Araucária
Araucária é a espécie arbórea dominante da floresta ombrófila mista, ocorrendo majoritariamente na região Sul do Brasil, principalmente no estado do Paraná até as serras do Rio Grande do Sul, mas também sendo encontrada no leste e sul do estado de São Paulo, sul do estado de Minas Gerais, principalmente na Serra da Mantiqueira, na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro e em pequenos trechos da Argentina e Paraguai, sendo conhecida por muitos nomes populares, entre eles pinheiro-do-paraná, pinheiro-brasileiro, pinheiro-das-missões, apesar de não ser um verdadeiro pinheiro e tampouco pertencer à família dos pinheiros (Pinaceae). É também conhecida por nomes de origem indígena, curi ou curiúva e fág. A espécie foi inicialmente descrita como Columbea angustifolia Bertol. 1819.
O gênero Araucaria fazia parte da flora terrestre já no período Triássico (250-200 milhões de anos atrás); hoje é restrito ao Hemisfério Sul e compreende 20 espécies. A espécie Araucaria angustifolia se originou no início do período Jurássico, há 200 milhões de anos, e sua ocorrência primitiva diverge bastante da atual, sendo encontrados fósseis no Nordeste brasileiro. Sua expansão para o sul é recente, ocorrendo durante o Pleistoceno tardio e Holoceno inicial, possivelmente resultado de uma mudança climática e de migrações de floras refugiadas nos vales das serras através dos cursos dos rios. Foi descrita inicialmente como Columbea angustifolia por A. Bertoloni em 1819; Araucaria brasiliana por A. Richard, em 1822. Hoje sua denominação oficial é Araucaria angustifolia (Bertol.) O. Kuntze 1898, e sua descrição foi publicada na sua Revisio Generum Plantarum. Seu nome genérico deriva de Arauco, uma região do Chile, e seu nome específico é uma palavra latina significando "folha estreita". Pertence à ordem Coniferae, classe Coniferopsida, família Araucariaceae. A espécie Araucaria angustifolia se ramifica em 9 subespécies: elegans, sancti josephi, angustifolia, caiova, indehiscens, nigra, striata, semi-alba e alba.
É uma conífera terrestre de solo seco, perenifólia, heliófita, usualmente dioica. Sua forma é inconfundível, com um tronco colunar que pode chegar a 50m de altura e 2,5 m de diâmetro, sustentando uma copa de simetria radial em candelabro ou umbela. Quando jovens, as árvores têm uma copa em cone. De regra, porém, não atinge dimensões tão imponentes, com altura variando de 10 a 35m e diâmetro do tronco entre 50 e 120 cm, quando adulta. Sua morfologia apresenta variações de acordo com as condições de solo, competição e disponibilidade de luz. O tronco é ortotrópico, monopodial e com crescimento rítmico indefinido. O padrão de ramificação é também rítmico e os galhos apresentam um desenvolvimento siléptico. No adulto os galhos são arranjados em pseudoverticilos no tronco, sendo predominantemente plagiotrópicos com uma tendência ortotrópica dos ápices. Os ramos são arranjados nos galhos em pares, mais ou menos no mesmo plano. Suas folhas, as acículas, são verde-escuras, simples, alternas, espiraladas, lineares a lanceoladas, coriáceas, com ponta terminando em um espinho muito pungente, podendo chegar a 6 cm de comprimento por 1 cm de largura.
A araucária ocorre como a espécie arbórea dominante da floresta ombrófila mista da América do Sul, entre as latitudes de 18º e 30º sul. Desenvolve-se, de acordo com Angeli (embora outros autores ofereçam dados ligeiramente diferentes), em altitudes de 800 a 1 800 m no norte de sua distribuição, e entre 500 e 1 200 m na parte sul, em regiões de precipitação anual uniforme entre 1 250 e 2 200 mm, e de temperaturas médias anuais de 10 a 18 °C (mas tolera bem temperaturas de até -5 °C). Prefere solos profundos, férteis e bem drenados. Também é encontrada em bosques isolados em áreas de campo. A maior parte de sua área de ocorrência está dentro do Brasil, das serras do Rio Grande do Sul ao Paraná, com outros pontos até Minas Gerais e pequenos trechos na Argentina e Paraguai. Existem ocorrências até as proximidades do Rio Doce em Minas Gerais e no Rio de Janeiro em áreas de altitude elevada. Augusto Ruschi relatou a presença da espécie no ano de 1939 em um bosque relicto na Serra do Caparaó no Espírito Santo, acima de 1700 m de altitude, com cerca de 300 indivíduos adultos. Foi introduzida artificialmente, entre outros lugares, no sul da Bahia, na África do Sul, na Austrália, no Quênia, em Madagascar, Portugal e no Zimbábue, com comportamento variável.
