Arquitetura bizantina
A arquitetura bizantina é a arquitetura do Império Bizantino, ou Império Romano do Oriente, habitualmente datada de 330 d.C., quando Constantino o Grande estabeleceu uma nova capital romana em Bizâncio, até à queda do Império Bizantino em 1453. Também chamada de arquitetura romana do Oriente, desenvolveu-se durante a Antiguidade Tardia — superando a visão tradicional de mera decadência romana — como um desenvolvimento da arquitetura romana. A historiografia moderna enfatiza que a arquitetura bizantina não rompeu com a engenharia romana, mas foi antes a culminação das suas capacidades técnicas aplicadas a um novo contexto litúrgico cristão-oriental.
O bizantinista britânico Cyril Mango destaca quatro abordagens para a compreensão da arquitetura bizantina. Dentro da abordagem tipológica, os monumentos são classificados com base num conjunto de critérios formais, como planta, materiais utilizados e elementos decorativos. No âmbito desta abordagem, postula-se a existência de «escolas» geográficas (a constantinopolitana, a grega, a oriental e outras) como uma característica importante, e o desenvolvimento da arquitetura bizantina é entendido como uma «luta» entre tendências oriundas de diferentes regiões. Esta abordagem dominou até a década de 1940, e os principais trabalhos neste paradigma foram criados por Josef Strzygowski, Gabriel Millet («L'École grecque dans l’architecture byzanti», 1916) e Jean Ebersolt («Monuments d’architecture byzantine», 1934). Uma característica distintiva da escola constantinopolitana é a sua orientação para a glorificação do poder do imperador através da organização em massa de luxuosos serviços litúrgicos. Segundo Millet, os principais componentes do paradigma arquitetónico constantinopolitano, que incluía também os templos de Tessalónica, da maior parte dos Balcãs centrais e do nordeste da Ásia Menor, eram a predominância da variante complexa do tipo cruz-inscrita, a presença de três absides, cinco cúpulas e a decoração arquitetónica.
Originalmente, a arquitetura bizantina era apenas uma extensão da arquitetura romana antiga. A arquitetura religiosa atrai mais atenção devido à sua maior «artisticidade» e preservação, pois muitos templos foram convertidos em mesquitas. No período inicial, herdou formas da Antiguidade Tardia, mas durante o século desenvolveu estruturas que diferem essencialmente das basílicas cristãs primitivas. Desta fase destacam-se a Igreja da Natividade em Belém (na atual Palestina, 330 d.C.), com a sua nave de colunas coríntias monolíticas, e a Basílica de Santa Maria Maior em Roma, na Itália (432 d.C.), cujas colunas jónicas e mosaicos sobre o Antigo Testamento a tornam uma fonte central da arquitetura cristã primitiva. Durante o Império Romano Tardio, a difusão do Cristianismo levou ao desenvolvimento da arquitetura paleocristã, com a construção de igrejas cujas plantas, inicialmente derivadas daquelas dos templos pagãos e, especialmente, das basílicas civis romanas que haviam sido convertidas em locais de culto, gradualmente adotaram formas mais adequadas ao culto cristão. Enquanto do século IV ao VI a planta basilical retangular constituiu, tanto no Oriente como no Ocidente, o protótipo das igrejas paroquiais, episcopais ou monásticas, desenvolveu-se, ao mesmo tempo, uma arquitetura onde a planta centrada, em forma de rotunda ou cruz grega, tenderia gradualmente a substituir a de forma longitudinal. O tijolo passa a ser mais predominante que a pedra cortada como material de construção, e a disposição das colunas é feita de forma mais livre. Os mosaicos figurativos com fundo dourado tornaram-se o elemento essencial da decoração de interiores, nomeadamente abóbadas e cúpulas. Para dar lugar aos mosaicos, procurou-se retirar completamente os revestimentos de madeira, o que naturalmente levou ao abandono da planta da basílica, que foi substituída por plantas resultantes de montagens cada vez mais complexas de cúpulas e meias-cúpulas. Depois da grande crise da Antiguidade Tardia, que viu a queda do Império Romano do Ocidente, o século VI é um período de renovação e de experimentação muito fecunda no campo arquitetónico para o Império Romano do Oriente, que atingiu então o seu pico. Vemos a coexistência de uma grande diversidade de plantas, que por vezes se combinam de forma complexa. Os imperadores Justino I e Justiniano I foram grandes construtores de edifícios religiosos (igrejas) e civis (fortes, palácios, edifícios públicos, mercados, aquedutos). É a grandeza passada da civilização romana que verdadeiramente renasceu por um tempo em Constantinopla.
