Ruy Barbosa
Rui Barbosa de Oliveira foi um político, jurista, advogado, diplomata, escritor, filólogo, jornalista, tradutor e orador brasileiro. Um dos intelectuais mais conhecidos do seu tempo, foi designado por Deodoro da Fonseca como representante do nascente governo republicano, tornando-se um de seus principais organizadores, além de coautor da constituição da Primeira República juntamente com Prudente de Moraes. Rui Barbosa atuou na defesa do federalismo, do abolicionismo e na promoção dos direitos e garantias individuais.
"Libertador de cativos, defensor de oprimidos, educador do povo, reformador da pátria, apóstolo de todas as causas liberais. O maior entre os seus, no seu tempo." Rui Barbosa de Oliveira, filho de João José Barbosa de Oliveira e de Maria Adélia Barbosa de Almeida, nasceu em 1849, na Rua dos Capitães, hoje Rua Ruy Barbosa, Freguesia da Sé, na cidade do Salvador, na então província da Bahia. Barbosa era irmão de Maria Adélia e sobrinho, por parte de mãe, do barão de Mucuri e de Luís Antônio Barbosa de Almeida, que foi presidente da província da Bahia de 3 de novembro de 1864 a 2 de maio de 1865, atuando durante a Sabinada. O pai de Barbosa, João José Barbosa de Oliveira (1818-1874), era filho de Rodrigo António Barbosa de Oliveira, nascido em Salvador em 1768, e de Maria Soares Simas. Era neto paterno do sargento-mor de ordenanças António Barbosa de Oliveira, natural do Porto, e de Ana Maria de Sousa e Castro. Barbosa de Oliveira formou-se em medicina, exercendo por pouco tempo a profissão. Pelas mãos do primo Luís Antônio, ingressou na política em 1846, como deputado provincial, tendo sido também deputado-geral entre 1863 e 1868. João José tinha outro importante aliado político, Manuel de Sousa Dantas, de quem se tornou grande amigo. Apesar do prestígio político, o pai de Barbosa não vivia uma situação financeira confortável, tendo a família sido sustentada em determinada época pela venda de doces caseiros produzidos pela esposa, Maria Adélia. Dantas seria o padrinho político de Rui Barbosa, levando-o, pela amizade com o pai, à câmara provincial e depois à imperial, no início de sua carreira política. Rui também iniciaria sua carreira como advogado em 1872 no escritório de Dantas, em Salvador.
Formação acadêmica e a causa abolicionista
Ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1866, então uma das duas únicas faculdades de Direito do Brasil, juntamente com a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Dois anos depois de iniciado o curso, transferiu-se para São Paulo, com seu colega de faculdade Castro Alves. Uma das teorias sobre a causa da transferência é que era comum na época, os estudantes iniciarem o curso no Recife e depois transferirem-se para São Paulo para concluí-lo. Em 1868 abrigou em sua casa, por alguns dias, Castro Alves, seu antigo colega no Ginásio Baiano, em razão do rompimento dele com Eugênia Câmara.[carece de fontes?] Em 1868, com a queda do gabinete do primeiro-ministro Zacarias de Góis, Rui Barbosa homenageou, em um banquete, o abolicionista liberal e então deputado José Bonifácio, o Moço, seu professor de Direito em São Paulo. Em 1869, proferiu um discurso em praça pública, homenageando os soldados que haviam retornado da Guerra do Paraguai. Em seu discurso, conclamou o Exército para que também se engajasse na causa abolicionista. No mesmo ano, realizaria uma conferência chamada "O Elemento Servil", onde defendeu a ilegalidade da escravatura, com embasamento jurídico na Lei Feijó, de 1831, que extinguiu o tráfico de escravos. Rui anteriormente já havia publicado no Radical Paulistano, periódico que fundou juntamente com Luís Gama, o seu primeiro manifesto abolicionista. Em 1870, graduou-se como bacharel em Direito em São Paulo, retornando à Bahia.
Proclamação da República
Pouco antes de se formar em São Paulo, passou a ser acometido de distúrbios nervosos, que o obrigaram, depois de seu retorno à Bahia, a permanecer em repouso durante um ano no bairro de Plataforma, na região suburbana de Salvador. Depois deste recolhimento, Rui começou a trabalhar no escritório de advocacia de Souza Dantas, em 1872. Nesse mesmo ano, iniciou-se no jornalismo, colaborando regularmente no Diário da Bahia, que era também de propriedade de Souza Dantas. Em 1873, assumiu a direção do Diário da Bahia e fez conferência no Teatro São João sobre "eleição direta". O pai confessa, em uma carta, que "poucos o igualam", que ele "foi aplaudido de um modo que me comoveu", e ainda "dizem-me que é superior a José Bonifácio e sustentam que certamente hoje não se fala melhor do que ele".[carece de fontes?]
