Transtorno de personalidade esquizoide
O transtorno de personalidade esquizoide é um transtorno de personalidade caracterizado por falta de interesse em relações sociais, tendência a um estilo de vida solitário, frieza emocional e apatia. Indivíduos afetados podem ser incapazes de formar vínculos íntimos com outros e simultaneamente possuir uma rica e elaborada, mas exclusivamente interna, atividade imaginária ou demonstrarem uma criatividade significativa.
O diagnóstico é baseado nas experiências reportadas pelo paciente, como também marcadores do transtorno observados por um profissional da saúde mental.
Critérios do DSM-IV
A versão IV-TR do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) — o guia americano amplamente usado por médicos à procura de um diagnóstico de doenças mentais — definia o TPE como "um padrão invasivo de distanciamento de relacionamentos sociais e uma faixa restrita de expressão emocional em contextos interpessoais, [que] começa no início da idade adulta e se apresenta em variados contextos". Para o DSM-5, publicado em 2013, foi decidido que o critério de diagnóstico se mantenha idêntico.
Critérios da CID-10
A CID-10 da Organização Mundial de Saúde define o TPE de forma muito semelhante ao DSM-IV. Segundo a CID-10, são necessários pelo menos 4 destes sintomas: Exclui: Síndrome de Asperger, transtorno delirante, transtorno esquizoide da infância, esquizofrenia e transtorno de personalidade esquizotípica
Critérios de diagnóstico dinâmico
Ralph Klein observou de maneira diversa as crenças comuns sobre esquizoides focadas principalmente no seu aparente desinteresse em relacionamentos. Esclarecendo as causas e condições por trás das características acima, Klein descreveu as cismas no tocante aos relacionamentos com os esquizoides. A separação envolve: (1) o relacionamento "escravo/mestre": caracterizado por exploração, apropriação, e desumanização; e (2) o "Eu em exílio:" o desagradável recuo do relacionamento explorador em que o Eu vai para o exílio. O Eu distante ou sem capacidade de resposta em exílio é o aspecto mais comum e reconhecido do esquizoide. Como Klein declara: "[o] aparente desapego dos sentimentos nunca deve ser aceito como o estado verdadeiro desses casos."
Critérios de Guntrip
Ralph Klein, Diretor Clínico do Instituto Masterson, define as seguintes nove características da personalidade esquizoide como descritas por Harry Guntrip: introversão, reclusão, narcisismo, autossuficiência, uma sensação de superioridade, perda de afeto, isolamento, despersonalização e regressão psicológica. Segundo Guntrip, "Na acepção do termo, o esquizoide é descrito como desligado da realidade do mundo exterior em um sentido emocional. Todos os seus impulsos instintivos e esforços são direcionados intimamente perante objetos internos e ele vive uma vida interior intensa que normalmente se revela de uma surpreendente abundância de fantasia e imaginação quando isso se torna acessível mediante observação. Embora a maior parte da sua vida fantasiosa e variada seja levada adiante secretamente, à distância." O indivíduo esquizoide está desligado da realidade exterior a tal nível que ele ou ela sente que a mesma é perigosa. É uma resposta humana natural fugir de fontes de perigo e se voltar àquelas mais seguras. O esquizoide, portanto, está preocupado primeiramente em evitar o perigo e em garantir segurança.
Num artigo publicado no American Journal of Psychotherapy, Salman Akhtar, M.D., fornece uma descrição alargada do Transtorno de Personalidade Esquizoide, sintetizando as descrições clássicas e contemporâneas com observações psicanalíticas. Este perfil é sumarizado na tabela reproduzida abaixo, listando manifestações clínicas em seis áreas de comportamento psicossocial e designadas como "abertas" e "encobertas". Note-se que tal não pretende significar que haja dois tipos de esquizoides ("abertos" e "encobertos"), mas que cada indivíduo esquizoide tende a ter uma faceta "aberta" que mostra ao mundo e uma faceta "encoberta" que raramente revela.
