Beda
Beda, conhecido também como Venerável Beda, foi um monge inglês que viveu nos mosteiros de São Pedro, em Monkwearmouth, e São Paulo, na moderna Jarrow, no nordeste da Inglaterra, uma região que, na época, era parte do Reino da Nortúmbria. Ele é conhecido principalmente por sua obra-prima, a História Eclesiástica do Povo Inglês, um trabalho que lhe rendeu o título de "Pai da História Inglesa".
Quase tudo o que se sabe sobre a vida de Beda está contido no último capítulo de sua História Eclesiástica, completada por volta de 731. Ele indicou que estava com cinquenta e nove anos de idade na época, o que implica que teria nascido por volta de 672 ou 673.[a] Uma outra fonte, menor, é uma carta de seu discípulo, Cuteberto (Cuthbert),[b] que trata da morte de Beda.[c] Beda, na "Historia", afirma ter nascido "nas terras de seu mosteiro", uma referência aos mosteiros gêmeos de São Pedro e São Paulo em Monkwearmouth e Jarrow, na moderna região de Sunderland. Existe também uma antiga tradição que conta que Beda nasceu em Monkton, a pouco menos de cinco quilômetros do mosteiro de Jarrow. Ele nada conta sobre suas origens, mas suas conexões com diversos homens de origem nobre sugere que sua própria família era rica. O primeiro abade de Beda foi Bento Biscop (Benedict) e os nomes "Biscop" e "Beda" - este um nome incomum na época - aparecem numa lista de reis de Lindsey datada de cerca de 800, o que reforça a tese de que ele seria de origem nobre. A "Liber Vitae" da Catedral de Durham inclui uma lista de padres, com dois deles com este nome, e presume-se que um deles seja o próprio Beda. Alguns manuscritos da "Vida de Cuteberto", uma das obras de Beda, menciona que o padre de Cuteberto chamava-se também Beda, possivelmente o outro da "Liber Vitae". Estas duas ocorrências, juntamente com um "Bieda" mencionado na "Crônica Anglo-Saxônica" na entrada do ano 501, são as únicas ocorrências do nome nas fontes antigas. É provável que ele seja derivado do inglês antigo "bēd" ("oração"); se Beda recebeu-o ao nascer, é provável que sua família tenha planejado desde cedo a sua entrada no clero.
Beda escreveu obras científicas, históricas e teológicas, um reflexo da abrangência de seus interesses, que iam da métrica aos comentários exegéticos. Ele conhecia a literatura patrística e também Plínio, Virgílio, Lucrécio, Ovídio, Horácio e outros escritores antigos. Os comentários bíblicos de Beda empregaram um método alegórico de interpretação e suas obras históricas incluem relatos sobre milagres, o que, para historiadores modernos, conflita com sua abordagem crítica às demais fontes em sua história. Estudos modernos demonstraram o papel fundamental que estes conceitos alegóricos tiveram na formação da visão de mundo dos primeiros acadêmicos medievais. Ele dedicou sua obra sobre o Apocalipse e a "De Temporum Ratione" ao sucessor de Ceolfrido como abade, Hetberto (Hwaetbert). Historiadores modernos já realizaram diversos estudos sobre as obras de Beda. Sua vida e suas obras têm sido celebradas numa série de palestras acadêmicas anuais na Igreja de São Paulo, em Jarrow, iniciada em 1958 e que continua até hoje. O historiador Walter Goffart afirma que Beda "detém um lugar privilegiado e sem rivais entre os primeiros historiadores da Europa cristã".
