Baioneta
A baioneta, uma arma branca acoplada à boca de fuzis e mosquetes, transformou-se de arma principal de infantaria nos séculos XVII e XVIII para um item auxiliar ou de último recurso hoje. Apesar de sua função ter mudado, ela ainda é utilizada em algumas situações e mantém um forte simbolismo militar, com cargas de baioneta ocorrendo até o século XXI.
Pontos-chave
- A baioneta é uma arma branca que se encaixa na ponta de armas de fogo, permitindo seu uso como lança.
- Foi a principal arma para ataques de infantaria do século XVII até a Primeira Guerra Mundial.
- Atualmente, é considerada uma arma auxiliar ou de último recurso, mas ainda é usada e valorizada por seu impacto moral.
- Sua evolução inclui modelos de plugue, soquete, sabre-baioneta e multiuso, como as serrilhadas.
- A baioneta tem um forte impacto linguístico e simbólico, sendo representada em emblemas militares e expressões idiomáticas.
O termo 'baioneta' surgiu na segunda metade do século XVI, mas sua definição inicial é incerta. Documentos da época, como o 'Dictionarie' de Cotgrave (1611) e escritos de Pierre Borel (1655), descrevem-na como um tipo de adaga ou faca longa, possivelmente originária de Baiona, na França, sem especificar sua capacidade de ser acoplada a armas de fogo.
A baioneta passou por diversas transformações ao longo da história, adaptando-se às necessidades e tecnologias militares, desde os primeiros modelos de plugue até as versáteis baionetas multiuso.
Baionetas de Plugue
A primeira menção de uma baioneta acoplável a uma arma de fogo data de 1606, no tratado militar chinês 'Binglu'. Era uma 'arma filho-e-mãe', um mosquete de retrocarga com uma baioneta de plugue de 57,6 cm, totalizando 1,92 m. Descrita como uma 'espada curta que pode ser inserida no cano e presa girando-a ligeiramente', era para uso quando a pólvora e as balas se esgotassem ou em combate corpo a corpo. No entanto, não há exemplares existentes nem evidências de sua proliferação, e os mosquetes chineses da época eram frágeis para tal uso.
Baionetas de Soquete
O principal problema das baionetas de plugue era que impediam o disparo do mosquete quando instaladas, exigindo que os soldados as acoplassem apenas no último momento. A derrota das forças de Guilherme de Orange na Batalha de Killiecrankie (1689), devido a essa limitação, levou Hugh Mackay a introduzir a baioneta de soquete. Este novo design permitia que a baioneta fosse acoplada ao cano do mosquete sem obstruí-lo, possibilitando o disparo e o recarregamento da arma com a baioneta fixada.
Sabres-Baionetas
No século XIX, surgiu o conceito do sabre-baioneta, uma lâmina longa de um ou dois gumes que funcionava tanto como baioneta quanto como espada curta. Seu propósito inicial era permitir que os fuzileiros formassem um quadrado de infantaria eficaz contra ataques de cavalaria, equiparando-se ao alcance dos mosqueteiros. Um exemplo é o Fuzil Baker britânico (1800–1840). O punho era adaptado para o cano da arma, e um mecanismo de retenção prendia a baioneta. Acoplado à arma, o sabre-baioneta transformava-a em uma lança ou alabarda, útil para estocadas e golpes cortantes.
Baionetas Multiuso
As baionetas multiuso, como as 'de serra', incorporavam dentes no dorso da lâmina para uso como ferramenta e arma. Projetadas para cortar madeira (para arame farpado, por exemplo) e abater gado, foram adotadas por estados alemães em 1865, e por Bélgica (1868), Grã-Bretanha (1869) e Suíça (1878, com último modelo em 1914). Inicialmente, eram sabres pesados para engenheiros, com a função de ferramenta primária. Contudo, a serra mostrou-se ineficaz como ferramenta e obsoleta devido a melhorias logísticas. O exército alemão as abandonou em 1917, após protestos sobre os ferimentos graves que causavam em combate.
