Brasil na Copa do Mundo FIFA de 1994
A edição de 1994 da Copa do Mundo marcou a décima quinta participação do Brasil nessa competição, sendo o único país a participar de todas as edições do torneio da FIFA, fato que persiste até a última edição, em 2022.
A seleção brasileira começou a preparação para a Copa do Mundo de 1994 tendo Paulo Roberto Falcão como treinador, sucedendo Sebastião Lazaroni após o fracasso na Copa de 1990. A escolha do novo técnico esteve entre o ex-meia, Zagallo, Carlos Alberto Parreira e Gérson. A CBF tentava repetir o sucesso da Alemanha Ocidental, que foi campeã do mundo em 1990 tendo Franz Beckenbauer como treinador sem ter experiência anterior na função, apesar de ter sido auxiliar. Pesquisa do Sistema Brasileiro de Televisão mostrou que o nome de Falcão era o favorito do público com 13% da preferência popular, seguido por Telê Santana com 4%. Falcão já era comentarista esportivo e teria criado o termo Era Dunga. Um ano depois, em agosto de 1991, Falcão foi demitido após fazer o retrospecto de 15 jogos, 5 vitórias, 7 empates e 3 derrotas (48% de aproveitamento), e ser vice-campeão da Copa América de 1991. A cúpula da CBF acusava Falcão de "sumiços, que por inciativa própria, ficava dias sem aparecer na sede da CBF". Falcão alegou que foi pressionado a convocar jogadores do Rio de Janeiro: "Tinha uma história em que, na época, o futebol carioca não estava legal. Então me colocaram assim: 'De repente, entre convocar um jogador de São Paulo e um jogador do Rio, traz o do Rio se os dois tiverem o mesmo peso'. Aí não dá. Eu vou levar não importa de onde.".
Originalmente, Mozer, Ricardo Rocha, Ricardo Gomes e Márcio Santos foram os zagueiros convocados por Carlos Alberto Parreira. Cerca de um mês antes do mundial, Mozer foi cortado por conta de uma hepatite, sendo substituído por Aldair. Em seguida, Ricardo Gomes também foi cortado após sofrer um estiramento durante um amistoso na véspera da Copa, dando lugar a Ronaldão. Ricardo Rocha se machucou na estreia, mas continuou com o grupo. O jogador relatou mais tarde: "Fiz uma ressonância no outro dia e pensei que seria cortado. Porque não tem como ficar. Eu poderia ficar bom para o último jogo e os jogadores me chamaram, junto com Parreira, e disseram: "Você vai ficar". E eu tive medo. Acho que é a primeira vez que falo isso. Falei: "Gente, nós temos três zagueiros (Aldair, Márcio Santos e Ronaldão). Se machuca mais um vamos ficar só com dois. Era o início da Copa do Mundo. Então não tem como você ficar numa situação que pode prejudicar vocês. Eles falaram: "Não, você foi importante e vai ficar. Se precisar, Dunga vai pra zagueiro, Mauro Silva... Se não tiver outro zagueiro, claro, mas a gente quer você." Chorei muito quando tive a lesão porque me preparei muito para essa Copa do Mundo, que era minha última. Mas o que acontece, os jogadores conversaram mais uma vez comigo. Romário me chamou, Parreira me chamou. E acordei no outro dia um "outro Ricardo". Se não dá pra ajudar dentro de campo, vou fazer de tudo fora de campo." Dessa forma, mesmo sem atuar, Ricardo Rocha permaneceu como elemento motivador da equipe graças ao seu bom humor e espírito coletivo.
No primeiro jogo, o Brasil venceu a Rússia por 2–0. Com 20 minutos Ricardo Rocha deixou o jogo. Segundo a Folha de S.Paulo, "O técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira, cumpriu quase integralmente suas previsões. Ataque, meio-campo e defesa funcionaram. O teste só não foi completo porque a Rússia, salvo no início do jogo e no meio do segundo tempo, foi completamente dominada. Os meias Raí e Zinho não mais estão presos nos lados do campo, como "assessores" dos laterais Jorginho e Leonardo. Ao contrário, moveram-se pelo campo todo.". Contra Camarões nova vitória, por 3–0. Telê Santana analisou: "Foi uma boa vitória, mas podia ter sido melhor. A seleção brasileira não rendeu tanto quanto no jogo de estreia contra a Rússia, quando o normal seria exatamente o contrário, pois nossos jogadores estavam livres do nervosismo da estreia. Vendo bem, Camarões não foi uma só vez área brasileira em todo o primeiro tempo. E sua defesa não era exatamente sólida. Diante disso, para que tantos homens lá atrás? Para que Mauro Silva e Dunga de cabeças de área e Zinho e Raí embolados no meio campo. Tínhamos pela frente um adversário que nos permitia soltar mais o Dunga e fazer com que Raí e Zinho se projetassem mais.".
Na volta ao Brasil, uma série de reportagens do jornal Folha de S.Paulo deu origem ao episódio conhecido como "voo da muamba". O avião, que partira do Brasil com 3,4 toneladas de bagagem, regressara com 14,4, segundo dados da Receita Federal. O caso mais famoso foi o do lateral Branco, que trazia na bagagem uma cozinha completa, avaliada em 18 mil dólares. O limite legal era 500 dólares por pessoa. Sobre Teixeira, recaiu a acusação de que ele aproveitava a oportunidade para contrabandear equipamentos para o bar El Turf, de sua propriedade, no Rio. A Folha de S.Paulo descreveu a descoberta: O avião da Varig que transportou os campeões dos EUA até o Brasil parou primeiro em Recife. Os jogadores desfilaram na capital pernambucana e agradeceram o apoio recebido na despedida rumo ao Mundial. A segunda parada foi em Brasília -para a tradicional visita ao presidente. No Palácio do Planalto, Itamar Franco condecorou a delegação com a medalha do mérito desportivo. Terminada a homenagem, o avião decolou rumo ao Rio para um novo desfile em carro aberto. Antes da festa, no entanto, havia o dever. Como todos os brasileiros que chegam do exterior, a delegação teria que prestar contas à Receita Federal. Teria, porque não prestou, pelo menos não naquele dia -20 de julho de 1994. Quando ficou sabendo que os agentes da Receita queriam inspecionar as bagagens, Teixeira estrilou. Após evocar o título mundial e ralhar com todos no aeroporto do Galeão, o dirigente ligou diretamente para Brasília. Pediu e conseguiu a liberação de todos.


