Evo Morales
Juan Evo Morales Ayma é um político boliviano. Foi presidente da Bolívia por três mandatos consecutivos, de 2006 a 2019.
Nascido num pequeno povoado mineiro do departamento de Oruro, Evo Morales é de etnia uru-aimará, tendo como língua materna o aimará e, como segunda língua, o castelhano, à semelhança de muitos dos habitantes do planalto ocidental boliviano. É filho de Dionisio e de María, que chegaram a ter sete filhos, dos quais apenas três sobreviveram além dos dois anos de idade, em razão das precárias condições de vida da família. Evo sempre desejou estudar e queria ter sido jornalista porque "eles sempre estão bem informados de tudo e estão no centro dos problemas". Desde muito pequeno escutava o rádio porque em seu povoado não havia televisão e nem chegavam os jornais. Com o encerramento das minas nos anos 1960, os Morales mudaram-se para o Chapare, assim como milhares de outras famílias, para cultivar frutas e verduras no monte ao leste do país. Em 1985, as barreiras alfandegárias foram levantadas, e os produtos estrangeiros inundaram o mercado local. Aos camponeses de Chapare sobrou somente a folha de coca como alternativa de geração de renda.
Em Janeiro de 2002, Evo Morales foi destituído da sua posição no Congresso devido a uma acusação de terrorismo relacionada com uma onda antierradicação ocorrida naquele mês em Sacaba (na qual morreram quatro cocaleros, três militares e um policial), além da pressão da embaixada dos EUA: "Muitos acreditam que os Estados Unidos estejam por trás de sua expulsão". Apesar disso, Morales apresentou a sua candidatura para as eleições presidenciais e legislativas que se realizariam em 27 de junho. Em março, a sua expulsão do Congresso foi declarada inconstitucional, ainda que Morales não tenha reclamado a sua cadeira até a tomada dos legisladores sucessores, em Agosto de 2002. Apesar de que, segundo as pesquisas de opinião, o partido registrava 4% de intenção de voto, o MAS utilizou os seus recursos numa campanha imaginativa, que incluiu a distribuição em massa de camisetas, bonés, bolas de beisebol e todo tipo de quinquilharia política. Um controverso anúncio televisivo do partido mostrava uma boliviana que exortava a "votar segundo a consciência de cada um, e não segundo o que mandava o chefe de cada um", além de incluir camponeses, mestiços e indígenas que afirmavam "Vamos votar por nós mesmos. Votaremos no MAS", capitalizando a condição de ser o primeiro candidato presidencial indígena a favor de Morales.
Morales transformou radicalmente a agenda política internacional da Bolívia, tendo o apoio político de líderes da América do Sul e Caribe e aceitado antes de sua posse em 22 de Janeiro convites estendidos a ele por líderes de diversas nações da região e outras como Espanha, França e China. Já antes de tomar posse do cargo de presidente da república, Morales realizou um giro internacional, iniciado em 29 de dezembro de 2005. Durante duas semanas, percorreu vários países em busca de apoio político e econômico para os seus planos de transformação da economia boliviana.
Eleições de 2005
Nas eleições presidenciais de dezembro de 2005, Morales conseguiu ser vencedor, ao obter 53,74% dos votos, frente a 28,59% de seu principal opositor, Jorge Quiroga. Pela primeira vez na Bolívia, um indígena subia ao poder pelo voto popular, com uma margem considerável sobre o segundo postulante.
Posse
A posse de Evo Morales representou um momento histórico na política boliviana. Por ter sido o primeiro presidente eleito de origem indígena, Evo fez questão que a sua posse tivesse um forte simbolismo religioso representando o valor de sua origem. Em 21 de janeiro de 2006, um dia antes da posse constitucional no Parlamento, vestiu trajes típicos e compareceu ao cerimonial religioso nas ruínas de Tiwanaku, a localidade mais importante da civilização pré-incaica do Altiplano Bolivano. Cerca de quarenta mil pessoas estiveram no sítio arqueológico, muitas delas segurando tanto bandeiras da Bolívia, quanto wiphalas, a multicolorida bandeira que representa os povos originários do Altiplano.
