António Rodrigues Sampaio
António Rodrigues Sampaio foi um jornalista e político português que, entre outras funções, foi deputado, par do Reino, ministro e presidente do Conselho. Rodrigues Sampaio foi um dos maiores vultos do liberalismo português de oitocentos, jornalista ímpar e parlamentar de excepção. Personalidade controversa, polémica, mesmo revolucionária, mas sempre coerente e fiel aos seus princípios e desígnios, foi um agitador de renome nacional, o que lhe valeria a alcunha de o Sampaio da Revolução, já que se notabilizou como redactor principal do periódico A Revolução de Setembro. Era um jornalista de causas, não de notícias, como aliás era o jornalismo do século XIX. Apesar da violência verbal e da forma assertiva que sempre utilizou nos seus ataques políticos, Rodrigues Sampaio nunca promoveu o ataque ad hominem. Mesmo quando os seus correligionários lhe pediram que pusesse em causa a dignidade e honradez de D. Maria II e da Corte, negou-se terminantemente, escrevendo que um antro de corrupção política não faria da Corte um lugar de devassidão moral. Foi esta postura de grande escrúpulo, associado a um incansável labor na defesa dos valores pelos quais pugnava, que lhe concede um lugar cimeiro no jornalismo político português.
António Rodrigues Sampaio nasceu numa simples casa situada no lugar de Baixo, perto da actual Rua da Igreja Velha na freguesia de São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, a 25 de Julho de 1806, filho de António Rodrigues de Sampaio (recebidos em Anha - Viana do Castelo) e Maria de Amorim Martins, lavradores pobres daquela localidade. Foi filho terceiro, tendo mais duas irmãs, Teresa e Maria Teresa. Depois de Rodrigues Sampaio, seus pais tiveram mais duas meninas, outra Maria Teresa e Ana. Foi baptizado dois dias depois do seu nascimento, tendo como padrinhos António Alves da Costa e Teresa Alves da Costa, dois dos filhos de uma das famílias mais distintas da terra, oriundos da Casa da Rendeira. Perdeu os avós maternos, Lucas Martins Cepa e Caetana de Amorim, brutalmente assassinados em 13–14 de abril de 1809, pelos soldados franceses de Nicolas Jean de Dieu Soult. Casou a 27 de setembro de 1836 com Maria Barbosa Soares de Brito, viúva do capitão João de Sousa Amorim, que estivera durante o Cerco do Porto na batalha da Serra do Pilar e viera morrer a Lisboa, em resultado de ferimento grave recebido na surtida das linhas que ocorreu a 10 de Outubro de 1833, em que fora combatente voluntário. Não foi a paixão nem o interesse de granjear fortuna que levou Sampaio a este enlace, mas simplesmente a gratidão pelos serviços que ambos lhe haviam prestado, quando estivera preso no aljube prestes a sucumbir a uma persistente enfermidade. Esta senhora faleceu em 1841, na cidade de Lisboa. Neste mesmo ano, a 2 de setembro, falece o seu pai, em São Bartolomeu do Mar.
Os anos formativos e a passagem pela prisão (1806–1831)
Destinado a seguir a carreira eclesiástica, estudou primeiras letras com o padre Pedro Fernandes Pereira, pároco da freguesia de Belinho e simultaneamente professor de primeiras letras e de Gramática. A gramática latina tê-la-á aprendido com outro clérigo da freguesia de Marinhas, distinguindo-se tanto no latim, que muitas vezes substituía o próprio professor. Fez exame desta língua no convento dos religiosos carmelitas de Viana do Castelo e tomou ordens menores em 1821. No ano imediato estudou filosofia no referido convento, concluindo em 1825, em Braga, o então denominado curso de humanidades, frequentando também as aulas de Teologia. De volta à casa paterna, por não ter ainda idade para poder tomar ordens de subdiácono, passou a ensinar gratuitamente primeiras letras e latim aos filhos dos lavradores das vizinhanças.