Papel na sucessão biológica
As áreas de ocorrência natural apresentam considerável diversificação quanto à geologia e geomorfologia dos solos regionais, o que favorece o aparecimento de diferentes associações florísticas, fazendo da mata de araucária não uma formação homogênea e contínua, mas formações vegetais com múltiplas associações que variam de acordo com o estágio de sucessão biológica. A estratégia de multiplicação das araucárias, que combina a dependência de ambientes abertos e bem iluminados com uma longevidade muito alta, as caracteriza como pioneiras de vida longa. As populações de araucárias adultas dominam extensos trechos florestais e formam um estrato emergente quase contínuo acima das copas das outras espécies arbóreas da região. No interior dessas florestas, porém, as araucárias jovens são raras, pois geralmente não conseguem brotar e se desenvolver bem na sombra, não chegando à idade adulta. Esta estratégia corresponde bem ao Modelo Lozango, proposto para explicar a ecologia das florestas de coníferas da Nova Zelândia e regiões vizinhas, em que grandes coníferas adultas são numerosas nas florestas maduras mas só conseguem regenerar suas populações após perturbações em grande escala no tecido florestal, como tornados, incêndios e deslizamento de encostas, que desmatam algumas áreas, permitindo a insolação abundante de terrenos novos, que se tornam aptos para colonização pela pioneira. De acordo com Solórzano-Filho & Kraus,
Dispersão de sementes e ameaças
É fonte de alimento para a fauna local, que contribui dispersando suas sementes. Diz Carvalho que: Entre outros animais que se beneficiam das sementes estão quatis, pacas, bugios, ouriços, camundongos, esquilos, besouros e formigas. Dá substrato para mais de 50 espécies de epífitas, entre plantas vasculares, musgos e líquens, e abrigo para os ninhos de 23 espécies de formigas. Mantém além disso importantes associações mutualísticas com cerca de 15 espécies de fungos sob a forma de micorrizas, que facilitam a absorção de nutrientes. Os gêneros fúngicos mais encontrados, segundo Zandavalli, Stürmer & Dillenburg, são o Acaulospora e Glomus. Segundo um estudo realizado por Reinhard Maack em 1968, a área original de ocorrência da araucária representava 36,67% da área do estado do Paraná (ou 73 088,75 km²), 60,13% do estado de Santa Catarina (ou 57 331,65 km²), 24,6% da área do estado de São Paulo (ou 53 613,23 km²) e 17,38% do estado do Rio Grande do Sul (ou 48 967,89 km²).
É uma espécie dioica, com árvores unissexuadas, ocasionalmente encontrando-se exemplares monoicos, ou seja, com ambos os sexos. Sua reprodução se dá por sementes. A reprodução vegetativa espontânea não foi registrada entre os pinheiros-do-paraná, mas a enxertia é possível. Estatisticamente, o número de indivíduos masculinos e femininos são iguais, ou seja, a razão sexual não difere da unidade. É anemófila, o que significa que depende do vento para a polinização de suas flores e posterior geração de novas sementes. A polinização acontece entre agosto e outubro, quando estão maduros os cones de pólen, mas a floração feminina ocorre todo o ano. A araucária não apresenta nectário, mas possui uma gota receptora constituída de uma substância pegajosa e que aparece na superfície do estróbilo, nas reentrâncias deixadas pela junção das brácteas escamiformes. Os grãos de pólen, caindo sobre esta gota pegajosa, ficam aderidos e encontram umidade para iniciar a formação do tubo polínico. Cada pinha pode ter até 500 esporófilos, mas em média somente 1 em 20 são férteis.
Cultivo
O cultivo da araucária se faz basicamente por meio da semeadura, mas, embora pouco utilizada, a enxertia é também um método de propagação viável. Mudas de araucária com 1,5 a 2 anos de idade foram enxertadas com bons resultados, mas durante o desenvolvimento os ramos apresentaram plagiotropismo e ortotropismo. Gurgel Filho citou dois métodos de enxertia, conseguindo 47,5% de êxito utilizando a garfagem, mas a borbulhia não deu resultados positivos. Embora prefira solos fundos e férteis, pode crescer em uma grande variedade de solos, excluindo porém os inundados, os arenosos e os muito rasos. Não se adapta bem a climas quentes mas tolera umidades atmosféricas bastante altas. As sementes de araucária possuem boa germinação natural, dispensando a quebra de dormência, mas é costumeira a sua imersão em água à temperatura ambiente por 24 a 48 horas para embebição e semear somente os pinhões que afundam, rejeitando-se os que flutuam. A semeadura pode ser direta no campo, com três pinhões por cova, ou em recipiente, com 2 pinhões, colocados na posição horizontal. Segundo Carvalho, a semeadura direta nem sempre proporciona bons resultados, já que as sementes ficam muito vulneráveis ao ataque de animais, sendo mais seguro o uso de viveiros abrigados para produção de mudas. Recomenda que o recipiente para semeadura tenha pelo menos 20 cm de altura e 7 cm de diâmetro, com volume de substrato de 300 a 500 ml no mínimo. O substrato deve ser bem drenado, homogêneo, de baixa densidade e livre de contaminantes como pragas e doenças. Conforme sua composição, pode ser necessária adubação adicional. A muda deve permanecer no viveiro até atingir 15 a 20 cm de altura. Pode ser plantada a pleno sol em plantios puros ou sob vegetação matricial para conversão ou transformação.