Desenvolvimento histórico
O período frutífero e inovador de Justiniano foi seguido por dois séculos de torpor marcados pelas invasões eslavas nos Bálcãs, as guerras com a Pérsia e o cerco de Constantinopla em 626, a ascensão dos árabes e do Islão, a perda definitiva da Palestina, da Síria e do Egito nos anos 630-640, a conquista do Norte de África pelos árabes que sitiaram Constantinopla em 674-678 e em 717-718. Durante estes dois séculos, a arquitetura religiosa estagnou, resultado da crise iconoclasta durante a qual as imagens dos templos já existentes foram removidas sem a construção de novos templos. A arquitetura civil também declinou, devido às epidemias, às guerras civis e ao declínio das cidades. Durante este período, o foco principal foi a reparação ou manutenção de edifícios existentes. Estes dois séculos formam uma espécie de dobradiça que pode ser classificada neste período ou no anterior.
Exemplos de realizações arquitetónicas
O Imperador Teófilo (r. 829-842) dedicou-se sobretudo à reabilitação da muralha protectora junto ao mar e à construção de palácios em Constantinopla. A arquitectura desses palácios foi fortemente influenciada pelo que os enviados de Teófilo viram na Síria e que lembram os das dinastias Omíada e Abássida. Basílio I (r. 867-886), por sua vez, construiria ou renovaria muitas igrejas, incluindo vinte e cinco na capital e seis nos subúrbios. A mais famosa delas, hoje desaparecida e conhecida apenas pelas descrições medievais, foi a Nea Ekklesia ou Igreja Nova (880). Presumivelmente construída sobre uma planta com "cruz inscrita", foi coroada por cinco cúpulas, revestidas com mosaicos no interior e telhas de cobre no exterior. Nesta fase, a parede deixou de ser um plano inerte para se tornar uma superfície modelada e dinâmica, com nichos e articulações volumétricas. Regionalmente, a Grécia desenvolveu o "estilo octogonal" sobre trompas (como em Hosios Lukas), enquanto a Rússia importava e multiplicava esses modelos em Kiev para atender a novas escalas dinásticas. No seu interior possuía pelo menos quatro capelas dedicadas a Cristo, à Virgem, aos arcanjos Miguel e Gabriel, Elias e São Nicolau. A igreja votiva de Theotokos Panakrantos (igreja votiva da mãe de Deus, Constantinopla) (hoje sob as ruínas da Mesquita Fenari Isa), veio a servir de modelo para muitas outras igrejas por todo o país. Cattolica de Stilo no sul de Itália (século IX), a igreja do mosteiro de Hosios Lukas (São Lucas, na Grécia , 946-955), o Nea Moni (novo mosteiro) na ilha de Chios (1045), e o mosteiro de Dafni perto de Atenas (1050). Em contrapartida, também se espalhara nos países eslavos. Assim, a Catedral de Santa Sofia de Ohrid (hoje na Macedónia do Norte) ou a igreja com o mesmo nome em Kiev (Ucrânia) são exemplos típicos da utilização da cúpula sobre um tambor.[h]
A partir do século XII, o Império Bizantino começou a fragmentar-se: Chipre separou-se em 1185 e, quatro anos depois, Teodoro Mancafas estabeleceu-se como senhor na Filadélfia. A queda de Constantinopla (1204) fragmentou a produção artística entre os impérios de Niceia e Trebizonda, os despotados do Epiro (Arta) e da Moreia (Mistra), além de principados latinos. A arquitectura deste período acompanhou a evolução das influências políticas exercidas sobre estes territórios (georgianos e turcos para Trebizonda, francos e eslavos para o Epiro, venezianos e genoveses para centros comerciais) e religiosas (Igreja Católica Romana e Islâmica), com o estilo gótico a penetrar em castelos e igrejas. A ocupação latina (1204–1261) marcou o fim da influência de Constantinopla, surgindo novos centros como Niceia, Trebizonda e Arta. Após a reconquista, foram construídos novos edifícios, mas as guerras civis das décadas de 1320 e 1340 dificultaram o impulso. Muitos artesãos deixaram a capital para se estabelecerem em Mesembria, Escópia e Bursa.
