Gone with the Wind
Gone with the Wind é um filme americano de 1939, do gênero drama histórico-romântico, dirigido por Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood para a Selznick International Pictures, com roteiro baseado no romance Gone with the Wind, de Margaret Mitchell.
Primeira parte
"Houve uma terra de cavaleiros e campos de algodão denominada 'O Velho Sul'. Neste mundo, o galanteio fez sua última mesura. Aqui foram vistos pela última vez: cavaleiros e suas damas… Senhores e escravos. Procure-os apenas nos livros, pois não passam de um sonho a ser relembrado. Uma civilização que o vento levou…".[nota 1] Na véspera da Guerra de Secessão em 1861, Scarlett O'Hara vive em Tara, plantação de algodão de sua família situada na Geórgia, com seus pais e suas duas irmãs. Ela descobre que Ashley Wilkes — o qual ela secretamente ama — se casará com sua prima, Melanie Hamilton, e o casamento será anunciado no dia seguinte em um churrasco na casa de Ashley, perto da plantação Twelve Oaks. Durante o evento, Scarlett declara secretamente seus sentimentos para Ashley, mas ele a rejeita ao responder que ele e Melanie são mais compatíveis. Scarlett fica furiosa ao descobrir que Rhett Butler, outro convidado, ouviu sua conversa com Ashley; surpreso, Butler promete a ela que guardará seu segredo. O churrasco é interrompido pela declaração de guerra e os homens correm para se alistarem. Ao passo em que Scarlett vê Ashley dando um beijo de despedida em Melanie, Charles, irmão mais novo de Melanie, lhe propõe casamento. Embora não o amasse, Scarlett aceita e eles se casam antes de ele ir para a guerra.
Segunda parte
Scarlett envia sua família e suas servas para trabalhar nos campos de algodão, enfrentando muitas dificuldades ao longo do caminho, incluindo a morte de seu pai após este cair do cavalo em uma tentativa de afastar um aproveitador de suas terras. Com a derrota dos Estados Confederados, Ashley também retorna, mas descobre que pode ajudar em pouca coisa em Tara. Quando Scarlett lhe implora para fugir com ela, Ashley confessa seu desejo por ela e a beija apaixonadamente, mas diz que ele não consegue deixar Melanie. Incapaz de pagar as taxas de Tara implementadas pelos reconstrutores, Scarlett engana o noivo de sua irmã, o rico e de meia idade Frank Kennedy, de se casar com ela, dizendo que Suellen se cansou de esperar e casou-se com outro homem. Frank, Ashley, Rhett e outros cúmplices invadem uma favela de noite após Scarlett ser atacada enquanto dirigia nela sozinha; a invasão acabou resultando na morte de Frank. Pouco após o término do funeral de Frank, Rhett propõe casamento à Scarlett e ela aceita. Eles acabam tendo uma filha, a qual Rhett nomeia de Bonnie Blue, mas Scarlett, ainda apaixonada por Ashley e mortificada com a ruína percepção de sua figura, diz à Rhett que ela não quer mais crianças e que eles não irão mais dormir juntos.
Os créditos iniciais do filme têm uma estrutura incomum porque, em vez de ordenar pela posição de importância de cada um dos atores, como é usual, o elenco é dividido em três seções: "Plantação de Tara", "Twelve Oaks" e "Atlanta". Além disso, os nomes são ordenados de acordo com a classificação social dos personagens; desse modo, Thomas Mitchell, que interpreta Gerald O'Hara, encabeça a lista como o chefe da família O'Hara, ao passo que Barbara O'Neil, como sua esposa, aparece em segundo lugar e Vivien Leigh, como a filha mais velha, a terceira, apesar de ter o maior tempo em tela. Da mesma forma, Howard C. Hickman, como John Wilkes, aparece a frente de Leslie Howard, que interpreta seu filho, e Clark Gable, que é descrito apenas como "um visitante em Twelve Oaks", recebe um crédito relativamente irrelevante na lista de elenco, apesar de ser apresentado como a "estrela" do filme durante a sua promoção.