O "Águia de Haia"
Em junho de 1907, Rui vai à Conferência da Haia atendendo ao convite do então ministro das Relações Exteriores, Barão do Rio Branco, sendo esta a sua consagração mundial. Sobre isso escreveu o jornalista William Thomas Stead: "As duas maiores forças pessoais da Conferência foram o Barão Marschall da Alemanha, e o Dr. Barbosa, do Brasil… Todavia ao acabar da conferência, Dr. Barbosa pesava mais do que o Barão de Marschall". Na Conferência, foi discutida a criação de uma corte de justiça internacional permanente, da qual participariam apenas as grandes potências — Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, com a proposta de criar um Tribunal de Arbitramento. Rui Barbosa não se intimidou, enfrentando os defensores daquela proposta e argumentou em seu discurso, que selecionar para aquele Tribunal, países com maior poderio militar, iria estimular uma corrida armamentista, e o curso político mundial seria direcionado para a guerra, o que contrariaria os objetivos daquela Conferência de Paz. Além disso, Rui defendeu a tese de que, ante a ordem jurídica internacional, todas as nações são iguais e soberanas. A imprensa internacional destacou a brilhante atuação do jurista, "homem franzino, de pouco mais de um metro e meio de altura", cuja brilhante participação na Conferência "fomentou a imaginação popular no Brasil, onde foi transformado em uma espécie de herói imbatível". Para esta missão diplomática, o Barão do Rio Branco queria levar Joaquim Nabuco, na época embaixador em Washington, no entanto a imprensa se manifestava pela escolha de Rui Barbosa. Rio Branco sugeriu que os dois formassem a delegação, que chamou de "delegação das águias" em referência ao "ministério das águias" – 21º Gabinete Conservador de Pedro de Araújo Lima, Marquês de Olinda – assim chamado por Joaquim Nabuco em virtude da experiência dos ministros que o compuseram. Nabuco não aceitou o convite e Rui, depois de sua atuação, passou à história como o "Águia de Haia".
Campanha civilista
Em 17 de maio de 1909, discursa, em francês, na Academia Brasileira de Letras, em recepção a Anatole France. Em agosto de 1909, recebe carta escrita por Antônio Francisco Azeredo, com quem trabalhara no Diário de Noticias, no Rio de Janeiro, e com que ainda mantinha laços de apreço. A partir do ano seguinte, e até 1910, inicia a campanha civilista. Já em 1911, retorna ao Diário de Notícias. Nesse período, ao responder à carta de um correligionário civilista, em outubro de 1911, escreve uma das mais importantes obras sobre deontologia jurídica: O Dever do Advogado. Para a eleição de 1 de março de 1910, integra com o presidente de São Paulo, dr. Albuquerque Lins, a chapa dos candidatos da soberania popular, na Campanha Civilista, sendo Rui candidato a presidente da república e Albuquerque Lins a vice-presidente. O país se dividiu: Bahia, São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro e parte de Minas Gerais apoiaram o candidato Rui Barbosa; os demais estados, a candidatura de Hermes da Fonseca, que tinha Venceslau Brás como seu vice. Fonseca e Brás venceram. Hermes teve 403 867 votos contra 222 822, dados a Rui Barbosa.
Contrariado por ver que os princípios pelos quais lutara e que consagraram a sua vida, estavam sendo relegados pela situação política na época, com a intervenção militar de Epitácio, Rui Barbosa considerava-se um "corpo estranho" na política e, em 10 de março de 1921, renuncia ao cargo de senador. Já com problemas de saúde, não comparece à solenidade de colação de grau dos formandos de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo, onde havia se formado cinquenta anos antes, solenidade em que seria paraninfo da turma. Para a cerimônia, que aconteceu no dia 29 de março de 1921, havia preparado um discurso chamado Oração aos Moços, que foi lido pelo professor Reinaldo Porchat. O afastamento de Rui Barbosa do senado não durou muito tempo. Aceitando a indicação de José Joaquim Seabra, então governador da Bahia, apresenta-se como candidato único ao senado por seu estado, sendo reeleito em junho de 1921. Reassumiu a cadeira em 29 de julho, reiniciando sua luta pela revisão constitucional.