Inimigos e doenças
O maior inimigo da araucária é, como já se aludiu e como será detalhado adiante, o homem. Depois dele vêm os fungos, destacando-se o Armillaria mellea, que provoca armilariose; o Cylindrocladium sp., que ataca as plantas adultas, provocando amarelecimento e secura; o Diplodia pinea, que provoca seu apodrecimento, e Rosellinia bunodes, causando podridão-negra em plantas adultas. Também tem insetos entre seus inimigos naturais, e dentre eles os lepidópteros são os mais agressivos, especialmente a Cydia araucariae, que danifica as sementes; a Dirphia araucariae e a Fulgurodes sartinaria, que destroem as acículas, e a Elasmopalpus lignosellus, que lesiona o colo das plantas jovens. Apesar de contribuírem para a dispersão das sementes, alguns animais pelo mesmo ato agem como inimigos, comendo a grande maioria delas. Aves e mamíferos também podem se alimentar de brotos e plantas novas, como a perdiz (Rhynchotus rufescens rufescens) e o ratinho-do-mato (Oligoryzomys utiaritensis).
Sua madeira é de alta qualidade e já foi de importância básica para a economia brasileira e possivelmente de toda a América do Sul ao longo de todo o último século. Sua cor é branco-amarelada e uniforme, com o alburno pouco diferenciado do cerne. A textura é fina e uniforme. A madeira é facilmente atacada por fungos e cupins, porém aceita bem tratamentos protetores. Mostra tendência à distorção e rachaduras na secagem natural, exigindo secagem artificial controlada para melhor aproveitamento. Por outro lado, é fácil de trabalhar, indicada para uma grande variedade de produtos, desde o palito de fósforo até o mastro de navio, passando pelos móveis, forros, caibros, caixas, artesanato e muitos outros usos. Como combustível, seus nós em especial apresentam alto poder calorífico, tendo sido largamente usados nos fogos domésticos e em caldeiras de locomotivas e de embarcações, e hoje alimentam os fornos de metalúrgicas. Também é procurada para fabrico de papel, tendo fibra longa, que confere maior resistência ao papel, e cor clara, que necessita de menos branqueamento químico.
Estima-se que a floresta de araucária cobriria originalmente 200 000 km², tendo diminuído em 97% no último século. Além do corte da araucária para exploração da madeira, seu ecossistema compete em desvantagem com o avanço da fronteira agrícola, os reflorestamentos são poucos e a espécie perde 3 400 toneladas anuais de sementes para consumo alimentar humano. As populações do Paraguai não são produtoras de sementes, e na Argentina a floresta, que em 1960 tinha 210 000 ha, atualmente tem 1 000 ha apenas. Um estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente em 2002 concluiu que "a floresta ombrófila mista está no fim e, se não for criada, imediatamente, uma série de unidades de preservação, corre-se um grande risco de perder esse ecossistema. [...] Os raros remanescentes florestais nativos são de dimensões reduzidas, encontram-se isolados e com evidentes alterações estruturais". Outra pesquisa, realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina, mostrou uma perda de mais de 50% na variabilidade genética da espécie.
Proteção legal
A araucária é protegida por lei desde a publicação da Carta Régia de 13 de março de 1797, que reservava os pinheiros para uso exclusivo da Coroa portuguesa. Contudo, a exploração tomou força e fugiu ao controle, atingindo seu ápice no século XX. Diante da ameaça iminente de exaustão da espécie, outras leis foram sendo formuladas. A Portaria Normativa DC n° 20 de 27 de setembro de 1976 do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, definiu várias medidas para a proteção das sementes, disciplinando a colheita e comercialização do pinhão e o proibindo o abate de árvores com pinhas na época da queda de sementes. Mas até meados da década de 1980 ainda não existiam restrições importantes à exploração indiscriminada das florestas de araucária. Limites generosos foram definidos nos "Planos de Exploração Florestal", permitindo o corte de praticamente todos os indivíduos com diâmetro de tronco acima de 40 cm.