Gone with the Wind é bem conhecido por seu uso inovador de efeitos especiais, como matte painting e projeção traseira, todos concebidos décadas antes da era digital. A "grande casa nova em Atlanta" foi fortemente disfarçada com matte painting, embora os gramados formais e o caminho com sua cobertura central permanecem praticamente inalterados. A fachada de Tara foi construída em tamanho real. As altas árvores ao seu lado eram, na verdade, postes aos quais pedaços de madeira foram fixados para dar forma ao tronco, que, no que lhe diz respeito, recebeu tratamento com intuito de parecer real. Galhos de árvores reais foram juntados ao falso tronco, e folhas, incluídas. A despeito de árvores reais terem sido utilizadas, algumas receberam flores de tecido. A fachada de Twelve Oaks não foi construída, contrariamente: foi pintada em vidro, para uma sequência matte feita por Jack Cosgrove, chefe do departamento de efeitos especiais.
Desenvolvimento
Antes da publicação do livro Gone with the Wind, diversos executivos e estúdios de Hollywood não demonstraram interesse em criar um filme baseado no trabalho, dentre os quais estavam Louis B. Mayer e Irving Thalberg, ambos da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), Pandro Berman, da RKO Pictures, e David O. Selznick, da Selznick International Pictures. Jack Warner aprovou a história, mas a maior estrela da Warner Bros., Bette Davis, não se interessou no papel de Scarlett, e Darryl Zanuck, da 20th Century Fox, não ofereceu dinheiro suficiente para os direitos do filme. Selznick mudou de ideia em 20 de maio de 1936 — momento em que estava completando a película The Garden of Allah, quando seu editor Kay Brown e seu parceiro de negócios John Hay Withney pediram-lhe para comprar os diretos do filme. Em julho de 1936 — um mês após o lançamento do livro, ele os comprou por cinquenta mil dólares.
Roteiro
Em sua enciclopédia Dictionary of Literary Biography, o historiador de cinema Joanne Yeck falou sobre Sidney Howard, roteirista do filme, bem como sobre o roteiro: "Reduzir as complexidades das dimensões épicas de Gone with the Wind foi uma tarefa hercúlea (…) e a primeira submissão de Howard era muito longa, e seria pelo menos seis horas de filme; [o produtor] Selznick queria que Howard permanecesse no estúdio para fazer revisões (…) mas este recusou-se em deixar a Nova Inglaterra [e], como resultado, as revisões foram feitas por diversos escritores locais". Selznick demitiu George Cukor três semanas após o início das filmagens e contratou Victor Fleming, que na época estava dirigindo The Wizard of Oz. Este ficou insatisfeito com o roteiro e, em seguida, o produtor contatou o famoso roteirista Ben Hecht para reescrevê-lo completamente dentro de cinco dias. Hecht retornou aos rascunhos originais de Howard e, ao final da semana, conseguiu revisar a primeira metade do roteiro. Selznick comprometeu-se em reescrever a segunda metade por conta própria, porém enfrentou alguns contratempos. Howard retomou os trabalhos no roteiro por uma semana, refazendo diversas cenas importantes da segunda parte.
Escolha do elenco
A escolha dos atores que interpretariam os papéis principais demorou dois anos para ser concluída. Para o papel de Rhett Butler, Selznick queria Clark Gable desde o início; porém o ator estava sob contrato da MGM, no qual dizia que sua participação em filmes de outros estúdios estava proibida. Gary Cooper também foi considerado, mas Samuel Goldwyn — a quem Cooper estava sob contrato — recusou-se em permiti-lo de participar. A Warner ofereceu Bette Davis, Errol Flynn e Olivia de Havilland para os papéis principais, em troca dos direitos de distribuição. Nessa época, em uma pesquisa realizada em âmbito nacional, Gable foi votado como o favorito do público para interpretar o protagonista; Selznick, como já estava determinado em contratá-lo, eventualmente fez um acordo com a MGM. Louis B. Mayer, chefe da companhia e sogro do produtor, permitiu a participação do ator em agosto de 1938 e mais 1 250 000 dólares para metade do orçamento do filme, mas por um alto preço: Selznick deveria pagar o salário semanal do ator, e metade dos lucros iriam à MGM, enquanto a Loew's Inc. — empresa-mãe da companhia — lançaria o filme.
