Papa João XXIII
João XXIII ou São João XXIII (em italiano: Giovanni XXIII; em latim: Ioannes XXIII), O.F.S., nascido Angelo Giuseppe Roncalli; foi o Papa da Igreja Católica, Bispo de Roma e Soberano da Cidade do Vaticano de 28 de outubro de 1958 até a data de sua morte. Pertencia à Ordem Franciscana Secular e escolheu como lema papal: Obediência e Paz.
Angelo Giuseppe Roncalli nasceu e foi batizado em Sotto il Monte (província de Bérgamo, Itália), no dia 25 de novembro de 1881, filho de Giovanni Battista Roncalli e da Marianna Mazzola. Era o terceiro filho de uma família agrícola numerosa. Devido à intensa vida religiosa da família e da paróquia local, Roncalli ingressou no Seminário de Bérgamo. Ali, começou a escrever o "Diário da Alma" (ou Jornal da Alma), um livro autobiográfico muito conhecido que reúne os seus escritos espirituais, datados entre 1895 e 1961. Em 1897, professou a regra da Ordem Franciscana Secular. Entre 1901 e 1905, devido a uma bolsa de estudos para clérigos da Diocese de Bérgamo, ele foi aluno do Pontifício Seminário Romano do Apolinário. Em 1904, doutorou-se em teologia e foi ordenado sacerdote católico em Roma, no dia 10 de agosto do mesmo ano. Continuou com os seus estudos no Apolinário, inscrevendo-se no curso de Direito Canónico. Mas, antes de poder concluí-lo, em 1905, regressou a Bérgamo para ser o secretário do então Bispo de Bérgamo, D. Giacomo Radini-Tedeschi, que o influenciou na sua maneira de lidar com as questões sociais. Durante esses anos, Roncalli foi também professor do Seminário de Bérgamo e aprofundou-se no estudo da vida e da obra de São Carlos Borromeu, de São Francisco de Sales e do Beato Gregório Barbarigo (este último foi canonizado por ele em 1960). Este estudo levou-o a editar os documentos arquivados de Carlos Borromeu, que tinha participado como arcebispo de Milão no Concílio de Trento. Este projeto, que demorou muitos anos, já que o último volume desses documentos só foi publicado em 1957, levou-o a perceber mais sobre a dinâmica conciliar e a compreender que o Concílio de Trento era mais reformista do que antiprotestante.
Na Bulgária
Em 1925, o Papa Pio XI nomeou-o visitador apostólico na Bulgária e elevou-o à dignidade episcopal de Arcebispo titular de Areopolis, sendo sagrado no dia 19 de março de 1925. Ele escolheu como lema episcopal Oboedientia et Pax (Obediência e Paz), que sempre conservou como lema pessoal. Com esta nomeação, deu-se início à sua longa carreira diplomática. Na Bulgária, acompanhou e visitou a pequena comunidade católica existente, constituída aproximadamente por 62 mil búlgaros latinos e pela Igreja Greco-Católica Búlgara. Ele desenvolveu também relações cordiais com as demais comunidades cristãs búlgaras, especialmente com a maioritária e oficial Igreja Ortodoxa Búlgara, revelando-se assim seu espírito tolerante e ecuménico. Além disso, destacou-se por gestos humanitários, em especial em três episódios:
Na Grécia e Turquia
Em 1935, Roncalli foi nomeado administrador apostólico do Vicariato Apostólico de Istambul, constituído por uma comunidade estimada em 35 mil católicos de rito romano e oriental. Foi também nomeado delegado apostólico na Turquia e na Grécia, onde trabalhou intensamente ao serviço dos católicos e estabeleceu um exemplar diálogo respeitoso com os ortodoxos e os muçulmanos. Apesar de não ter status diplomático, desenvolveu relações cordiais com vários funcionários públicos e diplomatas sediados na Turquia, nomeadamente o embaixador alemão Franz von Papen. Em 1944, num dos seus sermões proferidos em Istambul, revelou o seu desejo de convocar um concílio ecuménico, que iria ser o Concílio Vaticano II (1962-1965).