Rui Barbosa de Oliveira casou-se com Maria Augusta Viana Bandeira em 23 de novembro de 1876, em Salvador. Tiveram cinco filhos: Os descendentes de Rui Barbosa levam o sobrenome Ruy Barbosa. Em suas primeiras gerações, essa foi uma família de diplomatas, o que ajudou a fortalecer o mito de que a carreira diplomática é transmitida de pai para filho.
Rui Barbosa foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, e escolheu Evaristo da Veiga como patrono da cadeira 10. Foi presidente da ABL de 1908 a 1919.
Logo após sua morte, o jurista baiano João Mangabeira, seu discípulo, fez o discurso em sua homenagem e memória. Em 5 de novembro de 1924, Otávio Mangabeira, lembrando a data de seu nascimento, fez o seguinte discurso: Enriqueceu a língua portuguesa, pela palavra falada e pela escrita, com as mais belas obras de arte. Em Haia e em Buenos Aires, para um auditório que era a humanidade, falou, por idiomas estrangeiros, em alocuções imortais que comoveram o Universo, a linguagem das mais lídimas aspirações humanas. Nunca fraqueou ante a injustiça, ante a ingratidão, ante os revezes. Nunca se acobardou ante o perigo. (aplausos) (…) Construtor, por excelência, da República, foi principalmente na República, franzino e débil no corpo, quão rijo, e forte, e valoroso no espírito, a ponta de platina, impávido a receber e a desviar(…) a eletricidade das tormentas. (…) Feliz do povo que estremecer a justiça! Feliz do povo que viver no trabalho! Sobretudo, sr. Presidente, feliz do povo que não perder o ideal.
Outros reconhecimentos
Em comemoração ao primeiro centenário de seu nascimento em 1949, Barbosa foi homenageado com a inauguração do Fórum Ruy Barbosa. A partir de então, o prédio passou a abrigar os seus restos mortais que foram transferidos do Rio de Janeiro para a Bahia e onde permanecem até hoje, como desejou o Desembargador Pedro Ribeiro. Na época, o escultor Mário Cravo Junior foi convidado a criar uma escultura, nomeada pelo artista como Cabeça de Ruy Barbosa. Na Sessão Conjunta solene do Congresso Nacional foram oradores deputado João Mangabeira e o Senador Clodomir Cardoso. Também em comemoração ao seu centenário de nascimento, o então presidente da República Eurico Gaspar Dutra sancionou e fez publicar em 5 de maio de 1949, a Lei n.º 691, declarando o dia 5 de novembro daquele ano Dia de Festa Nacional. A lei instituiu uma medalha comemorativa, conferida às "autoridades, instituições e individualidades que concorram, por meritória cooperação e serviços relevantes, para o maior êxito e brilho das celebrações nacionais daquele Centenário." Além disso, os bacharéis em Direito que colassem grau naquele ano em todas as faculdades oficiais ou equiparadas, deveria fazê-lo no dia 5 de novembro.
Ruy Barbosa já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Edmundo Lopes no filme Vendaval Maravilhoso (1949), Renato Borghi na minissérie Mad Maria (2005) e Camilo Beviláqua no filme Brasília 18% (2006). Foi também homenageado no carnaval carioca em 1999, pela escola de samba São Clemente. Imprimiu-se também sua efígie nas notas de Cr$ 10 000,00 (dez mil cruzeiros) emitidas entre 1984 e 1986, bem como nas cédulas de Cz$ 10,00 (dez cruzados) emitidas em 1986.
Os documentos do arquivo pessoal do Rui Barbosa foram adquiridos pelo Poder Executivo Federal em 2 de janeiro de 1924 junto com sua casa e hoje está custodiado pelo Serviço de Arquivo Histórico e Institucional da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB). O acervo é composto por sessenta mil documentos textuais, duas mil imagens e 53 documentos cartográficos encontrando-se completamente digitalizado e disponibilizado online no site da instituição. O arranjo intelectual arquivístico está dividido em séries, e são: Correspondência Geral - RB CR; Ministério da Fazenda - RB MF; Causas Jurídicas - RB CJ; Produção Intelectual - RB PI; Documentos Pessoais - RB DP; 2ª Conferência da Paz em Haia - RB CH; Embaixada Buenos Aires - RB BA; Iconografia RB IC; Cartografia RB C; Miscelânea RB M; e Documentação Complementar - RB DC (descrito no Inventário Analítico do Fundo Rui Barbosa.) Em 1927 foi criado o Museu Casa de Rui Barbosa e em 1966 foi instituída a Fundação Casa de Rui Barbosa, localizada no Bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, entidade vinculada ao Ministério da Cidadania aberta à visitação pública gratuitamente.