História Eclesiástica do Povo Inglês
A obra mais conhecida de Beda é a História Eclesiástica do Povo Inglês' (Historia ecclesiastica gentis Anglorum), terminada por volta de 731 com a ajuda de Albino, abade da Abadia de Santo Agostinho em Cantuária. O primeiro dos cinco livros começa com um panorama geográfico e passa para um esboço da história da Inglaterra, iniciando-se com a invasão romana de Júlio César em 55 a.C. Segue-se um breve relato sobre o cristianismo na Britânia romana, incluindo o martírio de Santo Albano, e a história da missão cristianizadora de Agostinho de Cantuária, em 597, que converteu os anglo-saxões. O segundo livro começa com a morte de São Gregório Magno, em 604, e continua narrando o progresso do cristianismo em Kent e as primeiras tentativas de evangelizar a Nortúmbria. Todas terminaram em desastre quando Penda, o rei pagão da Mércia, assassinou o recém-convertido Eduíno (Edwin) na Batalha de Hatfield Chase por volta de 632. O revés foi temporário e o terceiro livro relata o crescimento do cristianismo na Nortúmbria sob os reis Osvaldo (Oswald) e Osvio (Oswy). O clímax deste terceiro volume é o registro do Concílio de Whitby, tradicionalmente visto como um importante ponto de inflexão na história inglesa. O quarto livro começa com a consagração de Teodoro como arcebispo de Cantuária e trata dos esforços de Vilfrido para levar o cristianismo até o Reino de Sussex. O quinto livro prossegue o relato até os dias de Beda e inclui as histórias da missão à Frísia e do conflito com a Igreja britânica sobre a correta datação da Páscoa. Beda escreveu um prefácio para a obra no qual ele a dedica a Ceolvulfo (Ceolwulf), rei da Nortúmbria, e menciona que o rei teria recebido uma primeira versão do texto para avaliar, o que faz supor que Ceovulfo conhecia latim o suficiente para compreendê-la.
Outras obras históricas
Como capítulo 66 de sua "Sobre a Contagem do Tempo", em 725, Beda escreveu a "Crônica Maior" ("Chronica Maiora"), que por vezes circulou como uma obra separada. Para os anos mais próximos da época de Beda, a "Crônica", assim como a "História", se baseou em Gildas, numa versão do "Liber pontificalis" atualizada até pelo menos o papado de Sérgio I (r. 687-701) e em outras fontes. Para eventos mais antigos, a fonte foi principalmente a "Crônica" de Eusébio de Cesareia. A data dos eventos na "Crônica" de Beda é inconsistente com suas outras obras e fazem uso principalmente do método de contagem dos anos a partir da data da criação, o anno mundi Suas outras obras histórias incluem biografias (Vitae) dos abades de Wearmouth and Jarrow, biografias em verso e prosa de São Cuteberto de Lindisfarena, uma adaptação da "Vida de São Félix" de Paulino de Nola e uma tradução da "Paixão de Santo Anastácio" do grego, possivelmente obra de Teodoro de Cantuária. Beda criticou o resultado e prometeu "melhorá-lo". Não existem manuscritos sobreviventes da sua revisão, embora se saiba que um deles perdurou pelo menos até o século XV. Beda criou também uma lista de santos, o chamado "Martirológio"
Obras teológicas
Em sua própria época, Beda era bastante conhecido por seus comentários bíblicos e exegéticos e também por suas demais obras teológicas. Em volume, a maior parte do que escreveu era parte desta categoria, com obras sobre o Antigo e o Novo Testamento. A maioria sobreviveu, mas umas poucas se perderam. E foi por conta destas obras teológicas que ele passou a ser chamado de Doctor Anglorum e foi canonizado. Beda sintetizou e retransmitiu o conhecimento acumulado de seus predecessores e também propôs algumas cuidadosas inovações no conhecimento (como recalcular a idade da Terra - vide abaixo) que tiveram repercussões teológicas. Para fazê-lo, aprendeu o grego, tentou aprender o hebraico e passou anos lendo e relendo as Escrituras. Beda menciona ter utilizado o texto da Vulgata de Jerônimo, que já era uma tradução do texto hebraico. Ele estudou ainda os padres latinos (Beda foi o primeiro a chamá-los assim) e gregos da Igreja. Na biblioteca do mosteiro em Jarrow havia diversos livros teológicos, incluindo obras de Basílio de Cesareia, João Cassiano, João Crisóstomo, Isidoro de Sevilha, Orígenes, Gregório de Nazianzo, Santo Agostinho, Jerônimo, Gregório Magno, Ambrósio, Cassiodoro e Cipriano. Ele fez uso de todos em conjunto com os próprios textos bíblicos para escrever seus comentários e obras teológicas. Beda também teve acesso a uma tradução latina de Evágrio de Antioquia da "Vida de Antônio", de Atanásio, e uma cópia da "Vida de São Martinho", de Sulpício Severo. Ele também utilizou obras de autores menos conhecidos, como Fulgêncio de Ruspe, Juliano de Eclano, Ticônio e Prospério. É claro, pelos comentários do próprio Beda, que ele sentia que seu trabalho era explicar para seus estudantes e leitores a teologia e o pensamento dos Padres da Igreja.