Antes da Primeira Guerra Mundial, a doutrina militar valorizava o 'alcance' da baioneta, acreditando que um fuzil e baioneta mais longos conferiam vantagem tática. Isso levou ao desenvolvimento de combinações de armas e baionetas extremamente longas, como o fuzil Lebel francês (1,80m) e o Mauser alemão (1,75m).
Reversão de Opinião
A experiência da Primeira Guerra Mundial mudou a percepção sobre o valor de fuzis e baionetas longos. Em trincheiras, patrulhas noturnas ou ataques em terreno aberto, a baioneta longa e desajeitada provou ser uma desvantagem no combate aproximado. O método de estocada e impulso era lento, exigia força e era facilmente defendido por soldados treinados, deixando o atacante vulnerável. Em vez de baionetas mais longas, ambos os lados começaram a usar armas auxiliares de curto alcance, como facas de trincheira, pistolas, granadas e ferramentas de sapa.
A carga de baioneta foi a principal tática de infantaria do século XVII ao início do século XX. Embora raramente resultasse em combate corpo a corpo, seu principal valor era moral, sinalizando determinação e muitas vezes fazendo o inimigo recuar antes do contato.
Guerras Napoleônicas
Durante as Guerras Napoleônicas, a carga de baioneta era comum, mas causava poucas baixas diretas. Registros do século XVIII mostram que menos de 2% dos ferimentos eram por baioneta. Antoine-Henri Jomini observou que a maioria das cargas em campo aberto resultava na fuga de um dos lados antes do contato. O combate com baionetas ocorria principalmente em ambientes confinados, como assaltos a fortificações. A ameaça da baioneta era mais tangível que as balas, encorajando a fuga e tornando-a uma arma eficaz para capturar terreno, mesmo sem infligir muitos ferimentos.
Guerra Civil Americana
Na Guerra Civil Americana (1861-1865), a baioneta foi responsável por menos de 1% das baixas, um indicativo da guerra moderna. No entanto, as cargas de baioneta eram eficazes para forçar o inimigo a recuar em combates de pequenas unidades, especialmente quando as tropas estavam recarregando (um processo demorado). Embora causassem poucas baixas, frequentemente decidiam confrontos curtos e a posse tática de posições defensivas. Além disso, a ordem de 'calar baionetas' podia ser usada para reunir soldados desorientados pelo fogo inimigo.
Subindo o Parapeito
A imagem icônica da Primeira Guerra Mundial de soldados 'subindo o parapeito' com baionetas caladas e avançando pela 'terra de ninguém' era o método padrão no início da guerra, mas raramente bem-sucedido. No primeiro dia da Batalha do Somme, as baixas britânicas foram catastróficas (57.470, com 19.240 mortos). A terra de ninguém, muitas vezes centenas de metros de largura, era devastada, cheia de crateras, arame farpado, minas, cadáveres e defendida por metralhadoras, morteiros e artilharia. Um ataque de baioneta nesse cenário frequentemente resultava na aniquilação de batalhões inteiros.
Cargas Banzai
A guerra moderna do século XX tornou as cargas de baioneta questionáveis. No Cerco de Port Arthur (1904–05), os japoneses sofreram baixas maciças em ataques suicidas contra artilharia e metralhadoras russas, com 'uma massa espessa e contínua de cadáveres'. Contudo, na Segunda Guerra Sino-Japonesa, as 'Cargas Banzai' foram eficazes contra tropas chinesas desorganizadas e mal-armadas, tornando-se uma tática aceita que rotineiramente desbaratava forças chinesas maiores.
Ataque de Onda Humana
O termo 'ataque de onda humana' é frequentemente mal aplicado ao 'ataque curto' chinês na Guerra da Coreia, que combinava infiltração e choque. Pequenas esquadras de cinco homens atacavam à noite os pontos fracos inimigos, rastejando até o alcance de granadas e lançando ataques surpresa com baionetas caladas para criar confusão. Se o choque inicial falhasse, esquadras adicionais pressionavam o mesmo ponto até a ruptura. Uma vez penetrada a defesa, as forças chinesas maiores atacavam pela retaguarda. Devido a comunicações primitivas, esses ataques eram repetidos até a penetração ou aniquilação total dos atacantes.