Arquitetura religiosa
Como regra geral, o início da arquitetura bizantina não é separado da arquitetura paleocristã. A transferência da residência dos imperadores romanos para Bizâncio por Constantino, o Grande, com a subsequente divisão do Império Romano em duas partes e a separação do Oriente do Ocidente, constitui um dos eventos mais importantes da história mundial em geral e da história da arte em particular. Após o reconhecimento do cristianismo, Constantino começou a patrocinar a construção de igrejas capazes de competir em grandeza com os templos pagãos. Nas grandes cidades, principalmente em Roma, começaram a ser erguidas basílicas que podiam acomodar milhares de fiéis. Na arquitetura romana, as basílicas eram usadas como locais de reunião, mercados e tribunais (basilica forensis). Como igrejas, as basílicas mantiveram a planta retangular com a divisão em várias naves separadas por colunas, mas adquiriram também novos elementos — naves laterais, nártex, pastofórios e absides. O tipo de cobertura podia ser variado, mas, via de regra, utilizavam-se estruturas de madeira em tesoura.
Planeamento urbano
Na Grécia Antiga foram desenvolvidos os princípios do planeamento urbano que, mais tarde, se tornaram o padrão no Mediterrâneo. As suas características principais eram a presença de ruas largas pavimentadas, decoradas com colunatas (estoa) e pórticos, espaços abertos retangulares e edifícios públicos monumentais. No período inicial, cujo fim é atribuído ao início dos "Séculos Obscuros", o planeamento das cidades bizantinas foi realizado em mimese (imitação da antiguidade). Os exemplos mais óbvios demonstram-se nos fóruns de Constantinopla, construídos à semelhança das estruturas análogas de Roma, com o objetivo de enfatizar a continuidade política entre as duas capitais. À semelhança do Fórum de Trajano, foram organizadas praças nas cidades da Síria — Antioquia, Damasco, Filipópolis da Arábia e Gérasa. Os espaços urbanos de Justiniana Prima, uma das poucas cidades fundadas no período bizantino, foram modelados segundo o padrão do Fórum de Constantino. O mesmo objetivo foi perseguido com a ereção de colunas monumentais comemorativas. Em meados do século VI, a visão clássica da cidade mantinha a sua relevância, e o historiador da corte do imperador Justiniano I, Procópio de Cesareia, descreveu assim a reconstrução realizada em Antioquia após as destruições causadas pela captura persa em 540: "o imperador dividiu a cidade com praças e galerias, traçou todas as passagens com ruas, instalou aquedutos, construiu fontes e cisternas. Fundou na cidade teatros e banhos e tudo aquilo de que uma cidade se pode orgulhar, adornando-a com todo o tipo de outras construções públicas, nas quais habitualmente se manifestam o bem-estar e a riqueza da cidade". Contudo, como observa o historiador britânico Hugh N. Kennedy, a descrição de Procópio não deve ser considerada típica das cidades da província da Síria, nem fidedigna.
Edifícios residenciais
No período do Império Romano tardio, coexistiam dois tipos de habitação: as ínsula (prédios de apartamentos multifamiliares de vários andares) e as residências privadas (domus). À exceção de Constantinopla, não se conhecem menções em fontes narrativas sobre ínsulas em Bizâncio. No que respeita às casas privadas, o historiador de arquitetura grego Charalambos Bouras observa que não se pode afirmar a existência de um tipo determinado de habitação bizantina, uma vez que estas diferiam significativamente em diferentes épocas e regiões. No entanto, no âmbito da opinião dominante na historiografia do século XIX sobre Bizâncio como um país atrasado e decadente, o seu estudo foi negligenciado por muito tempo. Até à década de 1970, o único trabalho abrangente sobre o tema era o livro do general Léon de Beylié, L’habitation byzantine (1902), que se baseava em ilustrações de manuscritos e ignorava quase totalmente os dados arqueológicos. O estudo de Anastasios Orlandos publicado em 1936 foi dedicado exclusivamente às casas e palácios de Mistras, enquanto a revisão de Phedon Koukoules na sua obra fundamental baseou-se principalmente em fontes escritas. Dados arqueológicos importantes foram publicados por Robert Scranton para Corinto e Georges Tchalenko para a Síria do Norte. Outros trabalhos utilizaram fontes jurídicas e tentaram tirar conclusões com base em materiais do período otomano.