Pessoas com TP Esquizoide são vistas como distantes, frias e indiferentes, o que causa alguns problemas sociais. A maioria dos indivíduos diagnosticados com TP Esquizoide tem dificuldade em estabelecer relacionamentos sociais ou expressar seus sentimentos em uma maneira significativa, e podem permanecer passivos em face de situações desfavoráveis. A maneira destes se comunicarem com outras pessoas às vezes pode ser indiferente e concisa. Por causa da carência de comunicação com outras pessoas, aquelas que são diagnosticadas com TP Esquizoide não são capazes de ter uma reflexão de si mesmas e o quanto eles conseguem se dar bem com os outros. A reflexão é importante para estes se tornarem mais conscientes de si mesmos e suas próprias ações em ambientes sociais. R. D. Laing sugere que sem ser preenchido com injeções interpessoais de realidade, ocorre um empobrecimento na própria imagem pessoal que se tem, tornando-se mais e mais vazia e volátil, fazendo o próprio indivíduo se sentir irreal.
Estilo de apego evitativo
A questão de se o TP Esquizoide se qualifica com um pleno transtorno de personalidade ou apenas como um estilo de apego evitativo é controversa. Se aquilo a que chamamos transtorno de personalidade esquizoide é nada mais que um estilo de apego que exige uma proximidade emocional mais distante, então várias das reações problemáticas que estes indivíduos demonstram em situações interpessoais podem ser parcialmente atribuídas aos julgamentos sociais normalmente feitos sobre aqueles com este estilo. Até o momento várias fontes confirmaram a sinonímia entre TP Esquizoide e o estilo de apego evitativo, o que deixa em aberto a questão de como os pesquisadores podem abordar o assunto da melhor maneira em futuros manuais de diagnóstico e na prática terapêutica. Porém, por regra o motivo porque os indivíduos com TP Esquizoide não buscam interações sociais é meramente por ausência interesse, enquanto aqueles com estilo de apego evitativo podem estar de facto interessados em interagir com os outros, mas sem estabelecerem ligações muito profundas ou prolongados por terem pouca tolerância para qualquer tipo de intimidade.
Sexualidade Esquizoide
As pessoas com TP Esquizoide são às vezes sexualmente apáticas, embora não sofram normalmente de anorgasmia. Muitos esquizoides têm uma vontade sexual normal mas alguns preferem a masturbação ao invés de lidar com os aspectos sociais de buscar um parceiro sexual. Por isso, as necessidades sexuais destes podem parecer menores que aqueles que não tem TP Esquizoide, já que preferem permanecer sozinhos e dissociados. Quando praticam sexo, indivíduos com TP Esquizoide frequentemente sentem que seu espaço pessoal está sendo violado, e normalmente acreditam que a masturbação ou abstinência sexual é preferível à proximidade emocional que eles precisam tolerar quando fazem sexo. Expandindo significativamente esse retrato, há notáveis exceções de indivíduos com TP Esquizoide que se engajam em ocasionais ou mesmo frequentes atividades sexuais com outros.
O 'Esquizoide secreto'
De acordo com Ralph Klein, existem vários indivíduos essencialmente esquizoides que se apresentam como engajados, com um estilo de personalidade interativa que contradiz as características observáveis enfatizadas pelas definições do DSM-IV e ICD-10 da personalidade esquizoide. Klein classifica estes indivíduos como esquizoides secretos, se apresentando como socialmente disponíveis, interessados, engajados e envolvidos em interações aos olhos de observadores, enquanto ao mesmo tempo permanecem emocionalmente reclusos e contidos na segurança do seu mundo interno. Embora a reclusão e desapego do mundo exterior seja um traço característico da (alegada) patologia esquizoide, é às vezes clássica e às vezes secreta. Quando é clássica, se encaixa na típica descrição da personalidade esquizoide demonstrada no DSM-IV. No entanto, segundo Klein, é "frequentemente" um segredo, um estado oculto interno do paciente em que o que pode ser capturado pelos observadores pode não estar presente no mundo interno e subjetivo do paciente. Klein então adverte que não se deve deixar de identificar o paciente esquizoide porque não se pode ver a reclusão do mesmo através da defensiva, compensatória e engajada interação com a realidade exterior. E sugere que só se precisa perguntar ao paciente qual é a sua experiência subjetiva de modo a se detectar a presença da recusa esquizoide de intimidade emocional.
Há evidências que sugerem um aumento na incidência do transtorno de personalidade esquizoide em parentes de pessoas com esquizofrenia ou transtorno de personalidade esquizotípica. Para Sula Wolff, que realizou extensa pesquisa e trabalho clínico com crianças e adolescentes com sintomas esquizoides, "a personalidade esquizoide tem uma base constitucional, provavelmente genética". Outros pesquisadores levantam a hipótese de que uma educação desafeiçoada, negligente, ou excessivamente perfeccionista poderia ter um papel nisso.
