Batalha de Towton
A batalha de Towton teve lugar durante a guerra das Rosas, a 29 de março de 1461, a sudoeste de Iorque, entre os vilarejos de Towton e Saxton. É a maior e mais sangrenta batalha a ter tido lugar em solo inglês e o dia mais sangrento de toda a história da Inglaterra. Segundo as crónicas medievais, mais de 50 000 soldados das casas de Iorque e de Lencastre combateram nesse domingo de ramos, durante várias horas e em condições meteorológicas deploráveis. Uma proclamação difundida uma semana depois da batalha relata que 28 000 homens perderam a vida no campo de batalha. Esse encontro provocou uma mudança monárquica em Inglaterra: Eduardo IV substituiu Henrique VI no trono e obrigou os principais apoiantes dos Lencastre a exilarem-se.
Início da guerra
Em 1461, o reino de Inglaterra está há seis anos em estado de guerra civil entre a Casa de Iorque e a de Lencastre, reivindicando ambos o trono. A Casa de Lencastre apoia Henrique VI, o rei em exercício, um homem de caráter indeciso que sofre crises de loucura. Ricardo Plantageneta, o duque de Iorque, lidera a Casa de Iorque no início da guerra pois ele acha que o rei conduz o país para a bancarrota favorecendo excessivamente cortesãos incompetentes. Alimentando-se das rivalidades entre influentes apoiantes das duas Casas, o duque de Iorque tenta afastar do poder os cortesãos da casa de Lencastre, o que leva a um conflito aberto. Após a captura de Henrique VI em 1460 na batalha de Northampton, Ricardo, que tem sangue real, reivindica o trono. Mas até os mais fervorosos apoiantes de sua Casa hesitaram em destronar a dinastia real e, em vez disso, os nobres adotaram (25 de outubro) por um voto de maioria, um ato de acordo que estabelece que o duque de Iorque e seus herdeiros subiriam ao trono aquando da morte de Henrique VI.
Batalha de Ferrybridge
No final de março os primeiros destacamentos do exército de Iorque ocupam o vilarejo de Ferrybridge, onde existe uma ponte sobre o rio Aire. As forças dos Lencastre destruíram-na para impedir que os Iorquistas a atravessassem. Estes últimos construíram então uma ponte temporária. A 28 de março um grupo de cerca de 500 cavaleiros apoiantes dos Lencastre, liderados por Lord Clifford, surpreende-los e coloca-los em fuga. Quando Eduardo IV é informado do acontecimento, organiza um rápido contra-ataque mas, quando chega, os Lencastre fortificaram a ponte e colocaram forças na margem sul do Aire, de forma a atrasá-los. Apesar da superioridade numérica, os Iorquistas não conseguem retomar a ponte pela sua característica. Ao longo do combate, Neville é ferido na perna por uma seta. Apesar disso, os Iorquistas conseguem obrigar os Lencastre a recuar quando a cavalaria de Fauconberg encontram um local onde é possível atravessar o rio. Sabendo da notícia, Clifford recua mas as suas tropas são perseguidas pela cavalaria de Fauconberg que acaba por apanhá-los a 4 km a sul de Towton. Os Iorquistas vencem um duro combate no qual Clifford é morto por uma seta na garganta.
As fontes da época declaram que os dois exércitos eram imensos e que mais de 100 000 lutaram em Towton. Na Chronicle of London de William Gregory (século XV), um relatório de um soldado que participou na batalha afirma que os Iorquistas teriam 200 000 homens e que os do lado dos Lencastre seriam ainda mais numerosos. Mas os historiadores posteriores acham esses números exagerados e que o mais certo seria um número de 50 000 combatentes. Seja como for, ambos os exércitos em Towton seriam dos maiores dessa época. Uma análise aos esqueletos encontrados em 1996 demonstra que os soldados eram de todos os meios sociais; tinham em média cerca de trinta anos e alguns eram veteranos de combates anteriores. Muitos nobres e cavaleiros, cerca de três quartos do pariato da Inglaterra da época, combateram em Towton. A batalha decidiria qual dos reis reinaria sobre a Inglaterra mas, enquanto que Eduardo IV combateu entre os seus homens, Henrique VI ficou em Iorque com Margarida de Anjou. Os partidários dos Lencastre vêem o seu rei como uma marioneta de sua esposa e ficam preocupados com a sua instabilidade mental. Em comparação, Eduardo IV é bastante carismático; com 18 anos, mede 1,92 metros e é imponente na armadura. Jovem e musculado, assemelha-se mais a um rei do que o seu rival. Um lutador hábil, Eduardo lidera os seus soldados desde as primeiras linhas exaltando-os e incentivando-os a darem o seu melhor. O seu gosto por táticas ofensivas bastante audazes dita o plano do seu exército para esta batalha.
Existem poucos relatórios detalhados da batalha e nenhum descreve o posicionamento exato dos exércitos. Esta falta de fontes primárias levou os primeiros historiadores a adotar principalmente a crónica de Eduardo Hall, se bem que tenha sido escrita mais de 70 anos após o acontecimento e que a origem das informações que fornece seja desconhecida. O cronista João de Wavrin, contemporâneo da batalha, também dá a sua versão dos fatos mas a sua obra só foi colocada à disposição do público a partir de 1891, além de que vários erros desencorajaram a sua utilização pela maioria dos historiadores. As reconstituições da batalha baseiam-se então na versão de Hall, apimentadas por detalhes vindos de outras fontes (a crónica de Wavrin, pequenos relatórios de outras crónicas e cartas). A batalha teve lugar num planalto entre os vilarejos de Saxton (a sul) e de Towton (a norte). É uma região agrícola com vastos espaços abertos e pequenas estradas nas quais os exércitos podiam manobrar. Duas estradas ficam localizadas na zona dos combates: Old London Road, que liga Towton à capital inglesa, e uma estrada que vai de Towton a Saxton. O Cock Beck, um ribeiro de margens íngremes, forma um curso de água em forma de "S" a norte e a oeste do planalto. O planalto é cortado em dois por Towton Dale, um vale que vai de oeste deste até North Acres a leste. Zonas arborizadas estão situadas ao longo de Cock Beck; Renshaw Woods a nordoeste do planalto, e Castle Hill Wood a sudeste de Towton Dale. Após a batalha, a zona a nordeste desse bosque ficou conhecida sob o nome de Bloody Meadow (o prado sangrento).
