Batalha de Munda
A Batalha de Munda foi travada em 17 de março de 45 a.C. entre os exércitos cesarianos, comandados pelo próprio Júlio César, e os pompeianos, sob o comando de Tito Labieno e dos filhos do finado Pompeu, Cneu e Sexto Pompeu, numa planície perto da colônia romana de Munda, na Bética. César derrotou definitivamente as forças pompeianas e praticamente encerrou a Segunda Guerra Civil da República Romana.
Tradicionalmente, os historiadores tem localizando a cidade de Munda e o cenário desta batalha, chamado "Campus Mundensis" nas crônicas antigas,[b] em diversos locais diferentes.[c] Entre eles, o que recebia mais apoio era a cidade de Monda (segundo a opinião de Ambrosio de Morales, Rodrigo Caro e Enrique Flórez), seguida por Montilla (defendida por Miguel Cortés y López e outros principalmente pela proximidade com as localidades de Córduba e Obulco). Ainda em 1861, os irmãos Oliver Hurtado defenderam a localidade de Ronda la Vieja, perto de Ronda, mas acabaram apoiando a "planície de Vanda", perto da moderna Montilla depois da proposta do coronel Eugène Stoffel, colaborador de Napoleão III em 1887, uma proposta que depois foi fortemente defendida por Adolf Schulten em 1940, sem mais discussões posteriores. A estas possibilidades se somaram duas novas propostas: o "Cerro de La Atalaya" (1973) e o "Alto de las Camorras" (1984-1986), ambas perto da moderna Osuna, a cinco quilômetros uma da outra. Finalmente, há um cenário que localiza a batalha no local onde está o castelo de Alhonoz ou Aljonoz, uma antiga fortaleza árabe situada entre Herrera e Écija, às margens do rio Genil.
A Hispânia já estava sob o comando dos cesarianos desde a Batalha de Ilerda (2 de agosto de 49 a.C.), Quinto Cássio Longino atuando como governador da Hispânia Ulterior. Enquanto os pompeianos reuniam seu exército na África, César ordenou que Longino fosse ajudá-lo atacando o Reino da Numídia pelo oeste com suas quatro legiões com o apoio do rei Bogudes da Mauritânia. Para isto, Longino reuniu uma frota com cerca de 100 navios, mas duas de suas legiões, a maioria de seus auxiliares e a população local eram pompeianos até Ilerda e ainda nutriam grande simpatia pelo falecido general. Esta tensão foi agravada ainda pela atuação tirânica do próprio Longino e acabou explodindo numa revolta em Córduba. O questor enviado para lidar com os rebeldes, Marco Cláudio Marcelo Esernino, desertou, mas isto não impediu que ela fosse duramente sufocada. No outono de 47 a.C., o legado Caio Trebônio, novo governador da Ulterior e recém-chegado do oriente, interveio com ordens de substituir Longino e restaurar a paz. Contudo, a revolta impediu que a manobra contra Juba I da Numídia fosse realizada; pouco depois, o próprio César desembarcou na África. Duas novas revoltas irromperam quando Longino tentou escapar, já no final de 47 a.C., com o tesouro público da província e morreu, possivelmente assassinado ou afogado na foz do rio Ebro. O evento marcou o colapso do controle cesariano na Hispânia, com as quatro legiões de Longino se amotinando em favor dos pompeianos.
Os dois exércitos se enfrentaram nos "Campus Mundensis", na Bética. O exército pompeiano estava acampado em uma suave elevação, uma posição desfavorável para um ataque de César. As duas forças permaneceram à vista uma da outra por vários dias até 17 de março, o dia que iniciou a batalha. A batalha se prolongou por um tempo sem vantagem aparentemente para nenhum lado, o que forçou ambos os generais a deixarem suas posições de comando para se juntarem às tropas com o objetivo de levantar o moral. César assumiu o comando da ala direita, onde estava lutando ferozmente a X Equestris, e sua presença levou a um avanço de sua linha. Percebendo a manobra, Pompeu deslocou uma legião de sua ala direita para reforçar a esquerda, um erro fatal, já que o ataque da X Equestris era apenas um ímpeto momentâneo. Assim que o flanco direito de Pompeu foi enfraquecido, a cavalaria de Césr lançou-lhe um ataque, o que precipitou o desastre para os pompeianos. Ao mesmo tempo, o rei Bogudes da Mauritânia, aliado de César, atacou o acampamento de Pompeu pela retaguarda. Tito Labieno, o comandante da cavalaria pompeiana, percebeu o ataque e seguiu para lá para interceptá-lo. Contudo, os legionários pompeianos, sob um forte ataque da X Equestris pelo flanco esquerdo e da cavalaria pelo direito, entenderam o movimento de Labieno como uma retirada e debandaram em fuga.