Obras sobre a cronologia histórica e astronômica
"Sobre o Tempo" ("De temporibus"), escrita por volta de 703, provê uma introdução aos princípios do computus, a metodologia de cálculo da data da Páscoa. Baseada em parte nas "Etimologias" de Isidoro de Sevilha, Beda incluiu também uma cronologia do mundo que derivou da obra de Eusébio, com algumas revisões baseadas na tradução de Jerônimo da Bíblia (a Vulgata). Por volta de 723, Beda escreveu uma obra mais longa sobre o tema, "Sobre a Contagem do Tempo", que foi muito influente por toda a Idade Média. "Sobre a Contagem do Tempo" (De temporum ratione) inclui uma introdução às visões tradicionais dos antigos e dos autores medievais até a época de Beda sobre o cosmos, incluindo uma explicação sobre como a terra esférica influencia a mudança na duração do dia, de como o movimento do Sol e da Lua durante as estações do ano influenciam o aparecimento da lua nova no crepúsculo e uma relação quantitativa entre as mudanças das marés num determinado lugar e o movimento diário da Lua. Como o foco do livro era o computus, Beda deu instruções sobre como calcular a data da Páscoa e sobre como acertar a data da lua cheia pascal calculando o movimento do Sol e da Lua através do zodíaco, além de muitos outros cálculos relacionados ao calendário. Ele também provê informações sobre os meses do calendário anglo-saxão no capítulo XV.
Obras educacionais
Beda escreveu algumas obras destinadas a ajudar no ensino da gramática na escola da abadia. Uma delas era "De arte metrica", uma discussão sobre a composição do verso latino, baseada em obras de gramáticos anteriores como "De pedibus", de Élio Donato, e "De finalibus", de Sérvio, por exemplo, com a ajuda de exemplos retirados da obra de Virgílio. Ela se tornou o livro-texto padrão para o ensino do verso latino por muitos séculos. Beda dedicou o trabalho a Cuteberto, que aparentemente era um estudante, pois é chamado de "querido filho" na dedicatória, que continua "Trabalhei para educá-lo nas letras divinas e nos estatutos eclesiásticos". Outro importante livro educacional de Beda é "De orthographia", uma obra sobre ortografia destinada a ajudar o leitor medieval de latim com abreviações ou palavras pouco familiares das obras latinas clássicas. Embora possa ter servido como livro-texto, era principalmente um guia de referência. Não se conhece a data da composição de nenhuma das duas obras.
Poesia vernacular
De acordo com Cuteberto, o discípulo que escreveu sua biografia, Beda era também "letrado em nossas canções" ("doctus in nostris carminibus"). A carta que ele escreveu contando sobre a morte de Beda (conhecida como "Epistola Cuthberti de obitu Bedae") indica, de acordo com o consenso geralmente aceito entre os acadêmicos, que Beda também compôs um poema no vernáculo com cinco linhas conhecido atualmente como "Canto de Morte de Beda" (em inglês: "Bede's Death Song"). Segundo a carta, "E ele costumava repetir aquela frase de São Paulo, «Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.» (Hebreus 10:31) e muitos outros versículos das escrituras, urgindo-nos assim a acordarmos do sono da alma pensando na época propícia da nossa última hora. E, em nossa língua - pois ele conhecia a poesia inglesa -, falando sobre o horror da alma de deixar o corpo" (em tradução livre):
Não há evidências de cultos em homenagem a Beda na Inglaterra no século VIII, mas o motivo pode ser o fato de ele ter morrido no mesmo dia que Agostinho de Cantuária. Posteriormente, quando é certo que ele já era venerado, sua festa ou era comemorada depois da de Agostinho, em 26 de maio, ou no dia seguinte. Porém, Beda era venerado fora da Inglaterra, principalmente por causa dos esforços de Bonifácio e Alcuíno. O primeiro escreveu repetidas vezes para sua terra natal na Inglaterra requisitando cópias das obras teológicas de Beda. Alcuíno, que foi estudante na escola fundada em Iorque pelo pupilo de Beda, Egberto, elogiava-o como um exemplo a ser seguido pelos monges e foi instrumental em divulgar as obras dele entre seu grande círculo de amigos. O culto de Beda tornou-se proeminente na Inglaterra durante o renascimento do monasticismo no século X e, no século XIV, já havia se espalhado para diversas catedrais. Vulstano, bispo de Worcester (c. 1008-1095), era particularmente devoto de Beda, dedicando uma igreja a ele em 1062, seu primeiro ato após ser consagrado bispo.

