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Reino da Borgonha

Reino da Borgonha ou Burgúndia é uma designação aplicada a sucessivas entidades de caráter nacional centradas no território histórico da Borgonha, que atualmente se encontra no sul-sudeste de França. O nome da região e do reino deve-se aos burgúndios, um povo de origem escandinavo.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 17/07/2026
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O reino dos burgúndios

O reino dos burgúndios (regnum Burgondionum), que se pode considerar o primeiro reino da Borgonha, deve o seu nome ao povo burgúndio, que se instalou em 443 nas margens do lago Léman. Gundebaldo (r. c. 473–516) e o seu filho Sigismundo (r. 516–524) foram os soberanos mais marcantes deste reino. No seu apogeu, o reino ocupou uma área considerável, que tinha os seus limites a norte de Langres, e a sul se estendia até Marselha.[b] A ocidente estendia-se até Nevers e a nordeste até às margens do lago de Constança. A sua existência foi efémera: de 444 até 534. As pretensões dos francos durante o reinado de Clóvis I, em 500 ou 501, foram continuadas pelos seus filhos Clodomiro, rei de Orleães, Quildeberto, rei de Paris e Clotário, rei de Soissons. Durante as campanhas militares levadas a cabo entre 532 e 534, os dois últimos acabaram por conseguir pôr termo ao reino burgúndio.

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Reino da Borgonha merovíngio

Os merovíngios integraram o reino burgúndio nos diferentes reinos merovíngios, mas conservaram a sua individualidade. A Burgúndia apresentava-se sempre como uma entidade geopolítica, da mesma forma que a Nêustria ou a Austrásia. Os monarcas merovíngios instalaram rei na Burgúndia. Os reis burgúndios mais conhecidos desse período foram Gontrão (r. 561–592) e Dagoberto (r. 629–639). Gontran residiu principalmente em Chalon-sur-Saône, onde reuniu concílios, e em Saint-Marcel (Saône-et-Loire) mandou erigir uma basílica e um mosteiro. Em 613, depois da captura e condenação a morte da rainha Brunilda em Renève, deixou de haver rei residente na Borgonha. O rei da Nêustria Clotário II (r. 584–629) juntou a Borgonha aos seus estados. Em 687, na sequência da batalha de Tertry, é a vez do reino da Nêustria-Borgonha desaparecer. O vencedor, o austrasiano Pepino de Herstal, leva a cabo a união dos reinos francos. Em 751, o reino dos merovíngios chega ao fim, com a coroação de Pepino, o Breve, que inaugura a era dos soberanos carolíngios.

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Os condados burguinhões sob os Carolíngios

O reino da Borgonha desaparece como entidade geopolítica com os Carolíngios. O vasto território do antigo regnum francorum que perde o seu rei é dividido por Carlos Martel (m. 741) em diversas partes, cada qual com o seu governador: a Borgonha Transjurana, a Borgonha Cisjurana (que incluía a Provença), o futuro ducado e condado da Borgonha.[c] Alguns textos dessa época ainda mencionam a Burgúndia ou regnum Burgundiae, mas estas denominações só têm expressão geográfica. A obra dos Carolíngios, marcada por uma forte centralização, consistiu em criar os condados burguinhões, os quais constituem as novas circunscrições administrativas, também chamadas pagi, decalcadas do modelo das antigas cividades galo-romanas. À frente desses condados estava um conde, que dependia diretamente do palácio, tal como os seus vizinhos congéneres. Os grandes da Borgonha, refratários a todo o tipo de autoridade centralizada, foram "postos na ordem" e forçados a obedecer.

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O Reino da Borgonha e de Arles

O tratado de Verdun de 843 rasga definitivamente a unidade do velho império de Carlos Magno. A sua obra política desmorona-se. A mutilação a que tratado sujeita a Borgonha faz nascer, a oeste do rio Saône, uma Borgonha francesa (ou Borgonha franca) e a leste do mesmo rio uma Borgonha imperial, quinhão do imperador Lotário. Os herdeiros deste desaparecem um após outro sem descendentes, e cada um dos tios e irmãos tentam desapossar os seus parentes. Os Normandos assolam o norte, os Sarracenos ameaçam o sul, a anarquia reina por todo o lado e o trono dos Francos subsiste com grandes dificuldades. A morte de Luís II, o Gago em 879 só agrava a situação.