As cabeças de Varo e Labieno, todas as águias das legiões derrotadas e as armas abandonadas pelos vencidos em fuga foram apresentadas a César. Muitos dos pompeianos se refugiaram na cidadela de Munda e César ordenou que todas as rotas de fuga possíveis fossem bloqueadas com estacas fincadas nos corpos dos mortos. Quinto Fábio Máximo recebeu a missão de conquistá-la e também a vizinha Urso. Nove das treze legiões e todos os auxiliares sobreviventes fugiram para Córduba com os irmãos Pompeu.
Pacificação da província
Os defensores da cidade de Córduba, cientes do grande afluxo de sobreviventes e temendo que os habitantes desertassem para o lado de César, atearam fogo à cidade. Sabe-se que houve conflito aberto entre as duas facções pelo controle da cidade. Quando César chegou, em 18 de março, a cidade não passava de ruínas e não tinha condições de receber seu exército; furiosos por não encontraram nada, os cesarianos massacraram 22 000 "cidadãos de todas as idades". Além disto, os vencedores exigiram que os sobreviventes fossem vendidos como escravos. As cidades de Híspalis, Hasta, Carteia e Gades foram subjugadas e as que estiveram envolvidas na revolta tiveram que pagar pesados resgates. Depois de um célebre discurso recriminatório em Híspalis (em abril), César castigou as cidades que se aliaram aos pompeianos reduzindo-as ao status de "municipium civium romanorum" e recompensando as que se mantiveram leais promovendo-as a "coloniæ civium romanorum".[d]
Resistência de Sexto Pompeu
César deixou a Hispânia sob o comando de Caio Carrinas, governador da Hispânia Ulterior. Sexto Pompeu, o último grande general pompeiano, escapou de Córduba e se refugiou entre os lacetanos. Graças ao apoio deles, Sexto recrutou um poderoso contingente de guerreiros locais aproveitando do fato de César ter levado consigo boa parte de seu grande exército na volta para a Itália. Depois de anos de guerra, a Hispânia estava a mercê de grupos armados adversários e de bandoleiros que contavam com a geografia montanhosa da região para se esconder, o que dificultava muito o controle dos governantes. Sem muita dificuldade, Sexto venceu a reduzida força de Carrinas, conquistou a Lusitânia e invadiu a Bética no começo de 44 a.C., onde enfrentou o sucessor de Carrinas, Caio Asínio Polião, que contava com duas legiões veteranas e mais uma formada por recrutas hispânicos. Sexto contava com sete legiões e conquistou muitas cidades, o que aumentou seu exército e debilitou a posição do governador cesariano. Seguro de sua capacidade militar, Sexto marchou até Cartago Nova, a mais importante cidade da Hispânia Citerior, aproveitando que Lépido, o governador da província e da Gália Cisalpina, estava ausente.
Retorno a Roma
Depois da vitória em Munda e da pacificação da Hispânia, César não enfrentou mais oposição. Ao chegar em Roma, ele assumiu o cargo de ditador perpétuo, mas foi assassinado em 15 de março de 44 a.C. por um grupo de senadores conservadores mais jovens liderados por Marco Júnio Bruto e Caio Cássio Longino; Na época, a facção dos optimates praticamente não tinha apoio, com a notável exceção de Sexto Pompeu. Um por um, os herdeiros políticos de César foram exterminando os culpados pelo assassinato e, com eles, quase todo o partido dos optimates. Sexto Pompeu foi finalmente capturado e executado em 35 a.C. em Mileto. Otaviano terminaria a obra de seu pai adotivo e converteria a República Romana em um principado em 27 a.C.