Últimos Vivas
Durante a Guerra da Coreia, o Batalhão Francês e a Brigada Turca demonstraram proficiência no uso de baionetas. Embora seu uso em combate corpo a corpo tenha diminuído drasticamente, a baioneta ainda é empregada em certas situações, como no controle de prisioneiros ou como arma de último recurso, mantendo seu valor psicológico e moral para as tropas.
Atualmente, a baioneta raramente é usada em combate corpo a corpo, mas muitos fuzis modernos ainda possuem retém para ela, e muitos exércitos a fornecem. Seu valor reside no controle de prisioneiros, como arma de último recurso e, principalmente, como ferramenta de treinamento para elevar o moral e a agressividade das tropas, mantendo o 'espírito da baioneta'.
União Soviética
A baioneta original do AK-47 era funcional, mas a baioneta AKM Tipo I (1959) foi revolucionária. Com lâmina tipo Bowie, dentes de serra no dorso e bainha de aço, funcionava como faca de sobrevivência e cortador de arame. Este design influenciou a baioneta M9 americana. A baioneta 6Kh5 do AK-74 (1983) refinou o design do AKM, apresentando uma seção transversal de lâmina inovadora, nova ponta de lança e cabo de plástico aprimorado, tornando-a uma faca de combate mais eficaz. As versões de cortador de arame das baionetas AK possuem cabo e parte da bainha isolados eletricamente para cortar arame eletrificado.
Estados Unidos
O fuzil M16 americano utiliza a baioneta M7, derivada de modelos anteriores (M4, M5, M6) e da Faca de Combate M3, com lâmina de ponta de lança. A M9, mais recente, possui lâmina de ponta cortante com dentes de serra no dorso, funcionando como faca multiuso e cortador de arame com sua bainha. Pode até ser usada para abrir a fuselagem de aeronaves acidentadas. A baioneta atual do USMC, a OKC-3S, assemelha-se à icônica faca de combate Ka-Bar, com serrilhados próximos ao cabo.
República Popular da China
A China copiou o AK-47 como fuzil de assalto Tipo 56, que inclui uma baioneta pontiaguda dobrável integral, similar à do SKS. Alguns fuzis Tipo 56 também podem usar a baioneta AKM Tipo II. O mais recente fuzil chinês, o QBZ-95, possui uma baioneta de faca multiuso semelhante à M9 americana.
Bélgica
O FN FAL possui dois tipos de baioneta. A primeira é uma baioneta de ponta de lança tradicional. A segunda é a baioneta de soquete Tipo C, introduzida na década de 1960. Ela tem um cabo oco que se encaixa sobre a boca do cano e ranhuras que se alinham com as do quebra-chamas de 22mm do FAL. Sua lâmina em forma de lança é deslocada lateralmente para permitir a passagem da bala.
Brasil
As Forças Armadas e forças auxiliares brasileiras (polícias paramilitares) são majoritariamente equipadas com fuzis FAL e a baioneta Tipo C do FAL. Os fuzileiros navais também utilizam o fuzil M16A2 com seu modelo de sabre-baioneta. O protótipo bullpup LAPA FA-03 possuía uma baioneta com retém anelar no quebra-chamas.
Reino Unido
A atual baioneta de soquete L3A1 britânica é baseada na baioneta Tipo C do FN FAL, com uma lâmina de ponta de grampo. Possui um cabo oco que se encaixa sobre o cano do fuzil SA80/L85 e ranhuras que se alinham com as do quebra-chamas. A lâmina é deslocada lateralmente para permitir a passagem da bala. Pode ser usada como faca multiuso e cortador de arame com sua bainha, que também inclui uma pedra de amolar e uma lâmina de serra dobrável.
O movimento de fixação da baioneta antiga inspirou termos em diversas áreas. No xadrez, uma abertura agressiva é chamada 'Ataque de Baioneta'. A baioneta simboliza poder militar, e a frase 'na ponta de uma baioneta' refere-se ao uso de força militar. Realizar uma tarefa 'com baionetas caladas' implica ausência de concessões, comum na política.
A baioneta, como símbolo de combate e determinação, é um elemento proeminente em diversos emblemas e insígnias militares ao redor do mundo, representando o espírito de infantaria e a prontidão para o combate.


