Arthur Friedenreich
Arthur Friedenreich foi um futebolista brasileiro. Apelidado "El Tigre" ou "Fried", foi a primeira grande estrela do futebol brasileiro na época amadora, que durou até 1933.
Imagem: Cristian Antesana A. · BY-SA · Openverse
A lenda construída em torno da memória histórica do célebre atleta mestiço afirmou com frequência que ele era filho de um rico comerciante alemão com uma lavadeira negra brasileira. Na realidade, Arthur pertencia a uma família de funcionários públicos subalternos. Era filho de um funcionário público oriundo de Blumenau, chamado Oscar Friedenreich. O avô do jogador, Karl Wilhelm Friedenreich, nascido na Alemanha, era um veterinário e naturalista amador, que ocupou o cargo de delegado de polícia em Santa Catarina. Karl transferiu-se com a família para São Paulo, para assumir a função de naturalista assistente no Museu do Ipiranga, em 1891. Como entomologista, Karl pesquisava para a secretaria da agricultura as pragas que atacavam lavouras. Esse contato facilitou uma colocação para o filho, Oscar, no funcionalismo público como desenhista técnico do departamento de obras, subordinado à mesma secretaria. Oscar desenhava plantas de agrimensura e projetos para edificações públicas, por isso às vezes foi citado como “arquiteto”. Essa foi a única ocupação profissional do pai de Arthur Friedenreich ao longo de toda a vida, logo ele era oriundo de uma família de funcionários em setores dos serviços que na época se expandiam, perfil comum entre as camadas médias urbanas.
Para o jornalista Edson Leite em 1947, Friedereich era uma "figura quasi excêntrica", um "rapazinho magro e ágil". O Jornal do Brasil em 1914, descreveu Friedenreich aos 22 anos e ainda menos popular que Rubens Salles, como um "inside right" (ponta-direita): "É um excelente footballer para qualquer posição. É de uma agilidade notável e dispõe de shoot rigorosíssimos com ambos os pés e, talvez o forward que mais perigos oferece aos keepers.". Geraldo Romualdo Silva descreveu: "Pesava menos de 67 quilos, base movediça de seus 1,70 de pés descalços. (..). Nem por isso, dentro ou fora da área, Fried deixava de arriscar o pêlo. Os argentinos quando o viram com aquela decisão inquebrantável de correr e brigar puxaram pelo besunto e descobriram um apelido redondo para ele: "El Tigre"". Conforme crônica recordado em sua biografia: "Distribui com calma, com precisão, os seus cabeceios são certeiros e os tiros finais fortíssimos. Não é jogador egoísta, não abusa dos dribles, do jogo pessoal. Mesmo à porta do gol, vendo um companheiro mais bem colocado, não titubeia em passar a bola. É, afinal, jogador que não faz jogo para as arquibancadas e sim para o conjunto". Outra biografia descreve os dribles de Fried: “A finta de Friedenreich desenvolvia-se numa série de velozes, hábeis, pequenos desvios do couro a cargo sobretudo da face externa das botas, dando-lhe grande penetração, o que lhe proporcionava em poucos segundos o ganho de espaço para conseguir a posição do arremate”.
Primeiros anos
Jogador de futebol paulista, "Fried" começa a jogar futebol ainda adolescente na cidade de São Paulo, nos clubes Germânia (atual Pinheiros), Mackenzie, Ypiranga e o Paulistano, que hoje são apenas clubes sociais e já não atuam no futebol profissional. Começa a se destacar pela imaginação, técnica, estilo e pela capacidade de improvisar. O fato de ser descendente de alemães ajudou Friedenreich na carreira.[carece de fontes?] Em sua autobiografia, Fried recorda: "Fui aperfeiçoando meus recursos olhando Charles Miller, chutando a redonda sob seu olhar, que foi assim como o meu professor primário no futebol. Mas coube a Hermann Friese, que fora campeão no futebol alemão, me ensinar o secundário e o superior. Com ele, comecei a subir a ladeira e cheguei à efetivação no nível mais alto do futebol".
O auge
A sua posição de origem foi a de centroavante. "El Tigre" acabou introduzindo novas jogadas no ainda recente futebol brasileiro, na época ainda amador, como o drible curto, o chute de efeito e a finta de corpo. Foi campeão paulista em diversas oportunidades pelo clube Paulistano. Também atuou pelo São Paulo, conquistando mais um campeonato paulista em 1931. O time do São Paulo campeão naquele ano ficou conhecido por "Esquadrão de Aço", e era formado por Nestor; Clodô e Bartô; Mílton, Bino e Fabio; Luizinho, Siriri, Araken Patusca e Junqueirinha. Pelo São Paulo FC marcou 103 gols em 125 jogos, é o 18º maior artilheiro do clube e tem uma das melhores medias, 0,82 gol por jogo.