Palácios e mansões
No final do século V, Constantinopla tinha-se tornado o principal centro artístico do império. A construção em larga escala na capital, durante os séculos IV e V, teve um caráter predominantemente secular. Foram erguidas muralhas triplas com inúmeras torres em redor da cidade, e trabalhou-se na criação do conjunto do Grande Palácio e de uma série de palácios a norte do Hipódromo. A construção de aquedutos e cisternas foi realizada com enorme amplitude. Graças à presença da corte imperial e das mais importantes famílias aristocráticas, a construção na capital era executada segundo os mais elevados padrões e com a utilização dos melhores materiais.
Edifícios públicos
Um aspeto fundamental da infraestrutura urbana era o abastecimento de água. Com o declínio das cidades, a reparação dos aquedutos romanos cessou em quase todo o lado, exceto em Constantinopla e Tessalónica. A construção de novos sistemas no período médio, salvo raras exceções (Tebas, Argos, Mistra, Capadócia), também foi interrompida. Na maioria dos casos, a população utilizava poços privados ou pequenas cisternas alimentadas por água da chuva. Onde era possível, recorria-se a fontes naturais (Corinto). O bizantinista britânico Cyril Mango aponta os banhos públicos, a par dos entretenimentos públicos, como uma das distinções mais evidentes entre a vida urbana e a rural na Antiguidade. As termas eram uma parte essencial da vida dos antigos gregos e romanos, proporcionando a oportunidade de concretizar o ideal grego de saúde física, conviver com amigos, discutir questões políticas e tratar de negócios. A planta dos banhos bizantinos primitivos diferia das antigas: o frigidário, que ocupava a maior área e era o centro da vida social, desapareceu; as restantes salas tornaram-se menores e com dimensões aproximadamente iguais. No início do século V, os banhos eram populares até entre o clero, sendo conhecido o caso de um bispo que afirmava "lavar-se duas vezes por dia porque não tinha tempo para uma terceira". Por outro lado, as primeiras regras monásticas proibiam a lavagem completa do corpo, e muitos autores cristãos condenavam o banho, especialmente para as mulheres. No século IV, os ginásios associados aos banhos públicos deixaram de funcionar. Num banho do século VI escavado em Corinto, com 8 × 18 metros, dificilmente poderiam banhar-se mais de três pessoas em simultâneo. Cerca de metade da área era ocupada pelo vestiário (Apoditério). As tubagens de água terminavam na extremidade absidial de um frigidário longo e estreito. Ainda menor era a parte quente, aquecida por um hipocausto, o tepidário e o calidário. Banhos semelhantes foram descobertos em muitas outras cidades da Grécia.
De acordo com a recomendação do teórico antigo Fílon de Bizâncio, o perímetro de uma fortaleza deveria ser formado por duas filas de muralhas a uma distância de 8 a 12 côvados uma da outra. Como mais tarde precisaram Vitrúvio e Vegécio, este intervalo deveria permitir a disposição de formações de combate dos defensores. A regra empírica deduzida pelo bizantinista francês Charles Diehl, baseada em dados de fortalezas africanas — segundo a qual a largura do espaço entre as muralhas correspondia a um quarto da altura da muralha —, não era observada nos Balcãs. O exemplo modelo deste esquema foram as Muralhas de Teodósio, concluídas em 413. A largura do espaço interno (períbolo) entre as maciças e altas muralhas internas e as baixas muralhas externas chegava aos 18 metros. Diante da muralha externa cavava-se um fosso (τάφρος), por vezes preenchido com água. Da terra extraída na criação do fosso, era frequentemente erguido um pequeno aterro ou baluarte (άντιτείхισμα). Utilizava-se predominantemente o tipo de aparelho opus incertum e, em grandes cidades como Caričin Grad, também o opus mixtum. As muralhas de fortificações de alta montanha raramente excediam 1 metro de espessura e, localizadas em encostas, não podiam ser muito altas. Nas planícies, onde a probabilidade de um cerco prolongado era maior, adicionavam-se torres de forma irregular à estrutura das muralhas.
