Yaoi
Yaoi, também conhecido como boys' love (BL), é um gênero de mídia fictícia japonesa que explora relacionamentos homoeróticos entre personagens masculinos. Criado majoritariamente por mulheres para um público feminino, o BL se distingue da mídia homoerótica feita por e para homens gays, embora também atraia um público masculino e possa ser produzido por criadores homens. O gênero abrange uma vasta gama de formatos, incluindo mangás, animes, dramas de áudio, romances, jogos eletrônicos, séries de TV, filmes e obras de fãs.
Pontos-chave
- Yaoi (BL) é um gênero japonês de ficção que retrata relacionamentos homoeróticos masculinos, criado principalmente por mulheres para mulheres.
- O gênero abrange diversas mídias, como mangás, animes, jogos e séries, e possui uma história que remonta às origens do shōnen-ai.
- Termos como yaoi, boys' love e shōnen-ai são frequentemente usados de forma intercambiável, mas yaoi pode focar mais em cenas de sexo e dōjinshi.
- Os protagonistas, frequentemente bishōnen, são caracterizados por sua androginia e os papéis de 'seme' (ativo) e 'uke' (passivo) são comuns.
- Embora predominantemente feminino, o público BL inclui homens, e o gênero tem sido analisado por sua crítica ao heteropatriarcado e representações da igualdade gay.
A ficção romântica japonesa entre homens possui uma variedade de termos, como yaoi, boys' love (BL), shōnen-ai, June e tanbi. Embora pesquisadores tentem codificar suas diferenças, na prática, esses termos são frequentemente usados de forma intercambiável. BL e yaoi são os termos genéricos mais comuns, mas suas distinções são fluidas. No Ocidente, yaoi foi preferido por editoras para evitar conotações de pedofilia associadas a 'boys' love'. No Japão, yaoi é mais usado para dōjinshi e obras com foco em cenas de sexo. É importante notar que yaoi e BL excluem 'mangás gays' (bara), que são criados por e para homens gays e retratam relacionamentos sexuais masculinos com uma estética diferente.
A história do yaoi e BL é rica e complexa, evoluindo desde as representações de homossexualidade no Japão antigo até sua popularidade global atual. Começando com as raízes do shōnen-ai e influências da literatura europeia, o gênero se desenvolveu através do trabalho de grupos de artistas de mangá e se expandiu para o mainstream, culminando em sua globalização e diversificação em várias mídias.
Antes de 1970: As Origens do Shōnen-ai
A homossexualidade e androginia têm raízes antigas no Japão, como evidenciado por práticas como shudō (amor entre samurais) e kagema (prostitutos masculinos). Com a ocidentalização na Era Meiji, a tolerância diminuiu, levando artistas a usar subtexto. Ilustrações de Kashō Takabatake na revista Nihon Shōnen estabeleceram a estética bishōnen (meninos e homens jovens andróginos). O romance 'A Lovers' Forest' (1961) de Mari Mori, influenciado pela literatura gótica europeia, é considerado um precursor do shōnen-ai, introduzindo tropos como exotismo ocidental, personagens ricos, diferenças de idade e cenários fantasiosos.
Décadas de 1970 e 1980: Do Shōnen-ai ao Yaoi
O mangá de romance homoerótico japonês moderno surgiu nos anos 1970 como um subgênero do mangá shōjo, impulsionado por uma nova geração de artistas, notavelmente o Grupo Ano 24. Este grupo, incluindo Keiko Takemiya e Moto Hagio, expandiu os temas do shōjo, inspirando-se em literatura, cinema e história. Suas obras, como 'In the Sunroom' (1970) de Takemiya e 'The November Gymnasium' (1971) de Hagio, são consideradas as primeiras do gênero que viria a ser conhecido como shōnen-ai.