Friedenreich e a Revolução de 1932
Em 1932, assim que iniciou o conflito entre paulistas e o governo de Getúlio Vargas, Friedenreich fez uma breve pausa em sua vitoriosa carreira e se alistou no exército paulista. Começou como sargento e chegou até o posto de tenente, saindo do conflito como herói. Comandou uma divisão de 800 desportistas, num clima descrito por ele mesmo como tenso, porém de extrema camaradagem. Além da participação ativa no campo de guerra, também doou medalhas de ouro e troféus para arrecadar dinheiro na causa dos paulistas.
Últimos anos
Após a Revolução de 32 jogou futebol por mais três anos. Também foi contra a profissionalização do futebol no país. A partir dos anos 1930, o futebol passou a caminhar rumo ao profissionalismo. A ideia não agradou Friedenreich, que recusou proposta do Flamengo, de continuar atuando, acabou sendo seu último clube onde também era torcedor, e abandonou os gramados após fazer sua última partida no dia 21 de julho de 1935. Passou a trabalhar numa companhia de bebidas, por onde se aposentou. Viveu numa casa cedida pelo São Paulo até morrer em 6 de setembro de 1969.
Seleção Brasileira
Sua estreia na seleção se deu no ano de 1914 em um amistoso contra o time inglês Exeter City (nas Laranjeiras, no dia 21 de julho), que o escrete brasileiro venceu por 2–0. Friedenreich fez pela seleção principal 23 jogos e marcou dez gols. No ano de 1914 ganhou o primeiro título do Brasil na história: a Copa Roca, taça amistosa realizada para melhorar as relações diplomáticas entre Brasil e Argentina. Outras conquistas importantes que conseguiu foram os sul-americanos de 1919, marcando o gol do título na prorrogação contra os uruguaios, e 1922, primeiras conquistas relevantes da Seleção Brasileira. O choro "Um a Zero" - de Benedito Lacerda, Pixinguinha e Nelson Ângelo - foi composto em homenagem ao gol de Fried contra o Uruguai na final de 1919. Uma atitude infeliz do presidente da Liga Paulista, Elpídio de Paiva Azevedo, causou uma das maiores decepções de Friedenreich na carreira. Ao saber que a comissão técnica da Seleção não teria nenhum paulista, o dirigente impediu a ida dos jogadores do estado para a Copa do Mundo, no Uruguai em 1930. Assim, "El Tigre" encerrou a carreira sem sentir o sabor de disputar um Mundial.[carece de fontes?]
Seleção Paulista
Friedenreich também brilhou na seleção paulista de futebol, atuando em 71 partidas e marcando 86 gols, e foi campeão brasileiro de seleções estaduais em 1922 e 1923, inclusive sendo o artilheiro do campeonato brasileiro de seleções estaduais de 1922, com 8 gols.[carece de fontes?]
Luta contra a discriminação racial no Brasil
Apesar de Fried ser o principal jogador do País, e ter feito o gol do título da Copa América, ainda havia um racismo muito forte no Brasil na época, principalmente por parte das elites locais. Neste período, o Brasil teve participações decepcionantes em torneios internacionais, claramente enfraquecida pela ausência de seu principal atleta. Fried voltou a jogar pela Seleção, disputou o torneio a Copa América, e o Brasil voltou a ser campeão. Depois disso, nunca mais houve no Brasil qualquer outra restrição legal tão direta contra a participação de negros ou mulatos em nossos selecionados esportivos.[carece de fontes?]
Opinião sobre a evolução do futebol
Em 22 de janeiro de 1966, Friedenreich deixou sua vida reclusa e se manifestou publicamente sobre os rumos do futebol da época em artigo publicado no jornal "O Globo" com o título "Para Vencer na Inglaterra": Quando tive a honra de defender as cores do Brasil, o futebol era simples e sem mistérios. Obedecia-se à clássica formação das três "fatias", ou seja, defesa, meio de campo e ataque. A tarefa de cada um desses grupos era bem definida: a defesa "limpava a área", sem se preocupar com passes. Cumpria ao meio de campo apoderar-se da bola e entregá-la ao ataque; este, avançando frontalmente, isto é, paralelamente à linha de fundo, tratava de vazar o gol do adversário. Em síntese, esse era o mecanismo da partida. Havia "técnicos", mas sua influência na partida era relativa: os jogadores não o julgavam indispensáveis. Um dêles, que fez época - Platero - nada inventava, apenas fazia-nos correr, mas, no final das contas, nós jogadores também não estávamos muito interessados em aprender coisa alguma.
