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Atlântida

Atlântida é uma ilha fictícia mencionada nas obras Timeu e Crítias do filósofo grego Platão como parte de uma alegoria sobre a arrogância das nações. Na história, Atlântida é descrita como um império naval que governava todas as partes ocidentais do chamado mundo conhecido, tornando-a a contra-imagem literária do Império Aquemênida. Depois de uma tentativa malfadada de conquistar a "Antiga Atenas", Atlântida cai em desgraça com as divindades e submerge no Oceano Atlântico. Como Platão descreve Atenas como semelhante ao seu estado ideal na obra A República, a história da Atlântida pretende testemunhar a superioridade do seu conceito de Estado.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 18/07/2026
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Diálogos de Platão

Timeu

As únicas fontes primárias sobre Atlântida são os diálogos Timeu e Crítias do filósofo grego Platão; todas as outras menções à ilha são baseadas nestas referências. Os diálogos afirmam citar Sólon, que teria visitado o Egito entre 590 e 580 a.C. onde teria traduzido registros egípcios sobre Atlântida. Platão introduziu Atlântida no Timeu, escrito em 360 a.C.: Muitos e grandes foram os feitos da vossa cidade que são motivo de admiração nos registos que deles aqui ficaram. Mas, entre todos eles, destaca-se um em grandeza e beleza; os nossos escritos referem como a vossa cidade um dia extinguiu uma potência que marchava insolente em toda a Europa e na Ásia, depois de ter partido do Oceano Atlântico. Em tempos, este mar podia ser atravessado, pois havia uma ilha junto ao estreito a que vós chamais Colunas de Héracles – como vós dizeis; ilha essa que era maior do que a Líbia e a Ásia juntas, a partir da qual havia um acesso para os homens daquele tempo irem às outras ilhas, e destas ilhas iam directamente para todo o território continental que se encontrava diante delas e rodeava o verdadeiro oceano. De facto, aquilo que está aquém do estreito de que falamos parece um porto com uma entrada apertada. No lado de lá é que está o verdadeiro mar e é a terra que o rodeia por completo que deve ser chamada com absoluta exactidão “continente”. Nesta ilha, a Atlântida, havia uma enorme confederação de reis com uma autoridade admirável que dominava toda a ilha, bem como várias outras ilhas e algumas partes do continente; além desses, dominavam ainda alguns locais aquém da desembocadura: desde a Líbia ao Egipto e, na Europa, até à Tirrénia. Esta potência tentou, toda unida, escravizar com uma só ofensiva toda a vossa região, a nossa e também todos os locais aquém do estreito.

Crítias

De acordo com Crítias, as antigas divindades helênicas dividiam a terra para que cada divindade pudesse ter seu próprio lote; Posídon, apropriadamente e ao seu gosto, recebeu Atlântida. A ilha era maior do que a Antiga Líbia e a Ásia Menor juntas, mas foi afundada por um terremoto e tornou-se um banco de lama intransponível, inibindo viagens para qualquer parte do oceano. Platão afirmou que os egípcios descreviam Atlântida como uma ilha que consistia principalmente de montanhas nas porções norte e ao longo da costa, abrangendo uma grande planície em forma oblonga no sul "estendendo-se em uma direção por três mil estádios [cerca de 555 quilômetros], mas no centro e pelo interior eram dois mil estádios [cerca de 370 quilômetros]." Há 50 estádios [9 quilômetros] da costa havia uma montanha baixa por todos os lados ... a própria ilha central tinha cinco estádios de diâmetro [cerca de 0,92 quilômetros].

