Associação Brasileira de Psiquiatria
A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) é a principal entidade representativa dos psiquiatras no Brasil, desempenhando papel central no desenvolvimento científico, técnico e político da psiquiatria nacional. Sua trajetória é marcada por avanços institucionais, mas também por controvérsias e disputas no campo da saúde mental. Sua sede está localizada no Centro do Rio de Janeiro/RJ.
A psiquiatria brasileira tem suas raízes no século XIX, período marcado pela transição do tratamento da loucura de um contexto assistencial e caritativo para uma abordagem institucionalizada e científica. Até meados do século XIX, os chamados “alienados” eram mantidos em asilos, cadeias ou sob tutela da Santa Casa de Misericórdia, sem distinção clara entre doença mental, indigência e criminalidade. O marco inaugural da psiquiatria institucionalizada foi a fundação do Hospício Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1852, primeira instituição dedicada exclusivamente ao tratamento dos alienados no país. Com a Proclamação da República, o hospício foi transformado no Hospital Nacional de Alienados, consolidando-se como referência nacional e centro de formação de médicos alienistas. Diversos pioneiros marcaram a história da psiquiatria brasileira. João Carlos Teixeira Brandão foi um dos primeiros a sistematizar o saber psiquiátrico nacional e a defender legislação específica para o tratamento dos alienados. Juliano Moreira, diretor do Hospital Nacional de Alienados entre 1903 e 1930, modernizou a instituição, combateu práticas racistas e introduziu métodos terapêuticos inovadores. Outros nomes de destaque incluem Nina Rodrigues, Ulysses Pernambucano e Osório César, que contribuíram para a consolidação da psiquiatria como campo científico e social.
A ABP é uma associação civil de caráter científico, sem fins lucrativos, com personalidade jurídica e forma federativa. Seu estatuto prevê a congregação de médicos psiquiatras, mas também permite a associação de médicos não especialistas e estudantes de medicina. A entidade é composta por órgãos permanentes, como Assembleia de Delegados, Diretoria, Departamentos, Comissões, Conselho Consultivo e Conselho Fiscal. A Assembleia de Delegados é o órgão máximo, responsável por decisões institucionais, reformas estatutárias e aprovação de contas. O modelo federativo da ABP garante representatividade nacional, com entidades regionais federadas e núcleos estaduais. As entidades federadas possuem autonomia jurídica e administrativa, mas devem cumprir obrigações estatutárias e manter comunicação com a diretoria nacional. Os associados são divididos em categorias, como Psiquiatra Titular, Jubilado, Sênior, Efetivo, Residente, Cursista, Correspondente, Acadêmico e Honorário, cada uma com direitos e deveres específicos.
A ABP atua como referência nacional na elaboração de diretrizes clínicas, posicionamentos técnicos e defesa do exercício profissional da psiquiatria. Em colaboração com entidades como a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), a ABP desenvolve documentos baseados em evidências científicas, que servem como referência para a boa prática da saúde mental no país. A entidade adota e recomenda o uso dos principais sistemas internacionais de classificação de transtornos mentais, como o DSM e a CID, promovendo debates sobre suas implicações clínicas e éticas, e participa ativamente da discussão sobre a adaptação desses sistemas ao contexto brasileiro. A ABP publica diretrizes detalhadas para o diagnóstico e tratamento de condições como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar e transtornos por uso de substâncias, sempre com base em medicina baseada em evidências e em documentos internacionais. A entidade defende a eletroconvulsoterapia (ECT) como um procedimento terapêutico eficaz e seguro para casos graves e resistentes, enfatizando a necessidade de consentimento informado e monitoramento adequado.