Filmagens
As filmagens de Gone with the Wind ocorreram entre 26 de janeiro e 1.º de julho de 1939, à medida que sua pós-produção continuou até 11 de novembro daquele ano. Nas duas primeiras semanas do primeiro mês, Leigh trabalhou muito em seu sotaque. Susan Myrick e Wilbur Kurtz, as duas principais autoridades do Sul no filme, ficaram impressionados. "Ela é uma querida", disse aquela, ao passo que este observou: "Vivien é uma coisinha obscena e calorosa como um fogareiro e adorável de se olhar." Em 11 de fevereiro, o contrato de opção do diretor George Cukor — com quem Selznick tinha uma longa relação de trabalho e o qual havia passado quase dois anos na pré-produção do filme — teve de ser renovado, mas houve desavenças entre eles. Dois dias depois, as gravações foram interrompidas e o motivo pelo qual isso se sucedeu foi que o diretor haviam descordado acerca dos locais das filmagens e do roteiro. Contudo, outras explicações causaram seu afastamento, incluindo o desconforto de Gable ao trabalhar com ele. Emanuel Levy, biógrafo do diretor, escreveu que o ator havia trabalhado no circuito gay de Hollywood como um gigolô e que o cineasta sabia de seu passado; então, aquele usou sua influência para que este fosse afastado. Sobre a discrepância do roteiro, Myrick afirmou que Cukor dissera a Selznick que não iria mais trabalhar se o argumento não fosse melhor. Por sua vez, este disse àquele que ele era um diretor, não um autor, e que este (Selznick) era o produtor e juiz do que é um bom roteiro. Cukor descreveu-se como um diretor "e muito bom", que não deixaria seu nome sair num filme ruim, e completou que, se eles não usassem o roteiro que Sidney Howard escrevera, desligar-se-ia do projeto. Selznick disse: "Tudo bem, saia!".
Fotografia
O diretor de fotografia Lee Garmes começou a produção do filme, mas em 11 de março de 1939 — após um mês de filmagens que foram descritas por Selznick e seus associados como "muito obscuras" — foi substituído por Ernest Haller, que trabalhou com Ray Rennahan, que utilizava o Technicolor. Garmes completou o primeiro terço do filme — principalmente tudo antes de Melanie ter o bebê —, mas não recebeu créditos. Gone with the Wind totalizou um orçamento de US$ 3,85 milhões, tornando-se o filme mais caro até então, ficando apenas atrás de Ben-Hur (1925).
Arte e desenho de produção
O desenhista de produção do filme foi William Cameron Menzies. A escolha de Selznick por ele deu-se em razão de seu trabalho realizado em The Adventures of Tom Sawyer (1938). A convicção que o produtor tinha nele foi muita que ele enviou um memorando para todos da Selznick International Pictures que estavam envolvidos na produção lembrando-lhes que "Menzies é a palavra final" sobre tudo o que concerne ao sistema technicolor, design cênico, decoração de set e a aparência geral da produção. Primeiramente, o produtor hesitou muito antes de filmar a cores, devido ao alto custo que era realizar uma obra dessa magnitude — apesar de que seu estúdio, embora fosse considerado pequeno, já havia produzido mais filmes a cores do que a maioria dos grandes estúdios, tornando Gone with the Wind o 13.º filme feito com o sistema. Calcula-se que ter filmado em technicolor tenha adicionado mais de quinhentos mil dólares ao orçamento final. Além do gasto, o sistema adicionou possibilidades de edição do espaço através da manipulação das cores e da criação de efeitos especiais utilizando a matte painting em painéis de vidro. Segmentos de Tara (o telhado e arredores) também foram feitos assim. As imagens de céus cheios de nuvens e de penumbras dramáticas foram filmadas na Califórnia; depois, enquadradas no cenário. A cena em que Scarlett e seu pai observam Tara sob o céu de fim de tarde contém três pinturas matte distintas — a casa, o céu e a árvore — combinadas com a filmagem em silhueta dos dois personagens.