Na França
Em 1944, o Papa Pio XII nomeou-o núncio apostólico em Paris. Aproximando-se do fim da Segunda Guerra Mundial, Roncalli ajudou os prisioneiros de guerra, incluindo os alemães detidos na França, e contribuiu para normalizar a vida eclesial francesa. Na sua qualidade de núncio, ele participou nas negociações da Santa Sé com o governo francês de Charles de Gaulle acerca da questão do afastamento de bispos franceses considerados colaboracionistas do regime de Vichy. Inicialmente, o governo francês queria afastar 25 bispos, mas, após intensas negociações, apenas sete deles foram discretamente demitidos. Porém, eles puderam gozar das suas pensões de reforma e as razões do seu afastamento não foram divulgadas, contribuindo assim para a normalização das relações entre a Igreja Católica e o Estado francês. Em Paris, Roncalli tornou-se também no primeiro observador permanente da Santa Sé na UNESCO. Por último, ele desempenhou também um importante papel de mediador entre as fações mais conservadoras e mais progressistas do clero francês: por exemplo, ele teve que lidar com o movimento dos padres-operários e com a nova corrente teológica progressista Nouvelle Théologie (ou Ressourcement), ambos ganhando força e influência na França depois da Segunda Guerra Mundial. O movimento, influenciado cada vez mais pelas ideias de esquerda, acabou por ser suprimido na França pelo Papa Pio XII em 1954. Em relação à Nouvelle Théologie, ela e seus adeptos nunca foram explicitamente condenados, mas apenas algumas das suas ideias o foram em 1950 na encíclica Humani Generis pelo Papa Pio XII, que receava uma nova vaga de modernismo.
No dia 12 de janeiro de 1953, Angelo Roncalli foi elevado a Cardeal-presbítero de Santa Prisca e, no dia 15 de janeiro de 1953, foi nomeado Patriarca de Veneza. Em Veneza, ele continuou o seu trabalho ecumênico; convocou um sínodo diocesano; criou cerca de 30 paróquias; e privilegiou o contato com os padres e leigos católicos, realizando por isso várias visitas pastorais. A sua modéstia, simplicidade e jovialidade quebraram muitos protocolos e ele realizou muitas visitas e passeios informais pelas ruas de Veneza, tentando conversar com todos aqueles que ele encontrava na rua. Usava até frequentemente os transportes públicos, nomeadamente as gôndolas, e estava muitas vezes presente nos principais eventos da cidade.
Na sequência da morte do Papa Pio XII, em 1958, realizou-se rapidamente um conclave, onde se reuniram os cardeais-eleitores para escolherem um novo Papa. Ao contrário do que se sucedeu no conclave de 1939 (onde Pio XII foi quase unanimemente eleito Papa), o conclave de 1958 tinha vários candidatos favoritos (ou papabiles). Devido a este fato, os cardeais-eleitores procuraram escolher um candidato idoso e de compromisso, acabando assim por eleger Angelo Roncalli, que era precisamente um homem modesto e idoso (já tinha quase 77 anos). Por esta razão, ele era apenas considerado um Papa "de transição". Assim, Angelo Roncalli foi eleito Papa em 28 de outubro de 1958, na 11.ª votação, e tomou o nome papal de João XXIII (Ioannes PP. XXIII, pela grafia latina). Perante os cardeais, ele justificou a sua escolha da seguinte maneira: Eu escolho João... um nome doce para nós, pois é o nome do nosso pai; querido para mim, porque é o nome da humilde igreja paroquial onde fui batizado; o nome solene de inúmeras catedrais espalhadas pelo mundo, incluindo a nossa própria basílica. Vinte e dois Joões [ou Joãos] de legitimidade indiscutível tivemos, e quase todos tiveram um breve pontificado. Nós temos preferido esconder a pequenez do nosso nome por trás desta magnífica sucessão de Romanos Papas.
