Antropofagia
Antropofagia é um ato ritual de comer uma ou várias partes de um ser humano. Os povos que praticavam esse ritual o faziam pensando que, assim, iriam ter a vingança do seu povo morto pelo bando do prisioneiro. Por sua realização em contexto mágico cerimonial ou patológico, não deve ser classificada ou compreendida como um hábito alimentar, o que não se aplica ao canibalismo, na maioria das vezes associado ao comportamento predatório. Observa-se também que muitos autores utilizam esses termos indistintamente.
Imagem: _SanTiago_ · BY-NC · Openverse
"Antropofagia" vem do grego anthropofagía, tendo por raízes ἄνθρωπος (anthropos), homem, e φαγεῖν (phagein), comer. O primeiro uso atestado do termo se dá nas Histórias de Heródoto, onde fala dos ἀνθρωποφάγοι (anthropofagoi), uma raça mítica de canibais.
Os líderes tribais das ilhas Fiji comiam a carne de pessoas consideradas especiais em sua comunidade. Para isso, utilizavam talheres próprios, que não podiam ser usados para consumir qualquer outro tipo de "alimento". Os habitantes da Ilha de Páscoa gostavam bastante de carne humana. Os banquetes eram promovidos em lugares isolados e apenas os homens podiam participar. No meio do caminho entre o ritual e a sobrevivência, está o caso da tribo Fore, da Papua-Nova Guiné. Para compensar as carências de proteínas, passaram a realizar um ritual onde os homens ficavam com os músculos, enquanto as mulheres e crianças, com o cérebro de outros membros da tribo que tinha falecido. O canibalismo foi praticado desde finais do século XIX e durou até a chegada dos colonizadores europeus na década de 1950, mas ainda no final do século XX foi descrito pelo velejador Helio Setti Jr. um caso de uma doença provocada por esta prática, que provocou a disseminação de uma doença localmente denominada kuru, a doença de Creutzfeldt-Jakob clássica.[carece de fontes?]
Antropofagia no Brasil
A antropofagia praticada pelos grupos tribais do Brasil revestia-se de caráter exclusivamente ritual. De cultura para cultura variavam os motivos e os rituais envolvidos. As notícias fornecidas pelos cronistas do século XVI dão conta de sua importância na organização social indígena como fator indispensável aos ritos de nominação e iniciação. Estas sociedades eram estruturadas em função da guerra, essas tribos desenvolveram uma escala de estratificação social em que a aquisição de status baseava-se fundamentalmente na capacidade de perseguir e matar o maior número possível de inimigos. O adversário capturado vivo era conduzido à aldeia dos vencedores e ali mantido prisioneiro durante um período no qual todas as honras e privilégios lhe eram concedidos: era designado uma mulher para lhe fazer companhia e os melhores alimentos eram colocados a sua disposição.
Imagem: Alexandre B. · BY-NC-ND · Openverse
Em 1846, um grupo de 90 pessoas liderado por George Donner ficou preso em uma nevasca no alto de Serra Nevada, na Califórnia. Os sobreviventes tiveram que comer a carne de seus companheiros mortos para permanecerem vivos. Uma história semelhante ocorreu em 1972. O "Voo Força Aérea Uruguaia 571", que transportava 46 pessoas, entre eles a equipe de Rúgbi do Old Christians Club, do Uruguai, despenhou na Cordilheira dos Andes. Apenas 16 pessoas se salvaram. O estoque de alimentos a bordo acabou rapidamente e o único meio encontrado pelo grupo para sobreviver foi recorrer aos corpos dos colegas mortos.
Imagem: fAnyst · BY-SA · Openverse
Numa perspectiva psicanalítica, tal prática está associada aos bizarros comportamentos da psicose e perversão sádico-psicopática. Freud referiu-se algumas vezes a essa manifestação patogênica inclusive nominando-a fase oral por fase canibalesca enquanto um conjunto (complexo) de pulsões. Em sua avaliação do processo civilizatório, situa o canibalismo como um comportamento possivelmente controlado, ao lado dos desejos instintuais do incesto e da ânsia de matar, desejos inconscientes que ameaçam o indivíduo e a civilização e que todos parecem unânimes em repudiar. Apesar desse repúdio, eventualmente se registram ocorrências de tal manifestação patológica. A saber: No século XIX, aconteceu, em Porto Alegre, um crime que recebeu o nome do "Caso do linguiceiro". O casal José Ramos e Catarina Palsen foi preso e acusado de atrair e matar homens para posteriormente produzir línguiças que seriam vendidas no seu açougue.
Imagem: Andrew Milligan sumo · BY · Openverse
Talvez o ícone contemporâneo mais forte acerca do canibalismo seja o personagem principal dos filmes Hannibal, Dragão Vermelho e O Silêncio dos Inocentes. Este personagem se chama Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins (seu maior fetiche com carne humana era fígado com favas e vinho chianti). A antropofagia no Brasil se constituiu como inspiração para um movimento artístico na primeira metade do século 20 denominado movimento antropofágico (ver: Manifesto Antropófago).


