o boné também representa uma expressão sócio-política de quem os usa, ou seja, quando usamos um item da moda estamos expondo ao mundo o que somos e como pensamos, sendo comummente foco de diversos debates e, por vezes, alvo de vigilância, controle social e, sobretudo, disputa política e ideológica, que permeiam o debate público sobre os seus usos e proibições em diversos ambientes, como o escolar, por exemplo, onde o seu uso pode ser associado a uma falta de respeito, ou atitude transgressora. Nesse sentido, conforme observado em exemplos anteriormente expostos, tal como o do boné na cultura pop, reforçam esse uso político e até propagandista do boné. Vejamos duas situações contemporâneas que chamam atenção ao tema, sendo elas as eleições presidenciais dos Estados Unidos (2018) e as eleições presidenciais do Brasil (2022), contextos nos quais os usos políticos e propagandistas do boné puderam ser observados durante a corrida eleitoral.