Representação feminina
Dentre os temas principais que o filme aborda é a força da personagem principal: Scarlett, uma mulher sólida que supera todas as possibilidades de cuidar de sua família e de si mesma. Ela se casa com um homem que não ama, a fim de conseguir o dinheiro para salvar Tara, sua plantação, ignora a opinião pública ao comprar e dirigir duas serrarias para manter a segurança financeira de sua família; inclusive, trabalha nos campos de Tara com o intuito de assegurar uma boa colheita de algodão para que sua irmã e os criados da casa não passem penúria. A força, tanto física como psicológica, também se faz necessária no momento em que a personagem mata um ianque que aparece para saquear a fazenda. Contudo, Scarlett não é a única personagem feminina forte na narrativa: Ellen O'Hara, sua mãe, que é a imagem da gentileza sulista. Esta, em momento algum, precisa elevar sua voz para dar um comando a um servo ou repreender uma criança, sendo "obedecida instantaneamente". Metaforicamente, Ellen morre junto com a plantação depois que os Yankees depredam a Geórgia. Outra mulher que representa uma espécie de força gentil e tranquila é Melanie Wilkes, a cunhada de Scarlett, que possui grande benevolência e é um modelo de maternalismo.
Prévia, estreia e distribuição inicial
Em 9 de setembro de 1939, Selznick, juntamente com sua esposa Irene, o investidor John "Jock" Whitney e o editor cinematográfico Hal Kern dirigiram-se para Riverside, Califórnia, para conceder uma prévia de Gone with the Wind no Fox Theatre. O filme ainda não estava pronto nessa fase, pois faltavam títulos completados e efeitos especiais óticos. Originalmente, o trabalho possuía uma duração de quatro horas e vinte e cinco minutos, porém viria a sofrer diversos cortes para durar pouco menos de quatro horas, a fim de um lançamento apropriado. Uma dobradinha de Hawaiian Nights e Beau Gaste estava sendo apresentada, e após o primeiro longa ser exibido, foi anunciado que o cinema iria exibir uma prévia; o público foi informado de que poderia deixar o local, mas que não seria reembolsado uma vez que o filme havia começado, e que ligações telefônicas estavam proibidas, pois o cinema havia sido vedado. Quando o título apareceu na tela, o público aplaudiu, e a prévia terminou com uma ovação em pé. Em sua biografia de Selznick, David Thomson escreveu que a resposta do público antes de o filme começar "foi o melhor momento da vida [de Selznick], a maior vitória e a redenção de todas as suas falhas", com o produtor definindo as prévias como "provavelmente as mais incríveis que qualquer filme já teve". Em setembro daquele ano, ao ser questionado pela imprensa como se sentia em relação ao filme, ele comentou: "Ao meio dia eu acho que é divino, à meia-noite eu acho que é ruim. Às vezes, eu acho que é o melhor filme já feito. Mas se for apenas um filme bom, eu ainda estarei satisfeito".
Lançamentos posteriores
Em 1942, Selznick liquidou sua empresa por razões fiscais, e vendeu sua parte em Gone with the Wind para seu parceiro de negócios John Whitney no valor de US$ 500 mil. Whitney, por sua vez, vendeu-a para a MGM por US$ 2.8 milhões, para que o estúdio ficasse definitivamente com os direitos do filme. A MGM relançou o trabalho pela primeira vez em 1947, e novamente em 1954; esta última reedição marcou a primeira vez em que o projeto foi exibido em widescreen, comprometendo a academy ratio original e cortando as partes superiores e inferiores para uma proporção de tela de 1.75:1. Com isso, diversas tomadas foram oticamente remodeladas e cortadas em negativos de câmera de três faixas, alterando para sempre cinco sequências da obra.
Bilheteria
Após sua liberação, Gone with the Wind quebrou recordes em números de públicos. Apenas no Teatro Capitol, em Nova Iorque, ele teve uma média de venda de onze mil ingressos por dia no final de dezembro. Dentro de quatro anos, já tinha vendido mais de sessenta milhões de bilhetes em todo os Estados Unidos, o equivalente a pouco menos de metade da população na época. Seu sucesso também repetiu-se no exterior, como, por exemplo, no Reino Unido, durante a Blitz em Londres, onde estreou em abril de 1940 e permaneceu no circuito por quatro anos. No momento em que a MGM retirou-o de circulação no final de 1943, sua distribuição mundial obteve receitas brutas (a participação do estúdio na bilheteria bruta) de 32 milhões de dólares, tornando-se o filme mais lucrativo já feito até aquele momento.