O Cerco do Porto, a Guerra Civil e a iniciação ao jornalismo (1832–1836)
Os mais de dois anos que passou nos aljubes de Braga e do Porto contribuíram para solidificar os seus ideais liberais. Assim, quando depois do desembarque do Mindelo, ocorrido a 8 de Julho de 1832, o exército liberal desembarcado dos Açores marchou triunfante para o Porto, ficando aí cercado pelas forças miguelistas, deparou-se a Rodrigues Sampaio o ensejo de contribuir pelas armas para o sucesso do liberalismo. Rodrigues Sampaio, entusiasmado, alistou-se no Regimento de Voluntários da Rainha e combateu denodadamente nas hostes afectas a D. Pedro IV até ao fim das guerras liberais. Terminada a guerra civil, pôde então obter um lugar de guarda da Alfândega do Porto, mas, como então era hábito, fez-se substituir naquele emprego por um serventuário, a quem pagava, para o que alcançou a devida autorização. Ficou assim livre para se dedicar aos trabalhos jornalísticos, pois havia entrado para a redacção da Vedeta da Liberdade, folha saída no Porto em 1835, propriedade de José de Azevedo Gouveia Mendanha, tendo como redactor principal José António do Carmo Velho de Barbosa, o abade de Valbom, também conhecido pela alcunha de Padre Vedeta.
O ingresso na política activa e as funções nos governos civis (1836–1840)
António Rodrigues Sampaio alistara-se desde logo no Partido Progressista, o qual já então aspirava a uma constituição política mais avançada que a Carta Constitucional em vigor e que contava Manuel da Silva Passos, o famoso Passos Manuel, entre os seus dirigentes mais ilustres. Quando vingou a Revolução de Setembro de 1836 e o Partido Cartista foi derrubado, o jovem redactor da Vedeta da Liberdade não foi esquecido, sendo nomeado, por decreto de 19 de setembro de 1836, secretário-geral do governo civil do distrito de Bragança. Estava assim consumada a sua entrada para a política activa. Rodrigues Sampaio manteve-se como secretário-geral do governo civil de Bragança até 1839, ano em que o Ministro do Reino, Júlio Gomes da Silva Sanches, o transferiu para o cargo de administrador geral do distrito de Castelo Branco, cargo que com a reforma administrativa depois se passou a designar por governador civil. Rodrigues Sampaio exerceu aquela função com competência e notável energia, até ter ocorrido um grave conflito que levou à sua demissão.
A colaboração em A Revolução de Setembro (1840–1846)
Tendo sido demitido das funções de administrador geral do distrito de Castelo Branco em franca ruptura com o poder instituído, Rodrigues Sampaio chegou a Lisboa em circunstâncias bem difíceis, sem emprego nem habilitações que lhe permitissem singrar facilmente na vida. Valeu-lhe o facto de já serem conhecidos os seus dotes jornalísticos e de José Estêvão Coelho de Magalhães e Manuel José Mendes Leite terem, por essa altura, fundado o periódico A Revolução de Setembro e precisarem de colaboradores. Tendo o primeiro número do novo periódico saído a 23 de junho de 1840 e estando a equipa redactorial incompleta, José Estêvão Coelho de Magalhães, que conhecia Rodrigues Sampaio do tempo em que colaborara no Vedeta da Liberdade, convidou-o para integrar a redacção do jornal. Rodrigues Sampaio aceitou o convite, ficando encarregado do noticiário e da tradução das notícias estrangeiras, matérias então pouco relevantes na imprensa.
A Patuleia e o Espectro (1846–1847)
Quando a notícia da formação de um governo pró-cabralista, embora sem Cabrais, foi conhecida no norte de Portugal, em especial na cidade do Porto, e se compreendeu que os cartistas, embora por interposto líder, estavam novamente no poder, a revolta reacendeu-se com espantosa energia. António José de Sousa Manuel de Menezes Severim de Noronha, o 1.º duque da Terceira, que tinha sido encarregado pela rainha de esmagar a revolta, foi de imediato preso, sendo nomeada uma junta provisória, denominada a Junta Governativa do Porto, de orientação setembrista. Estava iniciado o processo que levaria nos meses imediatos à guerra-civil da Patuleia. Neste contexto de guerra civil, Rodrigues Sampaio foi obrigado a manter-se homiziado, mas nem assim abandonou a luta. Não podendo publicar A Revolução de Setembro, tendo-se refugiado nos arredores de Santarém, aí lançou o periódico semi-clandestino intitulado O Ecco de Santarém, de que saíram apenas 6 números, redigido quase integralmente por Rodrigues Sampaio.
