Racismo contra afro-americanos
No contexto do racismo nos Estados Unidos, o racismo contra afro-americanos remonta à era colonial e continua a ser um problema persistente na sociedade americana no século XXI.
A Lei de Naturalização de 1790 estabeleceu as primeiras regras uniformes para a concessão da cidadania nos Estados Unidos por naturalização, restringindo-a a "pessoas brancas livres". Isso excluía os nativos americanos, os servos contratados, os escravizados, os negros livres e, posteriormente, os asiáticos. A cidadania, ou a sua ausência, tinha um impacto significativo sobre diversos direitos legais e políticos, especialmente o direito ao voto, tanto em nível federal quanto estadual, além do direito de ocupar determinados cargos públicos, ser jurado, prestar serviço militar, participar de outras atividades e acessar serviços e benefícios governamentais. A segunda Lei da Milícia de 1792 [en] também estabelecia o alistamento de todos os "cidadãos brancos do sexo masculino, livres e saudáveis". A Constituição do Tennessee de 1834 incluía uma cláusula que afirmava: “os homens brancos livres deste Estado têm o direito de manter e portar armas para sua defesa comum”.
A escravidão, enquanto forma de trabalho forçado, existiu em várias culturas desde as primeiras civilizações humanas, mas não era intrinsecamente racial. Nos Estados Unidos, no entanto, a escravidão, estabelecida durante a era colonial, se tornou racializada no período da Revolução Americana (1775-1783), quando foi institucionalizada como um sistema de castas raciais baseado na ascendência africana e na cor da pele.
A escravidão
O comércio atlântico de escravos prosperou, com mais de 470.000 pessoas trazidas da África para o que hoje são os Estados Unidos entre 1626 e 1860. Antes da Guerra Civil, oito presidentes em exercício eram proprietários de escravos, e a escravidão era protegida pela Constituição dos Estados Unidos. Criando riqueza para a elite branca, cerca de uma em cada quatro famílias sulistas possuía escravizados antes da Guerra Civil. De acordo com o censo de 1860, havia aproximadamente 385.000 proprietários de escravos em uma população branca de cerca de 7 milhões nos estados escravistas. Os americanos brancos envolvidos no comércio de escravos justificavam a exploração econômica dos negros com uma teoria "científica" da superioridade branca e da inferioridade negra. Um desses proprietários de escravos foi Thomas Jefferson, que apelou à ciência para argumentar a “inferioridade” dos negros, considerando-os "inferiores aos brancos nos dons do corpo e da mente". Este argumento é visto como um "estágio importante na evolução do racismo científico".
Controle dos negros livres
Durante as décadas de 1820 e 1830, a Sociedade Americana de Colonização (ACS) propôs uma solução para a presença de negros livres nos Estados Unidos, incentivando-os a emigrar para a África. Em 1821, a ACS fundou a colônia da Libéria e persuadiu milhares de ex-escravos e negros livres a se mudarem para lá. Alguns escravizados foram libertados sob a condição de emigrarem. Os estados escravistas não escondiam seu desejo de se livrar dos negros livres, considerando-os uma ameaça ao seu sistema escravagista, pois poderiam incitar fugas e revoltas. O apoio à ACS era principalmente do sul. O fundador da ACS, Henry Clay, do Kentucky, afirmou que, devido ao “preconceito inconquistável resultante de sua cor, eles nunca poderiam se unir aos brancos livres deste país. Portanto, seria desejável, para o bem deles e da população do país, que fossem eliminados”. Milhares de negros foram reassentados na Libéria, onde formaram um enclave de língua inglesa, mas tiveram dificuldades para se adaptar à vida africana, com muitos deles morrendo de doenças tropicais.
Comércio doméstico de escravos
A importação de escravizados para os Estados Unidos foi proibida por lei federal a partir de 1808, mas o contrabando continuou, com o último navio conhecido a transportar africanos escravizados sendo o Clotilda, em 1859 ou 1860. No entanto, o comércio doméstico de escravizados continuou a ser uma atividade econômica significativa. Estados como Maryland e Virgínia exportavam excedentes de escravizados para o sul, e membros de famílias escravizadas podiam ser separados — ou seja, vendidos — de maneira permanente, sem a possibilidade de se reencontrarem. Entre 1830 e 1840, cerca de 250.000 escravizados foram movidos entre estados. Na década de 1850, esse número aumentou para mais de 193.000, e os historiadores estimam que, no total, quase um milhão de pessoas foram comercializadas dentro do território dos Estados Unidos.