Crítica
Após sua estreia, o filme recebeu excelentes avaliações provenientes de revistas, jornais e da imprensa em geral e foi frequentemente considerado como um dos melhores filmes de 1939 pelos críticos cinematográficos e pela imprensa norte-americana e internacional; no entanto, não obstante seus valores de produção, realizações técnicas e a ambição do projeto terem sido universalmente reconhecidos, alguns críticos da época acharam-no muito longo e dramaticamente pouco convincente. Em sua publicação ao The New York Times, Frank S. Nugent deu-lhe a nota máxima de cinco estrelas e resumiu melhor o sentimento geral ao ter reconhecido que, embora fosse a produção cinematográfica mais ambiciosa até então, provavelmente não foi o filme mais grandioso de todos os tempos, mas, mesmo assim, achou que era uma "interessante história lindamente contada". Franz Hoellering, da The Nation, compartilhou da mesma opinião: "O resultado é um filme que é um grande evento na história da indústria, mas apenas uma pequena conquista na arte cinematográfica. Há momentos em que as duas categorias se juntam com bons frutos; porém, os longos trechos entre elas são preenchidos com uma mera eficiência espetacular".
Prêmios e indicações
O êxito comercial e crítico de Gone with the Wind também mostraram-se presentes nas premiações da obra. Logo após sua liberação, apresentou-se como um dos favoráveis para receber indicações a prêmios prestigiados do cinema como ao Oscar. Doze dias depois de seu lançamento, recebeu duas nomeações do Círculo de Críticos de Cinema de Nova Iorque nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor, e ganhou o prêmio de Melhor Atriz (Leigh). A National Board of Review elegeu-o um dos "Dez Melhores Filmes do Ano" e Leigh levou o troféu de Melhor Atuação (também por Waterloo Bridge). A Photoplay concedeu a David O. Selznick a Medalha de Honra, que é considerada o primeiro grande prêmio anual de cinema.
Reações de afro-americanos
"Lembrai-vos que, quando Gone with the Wind foi produzido, a segregação racial ainda era lei no sul e realidade no norte, que a Ku Klux Klan foi retirada de uma cena por medo de ofender os funcionários eleitos que lhe pertenciam. O filme vem de um mundo com valores e pressupostos fundamentalmente diferentes dos nossos — e, é claro, o mesmo acontece com toda grande ficção clássica, começando com Homero e Shakespeare. Um "GWTW" politicamente correto não valeria a pena, e poderia ser, em grande parte, uma mentira. — O crítico de cinema Roger Ebert em sua análise ao filme. Alguns comentaristas afro-americanos criticaram o filme pela forma como as pessoas negras foram representadas e descreveram-no como "uma glorificação da escravidão". Carlton Moss, um dramaturgo negro, reclamou, numa carta aberta, que, enquanto The Birth of a Nation (1915) foi um "ataque frontal à história americana e ao povo negro", Gone with the Wind, por sua vez, foi um "ataque de retaguarda". Ainda criticou as estereotipadas caracterizações negras, como o "porco sem timbre e sem graça", a "indolente e completamente irresponsável Prissy", a "aceitação radiante da escravidão" de Big Sam, ou Mammy com o seu "arenga constante e mimos para todos os desejos de Scarlett". Após a vitória de Hattie McDaniel no Oscar, Walter Francis White, líder da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, acusou-a de ser um "Tio Tom", o que fez com que a atriz respondesse que "preferia angariar setecentos dólares por semana interpretando uma empregada doméstica do que receber sete dólares sendo uma"; ela ainda questionou a qualificação dele para falar em nome dos negros, já que ele era de pele clara e tinha apenas um oitavo de herança preta. O historiador britânico David Reynolds escreveu que "as mulheres brancas são elegantes, seus homens são nobres ou, pelo menos, galantes; na outra extremidade, os escravos negros são principalmente obedientes e felizes, como [se fossem] incapaz de viver de forma independente". O historiógrafo também comparou o filme com The Birth of a Nation e outras representações do Sul durante a era de segregação, em que brancos sulistas são retratados como defensores dos valores tradicionais e a questão da escravidão tem sido largamente ignorada. Outros estudiosos descreveram a película como uma "regressão", que promove o mito do estuprador preto e o papel honrado e defensivo da Ku Klux Klan durante a Reconstrução, e como uma "propaganda social", a qual oferece uma visão de "supremacia branca" do passado. Em seu livro American History Goes to the Movies: Hollywood and the American Experience, W. Bryan Ruiz Rommel argumentou que, apesar das imprecisões objetivamente claras ao descrever o período da Reconstrução, o filme, no entanto, reflete as interpretações que eram comuns no início do século XX. Peter Bradshaw, do The Guardian, concordou e afirmou: "Retratar os escravos como puramente dóceis e felizes dessa maneira parece grotesco agora — embora não seja mais insidioso do que a produção comum de Hollywood de hoje em dia. [Além disso,] a pura força maestral da narrativa do filme não pode ser negada."
