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Vocalização das aves

A vocalização das aves ou canto das aves são termos usados para referir-se aos diferentes sons produzidos pelas aves, sendo vocais ou não-vocais. Na ornitologia e na observação de aves, os cantos são distinguidos pela função dos chamados.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 27/07/2026
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Anatomia e fisiologia

A maioria das aves apresentam a siringe como órgão vocalizador porém ela está ausente em algumas espécies como o urubu (família Carthartidae). A produção do som ocorre do seguinte modo: durante a expiração a passagem do ar pela siringe gera uma vibração no par de “membranas timpaniformes” posicionadas em ambos os lados da siringe. A frequência apresentada pelo som corresponde a taxa de oscilação dessas membranas, e aves são capazes de alterar a contração dos músculos siringeais alterando assim a frequência do som produzido. Alguns experimentos demonstram que a produção sonora pode ser controlada separadamente para cada lado da siringe produzindo frequências diferentes. Após a análise da siringe em funcionamento por endoscopia foi verificado que não apenas a membrana timpaniforme vibra durante a produção do som, mas toda a massa de estruturas moles da siringe. A traquéia é coberta por anéis parcialmente ossificados conhecidos como anéis traqueais. Os anéis traqueais são completos, enquanto que os anéis bronquiais são em formato de C. Os últimos anéis traqueais e os primeiros anéis bronquiais podem se fundir no que é chamado caixa timpânica. Na base da traqueia e na junta dos brônquios há uma estrutura dorsiventral, o pessulo, que pode ser desenvolvido em vários níveis. O pessulo é uma cartilagem em passariformes e fornece fixação as membranas. A membrana que forma parte dos primeiros três anéis bronquiais é responsável por vibrar e produzir o som na maioria dos passeriformes. Essas membranas também podem ser ligadas ao pessulo. Outros músculos também estão envolvidos com o controle da siringe, e eles podem ser extrínsecos ou intrínsecos dependendo do modo como estão ligados a siringe.

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Funções correlacionadas com a vocalização

Como as principais hipóteses científicas da evolução dos aves concordam que a seleção sexual desempenhou um importante papel neste processo, uma das principais funções da vocalização é exatamente a atração de parceiros. Fêmeas podem selecionar seus parceiros através da qualidade do canto e do repertório do macho. Contudo, experimentos também vem mostrando que a vocalização pode ser um excelente indicador de aptidão e de saúde, já que a qualidade do canto de um pássaro pode ser diretamente afetada pela presença de parasitas e doenças. A segunda principal função associada com a vocalização é a defesa de território. Essa defesa acontece por meio do canto direcionada a aves territorialistas a fim de demonstrar controle territorial, sendo que a qualidade do canto e maior complexidade deste é percebida como uma medida da aptidão do rival. Essa disputa restrita ao canto acaba sendo uma vantagem para os envolvidos, prevenindo o alto gasto energético que ocorreria em uma luta de fato. Nesse contexto, uma maior complexidade do canto também é associada com um maior potencial de defesa territorial nos machos.

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Aprendizagem do canto

Primeiramente, pode-se dividir o canto das aves em dois tipos, o canto inato (relacionado com características genéticas) e o canto aprendido (relacionado com a ontogenia). O canto inato não precisa ser aprendido para que cumpra sua função, sendo transmitido geneticamente em sua totalidade. Ele possui uma estrutura física estereotipada, o que faz com que ele seja passado entre gerações sem que haja perda na mensagem. No entanto, como o canto inato corresponde àqueles aspectos do fenótipo que não são modificados pela experiência, ele dificulta diversificação, ou seja, variantes individuais e populacionais. Contudo, é observada a complementaridade entre o canto inato e o aprendido em muitas aves para que estas consigam desenvolver a vocalização específica da espécie. O canto aprendido pode ser qualificado pela sua falta de funcionalidade sem o aprendizado adequado. Para que o filhote consiga emitir um som reconhecível para seus congêneres, ele precisa ser exposto ao canto específico correto em um momento receptivo (que varia muito, dependendo da espécie). O canto aprendido pode ser extremamente complexo, já que ele pode incorporar elementos novos, seja por meio da cópia de sons ou do sequenciamento diversificado dos elementos sonoros, a imitação e a versatilidade, respectivamente.

Domesticação e vocalização

Na situação de cativeiro, uma população é intencionalmente isolada pelo ser humano. Para que haja a adaptação desses indivíduos selvagens às condições de cativeiro é necessário que aconteçam mudanças genéticas ao longo das gerações e também mudanças a cada geração provocadas pela ontogênese, e suas experiências em contextos particulares. Ao longo do processo evolutivo de domesticação acontecem notáveis diferenças entre os indivíduos envolvidos nesse processo e os indivíduos selvagens, as alterações são tanto genotípicas como fenotípicas. Pode-se citar como exemplo a domesticação do pintassilgo (Carduelis sp.), estudada por Guttinger (1985). Neste estudo foi constatado uma brusca diferença na variabilidade e arquitetura sonora entre os indivíduos selvagens e em cativeiro, sendo que os selvagens apresentaram maior variabilidade no canto e duas vezes mais tipos de sílabas.