O Reino da Provença dos Bivinidas (879–928)

A 15 de outubro de 879, uma assembleia de notáveis e prelados reunida em Mantaille elege como rei o cunhado de Carlos, o Calvo, Bosão, conde de Autun que exercendo funções de duque no Lyonnais, Viennois e na Provença. Apesar de receber o título real, Bosão não assume a qualidade de rei da Borgonha Cisjurana. O seu "Reino da Provença", também chamado "Reino de Arles", estendia-se desde as margens do rio Doubs a norte até ao Mediterrâneo a sul, fazendo fronteira com a Helvécia e a Itália a leste e sudeste. Sob a sua coroa estavam reunidas uma parte da Borgonha, o Bugey, a Bresse, o Delfinado, a Tarentaise, a Provença e uma parte do Languedoc. Bosão instala a capital em Vienne e cria uma chancelaria dirigida por Adalgaire, o abade de Flavigny.

O Reino da Borgonha Transjurana dos Guelfos (888–933)

Em 888, a morte do último sucessor de Carlos Magno, Carlos III, o Gordo, desprezado por causa da sua fraqueza face aos Normandos, incapaz de reprimir a audácia dos grandes vassalos, abandonado por todos, dá o sinal para a separação geral de diversos reinos que tinham estado sob o seu governo. Na Germânia, Arnulfo é proclamado rei, enquanto que os nobres franceses elegem Odo. A Helvécia é o berço de uma nova monarquia, que forma um novo reino borgonhês. Os borgonheses da Transjurana, a região situada entre o monte Jura e os Alpes Peninos, são liderados pelo duque Rodolfo. Este não é borgonhês; é membro à Casa de Guelfo. As peripécias da política permitiram ao seu pai Conrado II da Borgonha, conde de Auxerre, apoderar-se do governo do ducado da Transjurana.

Anexação do Reino da Provença ao reino da Borgonha Transjurana (933–1032)

Rodolfo II cai progressivamente na dependência feudal do rei da Germânia e alarga as suas possessões. O Reino da Borgonha compreende então a Suábia, Brisgóvia, Alsácia e Helvécia. Em 933, Rodolfo II, então em disputa com Hugo de Arles pela coroa de Itália, obtém deste a cessão do antigo Reino da Provença em troca do abandono das pretensões ao trono italiano. Segundo o historiador medievalista René Poupardin, citando Liuprando de Cremona (século X), Rodolfo tinha sido contactado pelos Italianos que lhe ofereceram a coroa de Itália: «Quando o rei Hugo soube disso, enviou-lhe emissários e deu a Rodolfo toda a terra que ele tinha tido na Gália antes de subir ao trono, ao mesmo tempo que recebia dele o juramento que jamais entraria de novo em Itália.» A partir daí, os dois reinos da Borgonha com as possessões dependentes da Provença são reunidos com o nome de "Reino da Borgonha e de Arles" sob a coroa de Rodolfo. O reino é herdado pelo filho de Rodolfo II, Conrado III (925–993) e depois pelo filho deste, Rodolfo III (970–1032).

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O Reino de Arles no seio do Sacro Império

A realeza de Arles assegurada efetivamente pelos imperadores (1032–1250)

O imperador toma posse do Reino da Borgonha e de Arles e o reino passa a fazer parte do Sacro Império Romano-Germânico. Desde então os imperadores da Alemanha vêm-se constantemente como reis de Arles, em virtude da doação de Rodolfo. Contudo, o domínio imperial é mais nominal do que real, só sendo exercidos atos de soberania pontualmente. Os imperadores Conrado II, o Sálico e Henrique III, seu filho, são coroados sucessivamente em 1033 e 1038 reis da Borgonha e de Arles.[e] No século XII Lotário de Süpplingenburg (1075–1137), sucessor da Casa da Francónia, toma o título de rei de Arles e nomeia como governador Conrado, duque de Zähringen. Nesse século, os condes da Provença e de Toulouse, apesar de supostamente os seus condados serem do império, mostram grande relutância em render homenagem ao imperador. Através de sucessivas usurpações, o reino é reduzido à sua expressão mais simples: alguns castelos na Provença e no Contat (Condado Venaissino).

