Batalha de Campo Grande
A Batalha de Campo Grande aconteceu dia 16 de agosto de 1869. Foi a última grande batalha da Guerra do Paraguai com vitória da Tríplice Aliança.
A Guerra do Paraguai se iniciou em dezembro de 1864, quando o presidente paraguaio Francisco Solano López ordenou a invasão de Mato Grosso e Corrientes, uma província da Argentina. O conflito durou 5 anos, chegando ao fim em março de 1870 com a morte de Solano López. O líder paraguaio se tornou o grande inimigo da Tríplice Aliança. Ele era tomado como um ditador tirânico cuja permanência no poder significava grande ameaça para a paz do país e para a segurança das fronteiras brasileiras. A ideia de que López era o grande responsável pela guerra era tão forte no Brasil que muitas vezes a Guerra do Paraguai foi chamada de "A Guerra do López". No inicio de 1869, já se esperava que a guerra tivesse chegado ao fim com as vitórias de dezembro de 1868, no entanto, López havia fugido durante a batalha de Lomas Valentinas, refugiando-se na Cordilheira dos Altos para se recuperar e voltar à luta. O comandante brasileiro Luís Alves de Lima e Silva, o marquês de Caxias (posteriormente consagrado com o título de duque), sugeriu que a guerra estava militarmente encerrada, mas Dom Pedro II, imperador do Brasil, exigia que o conflito continuasse até a rendição ou exílio de López. O marquês se afastou da guerra em 9 de fevereiro de 1869 alegando problemas de saúde e foi substituído por Luís Filipe Gastão de Orléans, o Conde d'Eu, genro do imperador.
Conde d'Eu e as principais tropas aliadas avançaram e tomaram Caacupé em 15 de agosto, onde, supostamente, López estava se escondendo, mas ele, na verdade, havia seguido para Caraguataí dias antes, deixando o general Bernardino Caballero na retaguarda. Sabendo disso, Conde d'Eu quis acelerar a marcha para alcançar logo o general paraguaio, mas isso não foi possível devido ao cansaço do exército. Ele enviou então uma divisão brasileira da cavalaria para a passagem até Campo Grande. A divisão foi reforçada, mais tarde, pela 2ª unidade tática do exército, que contava com os soldados argentinos comandados pelo coronel Luís Maria Campos. As tropas aliadas alcançaram a retaguarda das forças paraguaias em San Bernardino em 16 de agosto. A batalha começou às oito e meia da manhã em Campo Grande, uma vasta planície de cerca de doze quilômetros quadrados que era ideal para a cavalaria brasileira. Esta, porém, estava na retaguarda e não conseguia avançar pelo caminho estreito, o que impediu sua ação em um primeiro momento. Devido a isso, o ataque brasileiro teve de iniciar com a infantaria, na qual um batalhão era comandado pelo coronel Manoel Deodoro da Fonseca.
Essa foi a última grande batalha da Guerra do Paraguai. Ela foi seguida de movimentos irregulares das tropas brasileiras, uma verdadeira caçada à Solano López que iria, finalmente, terminar meses depois com a morte do ditador em Cerro Corá. A Batalha de Campo Grande está representada no famoso quadro "Batalha de Campo Grande", de Pedro Américo, e no livro "Recordações de Guerra e de Viagem", do Visconde de Taunay. No Paraguai, o Dia das Crianças passou a ser celebrado em 16 de agosto. É um feriado nacional em memória das crianças que perderam suas vidas nessa batalha. Conde d'Eu retornou à Corte com o apelido de "marechal decorativo" devido a sua curta participação na guerra e já em um momento em que ela estava praticamente encerrada. Apesar de seu papel como general tê-lo ajudado perante o império, não foi o suficiente para coloca-lo entre os líderes e heróis nacionais. O general Caballero foi capturado pelos brasileiros no dia 8 de abril de 1870, perto do Rio Apa. Foi solto pouco tempo depois, em maio de 1871 e voltou para Assunção, onde se engajou na política. Se tornou, em 1880, presidente do Paraguai (1880-1886) e participou da fundação do Partido Colorado em 1887.