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Interpretações

Antiguidade

Alguns escritores antigos viam Atlântida como um mito fictício ou metafórico; outros acreditavam que era real. Aristóteles acreditava que Platão, seu professor, havia inventado a ilha para ensinar filosofia. O filósofo Crantor, aluno de Xenócrates, que foi aluno de Platão, é frequentemente citado como exemplo de escritor que pensava que a história era um fato histórico. Sua obra, um comentário sobre Timeu, está perdida, mas Proclo, um neoplatonista do século V d.C., fez um relato sobre ela. A obra de Crantor foi representada na literatura moderna como uma prova de que ele visitou o Antigo Egito, conversou com sacerdotes e viu hieróglifos confirmando a história, ou de que ele aprendeu sobre Atlântida com outros visitantes do Egito. Proclo escreveu:

Judaico-cristã

Durante o início do século I, o filósofo judeu helenístico Fílon escreveu sobre a destruição da Atlântida em sua obra Sobre a Eternidade do Mundo, xxvi. 141, em uma passagem mais longa supostamente citando o sucessor de Aristóteles, Teofrasto: E a ilha de Atalantes [ortografia do tradutor; original: "Ἀτλαντίς"] que era maior que a África e a Ásia, como diz Platão em Timeu, em um dia e uma noite foi inundada pelo mar em consequência de um extraordinário terremoto e desapareceu repentinamente, tornando-se mar, de fato não navegável, mas cheio de abismos e redemoinhos. O teólogo Joseph Barber Lightfoot observou em Apostolic Fathers, 1885, II, p. 84: "Clemente pode estar se referindo a alguma terra conhecida, mas dificilmente acessível, situada além dos pilares de Hércules. Mas é mais provável que ele tenha contemplado alguma terra desconhecida no extremo oeste, além do oceano, como a lendária Atlântida de Platão..."

Moderna

Além do relato original de Platão, as interpretações modernas sobre a Atlântida são um amálgama de várias especulações que tiveram início no século XVI, quando estudiosos começaram a identificar a Atlântida com o Novo Mundo. O historiador espanhol Francisco López de Gomara foi o primeiro a afirmar que Platão se referia à América, assim como o filósofo inglês Francis Bacon e o estudioso alemão Alexander von Humboldt; Janus Joannes Bircherod disse em 1663 orbe novo non-novo ("o Novo Mundo não é novo"). Athanasius Kircher aceitou o relato de Platão como literalmente verdadeiro, descrevendo Atlântida como um pequeno continente localizado no Oceano Atlântico.

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Hipóteses de localização

Desde a época de Donnelly, dezenas de localizações foram propostas para Atlântida, a tal ponto que o nome se tornou um conceito genérico, separado das características do relato de Platão. Isto reflete-se no fato de que muitos dos locais propostos sequer se situam no Oceano Atlântico. As hipóteses com base acadêmica ou arqueológica são minoria, enquanto outras foram feitas por meios psíquicos (por exemplo, Edgar Cayce) ou outros meios pseudocientíficos. Os pesquisadores da Atlântida Jacques Collina-Girard e Georgeos Díaz-Montexano, por exemplo, afirmam que a hipótese do outro é pseudociência.

Mar Mediterrâneo

A maioria dos locais historicamente propostos estão dentro ou perto do Mar Mediterrâneo: ilhas como Sardenha, Creta, Santorini, Sicília, Chipre e Malta; cidades ou Estados como Troia, Tartesso e Tantalis (na província de Manisa, Turquia); Israel (Sinai ou Canaã); e noroeste da África, incluindo a Estrutura Richat na Mauritânia. A erupção de Tera, datada do século XVII ou XVI a.C., causou um grande tsunami que alguns especialistas supõem ter devastado a civilização minoica na ilha vizinha de Creta, levando alguns a acreditar que esta pode ter sido a catástrofe que inspirou a história. Antes do século VI a.C. as montanhas nos lados do golfo da Lacônia eram chamadas de "Pilares de Hércules" e poderiam ser a localização geográfica descrita em relatos antigos sobre os quais Platão baseou sua história. As montanhas situavam-se em ambos os lados do golfo mais meridional da Grécia, o maior do Peloponeso, e esse golfo abre-se para o Mar Mediterrâneo.

