Bob Dylan
Robert "Bob" Dylan é um cantor, compositor, escritor, ator, pintor e artista visual norte-americano, e uma importante figura na cultura popular há mais de sessenta anos. Grande parte do seu trabalho mais célebre data da década de 1960, quando canções como "Blowin' in the Wind" (1963) e "The Times They Are a Changin'" (1964) se tornaram hinos dos movimentos pelos direitos civis e de oposição à Guerra do Vietnã. Suas letras durante esse período incorporaram uma ampla gama de influências políticas, sociais, filosóficas e literárias, desafiaram as convenções da música pop e apelaram à crescente contracultura. Por conta disso, a música folk, na cultura norte-americana, atingiu o auge de popularidade nas décadas de 1950 e 1960 e Bob Dylan incorporou as tensões dessa época da melhor forma, com foco nos detalhes e humor.
Em 13 de outubro de 2016, foi anunciada a escolha de Bob ao Prêmio Nobel da Literatura de 2016, em um evento em Estocolmo, na Suécia. Bob Dylan foi acusado de ser arrogante, inclusive por membros da Academia Sueca, pois ficou em silêncio após o anúncio de seu prêmio Nobel de Literatura e não respondeu às insistentes ligações da Academia. Somente duas semanas depois, no dia 28 de outubro, Bob Dylan quebrou o silêncio acerca do Nobel. O cantor disse que é algo "difícil de acreditar", além de considerar "surpreendente e incrível" o laureamento. Contudo, o cantor não compareceu à cerimônia de premiação, alegando ter "outros compromissos". Patti Smith o representou na cerimônia, com uma interpretação de "A Hard Rain's A-Gonna Fall", uma das composições mais emblemáticas de Dylan. Bob Dylan só veio a receber as premiações do Nobel - que incluem uma medalha, um diploma e cerca de 8 milhões de coroas suecas (US$ 900 mil) em 1 de abril de 2017, após um encontro discreto com os representantes da Academia Sueca em Estocolmo.
1941-1960
Robert Allen Zimmerman (nome hebraico: Zushe ben Avraham) nasceu no hospital St. Mary de Duluth, em Minnesota, no dia 24 de maio de 1941 e cresceu em Hibbing, Minnesota, no Mesabi Iron Range a oeste do Lago Superior. Os estudos realizados por vários de seus biógrafos mostraram que seus avós paternos, Zigman e Anna Zimmerman, emigraram de Odessa (atual Ucrânia) para os Estados Unidos por causa de um pogrom antissemita ocorrido em 1905. Seus avós maternos, Benjamin e Lybba Edelstein, eram judeus lituanos que chegaram à América em 1902. Em sua autobiografia, Crônicas, Vol. 1, Dylan escreveu que o apelido de sua avó materna era Kyrgyz e que sua família era procedente de Istambul.
1960-1963: Mudança para Nova Iorque e contrato de gravação
Dylan abandonou a universidade após seu primeiro ano. Em janeiro de 1961, mudou-se para Nova Iorque com a esperança de ver seu ídolo musical, Woody Guthrie, que estava gravemente doente, com um estado avançado do mal de Hutington no hospital psiquiátrico de Greystone Park. Guthrie foi uma das maiores influências nas primeiras apresentações de Dylan. Sobre Guthrie, Dylan chegou a dizer: "Você pode escutar suas canções e aprender a viver". Também escreveu, posteriormente: "As canções em si têm o infinito alcance de humanidade nelas... [Ele] era a verdadeira voz do espírito americano. Eu disse a mim que seria o maior discípulo de Guthrie". À medida que o visitava no hospital, Dylan ficou amigo do assistente de Guthrie, Ramblin' Jack Elliott. Muito do repertório de Guthrie era na verdade canalizado através de Elliott, a quem Dylan prestou tributo em Crônicas (2004).
