Beguina
As beguinas, tal como as beatas e as merceeiras, eram mulheres leigas católicas que praticavam uma vida ascética em comum, levando um estilo de vida semirreligiosa, estilo de vida que compreende práticas religiosas sem a obrigação dos pactos com a igreja católica, mas que não faziam votos diretamente à Igreja Católica, a maior parte das vezes nos chamados beguinários, na área da atual Bélgica. Após a sua fundação, devido o novo estilo de vida urbano que aparecia na Europa do século XIII espalharam-se, tal como aconteceu com os begardos, pelos atuais Países Baixos, Alemanha e França.
A origem do termo Beguina é disputada e carrega um feitio negativo. A origem anunciada pela Enciclopédia Britânica em 1911 que concluía que esta palavra derivava-se de Lambert le Bègue (Lambert o Gago), um padre de Liège que por volta de 1170 pregava o estabelecimento de uma associação de mulheres que se devotassem à vida religiosa sem fazer votos monásticos, a teoria prossegue contando que os oponentes desta ideia chamavam tais mulheres de "beguinas", porém essa origem é tida como defasada na academia. Há outras teorias, como a derivação a partir do nome de Begga de Landen, santa católica que serviria de exemplo e inspiração para essas mulheres, ou como a origem partir de beggen, uma palavra imaginária do saxão antigo que teria significado "mendigar" (como no inglês to beg) ou "orar", "rezar", mas que também é desconsiderada pela academia. Alguns escritores sugeriram que "beguina" seria derivado de "algibenses",outras enciclopédias, quando mencionam esta última explicação, tendem a negá-la. Fato é que a origem do termo é incerta e que carrega um sentido negativo.
No começo do século XII, algumas mulheres dos Países Baixos dedicavam-se a rezar e as "boas obras" sem, entretanto, tomarem votos monásticos, levando um estilo de vida semirreligioso. Estas mulheres viviam na periferia das cidades, ajudando os pobres e comercializando produtos da terra e prestando serviços para manter o movimento. Por volta do começo do século XIII, algumas delas passaram a residir próximas umas das outras e a morar juntas, sendo então chamadas de "beguinas" (um termo cujo significado original englobava todas as mulheres devotas) e formando as comunidades que viriam a ser chamadas de beguinários. Ao longo do tempo, essa mulheres começaram a vestir o hábito para se diferenciar do resto da população e ter uma identidade própria. Rapidamente, beguinários começaram a surgir em vários lugares e influenciar profundamente a religiosidade das pessoas. De uns poucos no início do século XIII, cresceram em número a tal ponto que, pouco antes de 1300, eram raras as comunas nos Países Baixos que não possuíam algum, enquanto cidades maiores contavam duas ou três comunidades de beguinas. Em 1400, também era raro encontrar uma cidade sem beguinário na Alemanha, especialmente na Renânia. Frankfurt possuía 57 beguinários; Estrasburgo viria a ter sessenta no meio do século XV, e Colônia teria nada menos que 106 comunidades. Também surgiram várias comunidades no nordeste da França, e talvez até em Norwich. Em 1261 Luís IX de França abriria um em Paris e no início do século XIV surgiram beguinários também no sul da França (onde a Inquisição os associou à Ordem Terceira de São Francisco e julgou que adotassem as posições de Pedro João Olivi). Desta maneira, as beguinas (e outros movimentos inspirados por elas, como os begardos, ou semelhantes, como os seguidores de São Francisco) foram provavelmente a força religiosa mais importante a influenciar a vida e a cultura das cidades dos Países Baixos - mais até que os monges, geralmente assentados nos campos, e o clero secular - e marcaram profundamente outros movimentos, contemporâneos ou posteriores, assim como o misticismo alemão.
Ao contrário das freiras, beguinas não faziam votos, podiam deixar suas comunidades e casar quando quisessem e não renunciavam suas propriedades. Também não pediam nem aceitavam esmolas; se não possuíssem meios de sobrevivência, dedicavam-se ao trabalho manual (especialmente na indústria têxtil) ou à educação infantil. Enquanto noviças, viviam com a "grande senhora" em seu claustro, mas posteriormente tinham suas próprias habitações, e até serviçais, se pudessem mantê-los. A união com suas companheiras se devia aos objetivos compartilhados e à comunidade em adoração. A rotina diária das beguinas também incluía muitas atividades religiosas: ir à missa, rezar em honra à Virgem Maria e à Paixão de Cristo, leitura e contemplação meditativas. Praticavam penitências em comunidade e se confessavam uma vez por mês. Também praticavam vigílias e observavam os dias festivos. Ademais, elas praticavam caridade, ajudando pobres e doentes, e frequentemente abrigavam mulheres que não pertenciam à ordem, mas que necessitavam de proteção.
Dentre as beguinas, podemos destacar a mística Hadewijch de Antuérpia, que foi grande senhora de sua comunidade e escreveu várias obras muito relevantes na literatura neerlandesa. Marcella Pattyn é outra beguina muito conhecida, por ser a última de suas irmãs. Marguerite Porete (1250, Condado de Hainaut, Bélgica - 1 de junho de 1310, Place de l'Hôtel-de-Ville, Paris, França). Mística, escreveu o livro "O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas" que retrata o percurso místico até a união com Deus a partir da linguagem da literatura do amor cortês, em forma de diálogo entre a Dama Amor, a Alma Aniquilada e a Razão. Pelos escritos foi considerada herege relapsa por um tribunal de inquisidores. Em 1.° de junho de 1310, Porete foi condenada e queimada numa praça de Paris, em processo similar ao ocorrido mais tarde com Joana D'Arc, em Rouen, na Normandia. Dado o sucesso do movimento, vários são os beguinários dignos de nota. Entre os primeiros, podemos citar os de Mechelen - que sabe-se que existiu desde 1207 -, o de de Lovaina, desde 1234 e o Bruxelas, conhecido desde 1245. Outros beguinários se destacaram pelo tamanho, como os de Gante e Bruges, alguns dos vários com milhares de habitantes.