Avaliação em retrospecto
Em março de 1973, a revista literária e cultural The Atlantic publicou uma série de resenhas de famosos críticos de cinema. Nelas, Arthur Schlesinger apontou que os filmes de Hollywood geralmente envelhecem bem; porém, no caso de Gone with the Wind, o tempo não lhe foi muito bom. Enquanto isso, Richard Schickel postulou que um dos critérios para mensurar a qualidade de um filme é perguntar o que o espectador pode se lembrar dele, e a obra falha nesse quesito: "cenas e diálogos inesquecíveis simplesmente não estão presentes". Stanley Kauffmann , da mesma forma, também achou o filme uma experiência, em grande parte, esquecível, alegando que ele só conseguia se lembrar vividamente de duas cenas. Roger Ebert contestou e declarou que "há uma exuberância jovial no estilo visual que é atraente nos dias atuais. Considere uma tomada inicial em que Scarlett e seu pai olham para a terra, e a câmera se afasta, [mostrando] as duas figuras e uma árvore em silhueta preta com a paisagem atrás delas. Ou o modo como as chamas de Atlanta são enquadradas no cenário de fundo da carruagem durante a fuga de Scarlett." e completou: "[a obra possui] alguns dos momentos que ainda têm o poder de nos deixar sem fôlego, incluindo a queima de Atlanta, o partida para Tara e a "rua dos moribundos baleados", instante em que Scarlett entra na rua e a câmera se afasta dela até chegar num plano extremamente aberto que mostra toda a Confederação quebrada e sangrando até se perder de vista." Tanto Schickel quanto Schlesinger descreveram-no como "mal escrito", com diálogos "floridos" e uma sensibilidade "postal". O primeiro também acreditou que ele falha como arte popular, pois não o considerou um filme que gostaria de rever, um sentimento com o qual Kauffmann também concordou, dizendo que, depois de assisti-lo duas vezes, espera "nunca mais vê-lo novamente: duas vezes é o dobro do que você precisa em toda a vida." Schickel e Andrew Sarris expuseram que a falha principal do filme é possuir a sensibilidade de um produtor ao invés da de um artista: tendo passado por tantos diretores e roteiristas, a película não carrega a sensação de ter sido "criada" ou "dirigida", mas, sim, emergida de uma hibridação", em que a principal força criativa era a obsessão de um produtor em torná-la literalmente fiel ao romance quanto possível. Sarris admite que, apesar de sua carência artística, o filme mantém, em todo o mundo, o título de "o entretenimento mais amado já produzido" e argumentou que, no momento em que Prissy diz a sua famosa frase: "Não sei nada sobre partos!", na ignorante e indefesa criatura dificilmente poderia haver uma crítica mais forte à escravidão. Judith Crist assinala que, desconsiderando o kitsch, Gone with the Wind "sem dúvida, continua a ser o melhor e mais duradouro trabalho de entretenimento popular que veio das linhas de produção de Hollywood", a obra de um produtor de espetáculos com "gosto e inteligência".