Oceano Atlântico

A localização da Atlântida no Oceano Atlântico tem um certo apelo, dados os nomes intimamente relacionados e o cenário platônico original por eles interpretado. As ilhas Canárias e Madeira foram identificadas como uma possível localização, a oeste do Estreito de Gibraltar, mas relativamente próxima do Mar Mediterrâneo. Estudos detalhados da sua geomorfologia e geologia destas ilhas demonstraram, no entanto, que elas têm sido constantemente elevadas, sem quaisquer períodos significativos de subsidência, ao longo dos últimos quatro milhões de anos, por processos geológicos como descarga erosiva, descarga gravitacional, flexão litosférica induzida por ilhas adjacentes e cobertura vulcânica.

Europa

Várias hipóteses colocam Atlântida no norte da Europa, incluindo Doggerland no Mar do Norte, e na Suécia (proposta por por Olof Rudbeck em Atland, 1672–1702). Acredita-se que Doggerland, assim como a Ilha Viking-Bergen, tenham sido inundadas por um megatsunami após o deslizamento Storegga por volta de 6100 a.C.. Alguns também propuseram a plataforma celta como um possível local. Em 2004, o fisiografista sueco Ulf Erlingsson propôs que a lenda teria sido baseada na Irlanda da Idade da Pedra. Mais tarde, no entanto, afirmou que não acredita que Atlântida alguma vez existiu, mas sustentou que a sua hipótese de que a sua descrição corresponde à geografia da Irlanda tem uma probabilidade de 99,8%. O diretor do Museu Nacional da Irlanda comentou que não haviam provas arqueológicas que apoiassem isto.

Outros locais

Vários autores, como Flavio Barbiero já em 1974, especularam que a Antártica é o local da Atlântida descrita por Platão. Várias reivindicações envolvem o Caribe, como uma suposta formação subaquática na Península de Guanahacabibes, em Cuba. As adjacentes Bahamas ou o folclórico Triângulo das Bermudas também foram propostos como possíveis localizações, assim como áreas nos oceanos Pacífico e Índico, como a Indonésia (ou seja, Sondalândia). As histórias de um continente perdido no litoral da Índia, chamado "Kumari Kandam", também inspiraram alguns a traçar paralelos com Atlântida.

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Interpretações literárias

Versões antigas

Para dar verossimilhança ao seu relato de Atlântida, Platão menciona que a história foi ouvida por Sólon no Egito, que teria sido transmitida oralmente ao longo de várias gerações através da família de Dropides, até chegar a Crítias, um orador de diálogo nas obras Timeu e Crítias. Sólon supostamente tentou adaptar a tradição oral da Atlântida em um poema (que, se publicado, seria maior que as obras de Hesíodo e Homero). Embora nunca tenha concluído este trabalho, Sólon passou a história para Dropides. Os classicistas modernos rejeitam a existência do poema que teria sido escrito por Sólon sobre Atlântida e da história em si como uma tradição oral.

Utopias e distopias

A criação de obras de ficção utópicas e distópicas foi renovada após o Renascimento, principalmente em Nova Atlântida (1627), de Francis Bacon, a descrição de uma sociedade ideal localizada na costa ocidental da América. Thomas Heyrick (1649-1694) seguiu-o com A Nova Atlântida (1687), um poema satírico em três partes, onde um novo continente de localização incerta, talvez até uma ilha flutuante no mar ou no céu, serve de pano de fundo para a exposição do que descreveu em uma segunda edição chamada Um Verdadeiro Caráter do Papado e do Jesuitismo. O título de A Nova Atalantis do escritor inglês Delarivier Manley (1709), é uma obra igualmente distópica, mas desta vez ambientada em uma ilha fictícia no Mar Mediterrâneo. Nela, a violência e a exploração sexual são transformadas em uma metáfora para o comportamento hipócrita dos políticos nas suas relações com o público em geral. No caso de Manley, o alvo da sátira era o Partido Whig, enquanto na obra The Scarlet Empire (1906), de David Maclean Parry, é o socialismo praticado na naufragada Atlântida. Foi seguido pelo poema A Queda da Atlântida (Gibel' Atlantidy, 1912) do escritor russo Velimir Khlebnikov, que se passa em uma futura distopia racionalista que descobriu o segredo da imortalidade e é tão dedicada ao progresso que perdeu contato com o passado. Quando o sumo sacerdote desta ideologia é tentado por uma escrava a cometer um ato de irracionalidade, ele mata a mulher, o que precipita uma segunda inundação, acima da qual a sua cabeça decepada flutua vingativa entre as estrelas.