A atuação política da ABP é marcada por disputas intensas com movimentos sociais, entidades científicas e gestores públicos. A entidade manifestou reservas à (Lei da Reforma Psiquiátrica), argumentando que a rede substitutiva não seria suficiente para casos graves e crônicos, e que o fechamento de leitos hospitalares poderia resultar em desassistência. A ABP sustenta que a Lei não proíbe hospitais psiquiátricos, mas regula seu uso como último recurso. A entidade se posiciona de forma crítica ao movimento antimanicomial, inspirado por Franco Basaglia e liderado no Brasil por Paulo Delgado, defendendo a coexistência de diferentes modalidades de cuidado e a centralidade do psiquiatra nas equipes multiprofissionais. Durante o governo Jair Bolsonaro, a ABP participou da elaboração de diretrizes que propunham a revisão da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e a ampliação do financiamento para hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas, sendo alvo de críticas de setores que defendem a Reforma Psiquiátrica.
Movimentos contra o Setembro Amarelo
Em Psiquiatria, o cuidado em saúde mental abrange prevenção, avaliação, diagnóstico, tratamento e reabilitação, num enfoque frequentemente biopsicossocial; por isso, limitar-se ao manejo do Suicídio como desfecho extremo é insuficiente frente à complexidade dos transtornos e de seus determinantes. A literatura descreve o suicídio como fenômeno multifatorial, no qual vulnerabilidades (modelo de diáteses‑estresse) interagem com estressores ambientais, sustentado por achados neurobiológicos reportados em revisões de base populacional e clínica. No contínuo da conduta suicida, a Ideação suicida constitui fase inicial e relevante fator de risco, variando de pensamentos fugazes a planos estruturados, o que demanda avaliação clínica cuidadosa. Entre os fatores de risco destacam-se transtornos mentais (p.ex., Depressão e Transtorno bipolar), abuso de substâncias, dor crônica e condições clínicas graves, além de elementos psicossociais como isolamento e Desemprego, reforçando a necessidade de abordagens integrais orientadas a causas e contextos. Perspectivas da Sociologia, como a tradição inaugurada por Émile Durkheim, salientam o papel protetivo da integração e coesão social na variação das taxas de suicídio, indicando que explicações exclusivamente individuais são incompletas. Em síntese, diretrizes contemporâneas em psiquiatria sustentam intervenções que combinem estratégias biológicas e psicoterapêuticas, prevenção e promoção de bem‑estar, ao invés de um enfoque restrito ao evento agudo suicida.
Contexto da reforma psiquiátrica brasileira
Desde a década de 1980, o Brasil vivencia um intenso debate sobre a reforma psiquiátrica, inspirada por experiências internacionais e pelo movimento antimanicomial, que defende a superação do modelo hospitalocêntrico e a promoção do cuidado em liberdade para pessoas com sofrimento psíquico. A ABP, principal entidade representativa dos psiquiatras brasileiros, historicamente se posicionou de forma crítica à reforma, especialmente à Lei nº 10.216/2001, conhecida como Lei Paulo Delgado, que estabeleceu diretrizes para a desinstitucionalização e a priorização de serviços comunitários como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Falta de diálogo e manifestos de profissionais
A ABP é frequentemente criticada por formular políticas públicas sem ampla participação social e por adotar posturas consideradas autoritárias por parte de profissionais e movimentos sociais. A atuação da ABP na formulação de políticas públicas de saúde mental, especialmente durante o governo Bolsonaro, foi marcada por críticas quanto à ausência de diálogo democrático e participação social. A elaboração da Nota Técnica 11/2019 do Ministério da Saúde, que propôs mudanças significativas na Política Nacional de Saúde Mental, ocorreu sem consulta ampla à sociedade civil, usuários dos serviços, familiares e trabalhadores da saúde mental. Entidades como a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), o Conselho Federal de Psicologia (CFP), o Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) e movimentos sociais denunciaram a exclusão de vozes não médicas e a centralização das decisões em grupos médicos. A literatura acadêmica enfatiza que a participação social é um dos pilares da Reforma Psiquiátrica e da construção do Sistema Único de Saúde (SUS), e que a ausência de participação popular compromete a legitimidade das políticas formuladas.