Década de 1990: Popularidade e o 'Yaoi Ronsō'
A crescente popularidade do yaoi nos anos 90 atraiu editores, que recrutaram autores de dōjinshis. 'Zetsuai 1989' de Minami Ozaki, originalmente um dōjinshi, foi publicado na revista shōjo Margaret. Em 1990, sete editoras japonesas já incluíam conteúdo yaoi, impulsionando o mercado comercial. Entre 1990 e 1995, trinta revistas dedicadas ao yaoi foram criadas, com a 'Magazine Be × Boy' (1993) tornando-se uma das mais influentes. Obras desse período, influenciadas por histórias realistas como 'Banana Fish', afastaram-se dos padrões shōnen-ai anteriores, e os termos yaoi e boys' love (BL) se tornaram mais populares, suplantando shōnen-ai e June.
Década de 2000–Presente: Globalização do Yaoi e do BL
Apesar da crise econômica da 'Década Perdida', o mercado yaoi continuou a crescer no Japão nos anos 2000, com a proliferação de revistas e o aumento das vendas. A Otome Road em Ikebukuro se tornou um centro cultural para fãs de yaoi. Notavelmente, a década de 2000 também viu um aumento de leitores masculinos de yaoi, chegando a 25-30% em algumas pesquisas. Internacionalmente, o yaoi se expandiu com a fundação da Yaoi-Con em 2001 e as primeiras traduções oficiais em inglês em 2003. Embora o mercado tenha contraído brevemente em 2008 devido à crise financeira, ele continuou a crescer, e a Coreia do Sul também desenvolveu seu próprio BL em manhwa.
O universo do BL é construído sobre conceitos e temas específicos que o diferenciam de outros gêneros. Desde a estética dos personagens até a dinâmica dos relacionamentos e as questões sociais abordadas, esses elementos são cruciais para entender a profundidade e o apelo do gênero. A distinção entre BL e bara (mangá gay), a importância do bishōnen, os papéis de seme e uke, e a representação de personagens femininas, igualdade gay, estupro e tragédia são aspectos fundamentais explorados nas narrativas BL.
Bara: O Contraponto ao BL
Bara (薔薇; 'rosa'), também conhecido como mangá gay, é um gênero focado no amor entre homens, criado principalmente por e para homens gays. Em contraste com os bishōnen andróginos do BL, o mangá gay geralmente apresenta homens masculinos com diversos graus de músculos, gordura corporal e pelos. Enquanto o BL é visto como um fenômeno predominantemente feminista, o mangá gay é uma expressão da identidade masculina gay. No início dos anos 2000, houve alguma sobreposição entre BL e mangás gays em publicações com temática BDSM, com colaboradores de ambos os gêneros.
Bishōnen: O Ideal de Beleza Masculina
Os protagonistas do BL são frequentemente bishōnen (美少年; 'menino bonito'), jovens 'altamente idealizados' que combinam qualidades masculinas e femininas. Este conceito, presente no Leste Asiático, foi moldado no mangá shōjo dos anos 1970 por influências como artistas de glam rock (David Bowie), o ator Björn Andrésen em 'Morte em Veneza' (1971) e o kabuki onnagata Bandō Tamasaburō. A androginia dos bishōnen é frequentemente explorada no BL para investigar noções de sexualidade e gênero.
Seme e Uke: Dinâmicas de Relacionamento
Os dois parceiros em um relacionamento BL são frequentemente chamados de seme (攻め; 'topo', do verbo 'atacar') e uke (受け; 'fundo', do verbo 'receber'). Estes termos, originários das artes marciais, foram apropriados como gíria LGBT japonesa para se referir aos parceiros insertivos e receptivos no sexo anal. Aleardo Zanghellini sugere que a origem nas artes marciais tem um significado especial para o público japonês, remetendo ao amor entre samurais e seus companheiros, o que pode explicar as diferenças de idade e hierarquia de poder em alguns relacionamentos BL.
Personagens Femininas Diminuídas
Historicamente, personagens femininas têm papéis menores ou são ausentes no BL. Kazuko Suzuki observa que mães são frequentemente retratadas negativamente, sugerindo que isso se deve à tentativa de substituir a ausência de amor materno incondicional pelo amor 'proibido' e consumidor do BL. Em dōjinshis paródicos, papéis femininos são minimizados ou eliminados. A autora de BL Nariko Enomoto sugere que a ausência de mulheres no BL é para manter a narrativa como uma fantasia, evitando o realismo que sua presença traria.