Enfraquecimento da autoridade imperial

A autoridade do Sacro Império sobre o "Reino da Borgonha e Arles" era mais honorífica do que direta e real. A suserania só era eficaz nas mãos dos imperadores poderosos e capazes de intervir no leste e sul de França, mas eclipsava-se facilmente com os príncipes fracos nos territórios mais distantes das fronteiras imperiais. Depois de Frederico II, a autoridade imperial não era mais do que uma sombra. O poder dos arcebispos de Arles, privados de qualquer apoio material, declina com a queda da autoridade imperial na Provença ao mesmo tempo que o poder dos condes se reforça. Carlos I (1226–1285), da Casa de Anjou, sucede à de Barcelona. Carlos de Anjou é mais poderoso que qualquer dos seus predecessores e durante meio século a realeza arlesiana permanece adormecida.

Os sobressaltos do Reino de Arles

As pretensões da viúva de São Luís, a rainha Margarida (1221–1295), uma das filhas de Raimundo Berengário IV da Provença trazem de volta as lembranças do estado arlesiano. Após a morte da sua irmã Beatriz, esposa de Carlos de Anjou, Margarida tenta recuperar o condado da Provença, fazendo com que o seu cunhado Carlos seja convocado à presença do papa e do imperador, Rodolfo de Habsburgo, a quem ela reconhece formalmente a suserania sobre a Provença. O imperador não se imiscui na querela mas devido ao facto de Carlos de Anjou ignorar o seu apelo, aproveita a ocasião para afirmar os seus direitos em enfeuda a Provença a Margarida até que Carlos se entendeu com ele. Em 1280 Rodolfo acorda então com Carlos atribuir-lhe os condados da Provença e de Forcalquier e confirma-lhe todos os privilégios acordados pelos seus antecessores aos Berengários.

Fim do Reino de Arles

Os assuntos mais importantes do império, aos quais ele prefere dar primazia, chamam o imperador Carlos IV à Alemanha. Impossibilitado de se preocupar com a Provença, decide desembaraçar-se dela e cede os seus direitos sobre a coroa de Arles a Luís de Anjou em 1366 que assume a posse da Provença livre de qualquer soberania. A reunião da Provença à coroa de França em 1483 coloca um ponto final a qualquer ideia de restabelecimento do Reino de Arles, do qual se deixou de falar. E.-F. Grasset acrescenta: «é verdade que em 1532 Carlos V, tendo invadido a Provença, teve a pretensão de reivindicar o reino da Borgonha e diz-se até que praticou atos de soberania em Aix e em Marselha na qualidade de rei de Arles; mas não podemos encarar isso como uma iniciativa séria de restabelecer esse trono que se tinha desmoronado para sempre. Quanto aos atos deste príncipe, não há vestígios deles nos nossos arquivos.»

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Tentativa de recriação de um reino da Borgonha por Carlos, o Temerário (1471–1473)

Imagem: Portuguese_eyes · BY-SA · Openverse

Em novembro de 1471, o duque da Borgonha Carlos, o Temerário declara-se liberto da suserania do rei de França. A vontade de deixar de ser vassalo, mesmo que apenas formal, de dois soberanos europeus, o rei de França e o imperador alemão, é testemunhado por exemplo pelo facto de Carlos ter mandado fazer um diadema de riqueza prodigiosa, composto por ouro decorado de safiras e de rubis violeta encimado por veludo amarelo bordado com pérolas e no topo do qual se encontrava um enorme rubi encastoado num ornamento de ouro.[f] Em seguida Carlos retoma o projeto do seu pai de obter uma coroa real. Mas enquanto que o seu pai tinha em mente um reino fundado sobre a lembrança do reino carolíngio da Lotaríngia, Carlos prefere referir-se aos diferentes reinos da Borgonha: os Burgúndios, Merovíngios, Bivinidas e Guelfos. Se a existência do reino da Lotaríngia, entre 855 e 900, tinha sido esquecida, a memória dos diferentes reinos da Borgonha estava ainda presente e tinha a vantagem de lembrar pelo nome o título principal dos detentores dos estados burguinhões.

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