Reconhecimento
Gone with the Wind é amplamente reconhecido como um dos melhores filmes do seu gênero, constando em várias e proeminentes publicações e pesquisas da indústria cinematográfica como tal, sendo o segundo filme que mais entrou em catálogos de "os melhores do ano" e terceiro entre "os melhores da década de 1930", com um total de 452 listas. Em 1997, em uma pesquisa realizada com membros do American Film Institute (AFI), foi eleito o filme mais popular da história; a organização ainda o classificou em quarto lugar na sua lista "100 Anos… 100 Melhores Filmes", de 1998, e em sexto lugar na edição de 2007; além de em várias outras publicações. Em 2014, ficou em 15.º lugar dos "100 Melhores" do The Hollywood Reporter, que realizara uma extensa pesquisa com todos os estúdios, agências, empresas de propaganda e produtores de Hollywood e região. Os cineastas classificaram-no na 322.ª colocação na edição da sondagem decenal da Sight & Sound em 2012, ao passo que os críticos elegeram-no na 235.ª posição; em 2015, sessenta e dois críticos de cinema de vários países pesquisados pela BBC votaram nele como o 97.º melhor filme americano; no ano seguinte, foi selecionado como o nono "filme melhor dirigido" em uma pesquisa de membros do Directors Guild of America. É o 23.º dentre os "101 Melhores Roteiros do Cinema", segundo o Writers Guild of America West. No ano de 2018, Time Out efetuou uma consulta com atores para se ter conhecimento de quais são os cem melhores filmes de todos os tempos na concepção desses profissionais: Gone with the Wind foi eleito o 55.º.
Dentre os atores que foram creditados no filme, encontra-se vivo Mickey Kuhn, que fez Beau Wilkes, filho da personagem de De Havilland no filme (Kuhn nasceu em 1932). Olivia de Havilland e Alicia Rhett (intérprete de Índia Wilkes), são as atrizes que mais viveram após o lançamento do filme em 1939. Alicia Rhett, nascida em fevereiro de 1915, morreu em janeiro de 2014, perto de completar os seus 99 anos de idade. Já De Havilland chegou aos 100 anos no dia 1 de julho de 2016, morrendo em 2020. Ironicamente, a sua Melanie é a única personagem do elenco principal que vem a morrer durante o filme, enquanto Olivia sobreviveu aos demais atores do longa e levava uma vida tranquila em Paris, na França, onde vivia desde a década de 1950. Olivia havia aparecido em eventos relacionados a cinema, especialmente em tributos a …E o vento levou. Em 1989, quando o People's Choice Award mobilizou os americanos a elegerem o seu filme favorito de todos os tempos, o filme escolhido foi …E o vento levou, e Olivia foi receber o prêmio, tendo agradecido em seu nome e em nome de todos os que estiveram envolvidos na realização do filme, citando em especial Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard, Hattie McDaniel e o produtor David O. Selznick, que não mais se encontravam em vida em 1989. Em 2004, ela filmou "Melanie Remembers: Reflections by Olivia de Havilland", um documentário sobre …E o vento levou por meio do qual a atriz relembra cada momento das filmagens. No final de setembro de 2014, devido aos 75 anos de …E o vento levou, o filme voltou a ser exibido em sessões especiais nos cinemas americanos, e Olivia, de sua casa em Paris, afirmou estar verdadeiramente emocionada em saber sobre o relançamento do filme nos cinemas.
É a imagem mais magnífica de sempre; pelo menos de acordo com o cartaz de talvez um dos filmes mais emblemáticos de todos os tempos. "Francamente, minha querida, eu não dou a mínima" entrou para "30 Melhores Frases de Filmes para Usar ao Sair do Seu Trabalho" e "As melhores frases de filmes para usar para romper com alguém".
Sequência
Durante muitas décadas especulou-se em Hollywood se uma sequência para o filme seria produzida. A escritora original de Gone with the Wind morreu, em 1949, sem nunca ter escrito uma continuação para a obra, como fãs gostariam. No entanto, em 1991, os herdeiros do espólio de Mitchell autorizaram a romancista Alexandra Ripley a publicar uma sequência para o romance, intitulada Scarlett. O livro foi adaptado como uma minissérie televisiva homônima em 1994 pela CBS, estrelada por Timothy Dalton como Rhett Butler e Joanne Whalley como Scarlett O'Hara, sendo a única sequência oficial do filme.