Terra perdida ao longe

O fato de Atlântida ser uma terra perdida fez dela uma metáfora para algo que já não é alcançável. Em "The Lost Atlantis", da poetisa estadunidense Edith Willis Linn Forbes, Atlântida representa a idealização do passado; o momento presente só pode ser valorizado quando isso for percebido. A escritora estadunidense Ella Wheeler Wilcox encontra a localização de “The Lost Land” (1910) em um passado jovem e despreocupado. Da mesma forma, para o poeta irlandês Eavan Boland em "Atlantis, a Lost Sonnet" (2007), a ideia foi definida quando "os antigos criadores de fábulas procuraram arduamente por uma palavra para transmitir que aquilo que se foi, desapareceu para sempre".

Narrativas épicas

Algumas narrativas em versos do final do século XIX complementam o gênero de ficção que começava a ser escrito no mesmo período. Dois deles relatam o desastre que assolou o continente conforme relatado por sobreviventes longevos. Em Atlântida (1888), do poeta inglês Frederick Tennyson, um antigo marinheiro grego navega para oeste e descobre uma ilha habitada que é tudo o que resta do antigo reino. Ele fica sabendo do seu fim e vê o que resta de sua antiga glória, da qual alguns escaparam para estabelecer as civilizações do Mar Mediterrâneo. No segundo, Mona, Queen of Lost Atlantis: An Idyllic Re-embodiment of Long Forgotten History (Los Angeles, 1925), de James Logue Dryden (1840–1925), a história é contada em uma série de visões. Uma vidente é levada à câmara mortuária de Mona nas ruínas da Atlântida, onde ela revive e descreve a catástrofe. Segue-se um levantamento das civilizações perdidas da Hiperbórea e da Lemúria.

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Representações artísticas

Pintura e escultura

A representação artística mais dramática da catástrofe foi Terror Antiquus (1908), do pintor russo Léon Bakst, embora não mencione diretamente Atlântida. É uma vista do topo de uma montanha de uma baía rochosa aberta pelo mar, que avança para o interior em torno das altas estruturas de uma cidade antiga. Um raio atravessa a metade superior da pintura, enquanto abaixo dela ergue-se a figura impassível de uma deusa enigmática que segura uma pomba azul entre os seios. Viacheslav Ivanov identificou o tema como Atlântida em uma palestra pública sobre a pintura de Bakst em 1909, ano em que a obra foi exibida pela primeira vez. Sua opinião foi seguida por outros comentaristas nos anos seguintes.

Música

O compositor espanhol Manuel de Falla trabalhou em uma cantata dramática baseada em L'Atlántida de Jacint Verdaguer, durante os últimos 20 anos da sua vida. O nome foi afixado às sinfonias de Jānis Ivanovs (Sinfonia 4, 1941), Richard Nanes e Vaclav Buzek (2009). Houve também a celebração sinfônica de Alan Hovhaness: “Fanfare for the New Atlantis” (Op. 281, 1975). O compositor e arranjador tcheco-estadunidense Vincent Frank Safranek escreveu Atlantis (The Lost Continent) Suite in Four Parts em 1913. A ópera Der Kaiser von Atlantis (O Imperador da Atlântida) foi escrita em 1943 pelo compositor austríaco Viktor Ullmann com libreto do artista tcheco Petr Kien, enquanto ambos estavam presos no campo de concentração nazista de Theresienstadt. Os nazistas não permitiram que a música fosse apresentada, presumindo que a referência da ópera a um imperador da Atlântida era uma sátira a Adolf Hitler. Embora Ullmann e Kiel tenham sido assassinados no campo de extermínio de Auschwitz, o manuscrito sobreviveu e foi apresentado pela primeira vez em 1975, em Amsterdã.

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Fontes consultadas

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