Durante a Guerra Civil Americana, a Lei da Milícia de 1862 permitiu, pela primeira vez, que afro-americanos servissem nas milícias da União como soldados. No entanto, os soldados negros enfrentaram discriminação, especialmente em relação ao pagamento, recebendo metade do valor dos soldados brancos. Além disso, as unidades de afro-americanos eram frequentemente designadas para trabalhos braçais, em vez de missões de combate. O general Daniel Ullman [en], comandante das tropas de cor dos Estados Unidos, expressou sua preocupação ao afirmar: “Temo que muitos oficiais de alto escalão fora de Washington não tenham outra intenção senão a de que esses homens sejam usados como escavadores e trabalhadores braçais”. Os afro-americanos foram organizados em regimentos de cor, e, ao final da guerra, em abril de 1865, 175 regimentos de negros representavam cerca de um décimo do Exército da União. Aproximadamente 20% dos soldados negros morreram durante a guerra, um número cerca de 35% maior do que o das tropas brancas da União. No entanto, a Lei da Milícia de 1862 não permitiu o serviço militar para todas as raças, restringindo-o aos afro-americanos. No Exército Confederado, homens não brancos eram proibidos de servir como soldados.
Era da Reconstrução
Após a Guerra Civil, a 13ª Emenda, que aboliu formalmente a escravidão, foi ratificada em 6 de dezembro de 1865. No ano seguinte, o Congresso aprovou a Lei dos Direitos Civis de 1866 [en], que concedia uma série de direitos civis a todas as pessoas nascidas nos Estados Unidos. No entanto, o surgimento dos Códigos Negros sancionou atos de subjugação contra os afro-americanos, continuando a impedir que eles exercessem plenamente seus direitos civis. A Lei de Naturalização de 1790 havia concedido a cidadania americana apenas aos brancos, e, em 1868, a 14ª Emenda foi adotada, garantindo cidadania a "todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos", independentemente da raça. Em seguida, a Lei dos Direitos Civis de 1875 [en] foi aprovada, mas posteriormente anulada em uma decisão judicial que enfraqueceu o poder federal de combater a discriminação racial privada. Contudo, a última emenda da Era da Reconstrução, a 15ª Emenda, garantiu o direito de voto aos homens afro-americanos (anteriormente, apenas homens brancos com posses podiam votar). Com esses avanços federais, os afro-americanos começaram a usufruir da emancipação, participando das eleições, buscando cargos públicos e acessando a educação pública.
Era pós-reconstrução
O novo século testemunhou o endurecimento do racismo institucionalizado e da discriminação legal contra os cidadãos de ascendência africana nos Estados Unidos. Ao longo de todo o período pós-Guerra Civil, a estratificação racial foi aplicada de maneira formal e sistêmica para consolidar a ordem social preexistente. Embora tecnicamente os afro-americanos pudessem votar, a participação eleitoral foi amplamente limitada por uma série de barreiras, incluindo atos de terrorismo como linchamentos, muitas vezes perpetrados por grupos de ódio, como a Ku Klux Klan, fundada no Sul durante a Reconstrução. Além disso, leis discriminatórias, como as "cláusulas de avô", impediram os negros (e muitos brancos pobres) de exercerem seus direitos, principalmente no Sul. A discriminação também se estendeu à legislação estadual que alocava de maneira desigual os recursos financeiros para escolas destinadas aos negros e brancos. Em alguns casos, as autoridades do condado redirecionavam recursos destinados às escolas negras para instituições brancas, prejudicando ainda mais as oportunidades educacionais dos afro-americanos.
Grande migração
O racismo, que anteriormente era visto como um problema restrito aos estados do Sul, passou a ser reconhecido como uma questão nacional após a Grande Migração. Esse movimento envolveu a realocação de milhões de afro-americanos, que deixaram as áreas rurais do Sul para se estabelecer nas regiões industriais do Norte e do Oeste, entre 1910 e 1970. Cidades como Boston, St. Louis, Chicago, Detroit, Nova York (especialmente Harlem), Cleveland, Los Angeles, Oakland, Seattle, Phoenix e Denver receberam um grande número de migrantes. Em Chicago, por exemplo, a proporção de afro-americanos na população saltou de 2% em 1910 para 32,7% em 1970. O estudo das condições econômicas e demográficas que impulsionaram a migração revela fatores determinantes, como a maior escolaridade dos migrantes (especialmente entre 1910 e 1920) em comparação aos negros que permaneceram no Sul. A mudança foi, em grande parte, impulsionada por fatores econômicos, como a destruição da economia agrícola do Sul, especialmente a cultura do algodão, devido ao ataque do gorgulho.