O Transtorno Esquizoide tem semelhanças com outras condições psicológicas, mas com importantes características distintivas:
Mediante stress, algumas pessoas com personalidade esquizoide podem ocasionalmente experimentar breves instantes de reação psicótica. Indivíduos esquizoides também são propensos a desenvolver dependência patológica de atividades fantasiosas concomitante ao seu afastamento do mundo. Vista por essa ótica, a fantasia constitui um componente chave do exílio pessoal, embora num exame mais próximo, fantasiar nos indivíduos esquizoides é bem mais complicado que um meio de facilitar a reclusão. A fantasia é também um relacionamento com o mundo e com outros por meio de uma "procuração". É um relacionamento substituto, mas um relacionamento de qualquer forma, caracterizado por mecanismos idealizados, defensivos e compensatórios, livre das ameaças e ansiedades associadas com a conexão emocional às pessoas e situações reais. De acordo com Klein, "é uma expressão de si mesmo num esforço de se conectar aos objetos, embora objetos internos. A fantasia permite aos pacientes esquizoides se sentir conectados, e ao mesmo tempo livres do aprisionamento dos relacionamentos. Em suma, em fantasia, alguém pode ser apegado (aos objetos internos) e ainda assim ser livre."
Devido ao fato dos traços esquizoides serem bastante parecidos com os sintomas negativos da esquizofrenia, antipsicóticos atípicos podem ser eficazes em aliviar os mesmos. Aqueles que não buscam tratamento tem a opção da medicação ou terapia. Para a medicação, o transtorno de personalidade esquizoide parece ter os sintomas negativos da esquizofrenia como anedonia, embotamento afetivo, e baixo estímulo. A medicação que foi mais usada recentemente para tratar os sintomas negativos é a risperidona. Antes da mesma não havia medicamentos psicotrópicos que provocavam um impacto nos sintomas negativos. Segundo Joseph, baixas doses de risperidona ou olanzapina também funcionam para os problemas de déficit social e embotamento afetivo; Wellbutrin (bupropion) para a anedonia. Ademais, o uso de ISRSs, TCAs, IMAOs, pequenas doses de benzodiazepines, e beta-bloqueadores, podem ajudar com a ansiedade social no TPE. Porém, ansiedade social pode não ser uma preocupação principal para pessoas que tenham TPE. Terapia de apoio também é utilizada em condições de pacientes que permanecem nas clínicas ou as visitam por um profissional treinado que se concentra em áreas como: habilidades de lidar com problemas, melhorar habilidades e interações sociais, comunicação, e problemas de auto-estima. Mark Zimmerman sugeriu as seguintes questões para avaliação de pacientes com TPE:
Tratamento a curto-prazo
De acordo com Ralph Klein, Diretor Clínico do Instituto Masterson, o conceito do compromisso próximo significa que o paciente esquizoide pode ser encorajado a experimentar posições intermediárias entre os extremos da proximidade emocional, e o exílio permanente. Como mencionado por Laing, sem ser enriquecido por injeções de realidade interpessoal, ocorre um empobrecimento onde a autoimagem do indivíduo esquizoide se torna mais e mais vazia e volatilizada, levando o mesmo a se sentir irreal. Portanto, para criar uma interação mais adaptável e autoenriquecedora com os outros em que a pessoa se "sinta real", o paciente é encorajado a se arriscar ao criar menos distância pessoal através de uma ligação e comunicação maior, e compartilhamento de ideias, sentimentos e ações. O compromisso próximo significa que enquanto a vulnerabilidade do paciente esquizoide a essas ansiedades não é superada, é modificada e gerenciada de maneira mais adaptável. Aqui o terapeuta repetidamente transmite ao paciente que a ansiedade é inevitável, porém pode ser controlada, sem a ilusão de que a vulnerabilidade esquizoide a essa ansiedade pode ser permanentemente dispensada. O fator limitante é o momento em que os perigos da intimidade se tornam esmagadores e o paciente precisa novamente se refugiar.