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Evolução do canto

A produção de sons a partir de órgãos especializados em acústica é recorrente em diferentes grupos de vertebrados. Representantes de peixes Teleostei apresentam organização nervosa para vocalização e recepção de sons similar a anfíbios, répteis, mamíferos e aves. A vocalização das aves está geralmente associada com comunicação. É sabido que diferentes espécies de aves apresentam cantos diferentes. Na verdade, a vocalização de aves pode variar entre populações da mesma espécie e até entre indivíduos do mesmo grupo. A escolha de um parceiro para reprodução entre fêmeas está, entre outras características, associada ao canto em diversas espécies de aves. Espera-se, portanto, que a seleção sexual esteja associada com a evolução do canto bem como perpetuação de diferentes traços de vocalização. Alguns estudos tentaram correlacionar diferentes vocalizações e dialetos de aves com limitação de fluxo gênico entre populações. Há portanto uma argumentação do processo de especiação e diversificação de aves estar relacionado com diferentes padrões de vocalização. Entretanto, dificilmente essas análises são aceitas. Geralmente, populações da mesma espécie com vocalizações diferentes possuem variações genômicas não muito significativas. Para caracterização de uma variedade como uma nova espécie é necessário mais que variação na vocalização.

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Relação com seres humanos

O canto das aves está presente na história do ser humano de diversas formas e em contextos distintos. As diferentes vocalizações são representativas dentro do imaginário popular, muitas vezes essenciais na identificação de espécies de aves, sendo que o som emitido frequentemente se transforma em seus nomes populares regionais. Em alguns casos, nomes de formação onomatopaica, como bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), quero-quero (Vanellus chilensis), coró-coró (Mesembrinibis cayennensis) e quem-te-vestiu (Poospiza nigrorufa). Além de dar nome a algumas espécies, a vocalização das aves está muito presente nas artes, como na música e literatura. Também apresenta aspectos de interesse econômico, principalmente relacionados à avicultura e ao ecoturismo. Outra relação com os seres humanos, que vem sendo bastante estudada, é o impacto do ambiente urbano na vocalização das aves.

Imaginário popular

A vocalização de algumas aves está frequentemente presente em mitos que compõem a cultura de diversos povos. O canto do urutau (Nyctibius grandis), por exemplo, está associado à lendas de povos nativos da região da Bolívia, Peru e Brasil. Comumente a vocalização desta espécie é associada à presença do Curupira. Outro exemplo emblemático na cultura folclórica brasileira é o saci ou matinta-pereira (Tapera naevia), ave agourenta que permeia o imaginário popular, muito devido à sua vocalização de tom misterioso e melancólico. Há também o cri-crió (Lipaugus vociferans), outra ave com diversas lendas ao seu respeito, geralmente envolvendo sua vocalização estridente que ecoa como um alarme na mata.

O canto nas artes

Alguns musicólogos apontam o canto das aves como uma grande, porém inquantificável, influência no desenvolvimento da música. A vocalização das aves influencia compositores de diversas formas: podem ser inspirados por cantos de aves, intencionalmente imitá-los, podem incorporar o canto em suas composições, e até realizar duetos com eles.[carece de fontes?] Na literatura não é diferente, as aves e seus cantos tem fascinado os escritores da mais diversas civilizações. No Brasil, temos o exemplo canônico de Gonçalves Dias, imortalizado ao personalizar no canto do sabiá (Turdus rufiventris) a saudade intensa que sentia pelo país: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”. Na literatura de cordel, Patativa do Assaré destaca em diversas de suas obras a vocalização das aves. Inclusive, seu nome é devido à semelhança de seu canto e o do pássaro patativa (Sporophila plumbea).

Interesse econômico

A vocalização das aves tem papel fundamental no manejo de sistemas de avicultura. Além de servir como indicador comportamental para avaliar o estresse no manejo pré-abate, a estimulação sonora nos primeiro dias de vida, por meio de vocalizações de aves adultas, tem grande potencial para melhorar o consumo de ração, ganho de peso e uniformidade de pintinhos (Gallus gallus domesticus) de corte e postura comercial. Outro setor econômico influenciado pela vocalização das aves é o turismo, atualmente a observação de aves (birdwatching) é considerada atividade de alto potencial ecoturístico. Apesar de ser uma atividade majoritariamente visual, o canto das aves também é essencial para esta prática. Aves com vocalização distinta são um grande atrativo. Outro aspecto da observação de aves relacionado à vocalização é a utilização do playback, técnica muito utilizada para atrair espécies através de uma gravação de seu próprio canto. Essa técnica pode ser muito prejudicial às espécies de aves, configurando-se como fator de estresse e expondo-as a predação.

Ambiente urbano

O ruído antropogênico, característico do ambiente urbano, cria uma nova pressão seletiva nas espécies de aves que utilizam a vocalização para alcançar sucesso reprodutivo. A depender da capacidade de aprendizagem, algumas espécies se adaptam ao novo ambiente sonoro e são capazes de se estabelecer. Porém, outras espécies, as quais falta plasticidade de aprendizagem, estão sujeitas a sofrer mascaramento de seus cantos pelo ruído antropogênico. Para estas espécies, o ruído pode reduzir as oportunidades para reprodução e contribuir para o declínio das populações locais.

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Fontes consultadas

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