Igualdade Gay e Representação Social
As histórias de BL são frequentemente homossociais, permitindo que os homens se conectem e busquem objetivos comuns, superando a hierarquia de gênero masculino-feminino. Casais BL enfrentam obstáculos emocionais ou psicológicos. Embora as primeiras histórias usassem a homossexualidade como fonte de vergonha, a partir de meados dos anos 2000, o gênero começou a retratar a identidade gay com mais sensibilidade, com histórias de revelação e aceitação. O BL tende a retratar uma sociedade japonesa mais receptiva a pessoas LGBT do que na realidade, o que Akiko Mizoguchi considera uma forma de ativismo. Algumas histórias mostram casais formando unidades familiares, coabitando e adotando crianças, ou até se casando e tendo filhos (em publicações Omegaverse). Dramas de TV BL como 'Ossan's Love' (2016–2018) são vistos como uma ponte entre a ficção BL e a aceitação da homossexualidade na percepção do público.
Estupro e Consentimento no BL
Representações erotizadas de estupro são frequentemente associadas ao BL, onde o sexo anal é visto como uma expressão de comprometimento. A 'violência aparente' do estupro é transformada em uma 'medida de paixão'. Cenas de estupro raramente são apresentadas como crimes; em vez disso, a ação do seme é retratada como evidência de atração incontrolável pelo uke. Essas cenas são frequentemente um recurso de enredo para fazer o uke desenvolver sentimentos pelo seme, resultando no uke se apaixonando pelo agressor.
O yaoi e o BL se manifestam em uma vasta gama de mídias, desde mangás e animes até jogos eletrônicos e séries live-action. O mercado japonês de BL é significativo, com um volume de negócios anual de bilhões de ienes, e o gênero também se expandiu globalmente através de traduções e adaptações. A subcultura dōjinshi desempenha um papel crucial na formação e no recrutamento de talentos para a indústria.
Trabalhos de Fãs (Dōjinshi)
A subcultura dōjinshi (obras de fãs autopublicadas) surgiu nos anos 1970, paralelamente ao BL e à fanfic ocidental. Caracteristicamente, não aderem a estruturas narrativas padrão e são populares em temas de ficção científica. Os primeiros dōjinshis BL eram publicações amadoras, frequentemente derivadas de mangás e animes existentes, criadas por adolescentes para adolescentes. Muitos artistas de mangá profissionais, como o grupo Clamp e Youka Nitta, começaram ou continuaram a produzir dōjinshis. Editoras frequentemente recrutam amadores talentosos de dōjinshis, o que impulsionou as carreiras de muitos autores populares.
Publicação em Língua Inglesa
As primeiras traduções oficiais de mangás yaoi para o inglês foram publicadas na América do Norte em 2003. Em 2006, havia cerca de 130 obras yaoi traduzidas comercialmente, e em 2007, mais de 10 editoras norte-americanas publicavam yaoi. Editoras notáveis incluem Viz Media (SuBLime), Digital Manga Publishing (801 Media, Juné), Media Blasters (Kitty Media), Seven Seas Entertainment e Tokyopop. Algumas editoras de BL em inglês já encerraram suas atividades, como Central Park Media (Be Beautiful), Broccoli (Boysenberry) e Aurora Publishing (Deux Press).
Audio Dramas (BLCDs)
Dramas de áudio de yaoi, também conhecidos como 'CD drama', 'dramas sonoros' ou 'BLCDs', são performances de voz gravadas de cenários de romance entre homens, interpretadas principalmente por dubladores masculinos. Geralmente são adaptações de mangás e romances BL originais. Os primeiros dramas de áudio BL foram lançados na década de 1980, começando com 'Tsuzumigafuchi' (1988). A popularidade dos CDs impulsionou a proliferação desses dramas a partir dos anos 1990, atingindo um pico de 289 CDs lançados em 2008, antes de diminuir para 108 CDs em 2013.