Seu pontificado teve início no dia 4 de novembro de 1958, data escolhida por ele para coincidir com a festa litúrgica de São Carlos Borromeu, que foi profundamente estudado por ele. No seu pontificado de cinco anos, João XXIII convocou cinco consistórios, criando ao todo mais de 50 cardeais e quase duplicando o número de membros do Colégio dos Cardeais. No primeiro consistório (1958), elevou a cardeal o Arcebispo Montini (um candidato favorito no conclave de 1958, mesmo sem ser cardeal), fazendo com que o Arcebispo de Milão pudesse de fato participar do próximo conclave (de fato, Montini tornar-se-ia o Papa Paulo VI). Quando foi eleito Papa, João XXIII insistiu que Domenico Tardini fosse seu secretário de Estado, mesmo sabendo que ele não gostava muito dele. Tardini, que trabalhou durante muitos anos na Cúria Romana, ficou muito admirado e surpreendido com esse gesto generoso do Papa. Tendo já desde cedo um espírito de tolerância e ecumenismo, João XXIII procurou cooperar e dialogar com outras crenças e religiões, nomeadamente com os protestantes, os ortodoxos, os judeus, os anglicanos e até com os xintoístas. Neste campo, ele recebeu em audiência privada grupos de judeus, o arcebispo da Cantuária, um representante da Igreja da Escócia e um importante sacerdote xintoísta. Ele criou inclusivamente, em 1960, o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, que tinha por função recompor a unidade entre os cristãos separados. Durante o seu pontificado, ele instituiu ainda uma Comissão para a revisão do Código de Direito Canónico e convocou, em 1960, o primeiro sínodo da Diocese de Roma. Também retirou da liturgia da Sexta-feira Santa as duras expressões relativas aos judeus e inaugurou uma nova era de relacionamento e diálogo judaico-católico. Teve também alguma influência na composição da declaração Nostra Aetate, que foi aprovada pelo Concílio Vaticano II (já após a sua morte) e que trata essencialmente das relações da Igreja Católica com os não-cristãos, em particular com os judeus. Neste documento, a Igreja rejeitou de vez as acusações de deicídio ao povo judeu e condenou o antissemitismo.
Visitas pastorais
Como Papa, João XXIII preocupou-se muito com as responsabilidades pastorais do clero. Por isso, para dar o exemplo, ele visitou os doentes, os encarcerados e muitas paróquias da Diocese de Roma, sobretudo as dos bairros mais novos. Aliando sua preferência pelo título papal de Servus Servorum Dei às suas encíclicas e discursos reconciliadores e defensores do diálogo e da paz, estas visitas pretenderam também mostrar a Igreja como uma força espiritual suprapolítica e humanizadora no mundo, tentando assim despolitizar a Igreja, que se envolveu várias vezes no início da Guerra Fria em disputas políticas para travar o avanço do comunismo. Como exemplo disso, no dia 25 de dezembro de 1958, cerca de dois meses depois da sua eleição, visitou as crianças gravemente doentes internadas no Hospital Bambino Gesù e no Hospital Santo Spirito, onde confortou amavelmente as crianças e conversou com algumas delas. No dia seguinte (26 de dezembro), ele foi visitar os encarcerados da prisão Regina Coeli. Lá, conseguiu criar um ambiente familiar, comovente e fraternal, ao afirmar que "sou Giuseppe, vosso irmão" e que "aqui [na prisão] estamos na Casa do Pai". Disse também aos prisioneiros que "pus meus olhos nos vossos olhos, coloquei meu coração junto ao vosso coração".