Por ter brilhado numa época com poucos registros documentais e quando a imprensa esportiva praticamente não existia, a carreira de Friedenreich foi cercada por uma lenda urbana. Jornalista e amigo de Friedenreich, Geraldo Lunardelli relata que o próprio jogador se deliciava com as histórias em torno de si, além de alimentá-las: “Indaguei-o sobre o assunto e o craque, satisfeito, comentou: ‘Uma mentirinha não faz mal nenhum’. Era uma forma de manter vivo o mito Arthur Friedenreich. Ele sabia disso. E conseguiu”. Os mais famosos são os mais de mil gols marcados em sua carreira, e a história de nunca ter perdido pênaltis.[carece de fontes?]
Polêmicas nos gols marcados na carreira
O pai de Friedenreich, Oscar Friedenreich, começou a anotar em pequenos cadernos todos os gols marcados pelo filho desde que começou a atuar. A partir de 1918, Oscar Friedenreich confiou a tarefa a um colega do filho no Paulistano, o center-forward (centroavante) Mário de Andrada, que seguiu a trajetória do craque por mais 17 anos, registrando detalhes das partidas até o encerramento da carreira de Fried, em 21 de julho de 1935, quando ele vestiu a camisa do Flamengo. Ao fechar as contas, o abnegado colega teria chegado a marca de 1 239 gols.[carece de fontes?] A lenda ganhou consistência em 1962. Naquele ano, Mário de Andrada informou a De Vaney, um dos jornalistas esportivos mais famosos do Brasil, que tinha as fichas de todos os jogos de Fried, podendo provar que o craque atuara em 1 329 partidas, marcando 1 239 gols. Andrada, porém, morreu antes de mostrar as fichas a De Vaney. Mesmo sem nunca comprovar esses dados, De Vaney resolveu divulgá-los, mas erroneamente inverteu o número das dezenas de 1 239 para 1 329 gols.[carece de fontes?]
Da inconsistência dos números
Há diversos motivos para os dados divergirem. A primeira é que muitos dos jogos encontrados não possuem o placar e consequentemente quem marcou os gols. A segunda é que em uma época de futebol amador as partidas eram, às vezes, diárias e com tempo de duração diferente, como partidas de torneio início que eram em média de vinte minutos. Por fim, Friedenreich jogou muitas partidas por "combinados" de duas ou mais equipes, estaduais e nacionais, de amigos e até divisões por conotações étnicas como nas três partidas em que fez pelo "Combinado dos brancos" contra o "Combinado dos pretos" em 1927 e 1928. Assim muitas destas partidas nunca foram registradas.[carece de fontes?]
Gols na carreira
Chegou a ser anunciado que Friedenreich fez 1 239 gols, segundo o colega centroavante Mário de Andrada que até então mantinha anotações dos gols de Friedenreich mas que nunca foram recuperadas. Segundo levantamento do jornalista Alexandre da Costa, autor do livro O Tigre do Futebol, Friedenreich converteu uma média superior à de Pelé, 0,99 por jogo, contra 0,93 de Pelé ou 0,987 gols/jogo contra 0,931/jogo. Independente dos gols por clubes e combinados, Friedenreich marcou 10 gols em jogos oficiais da seleção brasileira, e 86 em 71 jogos pela seleção paulista
Pênaltis perdidos
Outra lenda urbana é a de que Friedenreich nunca perdeu um pênalti na carreira. O próprio Fredenreich alimentava a lenda ao afirmar: "Nunca perdi um pênalti. Em toda a minha carreira, observei muito a maneira de os goleiros se posicionarem na hora da cobrança de penalidade máxima. Percebi que o melhor lugar para chutar era o canto esquerdo do arqueiro, porque só canhotos ali pulavam. Os demais, a grande maioria destra, caía para a direita. Encontrei, assim, o ponto fraco dos goleiros".
Há um parque no bairro de Vila Alpina, na zona Leste de São Paulo, com seu nome. O parque, situado no início da avenida Francisco Falconi, é um dos maiores da região. Ainda em São Paulo, uma rua na zona leste tem seu nome. Friedenreich também tem uma escola com seu nome no Rio de Janeiro, coincidentemente, essa escola fica localizada dentro do complexo esportivo do Maracanã, próximo a entrada principal, a esquerda da estátua de Bellini.[carece de fontes?] Em 2017, o Club Athlético Paulistano decidiu criar um mascote e abriu uma votação entre os associados, que decidiram homenagear o atleta e decidindo como mascote um tigre de nome Fried. O personagem foi apresentado após o título do campeonato estadual de basquete.


