Marco Antônio
Marco Antônio (português brasileiro) ou Marco António (português europeu), conhecido também apenas como Antônio, foi um político da gens Antônia da República Romana nomeado cônsul por três vezes, em 44, 34 e 31 a.C. com Júlio César, Lúcio Escribônio Libão e Otaviano respectivamente. Foi ainda mestre da cavalaria do ditador em 48 e 47 a.C.. Antônio era aliado de César e serviu com ele durante a conquista da Gália e na guerra civil contra Pompeu. Foi nomeado administrador da Itália enquanto César consolidava seu poder na Grécia, África e Hispânia. Depois do assassinato de César, em 44 a.C., Antônio se juntou a Marco Emílio Lépido, outro grande general de César, e a Otaviano, que era seu sobrinho e filho adotivo, formando uma ditadura de três homens conhecida como Segundo Triunvirato. Os triúnviros travaram uma guerra contra os liberatores, como eram chamados os assassinos de César, e os derrotaram na Batalha de Filipos, dividindo o comando da República entre si a partir daí. Antônio recebeu as províncias orientais, incluindo o reino cliente do Egito, governado na época por Cleópatra VII Filópator, e o comando da guerra contra os partas.
Membro da gente plebeia dos Antônios, Antônio nasceu em Roma em 14 de janeiro de 83 a.C.. Seu pai, homônimo, era conhecido como Marco Antônio Crético, filho do famoso Marco Antônio Orador, assassinado durante as perseguições que se seguiram à tomada de Roma pelas forças de Caio Mário no inverno de 87−6 a.C.. Sua mãe era Júlia Antônia, uma prima distante de Júlio César (Lúcio Júlio César era avô dela e bisavô dele). Antônio era uma criança na época da marcha de Sula sobre Roma em 82 a.C..[a] Segundo o orador romano Cícero, o pai de Antônio era incompetente e corrupto e só recebeu algum poder justamente por ser incapaz de utilizá-lo ou abusar dele de forma efetiva. Em 74 a.C., ele recebeu um comando militar para derrotar os piratas que assolavam o Mediterrâneo, mas morreu em Creta em 71 a.C. sem realizar nenhum progresso. A morte do Antônio pai deixou Antônio e seus irmãos, Lúcio e Caio, aos cuidados da mãe, Júlia, que se casou com Públio Cornélio Lêntulo Sura, um eminente membro da antiga nobreza patrícia. Lêntulo, apesar de explorar seu sucesso político para enriquecer, estava constantemente em débito por causa de seu estilo de vida extravagante. Foi um dos protagonistas na Segunda Conspiração de Catilina e foi sumariamente executado por ordens do cônsul Cícero em 63 a.C. por seu envolvimento. Sua morte provocou um perpétuo ressentimento entre Júlia Antônia e o famoso orador.
Serviço militar
Em 57 a.C., Antônio se juntou ao comando militar de Aulo Gabínio, o procônsul da Síria, como comandante da cavalaria, uma nomeação que marcou o começo de sua carreira militar. Como cônsul no ano anterior juntamente com o mentor de Cláudio, Públio Clódio Pulcro, Gabínio havia exilado Cícero. Hircano II, o sumo-sacerdote asmoneu da Judeia, aliado de Roma, fugiu de Jerusalém e foi ter com Gabínio em busca de proteção contra seu rival e genro Alexandre. Anos antes, em 63 a.C., o general romano Pompeu havia capturado-o juntamente com seu pai, o rei Aristóbulo II, durante a guerra contra o que restava do Império Selêucida. Pompeu depôs Aristóbulo e instalou Hircano como um monarca cliente na Judeia. Antônio se destacou militarmente pela primeira vez depois de assegurar importantes vitórias em Alexândrio e Maquero. Com a revolta encerrada, em 56 a.C., Gabínio restaurou Hircano novamente como sumo-sacerdote da Judeia.
