Ascomycota
Os ascomicetos são fungos do filo Ascomycota que produzem seus esporos (ascósporos) em esporângios específicos chamados ascos. É um grupo monofilético de cerca de 32.300 espécies, ao qual pertencem inclusive a maioria das formas anamórficas, leveduras e formas liquenizadas. Este grupo engloba também a maioria dos fungos patogênicos para as plantas.
Em Ascomycota, ocorrem grupos microscópicos, como são os casos das leveduras e dos estados anamórficos (também conhecidos como fungos filamentosos), macroscópicos, e formas liquenizadas. De acordo com Hawksworth, em 1983, ocorreriam 2.720 gêneros e 28.650 espécies de fungos no Filo Ascomycota, número este que foi aumentado para 32.267 espécies em 1995, incluindo os fungos líquenizados . No Brasil, não é possível listar-se o número total de Ascomycota, mas em relação a líquens e fungos líquenizados, Marcelli (2005) listou aproximadamente 2.300 espécies, número este que atualmente foi ampliado para 2.851 espécies link 1í e, em Mato Grosso do Sul, tem-se listados, um número exato de 108 espécies (link 2).
De forma geral, Ascomicetos (termo que hoje se encontra em desuso, sendo correspondente a “Ascomicetos”) representa um grupo pouco estudado no Brasil. Nas décadas de 70 e 80, trabalhos de campo pela região amazônica brasileira, colombiana e venezuelana, resultaram em numerosas descrições de táxons . Em regiões tropicais, formações vegetais do tipo Cerrado tem sido alvo de intensas pesquisas, devido à sua vasta biodiversidade. Esta formação é ainda pouco conhecida em relação aos fungos, embora apresente uma flora substancial . A diversidade fúngica nessa região foi discutida por Dianese et. al., (1997), enfatizando especialmente os Ascomycetos. Contudo, praticamente todo o material de coletas realizadas no Brasil, foi enviado para especialistas estrangeiros. Desta maneira, atualmente, grande parte do material de referência para estudos dessa biodiversidade encontra-se fora do país.
Imagem: Derivate work: 148LENIN Authors: 2011-04-30_Morchella_esculenta.jpg: Andreas Kunze 2009-08-01 Neolecta vitellina 23804 cropped.jpg: Irene Andersson (Mushroom Observer), derivate work of Ak ccm Tuber melanosporum - trufa negra, Ágreda, España.jpg: Poco a poco Sarcoscypha_austriaca_81949.jpg: Dan Molter (Mushroom Observer), uploaded by Sasata Penicillium на мандарине.jpg: Ivtorov Rhizocarpon sp. (43746102904).jpg: Björn S..., uploaded by Rudolphous Fission_yeast.jpg: David O Morgan, uploaded by Lionel guillou Macroconidia_Microsporum_canis.JPG: Roberto J. Galindo · BY-SA · Openverse
Entre as principais características apresentadas por Ascomicetos, podem-se citar os micélios septados, com parede celular contendo quitina e glucanas, e a produção de um tipo especial de esporângio, denominado asco. Características macroscópicas diferem Ascomicetos de outros fungos pertencentes a outras divisões, porém, são as características microscópicas que são diagnósticas para o grupo. Dois estados reprodutivos distintos são produzidos por Ascomicetos, e são conhecidos como teleomorfos ou "estado perfeito" (caracterizados pela produção de esporos sexuados ou ascósporos), e anamorfos ou "estado imperfeito" (quando há formação de esporos assexuados ou conídios). Mesmo sua reprodução sendo realizada através desses dois processos, sua classificação é baseada nas estruturas reprodutivas sexuais.
Imagem: Vik Nanda · BY · Openverse
A reprodução sexuada nos ascomicetos envolve a formação de um asco, estrutura em forma de saco, na qual ascósporos haplóides, formados após a meiose e mitose. Ascos e ascósporos são estruturas exclusivas que distinguem os ascomicetos de todos os outros fungos. Um ascoma, estrutura vegetativa composta de hifas emaranhadas, pode ter diferentes morfologias: aberto e com forma de taça (apotécio), fechado (cleistotécio), esférico piriforme com um pequeno poro (peritécio), através do qual os ascósporos são liberados. Os ascos normalmente se desenvolvem na superfície interior do ascoma, chamada de himênio ou camada himenial (parte reprodutiva). Nas pontas das hifas ascógenas dicarióticas, formam-se ganchos, ou crozier, que permitem a divisão simultânea dos dois núcleos. Após as subsequentes divisões, são formados os ascos imaturos que contém um par de núcleos compatíveis. Os dois núcleos se fundem (cariogamia), formando um zigoto (uma célula 2n, única fase contendo um núcleo diplóide) que por sua vez sofre processo meiótico, sendo separado na primeira divisão onde é feita a síntese do material genético que tem por resultado dois núcleos diplóides e em segunda divisão meiótica, onde os dois núcleos diplóides que foram formados na primeira fase da meiose entram na segunda fase da meiose, onde vai haver uma separação do número de cromossomos que levará a formação de quatro núcleos haplóides que por sua vez cada núcleo sofrerá mitose fazendo assim que o asco tenha oito núcleos haplóides e estes núcleos são envolvidos por porções do citoplasma formando os ascósporos.