As leis Jim Crow foram legislações estaduais e locais que vigoraram nos estados do sul e na fronteira dos Estados Unidos entre 1876 e 1965. Elas estabeleciam um status de "separados, mas iguais" para os afro-americanos, mas, na prática, resultaram em tratamentos e acomodações quase sempre inferiores aos oferecidos aos brancos. As leis mais significativas exigiam que as escolas públicas, os espaços públicos e o transporte público, como trens e ônibus, tivessem instalações separadas para brancos e negros. A segregação escolar patrocinada pelo Estado foi considerada inconstitucional pela Suprema Corte dos EUA em 1954 no caso Brown v. Board of Education. Um dos primeiros processos judiciais federais que contestaram a segregação nas escolas foi Mendez v. Westminster [en] em 1946. O acesso a benefícios públicos também era um problema significativo para os afro-americanos, que foram excluídos da maioria dos ganhos conquistados pelos brancos por meio de programas como o G.I. Bill [en], após a Segunda Guerra Mundial. Durante a Grande Depressão, a maioria das mulheres trabalhadoras negras e muitos homens negros também foram excluídos de programas do New Deal, como o seguro-desemprego e a Previdência Social.
Apesar dos avanços obtidos nas décadas seguintes, com o crescimento da classe média e a ampliação de empregos no setor público, a pobreza e a falta de educação entre a população negra continuaram a ser problemas persistentes, especialmente no contexto da desindustrialização. Mesmo após os ganhos decorrentes do atentado à bomba contra a Igreja Batista da Rua 16, a violência contra igrejas negras não desapareceu. Na década de 1990, 45 igrejas negras foram incendiadas no Sul dos Estados Unidos, e, em 2015, um tiroteio em massa foi cometido na histórica Igreja Mãe Emanuel, em Charleston, Carolina do Sul. De 1981 a 1997, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos discriminou dezenas de milhares de agricultores negros, negando-lhes empréstimos que eram concedidos a agricultores brancos em circunstâncias semelhantes. A discriminação resultou na ação judicial Pigford v. Glickman [en], movida por membros da Associação Nacional de Agricultores Negros [en], que culminou em dois acordos de compensação: 1,06 bilhões de dólares em 1999 e 1,25 bilhões de dólares em 2009.
Currículo
O currículo das escolas americanas também tem historicamente refletido racismo contra as populações não brancas, incluindo nativos americanos, afro-americanos, mexicanos-americanos e asiático-americanos. Especialmente no século XIX e no início do século XX, os manuais escolares e outros materiais didáticos reforçavam a ideia de inferioridade biológica e social dos negros americanos, retratando-os de forma sistemática como simplórios, irresponsáveis e, muitas vezes, colocando-os em situações de sofrimento que eram implicitamente atribuídas à sua própria culpa (e não aos efeitos da escravidão e outras formas de opressão). Os negros americanos eram frequentemente retratados como dispensáveis, e seu sofrimento, como algo comum, como evidenciado pelo poema "Ten Little Nigger Boys", que circulava como um exercício de contagem para crianças de 1875 até meados do século XX, em que as crianças morriam uma a uma.
A candidatura presidencial de Barack Obama, eleito presidente dos Estados Unidos de 2009 a 2017 e o primeiro presidente negro do país, foi vista por alguns americanos como um sinal de que o país havia ingressado em uma nova era pós-racial. No entanto, a eleição de Donald Trump em 2016, que foi um dos principais defensores do movimento "birther" (que questionava o local de nascimento de Obama) e fez uma campanha com elementos de caráter racial, foi interpretada por alguns comentaristas como uma reação ao legado da presidência de Obama. Tanto antes quanto após a eleição, os discursos e ações de Trump foram amplamente considerados racistas ou de conotação racial. A partir da metade da década de 2010, os Estados Unidos experimentaram um ressurgimento de altos níveis de racismo e discriminação. Um fenômeno notável foi o crescimento do movimento direita alternativa, uma coalizão nacionalista branca que defendia a expulsão das minorias raciais e sexuais do país. Nesse período, o Departamento de Segurança Interna e o FBI passaram a identificar a violência de supremacia branca como a principal ameaça de terrorismo doméstico nos Estados Unidos.