Materiais de construção
A partir do século V, o principal material de construção em Bizâncio tornou-se o tijolo.[n] O processo de produção do tijolo bizantino (plinto) não diferia muito da produção do tijolo romano; tornou-se mais complexo, mas permaneceu fundamentalmente o mesmo. As tecnologias de construção mais comuns eram a alternância de fiadas de tijolo e pedra baseada no opus vittatum romano e vários tipos de alvenaria de tijolo maciço. A prática da utilização de alvenaria de tijolo nas partes orientais de Bizâncio foi herdada de Roma, onde era amplamente aplicada, pelo menos, desde a construção do Castra Praetoria no ano 23. Desde a Antiguidade Tardia, aplicavam-se amplamente duas abordagens: estruturas inteiramente em tijolo e uma abordagem mista, onde alternavam camadas de pedra de alvenaria e tijolo (opus mixtum). A partir do século VI, tornou-se padrão a alvenaria de 20 fiadas de tijolo seguidas de blocos de calcário; assim foram construídas a Igreja de São Sérgio e Baco, a Catedral de Santa Sofia, as Termas de Zeuxipo e a Igreja da Madona de Kiriotissa. As estruturas estratificadas foram utilizadas em Constantinopla mesmo após a "Idade das Trevas" até ao século XIV, com algumas variações na espessura das camadas de tijolo e na quantidade de argamassa.
Fundações e paredes
Os bizantinos construíam sobre fundações de tijolo ou pedra, erguidas sobre bases rochosas ou mesmo nelas aprofundadas. Fundações em degraus encontram-se não apenas nas províncias montanhosas, como na Capadócia, mas também na capital. As paredes do Mosteiro de Lips apoiam-se numa plataforma situada a 1,4 metros de profundidade sob o nível do naos, preenchida com uma camada de calcário e tijolo quebrado. Nelas apoiavam-se as paredes e colunas isoladas. Os intervalos eram preenchidos com pedra não trabalhada e não cimentada, sobre a qual assenta o piso do século X. Na igreja de Sardes aplicou-se uma fundação em grelha de nove placas. As paredes mestras chegam ao nível de 2 metros abaixo do nível do solo e apoiam-se na fundação de uma basílica antiga. As paredes mestras internas não estão totalmente ligadas às externas. No topo das paredes mestras, para reforçar a capacidade de carga, foram colocadas vigas de madeira fixadas com um cimento especialmente forte.
Cúpulas e abóbadas
A construção de abóbadas é um dos aspetos mais importantes da arquitetura bizantina. Diversos tipos de abóbadas de pedra são encontrados em todo o território do Império Romano a partir do século I a.C. O betão, suficientemente forte para a construção de cúpulas, não estava disponível na Ásia Menor, pelo que no Oriente desenvolveu-se a tecnologia de alvenaria de tijolo para abóbadas, herdada da Mesopotâmia e do Egito romano. A construção de cúpulas massivas de tijolo sobre base circular ou poligonal tornou-se conhecida aproximadamente a partir da primeira metade do século IV em Constantinopla (mausoléu imperial, rotondas do Mireleu e do Hipódromo) e Antioquia (a octogonal Casa Dourada, palácio hexagonal). Pequenas cúpulas de tijolo do início do século V preservaram-se em salas das torres das muralhas da capital.
Fachadas e elementos decorativos
O interior do edifício não se distinguia pela riqueza e complexidade dos detalhes arquitetónicos, mas as suas paredes eram revestidas na parte inferior com tipos caros de mármore e, no topo, tal como as abóbadas, ricamente decoradas com dourados, imagens de mosaico sobre fundo de ouro ou pintura a fresco. Entre os melhores exemplos contam-se os frescos das Igrejas pintadas na região de Troodos em Chipre. Em muitas igrejas transformadas em mesquitas durante o domínio otomano, as pinturas foram perdidas. As fachadas das igrejas bizantinas, por regra, parecem muito modestas. Não têm tratamento arquitetónico as paredes da Basílica de Santa Sofia, embora as paredes da Igreja de São Sérgio e Baco sejam fortemente articuladas por pilastras. O mesmo é válido para muitas igrejas de períodos posteriores, cobertas exteriormente por reboco monocromático. É discutível se as paredes eram assim originalmente ou se adquiriram o seu aspeto atual em restauros destrutivos. As investigações são dificultadas pela curta duração dos materiais utilizados e pela escassez de descrições dos exteriores nas fontes narrativas.