O Concílio Vaticano II
João XXIII inaugurou em 1962 um concílio ecuménico - o Concílio Vaticano II - menos de 90 anos após o último (Concílio Vaticano I, convocado por Pio IX para afirmar o dogma da infalibilidade papal). Mas, a intenção em realizar este concílio foi já anunciada por João XXIII no dia 25 de janeiro de 1959. João XXIII idealizou o Concílio Vaticano II "como um «novo Pentecostes» […]; uma grande experiência espiritual que reconstituiria a Igreja Católica" não apenas como instituição, mas sim "como um movimento evangélico dinâmico […]; e uma conversa aberta entre os bispos de todo o mundo sobre como renovar o Catolicismo como estilo de vida inevitável e vital". O próprio Papa João XXIII afirmou que "o que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz". Para satisfazer esta sua intenção, João XXIII queria ardentemente que a Igreja mudasse de mentalidade e adoptasse uma postura mais positiva e ativa, para poder melhor enfrentar e acompanhar as transformações do mundo moderno. Apesar de ter um câncer inoperável no estômago, que foi diagnosticado em setembro de 1962, João XXIII quis continuar, com todas as suas débeis forças, a dirigir o Concílio Vaticano II.
O discurso da Lua
Um dos discursos mais célebres do Papa João XXIII é o que hoje é conhecido como "o discurso da Lua". Na noite de 11 de outubro de 1962, data da abertura do Concílio Vaticano II, a Praça de São Pedro estava lotada de fiéis que, ainda que não compreendessem a fundo as mudanças teológicas e pastorais do acontecimento, percebiam a sua força histórica, o seu caráter importante e as dificuldades que surgiriam. A multidão pedia pelo Papa e este partilhou com a multidão a sua satisfação pela abertura da primeira sessão do Concílio, que contou com a participação de 2 540 prelados (ou padres conciliares) de todo o planeta, de várias centenas de peritos (ou consultores teológicos) e de várias dezenas de observadores ortodoxos e protestantes. Embora com a saúde já bastante debilitada pelo câncer no estômago, João XXIII fez questão de dirigir as cerimônias.
No seu curto pontificado de cinco anos, João XXIII escreveu oito encíclicas, que possuem um carácter mais pastoral do que dogmático: As suas encíclicas mais conhecidas são, sem dúvida nenhuma, a Pacem in Terris e a Mater et Magistra, ambas fortemente relacionadas com a Doutrina Social da Igreja.
Mater et Magistra
A encíclica Mater et Magistra (em português: Mãe e Mestra), publicada em 1961, pretendeu actualizar a Doutrina Social da Igreja, através de uma nova e profunda leitura dos "«sinais dos tempos»" da década de 1960. Nessa década, uma nova conjuntura mundial começou a formar-se, muito devido aos seguintes acontecimentos: a reconstrução após a Segunda Guerra Mundial, que suscitou um grande desenvolvimento de alguns povos, deixando outros no subdesenvolvimento; a descolonização da África e a Guerra Fria. Todos estes acontecimentos foram acompanhados por novos problemas relacionados com a agricultura, o desenvolvimento tecnológico e económico, a explosão demográfica e a necessidade de cooperação económica e política mundial.
Pacem in Terris
A encíclica Pacem in Terris (em português: Paz na Terra), publicada em 1963, realçou o tema da paz, num período marcado pela proliferação nuclear e pela perigosa disputa - a Guerra Fria - entre os Estados Unidos e a União Soviética. Através desta encíclica, a Igreja reflectiu profundamente sobre a dignidade, os deveres e os direitos humanos, que foram considerados fundamentos da paz mundial. A Pacem in terris, completando o discurso da Mater et Magistra, sublinhou "a importância da colaboração entre todos: é a primeira vez que um documento da Igreja é dirigido também a «todas as pessoas de boa vontade», que são chamados a uma «imensa tarefa de recompor as relações da convivência na verdade, na justiça, no amor, na liberdade»". Este apelo à colaboração incitou a Igreja Católica a começar a ostpolitik.