Terapia a longo-prazo
Klein sugere que trabalhar através é a segunda camada mais longa do trabalho psicoterapêutico com pacientes esquizoides. Seus objetivos são mudar fundamentalmente as velhas formas de sentir e pensar, e livrar a si mesmo da vulnerabilidade de se vivenciar estas emoções associadas com antigos sentimentos e maneiras de pensar. Uma nova atividade terapêutica de 'lembrar com sentimento' é exigida. Deve-se relembrar com sentimento o resultado da existência do Falso Eu através da infância. (O conceito do Falso Eu e Eu Verdadeiro se origina de D. W. Winnicott, e é visto como representativo da fenomenologia esquizoide). Isso significa que a pessoa deve recordar as condições e proscrições que foram impostas na liberdade do indivíduo para experimentar o Seu Eu em companhia dos outros. Finalmente, lembrar com sentimento leva o paciente a entender que ele ou ela não possuía escolha no processo de desenvolver uma postura esquizoide perante os outros. O paciente não teve oportunidade de escolher de uma seleção de maneiras possíveis de experimentar o Seu Eu e se relacionar com os outros, ao invés disso, tinha poucas (se alguma) opção. O Falso Eu era simplesmente a melhor maneira na qual ele poderia sentir reconhecimento repetitivo e previsível, afirmação, e aprovação (as necessidades emocionais necessárias para sobrevivência emocional), enquanto se protegia dos efeitos associados com a depressão do abandono.
O termo "esquizoide" foi criado em 1908 por Eugen Bleuler para designar uma tendência para dirigir a atenção para a vida interior em vez de para o mundo exterior, um conceito próximo da "introversão" de Carl Jung. Bleuler também designou o exagero mórbido mas não-psicótico dessa tendência como a "personalidade esquizoide". Desde então, os estudos sobre a personalidade esquizoide têm seguido dois caminhos distintos: por um lado, a tradição da psiquiatria descritiva, que se foca no comportamento observável e nos sintomas descritíveis, que é exposta nas descrições apresentadas no DSM e na CID; por outro lado, a tradição da psiquiatria dinâmica, que inclui o estudo das causas ocultas e/ou inconscientes da personalidade. A tradição descritiva começa com a descrição que Ernst Kretschmer (1925) faz do comportamento esquizoide, que ele catalogou em três tipos de características: (1) insociabilidade, tranquilidade, reserva, seriedade e excentricidade; (2) timidez, segredo sentimental, sensibilidade, nervosismo, excitabilidade e gosto pela natureza e pelos livros; e (3) docilidade, amabilidade, honestidade, indiferença, silêncio e atitudes emocionais frias. Nessas características podemos ver as raízes da divisão (no DSM-IV) do caráter esquizoide em três diferentes transtornos de personalidade, embora o próprio Kretschmer não concebesse a separação desses comportamentos até ao ponto do isolamento radical entre eles, considerando, em vez disso, que eles se encontram simultaneamente presentes nos indivíduos esquizoides. Para Kretschmer a maioria dos esquizoides não são ou hipersensíveis ou frios, mas hipersensíveis e frios "ao mesmo tempo" em diferentes proporções relativas, com uma tendência para se moverem entre estas dimensões de um comportamento para o outro.
As estimativas da prevalência do transtorno são variadas, com valores entre os 0,5% e os 7% da população. Segundo a Associação de Psiquiatria Americana a sua prevalência estará entre 3,1% e 4% da população. O Transtorno de Personalidade Esquizoide é raro em contextos clínicos (ocorrendo normalmente um pouco mais nos homens), embora tal possa ser devido aos indivíduos afetados raramente procurarem auxilio psiquiátrico — Philip Manfield, no livro Split Self, Split Object (1992), comenta sobre a baixa prevalência de portadores deste transtorno: "Eu acredito que a condição esquizoide é bem mais comum, compreendendo provavelmente em torno de 40% de todos os transtornos de personalidade. Esta grande discrepância se deve muito provavelmente ao fato de que indivíduos com o transtorno esquizoide são menos propensos a buscar tratamento que os demais com outros transtornos do Eixo II." Um estudo da University do Colorado (Colorado Springs) comparando os transtornos de personalidade com os tipos de personalidade MBTI detetou que este transtorno tem uma correlação significativa com as preferências "introversão" (por oposto a "extroversão") e "razão" (por oposto a "sentimento").