Filmes e Séries de Televisão Live-action
Adaptações live-action de mangás BL japoneses existem desde o início dos anos 2000, mas eram inicialmente direcionadas a um público de nicho. Quando adaptadas para o público geral, os elementos de romance homoafetivo eram frequentemente minimizados ou removidos, como na adaptação de 'Antique Bakery' (2001). O sucesso crítico e comercial do drama televisivo 'Ossan's Love' (2016) da TV Asahi, com seu triângulo amoroso exclusivamente masculino, impulsionou o desenvolvimento de dramas BL live-action explícitos para o público de massa. Exemplos notáveis incluem 'The Novelist' (2018), 'What Did You Eat Yesterday?' (2019), 'Cherry Magic' (2020) e a adaptação cinematográfica de 'The Cornered Mouse Dreams of Cheese' (2020).
Jogos Eletrônicos BL
Os jogos BL são geralmente romances visuais ou eroges focados em casais masculinos. O primeiro jogo BL a ser lançado oficialmente em inglês foi 'Enzai: Falsely Accused' (2006) pela JAST USA. No mesmo ano, a empresa publicou 'Absolute Obedience', e a Hirameki International licenciou 'Animamundi', que foi censurado para o lançamento nos EUA para obter uma classificação 'maduro' em vez de 'somente para adultos'. Comparado ao mangá BL, menos jogos BL foram traduzidos oficialmente para o inglês, em parte devido à violação generalizada de direitos autorais de jogos licenciados e não licenciados.
Apesar da necessidade de mais análises demográficas, é amplamente reconhecido que a maioria esmagadora dos leitores de BL são mulheres. No entanto, o gênero também atrai um público masculino, incluindo homens gays, bissexuais e heterossexuais, embora em menor proporção. As motivações e preferências desses diferentes grupos de leitores variam, com alguns homens gays preferindo BL ao mangá gay tradicional, enquanto outros são desencorajados por certas representações.
O yaoi e o BL têm sido objeto de extensos estudos e debates, tanto por acadêmicos quanto por jornalistas, especialmente após sua globalização. As análises exploram as motivações do público, que vão desde a busca por escapismo e representações idealizadas de relacionamentos até a crítica ao heteropatriarcado. No entanto, o gênero também enfrenta críticas, particularmente em relação à representação da identidade gay e a questões legais e morais.
Motivação do Público BL
As motivações para consumir mídia BL são diversas, incluindo a libertação do heteropatriarcado, a busca por representações idealizadas de relacionamentos, o amor 'puro' sem gênero, atitudes pró-homossexuais, identificação pessoal, elementos melodramáticos e emocionais, aversão a romances padrão/shōjo, um gênero romântico/erótico voltado para mulheres, escapismo, apreciação da arte e estética, puro entretenimento e excitação sexual. Críticos japoneses veem o BL como um meio para o público evitar a sexualidade feminina adulta, criar fluidez nas percepções de gênero e sexualidade, e rejeitar papéis de gênero 'socialmente obrigatórios', sendo um 'primeiro passo em direção ao feminismo'. Kazuko Suzuki sugere que a aversão ao heterossexismo masculino surgiu conscientemente devido à popularidade do gênero.
Críticas ao BL
Alguns comentaristas gays e lésbicas criticaram a representação da identidade gay no BL, especialmente no 'yaoi ronsō' (debate yaoi) de 1992-1997. Um tropo criticado é o de protagonistas masculinos que não se identificam como gays, mas estão apaixonados um pelo outro, o que foi comparado a 'meninas brincando de boneca'. Embora isso possa intensificar o tema do amor conquistador, é condenado como uma forma de evitar o reconhecimento da homofobia. Críticas também foram direcionadas ao comportamento estereotipicamente feminino do uke.
Questões Legais e Morais
O BL tem sido alvo de disputas legais e morais. Mark McLelland sugere que o BL pode se tornar um 'campo de batalha' para políticas 'sem gênero'. A artista de BL Youka Nitta afirmou que 'mesmo no Japão, ler yaoi não é algo que os pais incentivem'. Na Tailândia, a venda não autorizada de mangás shōnen-ai para adolescentes em 2001 gerou pânico moral. Em 2006, uma campanha por e-mail para remover obras BL de uma biblioteca em Sakai provocou um debate nacional sobre discriminação. Em 2010, o Governo da Prefeitura de Osaka classificou o mangá de amor masculino como 'prejudicial a menores' devido ao conteúdo sexual, resultando na proibição de venda de várias revistas a menores de 18 anos.