Alguns fungos do filo Ascomycota são utilizados para produção de alguns alimentos, como por exemplo o queijo Roquefort. Como na maioria dos fungos, os Ascomicetos têm um papel mais importante no ecossistema, o de decomposição de moléculas orgânicas complexas, liberando componentes inorgânicos, que serão reutilizados por vegetais. Se presentes em água como saprófitos, podem consumir quase todo o substrato carbonado, incluindo combustível de avião (Amorphotheca resinae) e tinta de parede (Aureobasidium pullulans) e desempenhar o seu papel mais importante na reciclagem de material morto. Alguns Ascomycota (Ceratocystis e Ophiostoma) formam associações simbióticas com uma variedade de artrópodes, onde podem traçar linhas, em galerias subterrâneas de certos artrópodes, como coleópteros (besouros), e fornecer alimentação para as larvas em desenvolvimento. Em contrapartida, os besouros mantêm uma cultura pura do fungo, e a transportam para galerias recém-criadas.
A(s) linhagem(ens) basal(ais) de Ascomycota compreende(m) quatro classes, Neolectomycetes, Pneumocystidomycetes, Schizosaccharomycetes, e Taphrinomycetes, que estão classificados no subfilo Taphrinomycotina. O monofiletismo de Taphrinomycotina é questionável, mas aumentou a amostragem de ambos os táxons e genes, resultando em um maior apoio para o monofiletismo do táxon. Saccharomycotina compreende as “leveduras verdadeiras” e abriga o fungo mais famoso, Saccharomyces cerevisae (unicelular). A classificação atual de Saccharomytina inclui uma classe, Saccharomycetes, e uma ordem, Saccharomycetales. Pezizomycotina conta bem mais de 90% de Ascomycota, e as espécies possuem hifas, com praticamente todas as formas reprodutivas sexuadas possuindo ascomas. Também inclui onze clados reconhecidos como classes. A maior parte do esforço filogenético molecular tem sido direcionada a esse subfilo. Uma equipa de investigadores liderada por David S. Hibbett subdividiu em 2007 a divisão Ascomycota da seguinte forma:
Imagem: Elena Regina · PDM · Openverse
As relações filogenéticas entre as classes seriam as seguintes, de acordo com análises moleculares:
Imagem: SiliconProphet · BY-SA · Openverse
Ascomycota é grupo irmão de Basidiomycota. Essa relação é suportada pela presença de paredes septadas em membros de ambos os filos, o que divide as hifas em segmente, pares de núcleos não fundidos nesses segmentos, os quais se fundem dentro do ascoma e no basidioma, o que caracteriza o sub-reino dikarya. O que sustenta esse sub-reino, vem de uma aparente homologia entre estruturas presentes nesses grupos, as quais coordenam mitose simultânea de dois núcleos dicarióticos (Ascomycota – “croziers”; e Basidiomycota – fíbulas).
Imagem: Prof. M. Piepenbring · BY-SA · Openverse
As coletas de Ascomycetes são feitas com o auxílio de uma faca comum, removendo-os de substratos lenhosos e, em seguida, devem ser ensacadas em papel pardo, com o devido registro do substrato, e secas para serem conservadas o mais intactas possível, sendo posteriormente colocadas em um freezer (-18 °C), para esterilização, antes de proceder à triagem e identificação. Para isso, os espécimes devem ser analisados em lupa, para observação de caracteres macroscópicos, tais como estruturas vegetativas e de reprodução e, cortes longitudinais e transversais dos ascomas devem ser feitos, para observação dos caracteres microscópicos. No caso dos Ascomycota liquenizados análises químicas com os testes de coloração K (KOH), C (NaClO) e KC (combinação dos dois reagentes) também devem ser feitas, para evidenciar substâncias de importância taxonômica presentes nos talos, e o teste I (Iodo) para averiguar a presença de substâncias amiloides nos himênios dos apotécios. Por fim, os dados conseguidos devem ser usados para as determinações dos gêneros, com o auxílio de chaves dicotômicas e comparações bibliográficas.
Imagem: M. Piepenbring · BY-SA · Openverse
Vários nomes taxonômicos desatualizados — baseados em características morfológicas — ainda são ocasionalmente usados para espécies de Ascomycota. Estes incluem os seguintes grupos sexuais (teleomórficos [en]), definidos pelas estruturas dos seus corpos frutíferos sexuais: Discomycetes [en], que incluíam todas as espécies que formavam apotecios; os pyrenomycetes, que incluíam todos os fungos saculares que formavam peritécios ou pseudotecios, ou qualquer estrutura semelhante a estas estruturas morfológicas; e os plectomycetes, que incluíam as espécies que formavam cleistotecios. Hemiascomycetes incluíam as leveduras e fungos semelhantes a leveduras que agora foram colocados em Saccharomycotina ou Taphrinomycotina, enquanto Euascomycetes incluíam as espécies restantes de Ascomycota, que agora estão em Pezizomycotina, e Neolecta, que estão em Taphrinomycotina. Alguns ascomicetos não se reproduzem sexualmente ou não são conhecidos por produzirem ascos, sendo, portanto, espécies anamórficas [en]. Os anamorfos que produzem conídios (mitósporos) eram anteriormente descritos como Ascomicetos mitosporicos [en]. Alguns taxonomistas colocaram este grupo num filo artificial separado, Deuteromicetos (ou “Fungi Imperfecti”). Nos casos em que análises moleculares recentes identificaram relações próximas com taxas portadoras de ascos, as espécies anamórficas foram agrupadas em Ascomycota, apesar da ausência do asco definidor. Isolados sexuais e assexuais da mesma espécie geralmente carregam nomes binomiais diferentes, como, por exemplo, Aspergillus nidulans e Emericella nidulans, para isolados assexuais e sexuais, respectivamente, da mesma espécie.