O regresso à redacção de A Revolução de Setembro (1847–1851)
Terminada a guerra civil da Patuleia com a Convenção de Gramido, assinada a 30 de Junho de 1847, Rodrigues Sampaio voltou a ocupar o seu lugar em A Revolução de Setembro, onde se conservaria até falecer, apenas interrompendo a sua colaboração episodicamente quando os afazeres da política a isso o obrigavam. De volta ao jornal, manteve uma vigorosa oposição ao governo saído da Convenção de Gramido, considerando-o como ilegítimo e fruto da ingerência estrangeira. Tendo em conta que uma das consequências políticas daquela Convenção era a proibição da entrada no governo de Costa Cabral, da sua família e partidários mais notáveis, Rodrigues Sampaio considerava tais limitações como uma inaceitável tutela estrangeira a que o governo, por ter apelado à intervenção da Quádrupla Aliança, voluntariamente sujeitara Portugal.
Diz um dos seus biógrafos que Rodrigues Sampaio era duma bondade inesgotável e duma grandeza de alma sem igual; a lhaneza do seu trato manifestava-a ele tanto na vida íntima e dos amigos, como nas reuniões escolares a que nunca faltou quando era ministro, porque Sampaio se sentia bem quando estava no meio do povo que amava entranhadamente. O seu verdadeiro elogio fê-lo o povo de Lisboa no dia do seu enterramento, concorrendo a população quase toda ao cemitério dos Prazeres onde foi inumado, e a esse elogio se associaram bizarramente todos os partidos políticos, que depondo as armas, tristemente se enfileiraram com o Partido Regenerador, prestando homenagem ao último herói dessa geração de fortes que auxiliaram a implantação do sistema liberal no país. E a sua maior e mais pura glória consiste na confissão espontânea dos seus adversários, de que António Rodrigues Sampaio morreu sem inimigos e pobre, porque fez bem a muitos e suavizou muitos infortúnios, pelo que teve a desgraça fatal de criar também algumas ingratos.
Rodrigues Sampaio foi um prolífero jornalista, publicando alguns milhares de artigos, na maior parte sobre temática política ou de polémica com outros autores ou em resposta a eventos políticos. A sua produção está dispersa por múltiplos periódicos, com destaque para A Revolução de Setembro (de que já existe o projecto de produzir uma edição electrónica) e para O Espectro. Para além da produção sobre temas políticos, também publicou alguns relatos de viagem, resultados do périplo que em 1867 empreendeu pela Europa e escreveu para A Revolução de Setembro, em cartas admiráveis que infelizmente não foram ainda coleccionadas em livro.
Jornalista truculento e destemido, Rodrigues Sampaio por diversas vezes se viu confrontado com o desagrado dos visados nos seus artigos. Se por vezes o desagrado se traduziu em polémica, ou mesmo em processo judicial, noutras, conforme era ainda moda na época, a honra ofendida exigia ser lavada em sangue. Foi assim que por questões de imprensa teve de travar pelo menos três duelos. O primeiro desses duelos ocorreu em 1843, tendo como adversário o tenente-coronel de caçadores Joaquim Busto Pereira, depois 1.º barão de Rio Zêzere, havendo composição acordada entre as respectivas testemunhas. O segundo duelo realizou-se em 1845, com um capitão do Regimento de Infantaria n.º 7, por causa dum artigo acerca da segurança pública publicado em A Revolução de Setembro. O encontro pelas armas foi contudo evitado por acordo entre as respectivas testemunhas. O terceiro foi travado com Sant'Anna de Vasconcelos, redactor do periódico O Portuguez, também por causa dum artigo inserto em A Revolução de Setembro. Neste duelo não se pôde evitar o encontro pelas armas, que se realizou na manhã de 13 de setembro de 1851, no Campo Grande, em Lisboa. O adversário de Rodrigues Sampaio ficou ferido e o combate cessou imediatamente.