Eduardo IV colocou-se no centro do seu exército, enquanto que Ricardo Neville lidera a ala esquerda e Fauconberg a ala direita. Beaufort lida com o centro do exército dos Lencastre enquanto que Percy comanda a ala direita e Holland a ala esquerda. Enquanto que Beaufort espera pelos adversários, os Iorquistas tomam a iniciativa. Fauconberg, que notou a força e direção do vento, dá a ordem aos seus arqueiros para se colocarem à frente e lançarem as suas setas sobre as linhas inimigas, que estão além da distância máxima habitual de seus arcos. As flechas são levadas pelo vento e caem sobre os soldados inimigos, no outro lado do vale. Muitas das setas estão equipadas com pontas bodkin, podendo atravessar uma armadura em placa. Os arqueiros do lado dos Lencastre contra-ataquem disparando as suas setas, mas estas não chegam às linhas dos Iorque. O vento estorva os arqueiros, pois a neve cai-lhes na cara, perturbando consideravelmente a visão e a apreciação de distâncias. Incapazes de conhecer o resultado dos seus disparos, os arqueiros continuam a disparar até utilizarem a maioria das setas, deixando um espesso tapete de flechas no solo, frente aos Iorquistas.
Um texto datando de 4 de abril de 1461 relata um total de 28 000 mortos, número que Charles Ross e outros historiadores acham exagerado. É, no entanto, o número citado em cartas de Eduardo IV e do bispo de Salisbury. Outras fontes da mesma época dão um número ainda maior, indo de 30 000 a 38 000. Édouard Hall dá o número exato de 36 776. Os Annales rerum anglicarum são a exceção pois declaram que teriam sido mortos 9 000 do lado dos Lencastre, uma estimativa que Ross vê como sendo mais provável. A nobreza fiel à Casa de Lencastre sofreu bastante com a batalha, tendo sido mortos Andrew Trollope e Henrique Percy. Lord Ralph Dacre, próximo de Henrique VI, foi morto por um arqueiro escondido num arbusto. Do lado da Casa de Iorque, um único membro importante da nobreza foi morto em Towton: Robert Horne. A fuga durou toda a noite, até que na manhã do dia 30 de março os restos do exército dos Lencastre chegaram a Iorque, em completo pânico. Quando souberam da notícia da derrota, Henrique VI e Margarida de Anjou fugiram para a Escócia, onde se juntariam mais tarde Henrique Beaufort, Henrique Holland e mais alguns outros nobres sobreviventes da batalha. Esta batalha enfraqueceu gravemente o poder da Casa de Lencastre, pois os seus principais partidários da Corte foram mortos ou fugiram do país, colocando um fim no seu domínio no norte da Inglaterra. Eduardo IV explora ao máximo a situação proclamando como traidores 14 pariatos da Inglaterra fiéis aos Lencastre. Cerca de 96 partidários dos Lencastre com patentes de cavaleiro e inferior, dos quais 24 membros do parlamento, são também declarados criminosos. No entanto o novo rei prefere juntar os inimigos à sua causa, pois os que perderam foram os que morreram na batalha ou os que não se submeteram. Os pertences de alguns desses nobres são confiscados pela coroa, mas a maioria é deixada às suas famílias. Mais tarde o rei perdoou muitos dos declarados traidores que aceitaram submeter-se.
Em 1483 Ricardo III, irmão de Eduardo IV, inicia a construção de uma capela para comemorar a batalha. Mas o monarca morre dois anos mais tarde, na batalha de Bosworth, e a construção nunca foi terminada. Deixada ao abandono, acaba por ruir. As ruínas dessa estrutura ainda são visíveis cinco séculos depois. Em 1929, uma cruz em pedra, supostamente vinda da capela, é utilizada para criar a Towton Cross (também conhecida pelo nome de Lord Dacre's Cross) em memória das vítimas da batalha. Ainda foram encontrados, no campo de batalha, alguns restos de vítimas, mas os historiadores pensem tratar-se de tumulus mais antigos. Outros locais de sepulturas relacionados com a batalha encontram-se em Chapell Hill e nos arredores de Saxton. Lord Dacre está enterrado na Church of All Saints (Igreja de Todos os Santos) de Saxton e o seu túmulo resistiu bastante bem à passagem do tempo. O arbusto no qual o arqueiro que matou Lord Dacre estava escondido foi cortado no final do século XIX. Relíquias da batalha, tais como anéis, pontas de setas e moedas foram encontradas na região séculos após o acontecimento. Em 1996, esqueletos encontrados perto de Towton tinham graves feridas: os braços e crânios estavam partidos ou rachados. Um deles, conhecido sob a designação de Towton 25, tem a frente do crânio cortado em dois, uma ferida causada por uma arma branca. O crânio apresenta também outra ferida na horizontal, feita por uma lâmina, por detrás.