Transição
Mas logo Dylan mudou de rumos artísticos, afastando-se do movimento folk de protesto e voltando-se para canções mais pessoais, introspectivas, ligadas a uma visão muito particular de mundo. As questões sociopolíticas de seu tempo: racismo, Guerra Fria, Guerra do Vietnã, injustiça social, cedem espaço para a temática das desilusões amorosas, amores perdidos, vagabundos errantes, liberdade pessoal, viagens oníricas e surrealistas, embaladas pela influência da poesia beat. Esta transição se dá entre 1964 e 1966, quando Dylan eletrifica a sua música, passa a tocar com uma banda de blues-rock como apoio e choca a plateia folk, com sua aproximação ao rock. Na época, muitos ignoravam que Dylan já havia tocado rock and roll na adolescência e apreciava artistas country como Johnny Cash, que já trabalhavam com instrumentos elétricos desde os anos 50. O sucesso dos Beatles e demais roqueiros britânicos na releitura do rock americano também lhe chamaram a atenção. Em compensação, foi aclamado pela crítica, ampliou o seu público (mesmo sendo chamado de "traidor" por fãs do Dylan cantor folk), tornando-se cada vez mais influente entre artistas contemporâneos (John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr por exemplo) e lançando os mais apreciados discos de sua carreira, com uma série de canções clássicas de seu repertório: "Maggie's Farm", "Subterranean Homesick Blues", "Gates of Eden", "It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)", "Mr. Tambourine Man", "Ballad of a Thin Man", "Like a Rolling Stone", "Just Like a Woman", entre outras, lançadas em seus álbuns mais inspirados: Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited de 1965 e o duplo Blonde on Blonde, de 1966.
Anos 70
O que produziu no início dos anos 70 não foi bem recebido pela crítica, considerado muito abaixo de seus hits originais. Apenas algumas canções destacam-se: "If Not For You" (1970), "Knockin' on Heaven's Door" (1973), "Forever Young" (1974). Mas ao voltar as turnês, acompanhado pelo grupo The Band, retorna a evidência e ao sucesso, principalmente pelo elogiado duplo ao vivo "Before the Flood" (1974). Na retomada da carreira de forma mais ativa, Dylan produz "Blood On Tracks" (1975) e "Desire" (1976), seus melhores discos nos anos 70, aclamados pela crítica. Deste último, a canção "Hurricane", baseada na história de Rubin Carter, um boxeador negro preso injustamente, foi um sucesso espetacular, ao mesmo tempo que a turnê Rolling Thunder Revue (75/76) era aclamada por crítica e público. São também de Desire as músicas Sara (dedicada a sua esposa) e Romance in Durango, essa última vertida para Romance no Deserto pelo letrista Fausto Nilo para o disco de mesmo nome do cantor Raimundo Fagner.
Anos 80
Com "Infidels", de 1983, Dylan afasta-se da fé cristã, volta-se inesperadamente para as suas raízes judaicas e parece reencontrar certo equilíbrio artístico. Bem recebido pela crítica, é considerado seu melhor álbum desde Desire. As apresentações ao vivo, em que volta a interpretar suas canções clássicas, marcam uma reconciliação com seu público. Em 1985 participa do especial We are the world com outros 40 grandes nomes da música estadunidense - entre eles Michael Jackson, Tina Turner, Ray Charles, Stevie Wonder - pela campanha contra a fome na África. Dylan continua a gravar regularmente, buscando uma sonoridade "made anos 80" ao mesmo tempo em que tenta preservar seu estilo. "Down In The Groove", álbum de 1988, passou despercebido, contém várias covers, mas equivale a uma declaração de princípios, com canções de folk-rock, gospel, rock, que demarcam os gostos artísticos preferenciais do artista. Depois de uma turnê com a lendária banda californiana Grateful Dead, ele lança o álbum "Oh Mercy" (1989), elogiado pela qualidade inesperada das canções e volta às paradas com o super-grupo Traveling Wilburys, formado com os amigos George Harrison, Tom Petty, além de Jeff Lynne e Roy Orbison.
