Arcispedale di Santo Spirito
Arcispedale di Santo Spirito ou Antigo Hospital do Santo Espírito é um antigo hospital em Roma, na Itália. O complexo fica no rione Borgo, a leste da Cidade do Vaticano e perto do moderno Ospedale di Santo Spirito. O hospital foi fundado no local da antiga Schola Saxonum.
Da Schola Saxonum à fundação do hospital
O primeiro edifício construído no local foi a Schola Saxonum (ou Saxorum; "Escola Saxônica") construída pelo rei Ine de Wessex (689-726) no começo do século VIII. Ela foi projetada para receber e assistir a grande quantidade de peregrinos anglo-saxões que visitavam Roma, especialmente os seus inúmeros lugares santos, como o Túmulo de São Pedro. Beda escreveu que "nobres e plebeus, homens e mulheres, guerreiros e artesãos vinham da Britânia". Esta forma de peregrinação perdurou por séculos; numa época que Roma era muito famosa, sabe-se de pelo menos dez soberanos da região que vieram "ad limina Apostolorum"ː:127–128 o primeiro foi Ceduala, rei de Wessex (685-688). Depois da fundação da Schola, todo o quarteirão passou a ter uma característica mais exótica e estrangeira, o que lhe valeu o nome de "cidade dos saxões"; ainda hoje, a margem direita do Tibre é conhecida como "Borgo", que significa "vila" em italiano.
Outras unidades
No final do século XII, havia mais um outro hospital funcionando em Roma, fundado perto da igreja de Sant'Agata na Via Aurélia. Outro hospital da mesma ordem foi fundado perto da igreja de San Biagio em Orte. No final do século XIII, já havia mais de 100 hospitais do Santo Spirito, a maioria no Lácio, mas também na Úmbria, Abruzzo, Marcas, Toscana e no Reino de Nápoles. Os mais famosos, além da casa-mãe em Roma, eram os de Florença, Milão, Foligno, Pozzuoli e Viterbo.
Sisto IV
Em 1471, o hospital foi seriamente danificado num incêndio. O papa Sisto IV (r. 1471-1484), visitando o local logo depois de sua eleição, descreveu a situação: "as paredes desmoronando, os edifícios estreitos e sombrios, sem ar e sem quaisquer confortos, dão a impressão de um local destinado ao cativeiro ao invés da recuperação da saúde".:195 Por isso ele determinou a imediata reconstrução do edifício com o objetivo de inaugurá-lo para Jubileu de 1475, o que funcionou como um verdadeiro renascimento da instituição, que se tornou a partir daí um importante centro de pesquisa científica. Entre os médicos que trabalharam ali estão Giovanni Tiracorda, o médico pessoal do papa Clemente X e os doutores Lancisi e Baglivi, responsáveis por importantes projetos na época. Além disto, na Antica Spezieria ("Antigas Especiarias"), o uso da casca de quinquina foi experimentada pela primeira vez no tratamento da malária.
Corsia Sistina
A Corsia Sistina ("Corredor Sistino"), construído por ordem do papa Sisto IV depois acidentes, saques e incêndios no local, é o principal edifício do complexo. Encimado por uma torre octogonal, a Corsia é um salão imenso, com 100,6 x 12,2 metros, dividido em duas seções separadas por uma lanterna (a torre octogonal): a ala baixa e a ala alta. A lanterna que liga as duas seções tem dois andares, com janelas de duas e três camadas do lado de fora atribuídas ao arquiteto Giovanni Pietro Ghirlanducci, nascido em Parma. O interior é decorado por nichos em formato de conchas que abrigam estátuas de apóstolos cristãos e arcos sustentando uma abóbada de berço com caixotões, obra geralmente atribuída ao ebanista Giovannino de' Dolci. No meio da lanterna está um altar, provavelmente obra de Andrea Palladio, atrás do qual ficava originalmente um órgão de tubos cuja música servia para alegrar os enfermos. No prostilo da lanterna está uma das duas entradas para o antigo hospital sistino, protegida por um grande portão duplo: o interno, chamado "Porta do Paraíso", é atribuído a Andrea Bregno. Perto deste está a "roda dos bebês" (em italiano: ruota degli esposti), criado por ordem do papa Inocêncio III para a recepção de crianças indesejadas. A outra entrada do hospital, retratada por Botticelli, é precedido por um grande pórtico com pilares octogonais.