Nenhum manual de arquitetura da era bizantina sobreviveu, e acredita-se que os bizantinos seguiam as instruções dos autores antigos. De acordo com os princípios formulados na segunda metade do século I a.C. por Vitrúvio, distinguiam-se os aspetos práticos (fabrica) e teóricos (ratiocinatio) da atividade arquitetónica, e um arquiteto deveria ser reconhecido como aquele que estivesse bem preparado em ambos os campos. Segundo o historiador americano Glancille Downey, este entendimento persistiu em Bizâncio até ao final do século VI. Graças a Procópio de Cesareia, que descreveu a atividade construtiva do imperador Justiniano I no seu tratado "Sobre os Edifícios", cinco "mecanicós" (em grego clássico: μηχανικός) do início do período bizantino são conhecidos pelo nome. Entre eles estão os construtores da Basílica de Santa Sofia, Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto, e o construtor da barragem em Dara, Cris de Alexandria (De Aed., II.III). É possível que os "mecanicós" fossem, antes, teóricos da arquitetura, o que é confirmado por informações sobre Antémio e Isidoro como grandes cientistas — sabe-se de Isidoro que escreveu um comentário ao tratado de Heron sobre a construção de abóbadas. Outro termo encontrado em Procópio em relação aos construtores, em grego clássico: ἀρχιτέκτων, na opinião de Downey, designa um especialista que não recebeu educação completa, um mestre-de-obras. Ambos os termos caíram em desuso após o século VI. Os construtores de épocas posteriores eram chamados pelos termos oikodomos (construtor) e protomastor (chefe de uma guilda ou oficina de construção). O oikodomos (οἰκοδόμος) era o construtor, geralmente sem formação como mecânico ou arquiteto. Existiam designações para trabalhadores qualificados e não qualificados que trabalhavam em ergastírios de construção. As fontes também mencionam aprendizes (μίσθιος). Mais do que os participantes diretos, as fontes escritas dedicam atenção aos encomendadores da construção. Um lugar-comum na literatura bizantina é a ideia de que uma obra arquitetónica deve refletir as virtudes do seu patrono: a sua piedade, grandeza e generosidade. Além da honra de ser imortalizado numa ékfrasis, o patrono da construção de uma igreja ou mosteiro possuía o estatuto jurídico especial de ctetor. Nos períodos médio e tardio, as fontes focam-se apenas nos encomendadores dos edifícios ou, no caso de templos e mosteiros, nos santos a eles associados. O estatuto social dos participantes diretos da construção deixou de ser considerado elevado.
De acordo com a opinião estabelecida durante o Iluminismo e repetida diversas vezes ao longo do século XIX, a arquitetura veneziana pré-gótica, tanto secular quanto eclesiástica, esteve sob forte influência bizantina. A prova disso, segundo Tommaso Temanza, Jean-Baptiste Séroux d'Agincourt, John Ruskin e outros, era a semelhança das fachadas dos palácios venezianos com as imagens presentes em frescos e iluminuras bizantinas. Na primeira metade do século XX, passou a predominar a teoria de uma influência bizantina mediada em Veneza através da arquitetura "exarcal" de Ravena (Exarcado de Ravena). Propuseram-se meios mais complexos para transmitir ou imitar a arquitetura bizantina. Como elo de ligação entre a arquitetura bizantina e a da Europa Ocidental, N. I. Brunov aponta a Basílica de São Marcos em Veneza (1063), cuja composição recorda a Igreja dos Santos Apóstolos de Constantinopla, de cinco cúpulas, com a adição de um sistema de cruz grega inscrita. Cada uma das cinco cúpulas de São Marcos constitui o centro de um grupo de cruz com quatro braços desenvolvidos e espaços angulares entre eles. A cúpula central é mais elevada, subordinando as restantes, resultando num grupo complexo, porém equilibrado e unitário .