Primeiras medidas
Um de seus primeiros gestos como presidente foi de reduzir seu salário em 57% para US$ 1 875 por mês. Morales anunciou também sua intenção de levar aos tribunais seu predecessor, o ex-presidente interino, Eduardo Rodríguez, e o então ministro da Defesa, Gonzalo Méndez Gutiérres, acusando-os de traição à Pátria ao terem transferido 28 mísseis terra-ar MHN-5 de fabricação chinesa que se encontravam nos arsenais bolivianos e foram entregues aos Estados Unidos para serem "desativados". Em seus primeiros discursos declarou a necessidade da nacionalização dos hidrocarbonetos, cuja exploração fora concedida a petrolíferas transnacionais, principalmente à brasileira Petrobras, através de concessões que catalogou como nulas de pleno direito. Metade do gás natural consumido em todo o Brasil é de origem boliviana.
Referendo de 2008
Em dezembro de 2007, em meio a uma tensa situação política relacionada com o processo constituinte, Morales lançou a proposta de submeter-se, juntamente com todos os governadores, ao referendo revogatório, um referendo previsto pela constituição da Bolívia que submete os ocupantes dos cargos a uma nova votação. Assim, em 10 de agosto de 2008, o povo boliviano votou para decidir se queriam ou não que o presidente, Evo Morales, seu vice-presidente, Álvaro García Linera, e oito dos nove governadores do país continuassem em seus cargos. Dia 16 de agosto de 2008 a Corte Nacional Eleitoral da Bolívia confirmou os resultados, que deram a vitória do presidente Evo Morales, que acabava de cumprir a metade de seu mandato de cinco anos. Foi ratificado no cargo com 67,41% dos votos válidos. Além de Morales, também foram ratificados os governadores de quatro departamentos que formam a chamada "meia lua" opositora e são liderados por Rubén Costas, de Santa Cruz. Outros quatro governadores opositores às políticas de Morales não obtiveram o número necessário de votos e perderam seus mandatos.
Incidente com o avião presidencial em 3 de julho de 2013
Em 3 de julho de 2013 quando Evo Morales regressava de Moscou, onde participou de um encontro de países produtores de gás, o avião presidencial com Morales a bordo foi impedido de sobrevoar os espaços aéreos da Espanha, França, Itália e em Portugal onde havia autorizado seu trânsito, pois o plano de voo previa uma parada para reabastecimento. O avião teve que fazer um pouso forçado em Viena, na Áustria; onde a condição para liberar a decolagem fosse uma revista na aeronave. O noticiário referiu o incidente como um preparativo da CIA que temia que seu ex-espião Edward Snowden estivesse a bordo do avião presidencial, mas em comunicado a agência EFe, o porta-voz do Ministério do Interior Austríaco, Karl-Heinz Grundbock, disse que as autoridades austríacas descartam a hipótese de que Snowden esteja dentro do avião.
Renúncia
No dia 10 de novembro de 2019, após treze anos no poder e três mandatos, Morales renunciou ao mandato depois de denúncias de fraudes nas eleições gerais daquele ano, que foram apontadas em um relatório preliminar de uma auditoria realizada pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Mais cedo, no mesmo dia, Evo Morales havia dito que convocaria novas eleições após a OEA divulgar os indícios de que as eleições de 20 de outubro haviam sido fraudadas. Morales justificou sua decisão como uma forma de evitar a continuidade da violência no país após três semanas de confrontos entre seus apoiadores e críticos. Em 11 de novembro, o governo do México ofereceu asilo político a Morales, que prontamente aceitou a ajuda. Segundo o chanceler mexicano Marcelo Ebrard, tal medida foi necessária para garantir a vida e a liberdade do ex-presidente.