O brasão pontifício de João XXIII é um escudo eclesiástico, em campo de goles e com uma faixa de argente com uma torre do mesmo, brocante sobre tudo ladeada de duas flores-de-lis de argente. Em chefe as armas patriarcais de São Marcos de Veneza, que é de argente com um leão alado e nimbado, passante ao natural, sustentando um livro aberto que traz a legenda: PAX TIBI MARCE EVANGELISTA MEVS, em letras de sable. O escudo está assente em tarja branca. O conjunto pousado sobre duas chaves decussadas, a primeira de jalde e a segunda de argente, atadas por um cordão de goles, com seus pingentes. O seu timbre é uma tiara papal de argente com três coroas de jalde. O lema papal de João XXIII é OBŒDIENTIA ET PAX (em português: Obediência e Paz). Este lema é o seu testemunho santo de que só se tem paz quando se obedece a Jesus Cristo. Em 3 de Junho de 2013, no final de uma Missa por ocasião do 50.º aniversário da morte de João XXIII, o Papa Francisco explicou melhor a espiritualidade subjacente ao lema episcopal (e pontifício) de João XXIII:
Conhecido como o "Papa Bom", João XXIII morreu de câncer no estômago, após longa luta contra tal enfermidade, no dia 3 de junho de 1963, não chegando por isso a encerrar o Concílio Vaticano II. Foi sucedido pelo Cardeal Giovanni Montini, que escolheu o nome papal de Paulo VI e que implementou as medidas e reformas do Concílio Vaticano II. Na altura da sua morte, a revista "Time" constatou e comentou que poucos pontífices conseguiram entusiasmar o mundo como João XXIII o fez. Já durante o Concílio Vaticano II, o Cardeal Leo Joseph Suenens e vários prelados defenderam a canonização de João XXIII por aclamação conciliar, como se fazia antigamente na Igreja primitiva. Mas, esta proposta foi prontamente rejeitada por prelados mais conservadores e pela Congregação para as Causas dos Santos. Por isso, o seu processo de canonização foi só iniciado em 1965, em simultâneo com o processo do Papa Pio XII, ambos com a autorização de Paulo VI. O "Diário da Alma" de Roncalli contribuiu muito para a longa investigação orientada pela Congregação, porque neste livro está registado o seu desenvolvimento espiritual e o seu caminho de santificação. O Diário descreve vários métodos que João XXIII usou para vencer o pecado: como por exemplo, ele evitava ficar sozinho com mulheres bonitas. No seu Diário, ele também revelou a sua humildade e a sua simples mas profunda piedade, mantida desde criança e radicada na crescente confiança e obediência a Deus. No fundo, todos os seus escritos espirituais exprimem o seu grande amor a Cristo, à humanidade, à Igreja e ao Reino de Deus.
Processo de canonização
Em 5 de julho de 2013 o Papa Francisco aprovou os votos favoráveis da Sessão Ordinária dos Cardeais e Bispos sobre a canonização do Beato João XXIII e decidiu que iria convocar um Consistório, no qual incluiria também a canonização do Beato João Paulo II, Papa que beatificou João XXIII. A canonização de João XXIII reveste-se de uma singularidade: foi aprovado sem o segundo milagre, ou seja, não foi necessário o reconhecimento de um novo milagre por sua intercessão, habitualmente exigido para concluir e confirmar a canonização. Normalmente o processo de canonização é confirmado por dois milagres: um para a beatificação e outro para a canonização propriamente dita. No caso de João XXIII, o requisito do segundo milagre foi dispensado pelo Papa Francisco.
Em 2001, o cadáver de João XXIII foi transferido do subterrâneo para ser definitivamente exposto ao público no interior da Basílica de São Pedro, mais concretamente numa capela lateral próxima do altar de São Jerónimo. Atualmente, ele está dentro de um caixão de bronze e vidro, à prova de balas e de radiação ultravioleta. Uma vez exposto, as pessoas constataram rapidamente o surpreendente grau de preservação do corpo de João XXIII. Porém, geralmente, o seu cadáver intacto não é considerado um corpo incorrupto, porque a sua preservação pode não ter uma causa milagrosa. Segundo o professor Gennaro Goglia, ele contribuiu para preservar o cadáver de João XXIII com um tratamento especial que, embora não sendo uma embalsamação, implicava a aplicação de um líquido especial, com o objectivo de tornar possível a exposição do cadáver durante o funeral. Mas esta tese não é a única, existindo ainda várias outras teses e explicações científicas para serem debatidas e provadas.