Imagem: Marinelson Almeida Silva · BY · Openverse
A historiografia referente a Guerra do Paraguai passou por três momentos historiográficos, sendo que em cada um deles houve mudanças na narrativa sobre os personagens e os acontecimentos principais do conflito. A princípio o conhecimento sobre a guerra era baseado nos documentos escritos durante ou logo após o conflito. Foi a partir de 1960 que as pesquisas ganharam força e mudaram completamente a narrativa tradicional. Essa leitura se deu até meados da década de 80, quando mais uma vez a historiografia começou a mudar, dessa vez voltando sua atenção para os primeiros registros. Os fatos conhecidos sobre a Batalha de Campo Grande também foram mudando juntamente com esses períodos revisionistas:
Historiografia tradicional
A vitória na guerra foi recebida com alívio no Brasil. Chefes militares receberam títulos de nobreza e quadros foram pintados, glorificando as vitórias brasileiras. No entanto, nos anos que se seguiram, o movimento republicano ganhou força e com ele vieram diversas críticas à Guerra do Paraguai, não ao conflito em si, mas principalmente às ações dos homens que estavam no comando das tropas e, claro, à monarquia. Segundo o historiador Rodrigo Goyena Soares, que organizou o livro "Diário de Conde d'Eu", caso o Brasil chegasse a ter um terceiro reinado o Conde teria papel fundamental nas decisões. Então, para desmoralizar sua imagem, os republicanos reforçaram os rumores de que ele fora um general cruel, capaz de queimar vivas crianças paraguaias feridas em batalha e incendiar um hospital.
Historiografia revisionista
Em 1979 é lançado o livro “Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai”, do jornalista Julio José Chiavenatto. Nele, o jornalista critica ferrenhamente o papel do império brasileiro na guerra, assim como dos chefes militares, principalmente do duque de Caxias e do Conde d’Eu. Apesar de ser um livro declaradamente passional, escrito sem critérios metodológicos historiográficos, ele foi tomado como referência por diversos historiadores revisionistas. Nessa obra o jornalista escreve: “Acosta Ñu é o símbolo mais terrível da crueldade dessa guerra: as crianças de seis a oito anos, no calor da batalha, apavoradas, agarravam-se às pernas dos soldados brasileiros, chorando, pedindo que não as matassem. E eram degoladas no ato”.
Historiografia pós-revisionista
Esse processo teve início com a publicação do livro “O expansionismo brasileiro: o papel do Brasil na bacia do Prata; da colonização ao Império” (Rio de Janeiro: Philobiblion), de Luiz Alberto Moniz Bandeira. Essa nova historiografia se caracteriza, principalmente, por pesquisa sólida em fontes primárias. O livro “Maldita guerra: nova história da guerra do Paraguai” de Francisco Doratioto é considerado como referência nesse contexto. Nesse momento da historiografia algumas acusações feitas ao Conde d’Eu foram revistas. Chiavenatto utilizou como fonte os registros do Visconde de Taunay para acusar o Conde de alguns crimes, dentre eles o de atear fogo aos feridos paraguaios. Os pós-revisionista, no entanto, apresentam o texto do próprio Taunay para dizer o contrário: “havia balas que ainda explodiam no campo por causa do incêndio da macega ateado, no princípio da ação, pelos paraguaios, para ocultarem o seu movimento tático”. Também é conhecida a menção de que o Conde d'Eu teria ordenado que incendiassem um hospital com feridos, o que teria resultado na morte de mais de uma centena de pessoas. O mais provável é que o hospital tenha queimado em conseqüência dos bombardeios aliados no início da batalha, direcionados as fortificações paraguaias. ==Referências==