Defesa do modelo hospitalocêntrico
A atuação da ABP é marcada por uma defesa histórica do modelo hospitalocêntrico, centrado em hospitais psiquiátricos e internações, em contraste com os princípios da reforma psiquiátrica. A entidade argumenta que o fechamento de leitos hospitalares, promovido pela Reforma Psiquiátrica e pela Lei 10.216/2001, teria deixado pacientes graves desassistidos, e que a rede substitutiva, composta por Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), residências terapêuticas e ambulatórios, não seria suficiente para atender casos de maior complexidade. Em 2020, a ABP apresentou ao Ministério da Saúde o documento “Diretrizes Para um Modelo de Atenção Integral em Saúde Mental no Brasil”, propondo a redução do papel dos CAPS à reabilitação social de casos graves e crônicos e sugerindo a criação de hospitais de retaguarda para internações.
Apoio à abstinência e críticas à redução de danos
A ABP adota posição favorável à abstinência como eixo central das políticas de tratamento de dependentes de substâncias psicoativas. Em nota oficial, a entidade celebrou a aprovação da Nova Política Nacional sobre Drogas (PNAD) em 2019, que passou a priorizar a abstinência em detrimento da redução de danos. Documentos técnicos da ABP afirmam que “não existe uso de drogas isento de riscos” e que políticas de redução de danos para crianças e adolescentes deveriam buscar ações que estimulem a abstinência. A ABP se opõe à distribuição de insumos como seringas e cachimbos para usuários de drogas, prática central nas políticas de redução de danos recomendadas por organismos internacionais como a ONU e a OMS. Além disso, apoia a inclusão e o financiamento de comunidades terapêuticas (CTs) na rede de atenção psicossocial, instituições frequentemente ligadas a grupos religiosos e que têm como princípio a abstinência total. O fortalecimento das CTs, em detrimento dos CAPS-AD, é visto por especialistas em saúde pública como um retrocesso em relação à reforma psiquiátrica.
Relação com a indústria farmacêutica e acusações de medicalização
A relação entre a psiquiatria e a indústria farmacêutica não é um fenômeno exclusivo do Brasil, sendo amplamente documentada em diversos países. Desde a década de 1950, com o surgimento de medicamentos psicotrópicos como os antipsicóticos e os antidepressivos tricíclicos, a psiquiatria passou por uma revolução terapêutica que transformou a maneira como os transtornos mentais são tratados. No entanto, essa transformação veio acompanhada de uma crescente influência da indústria no campo da psiquiatria, incluindo o financiamento de pesquisas, patrocínio de eventos médicos e promoção de medicamentos. Diversos especialistas e movimentos sociais, como o movimento antimanicomial e a Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME), apontam a relação próxima da ABP com a indústria farmacêutica como uma das principais razões para a promoção de uma abordagem medicalizante no tratamento de transtornos mentais. Entre as principais críticas estão:
O período do governo Jair Bolsonaro foi caracterizado por forte polarização política e institucional, especialmente no campo da saúde. O negacionismo científico, a promoção de medicamentos sem comprovação de eficácia, como a cloroquina, e o ataque a medidas de isolamento social marcaram o debate público e afetaram a atuação e a percepção das entidades médicas brasileiras. Nesse cenário, entidades como o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Médica Brasileira (AMB) tiveram posturas distintas: enquanto a AMB se posicionou contra o uso da cloroquina para Covid-19, o CFM defendeu a autonomia médica, sendo frequentemente citado pelo governo. Durante a pandemia de COVID-19, a ABP concentrou sua atuação em orientações técnicas sobre saúde mental, promovendo campanhas e debates sobre o impacto da crise sanitária no sofrimento psíquico da população. No entanto, diferentemente de outras entidades, a ABP não publicou notas oficiais endossando ou condenando explicitamente o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina para Covid-19, tampouco se manifestou de forma contundente sobre as políticas sanitárias do governo federal. Essa ausência de posicionamento foi interpretada por setores da sociedade e da imprensa como cautela institucional ou omissão, especialmente diante do contexto de polarização e negacionismo. A ABP reforçou, em seus canais oficiais, o compromisso com a ciência e a ética, evitando envolvimento direto em disputas político-partidárias e priorizando a divulgação de informações técnicas.