Serviço sob César
A ligação de Antônio com Públio Cláudio Pulcro deu-lhe acesso a posições muito proeminentes. Clódio, que era patrocinado pelo triúnviro Crasso, havia desenvolvido uma relação política positiva com Júlio César e assegurou para Antônio uma posição no staff militar de César em 54 a.C., quando começou a conquista da Gália. Servindo com ele, Antônio se revelou um excelente comandante militar. Apesar do distanciamento temporário no final da vida, Antônio e César foram amigos até o assassinato de César em 44 a.C.. A influência de César garantiu-lhe o avanço rápido na carreira política. Depois de um ano de serviço na Gália, César enviou Antônio para Roma para dar início formal à sua carreira política, sendo eleito questor em 52 a.C. pela facção senatorial dos populares. Nomeado para apoiar César, Antônio voltou para a Gália e comandou a cavalaria durante a vitória na Batalha de Alésia contra o alto rei gaulês Vercingetórix. No ano seguinte, Antônio foi promovido por César a legado e entregou-lhe o comando de duas legiões (aproximadamente 7 500 soldados).
Assassinato de Júlio César
Quaisquer que fossem os conflitos entre ele e César, Antônio permaneceu fiel a César, assegurando que o distanciamento entre eles não fosse duradouro. Antônio se reaproximou dele em Narbo em 45 a.C. e os dois se reconciliaram completamente no ano seguinte, quando Antônio foi eleito cônsul juntamente com César, que estava planejando uma nova invasão do Império Parta e queria deixar Antônio na Itália para governar Roma. A reconciliação veio logo depois de Antônio ter rejeitado uma oferta de Caio Trebônio, um dos generais de César, para se juntar a uma conspiração para assassinar César. Logo depois de assumirem seus mandatos, o festival da Lupercália foi realizado, em 15 de fevereiro de 44 a.C., uma celebração em homenagem à Loba (em latim: "Lupa"), a loba que teria amamentado os bebês Rômulo e Remo, os fundadores de Roma. A atmosfera política em Roma na época do festival já estava profundamente dividida. César já vinha colocando em prática sua reformas constitucionais que, na prática, centralizaram todos os poderes políticos em suas próprias mãos. Ele recebeu ainda mais honras, incluindo uma forma de culto semioficial, do qual Antônio era sumo-pontífice. Adicionalmente, no dia anterior ao festival, César foi nomeado ditador, o que lhe dava poderes sem limites. Os rivais políticos de César temiam que essas reformas fossem tentativas de César de transformar a República Romana numa monarquia de fato. Durante o próprio festival, Antônio ofereceu publicamente a César um diadema, que ele recusou. O evento, contudo, revelou uma poderosa mensagem: diadema era um símbolo real. Ao recusá-lo, César demonstrou que não tinha intenção de se tornar rei de Roma. Os motivos de Antônio não são claros e se desconhece se ele agiu com a aprovação prévia de César ou por conta própria.
Segundo Triunvirato
Com Antônio derrotado, o Senado, na esperança de eliminar Otaviano e a facção cesariana, entregou o comando das legiões republicanas a Décimo. Sexto Pompeu, filho do antigo rival de César, Pompeu Magno, recebeu o comando da frota republicana, que estava baseada na Sicília, enquanto Bruto e Cássio foram nomeados governadores da Macedônia e Síria respectivamente. Estas nomeações tinham por objetivo reavivar a "causa republicana". Porém, as oito legiões de Otaviano, compostas majoritariamente de veteranos de César, se recusaram a seguir os comandos de um dos assassinos de César, o que abriu espaço para que Otaviano mantivesse seu comando. Enquanto isto, Antônio recuperou sua posição juntando suas forças com as de Marco Emílio Lépido, que havia recebido o comando da Gália Narbonense e da Hispânia Citerior. Antônio enviou Lépido a Roma para tentar negociar uma conciliação. Embora fosse um ardente cesariano, Lépido mantinha relações amigáveis tanto com o senado quanto com Sexto Pompeu. Suas legiões, porém, logo desertaram para Antônio, o que lhe deu o controle sobre dezessete legiões, o maior exército no ocidente.
Divisão da República
A vitória em Filipos deixou os membros do Triunvirato como mestres da República, com exceção da Sicília, ainda dominada por Sexto Pompeu. Ao retornar a Roma, os triúnviros redistribuíram as províncias entre si, com Antônio claramente em posição dominante. Ele recebeu a porção maior, governando todas as províncias orientais e mantendo ainda o controle da Gália no ocidente. A posição de Otaviano melhorou, pois ele recebeu a Hispânia, que foi tomada de Lépido, que ficou apenas com África e assumiu, claramente, um papel menos importante entre os triúnviros. O comando da Itália permaneceu dividido entre os três, mas Otaviano recebeu a difícil e impopular tarefa de desmobilizar os veteranos e prover a cada um deles com terras públicas. Antônio assumiu pessoalmente o comando no oriente e colocou um legado no comando da Gália. Durante sua ausência, diversos de seus principais aliados ocuparam postos chave em Roma para proteger seus interesses.