Claustros dos frades e das freiras
Depois da construção da "ala baixa" da Corsia Sistina, o papa Sisto IV determinou a construção de dois edifícios para uso dos religiosos da fundação, um para os frades e outro para as freiras. Os dois tem vista para claustros retangulares separados por uma lógia dupla com arcos assentados sobre colunas jônicas; refeitório e cozinha são comuns. Os dois claustros, apesar de muito similares entre si, apresentam algumas diferenças importantes: o claustro das irmãs tem um arco adicional e ostenta o brasão de Sisto IV no travessão das portas e janelas; o mesmo brasão também aparece nos cantos das abóbadas de aresta. Além disto, em 1479, algumas salas no interior deste edifício foram utilizadas como um asilo para nobres e, posteriormente, das freiras que cuidavam das crianças abandonadas. Em 1791, doze colunas do claustro dos irmãos e dez colunas do claustro das irmãs foram removidas pelos sobrinhos do papa Pio VI, que as utilizaram na Grande Escadaria de Honra do Palazzo Braschi.
Palazzo del Commendatore
Palazzo del Commendatore, uma ampliação do complexo do século XVI, foi construído por ordem do papa Pio V e dedicado ao monsenhor Bernardino Cirillo, commendatore entre 1556 e 1575, considerado um dos mais famosos commendatori do instituto. O palácio tem vista para um pátio quadrangular delimitado por uma lógia dupla com arcos assentados sobre colunas dóricas na lógia inferior e jônicas na superior. O teto do pórtico inferior é uma abóbada em cruzaria e do superior é de madeira. No centro do pátio está um implúvio, inspirado no modelo das antigas casas romanas. O arco central da lógia inferior abriga uma fonte erigida por ordem do papa Paulo V originalmente para decorar o Palácio Apostólico e depois levada para o Palazzo del Commendatore pelo papa Alexandre VII. A lógia superior, no arco correspondente ao da fonte, está um grande relógio rodeado pelo brasão da família do cardeal Ludovico Gazzoli. A face do relógio está emoldurada pela figura de uma serpente tocando sua própria cauda, um símbolo da eternidade; em ambos os lados há cruzes com duas traves horizontais, símbolo do Espírito Santo.
Biblioteca Lancisiana
O apartamento do commendatore e a lógia superior dão acesso à Biblioteca Lancisiana, fundada em 1711 por Giovanni Maria Lancisi, um eminente acadêmico e médico do papa Inocêncio XI, que transformou sua biblioteca particular no centro de um projeto para promover a cultura científica. A biblioteca foi inaugurada em 1714 na presença do papa Clemente XI e é formada por dois grandes salões: o primeiro com um átrio e um vestíbulo e o segundo, a parte mais antiga da biblioteca, preenchido por dezesseis estantes de prateleiras. As coleções de livros incluem a Coleção Lancisi, composta por livros doados pelo rei Luís XIV da França, o grão-duque Cosme III de Médici e pelo príncipe de Fürstenberg, outros 373 valiosos manuscritos dos séculos XIV a XX, entre os quais dois códices em pergaminho com traduções para o latim de textos de Avicena e o famoso "Liber Fraternitatis Sancti Spiritus". Uma pequena janela, localizada atrás de uma das janelas da biblioteca, se abre no nível dos afrescos da Corsia Sistina: ela permitia que os vários commendatori que comandaram a instituição vigiassem o pessoal responsável pelo cuidado aos enfermos. No meio do salão principal da biblioteca estão dois magníficos globos feitos em 1600.:21
Santo Spirito in Sassia
O complexo abriga ainda a igreja de Santo Spirito in Sassia, construída no local em 1545 por Antonio da Sangallo, o Jovem ou Baldassare Peruzzi.