Morales articulou a força motriz por trás do MAS: Morales lutou para o estabelecimento de uma assembleia constituinte para transformar o país. Ele também aprovou uma nova lei dos hidrocarbonetos para garantir 50% do faturamento para a Bolívia. Apesar de o MAS ter também mostrado interesse na completa nacionalização das indústrias de gás e petróleo, Morales prefere o meio-termo — apoiar a nacionalização de companhias de gás natural, mas apoiar a cooperação internacional na indústria. Morales referiu-se ainda à proposta apoiada pelos Estados Unidos da Área de Livre Comércio das Américas, como "um acordo para legalizar a colonização das Américas." Apesar disso ele é descrito como um neoliberal indígena. A ideologia de Morales sobre as drogas pode ser resumida nas palavras "folha de coca não é droga"; de fato, o hábito de mascar folha de coca sempre foi uma tradição das populações locais (aimarás e quíchuas) e seu efeito como droga é menos forte que a cafeína contida no café, mas para muitos bolivianos pobres é considerada a única forma de manter-se trabalhando o dia todo, o que pode ser quinze a dezoito horas para alguns. A prática de mascar folhas de coca pelas populações indígenas na Bolívia tem mais de mil anos e nunca causou nenhum problema na sua sociedade relacionado com as drogas; é por isso que Morales acredita que o problema da cocaína deveria ser resolvido no lado do consumo, não erradicando as plantações de coca.
Traje habitual
Evo Morales preferia como sua vestimenta oficial, roupas tradicionais bolivianas, como o suéter de tecido de alpaca, com motivos e desenhos indígenas, tal como a que usou durante um encontro com o rei da Espanha, semelhante ao utilizado na cerimônia de posse e o da foto oficial.
Buscando la Cruz del Sur
Em Abril de 2006 foi anunciada a preparação de um filme sobre a vida de Evo Morales, cujo título deverá ser "Buscando la Cruz del Sur" ("Procurando o Cruzeiro do Sul"). Com o produtor Wilson Asturizaga e o realizador Tonchi Antezana. A principal motivação para a realização do filme é, de acordo com Asturizaga, o facto de constituir um evento histórico mundial a chegada de um indígena à Presidência da Bolívia. Contudo, a personagem principal do filme não terá o nome de Juan Evo Morales Aima, mas "Juan Pueblo". A escolha dos três atores que desempenharão Morales quando criança, jovem e adulto será feita em Maio de 2006 através de um "reality show", no qual o público escolherá os melhores intérpretes.
Polêmicas
Evo Morales também aparece na comunicação social por alguns atos polêmicos. Em abril de 2010, durante um discurso na I Conferência Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra, Morales afirmou que comer frangos criados em aviários, que são engordados com hormônios femininos, são a causa dos "desvios" da sexualidade masculina (referindo-se à homossexualidade) e da alopécia (calvície) na Europa. No mesmo discurso onde alertava para o perigo dos alimentos transgênicos, disse também que a bebida "Coca-Cola" e as batatas holandesas seriam prejudiciais à saúde. As declarações levantaram os ânimos entre os defensores de direitos LGBT. Por outro lado, o porta-voz do governo afirmou que o que foi dito por Morales seria uma "verdade" silenciada pela comunidade internacional.
Caso de estupro
Em 3 de outubro de 2024, o ministro boliviano da Justiça disse que Evo Morales é investigado pelo estupro de uma adolescente há oito anos. Segundo as autoridades, uma menor de idade engravidou e deu à luz uma menina.
Tentativa de assassinato
Em 27 de outubro de 2024 ao transitar numa rodovia na Bolívia dentro de um carro, o ex-presidente foi atacado a tiros. O motorista do veículo foi atingido de raspão. Evo acusou o atual governo de Luis Arce, de promover o ataque. O governo Arce repudiou a acusação de que policiais tivessem atirado no ex-presidente e disse que nenhum oficial de segurança estava presente no momento do atentado. Ainda na nota, o presidente Arce, em declaraçâo divulgada no X, pediu investigações sobre o caso.