Atividades no oriente
Antônio passou o inverno de 42 a.C. em Atenas, a partir de onde governou, de forma generosa, as cidades. Um fileleno ("amante das coisas gregas"), Antônio apoiava a cultura grega para conseguir a lealdade dos habitantes do oriente grego. Participava de festivais e cerimônias religiosas, incluindo a iniciação nos mistérios de Elêusis, uma religião de mistério dedicada ao culto das deusas Deméter e Perséfone. A partir de 41 a.C., Antônio atravessou o mar Egeu até a Anatólia, deixando seu amigo Lúcio Márcio Censorino governando a Macedônia e a Acaia. Ao chegar em Éfeso, a capital da Ásia, Antônio foi adorado como o deus Dioniso renascido. Ele exigiu pesados impostos das cidades helênicas em troca de suas políticas pró-gregas, mas isentou as cidades que permaneceram leais a César durante a guerra civil e compensou aquelas que sofreram durante a guerra contra os liberatores, incluindo a ilha de Rodes, Lícia e Tarso. Antônio perdoou todos os nobres romanos que viviam no oriente e que haviam apoiado a causa republicana, com exceção dos liberatores.
Guerra civil de Fúlvia
Depois da derrota de Bruto e Cássio, enquanto Antônio ainda estava ocupado no oriente, Otaviano era a autoridade maior no ocidente.[d] A principal responsabilidade de Otaviano era distribuir terras para dezenas de milhares de veteranos de César que lutaram pelo Triunvirato. Adicionalmente, dezenas de milhares de veteranos que lutaram pela causa republicana durante a guerra também exigiam concessões de terras. A ação era importante para evitar que estes veteranos passassem a dar apoio a adversários políticos do Triunvirato. Porém, os triúnviros não tinham terras públicas suficientes para entregar aos veteranos, o que deixou Otaviano com duas escolhas possíveis: alienar muitos cidadãos romanos confiscando suas terras ou alienar muitos soldados romanos que poderiam apoiar uma revolta militar contra o Triunvirato. Otaviano escolheu a primeira alternativa. Até dezoito cidades romanas por toda a Itália foram afetadas pelos confiscos de 41 a.C., com populações inteiras sendo expulsas de suas terras.
Campanha parta de Marco Antônio
A ascensão do Império Parta no século III a.C. e a expansão de Roma na direção do Mediterrâneo oriental no século II a.C. colocaram as duas potências em contato direito, o início de séculos de relações tumultuadas e tensas. Apesar de períodos paz terem levado ao desenvolvimento de trocas comerciais e culturais, a guerra era uma constante ameaça. A influência sobre o estado-tampão do Reino da Armênia, localizado no nordeste da Síria, era geralmente o ponto de conflito. Em 95 a.C., o xá arsácida Mitrídates II, instalou Tigranes, o Grande, como rei cliente na Armênia. Tigranes participaria das três Guerras Mitridáticas contra Roma antes de ser definitivamente derrotado por Pompeu em 66 a.C.. Daí em diante, com seu filho Artavasdes II hospedado em Roma como refém, Tigranes reinaria a Armênia como aliado de Roma até sua morte em 55 a.C.. Artavasdes II foi imediatamente instalado como rei e manteve a influência de Roma sobre a Armênia.
Antônio e Cleópatra
Enquanto isso, em Roma, o triunvirato deixou de existir na prática. Otaviano forçou Lépido a renunciar depois que o velho triúnviro tentou se apossar da Sicília após a derrota de Sexto Pompeu. Sozinho no poder, Otaviano se ocupou de bajular a tradicional aristocracia republicana para atraí-la para o seu lado. Ele se casou com Lívia Drusila e começou a atacar Antônio para elevar sua própria posição. Ele argumentava que Antônio era um homem de moral duvidosa, pois havia deixado sua fiel esposa abandonada em Roma com os filhos para estar com a promíscua rainha do Egito. De fato, Antônio foi acusado de tudo, mas principalmente de "tornar-se um nativo", um crime imperdoável para os orgulhosos romanos. Por diversas vezes, Antônio foi convocado a Roma, mas ele ficou todas as vezes em Alexandria com Cleópatra.