Apesar de ser amado, aclamado e homenageado por muitos, o Papa João XXIII é também alvo de várias críticas, acusações e teorias de conspiração, que são feitas e defendidas maioritariamente por alguns grupos de católicos tradicionalistas, entre os quais se destacam os sedevacantistas e os conclavistas. Estes grupos defendem que João XXIII era maçom ou rosacruciano; era simpatizante ou cúmplice do comunismo, do socialismo e de correntes radicais anticatólicos; e era um herege modernista por defender o ecumenismo, a liberdade religiosa e a realização do Concílio Vaticano II. Por acusá-lo de ser um herege, alguns até defendem a teoria conspiratória de que João XXIII era um antipapa que usurpou ilegalmente a cátedra de São Pedro, que devia pertencer ao cardeal Giuseppe Siri. Em 17 de agosto de 2003, o jornal britânico The Guardian publicou um documento confidencial da Igreja, ao qual teve acesso, datado de 16 de março de 1962, instruindo bispos em todo o mundo a encobrir casos de abuso sexual por clérigos, ou correriam o risco de serem expulsos da Igreja. O documento, com o selo do papa João XXIII , chama-se "De Modo Procedendi in Causis Solicitationis", ou seja "Instrução sobre como proceder em casos de solicitação".[nota 1] No documento de 69 páginas, pede-se que as vítimas façam um juramento de sigilo no momento de fazer uma reclamação aos oficiais da Igreja. Afirma que as instruções devem 'ser diligentemente armazenadas nos arquivos secretos da Cúria [Vaticano] como estritamente confidenciais. O tema se concentra no abuso sexual iniciado como parte da relação confessional entre um padre e um membro de sua congregação, mas cobre também aspectos relacionados com o "crime indescritível" com jovens de ambos os sexos e sexo com animais. Os bispos são instruídos a investigar esses casos 'da maneira mais secreta [...] contidos por um silêncio perpétuo [...] e todos devem observar o mais estrito segredo que é comumente considerado um segredo do Santo Ofício sob pena de excomunhão.
Carta a Viúva de Marc Sangnier
Durante sua atuação como Cardeal e Patriarca de Veneza em 1950, João XXIII decidiu escrever uma carta a esposa de Marc Sangnier, por ocasião de sua morte naquele mesmo ano. Fiquei fascinado por Marc Sangnier quando o ouvi falar pela primeira vez em Roma por volta de 1903 ou 1904 em um encontro de jovens católicos. O poderoso carisma de suas palavras e seu espírito me cativaram. A lembrança mais vívida de toda a minha juventude é de sua personalidade e de sua atividade política e social... Por ocasião de sua morte, meu espírito foi verdadeiramente confortado ao notar que as 'vozes oficiais mais altas da França' se uniram unanimemente como um manto de honra para coroar Marc Sangnier com o Sermão da Montanha. Não se poderia prestar maior homenagem ou louvor à memória deste emblema francês cujos contemporâneos foram capazes de apreciar a clareza de uma alma profundamente cristã e uma nobre simplicidade de coração."
Relação com o Padre Pio
Segundo o historiador italiano Sérgio Luzzatto, a relação entre João XXIII e São Pio de Pietrelcina (ou "Padre Pio") era controversa e caracterizada pelo cepticismo e pelas críticas em relação ao Padre Pio feitas por João XXIII. Este Papa chegou mesmo a acusar e a acreditar que Padre Pio era uma fraude e uma alma perdida que tinha uma fé quase medieval e relações incorretas com várias mulheres. Mas, uma outra fonte afirmava que a atitude de João XXIII em relação ao Padre Pio era, em geral, muito positiva. Mas, devido às informações erradas e negativas que ele recebeu, João XXIII tornou-se por isso bastante céptico e crítico. Contudo, segundo esta mesma fonte, pouco antes da sua morte, o Papa confessou que tinha sido informado erroneamente e reconheceu a santidade do Padre Pio. Pediu mesmo ao Padre Pio para rezar por ele.