Anos 90
No início dos anos 90, Bob Dylan parece dar uma "parada" na carreira. Para comemorar e fazer um balanço de seus 30 anos de trajetória, ele volta a gravar folk tradicional, acústico, sem importar-se com o pouco apelo comercial deste gênero nos dias atuais. Em 1992 é realizado um show-tributo em grande estilo, com a participação de vários nomes do rock, country e do soul cantando suas músicas entre eles: Eric Clapton, George Harrison, Stevie Wonder, Neil Young, Willie Nelson, Lou Reed, Eddie Vedder entre outros. Depois do acústico produzido para a MTV em 1994, Dylan só voltaria com um CD de inéditas em 1997 (ano que vários outros famosos voltaram a ativa com sucesso, entre eles os Bee Gees). O álbum "Time Out Of Mind" ganharia vários prêmios Grammy e foi considerado por muitos uma nova ressurreição artística, confirmada pela qualidade de "Love and Theft" (2001). Neste mesmo ano a revista Rolling Stone publicou uma lista com as 500 melhores músicas da história e em primeiro lugar ficou Like a Rolling Stone, de Bob Dylan. Atualmente registra-se um novo interesse pela vida e obra de Dylan, com o lançamento oficial de várias gravações piratas, além do lançamento do documentário "No Direction Home", de Martin Scorsese, que flagra os anos iniciais de sua carreira (1961-1966) e, mais recentemente, com "Modern Times", seu novo álbum lançado em 2006, com o qual, pela quarta vez na carreira, Dylan conquistou a liderança do ranking dos mais vendidos dos Estados Unidos, vendendo 192 mil cópias na primeira semana. A última vez que Dylan tinha alcançado a liderança nos Estados Unidos, foi com o álbum "Desire", de 1976, que ficou 5 semanas no topo das paradas. Antes disso, alcançou o primeiro lugar com o clássico disco "Blood On The Tracks", em 1975, e com "Planet Waves", no ano anterior.
Em 1978, ele afirmou ter experimentado um novo nascimento e ter se tornado um cristão evangélico.
Bob Dylan também pinta e desenha tendo lançado um livro de desenhos "Drawn Blank" em 1994. Fez a sua primeira exposição denominada "The Drawn Blank Series" no Museu Kunstsammlungen em Chemnitz (Alemanha) (onde há obras de Munch e Picasso) entre outubro de 2007 e 3 de fevereiro de 2008 com 175 aquarelas e guaches.
Dylan escreveu o livro Tarântula em 1966, mas só foi publicado em 1971 (New York: Macmillan). No Brasil, o livro foi publicado em 1986 pela Editora Brasiliense (Coleção Circo de Letras) com tradução de Paulo Henriques Britto. Foi publicado em Portugal em 2007, com tradução de Vasco Gato (Vila Nova de Famalicão: Quasi). Embora durante toda a sua vida Dylan tenha publicado as suas songs book, parece ser com o título de Lyrics que irá sucessivamente editar a compilação das letras das suas composições: lyrics de 1962-1985 (1985); em 1997, ampliadas ao período 1962-1996; em 1999, até 1999; em 2004, compreende as lyrics entre 1962-2001; em 2008, intituladas simplesmente Lyrics; e finalmente em 2014, sob o título The Lyrics: since 1962, ed. por Christopher Ricks, Lisa Nemrow e Julie Nemrow (Nova Iorque: Simon & Schuster). Em Portugal, as suas letras das canções foram editadas em dois volumes pela editora Relógio d’Água, em 2006 e 2008, respetivamente, abrangendo os períodos temporais indicados nos títulos: Canções 1962-2001 – Volume 1 (1962-1973), Volume 2 (1974-2001), ambos com traduções de Angelina Barbosa e Pedro Serrano.
Imagem: Heinrich Klaffs · BY-NC-SA · Openverse
Bob Dylan deu sete concertos em Portugal, os primeiros em Julho 1993, no Coliseu do Porto e no Pavilhão de Cascais. Em Abril de 1999 deu dois concertos no então Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e no Coliseu do Porto. Em julho de 2004, apresentou-se em Vilar de Mouros e, em 2008, no festival Nos Alive, em Algés, tendo em 2018 se apresentado na Altice Arena. Volta a Portugal a 1 de Maio de 2019 no Coliseu do Porto. Bob Dylan é uma influência assumida por músicos e compositores portugueses como Sérgio Godinho, Jorge Palma, Jorge Cruz[carece de fontes?] e Samuel Úria. Em Novembro de 2022, a Livraria Lello adquiriu um conjunto de 42 cartas escritas por Bob Dylan na década de 1950, por mais de 500 mil euros, num leilão em Nova Iorque.