Morte
Otaviano, agora muito próximo do poder absoluto, não tinha intenção alguma de dar a Antônio e Cleópatra nenhum tempo para se recuperar. Em agosto de 30 a.C., ajudado por Agripa, invadiu o Egito. Sem nenhum lugar para se refugiar, Antônio se suicidou atirando-se sobre sua espada acreditando, incorretamente, que Cleópatra já havia se matado também. Quando souberam que ela ainda estava viva, servos de Cleópatra o levaram até o mausoléu de Cleópatra, onde ela estava escondida; ele morreu em seus braços. A rainha recebeu permissão para conduzir os rituais funerários de Antônio depois de ter sido capturada por Otaviano. Percebendo que seu destino era ser a estrela da parada triunfal dele em Roma, ela tentou por várias vezes tirar a própria vida e finalmente conseguiu em meados de agosto. Otaviano mandou executar Cesarião, mas poupou os filhos de Antônio com Cleópatra, que tiveram que participar da parada através de Roma. As filhas de Antônio com Otávia também foram poupadas, assim como o filho deles, Julo Antônio. Mas o filho mais velho de Antônio, Marco Antônio Antilo foi assassinado pelos homens de Otaviano implorando por sua vida no Cesareu.
O filho de Cícero, Cícero, o Jovem, anunciou a morte de Antônio, que havia provocado a morte de seu pai, ao Senado. As homenagens a Antônio foram revogadas e suas estátuas foram destruídas ("damnatio memoriae"). Cícero, o Jovem, também aprovou um projeto de lei garantindo que nenhum outro membro da gente Antônia teria o prenome Marco novamente. Quando Antônio morreu, Otaviano tornou-se o líder incontestável de Roma. Nos anos seguintes, Otaviano, que passou a ser conhecido como "Augusto" depois de 27 a.C., conseguiu acumular todos os cargos administrativos, políticos e militares de Roma numa única pessoa. Quando ele morreu, em 14, seus poderes políticos passaram para seu filho adotivo, Tibério. A República Romana havia acabado e a primeira fase do Império Romano se iniciava, o Principado. A ascensão de César e a subsequente guerra civil entre os dois mais poderosos romanos já havia efetivamente acabado com a credibilidade da oligarquia romana como poder governante e assegurou que todas as futuras lutas políticas se centrariam na decisão de qual indivíduo seria capaz de conquistar o supremo poder político no governo, eliminando o senado e toda a antiga estrutura magisterial com focos de poder nestes conflitos. Assim, na história, Antônio se destaca primeiro como um dos principais aliados de César, depois, juntamente com Augusto, como um dos dois homens à volta dos quais o poder se consolidou após o assassinato dele e, finalmente, como membro do Segundo Triunvirato, responsáveis máximos pelo fim da República.
Antônio casou-se sucessivamente com cinco mulheres diferentes e deixou muitos filhos. Através de suas filhas com Otávia, Antônio foi ancestral dos imperadores romanos Calígula, Cláudio e Nero. De seu casamento com Fádia (datas desconhecidas), filha de um liberto, teve vários filhos segundo Cícero. Nada mais se sabe dela ou destas crianças e Cícero é o único que a menciona pelo nome. Em seguida, Antônio casou-se com sua prima pelo lado paterno, Antônia Híbrida Menor (?–47 a.C.), filha de Caio Antônio Híbrida, que, segundo Plutarco, foi expulsa de casa depois de traí-lo com um amigo de Antônio, o tribuno Públio Cornélio Dolabela, por volta de 47 a.C. Com ela, Antônio teve uma filha, Antônia, que se casou com o rico grego Pitódoro de Trales. Depois do divórcio, Antônio casou-se com Fúlvia (46–40 a.C.), neta por parte de pai de Marco Fúlvio Flaco, cônsul em 125 a.C., e, por parte de mãe, de Caio Graco. Com ela, teve dois filhos, Marco Antônio Antilo, executado por Otaviano em 30 a.C., e Julo Antônio, casado com Cláudia Marcela Maior, filha de Otávia, irmã de Otaviano e próxima esposa de Antônio.
Marco Antônio no cinema
Lista incompleta de filmes nos quais é protagonista.


