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Antipapa Gregório VIII

Maurício Burdino foi um clérigo francês que exerceu os cargos de bispo de Coimbra (1099-1108), arcebispo de Braga (1109-1118), legado apostólico e, posteriormente, antipapa sob o nome de Gregório VIII (1118-1121), durante a Querela das Investiduras, no contexto da oposição imperial de Henrique V aos papas Gelásio II e Calisto II.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 11/07/2026
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Origem e formação

As origens e os primeiros anos de Maurício Burdino permanecem objeto de debate historiográfico. Fontes toledanas dos séculos XII e XIII, como o De Rebus Hispaniae de Rodrigo Jiménez de Rada, indicam que terá chegado à Península Ibérica proveniente da região de Limoges ou do Limousin, tendo vindo provavelmente integrado no círculo do arcebispo Bernardo de Sedirac, figura relevante na reorganização eclesiástica de Toledo após a conquista cristã da cidade. A sua origem francesa enquadra-se no movimento mais amplo de circulação transpirenaica de clérigos reformistas que participaram na reestruturação eclesiástica da Península Ibérica nos séculos XI e XII. A sua formação inicial permanece parcialmente obscura. Embora a tradição historiográfica o associe frequentemente ao movimento cluniacense, essa ligação carece de comprovação documental definitiva, sendo atualmente encarada com maior prudência pela investigação. Inserido no ambiente reformista franco-romano de Toledo, Maurício integrou o processo de reorganização institucional da Igreja hispânica promovido pela reforma gregoriana, caracterizado pelo reforço da autoridade episcopal, pela consolidação das estruturas eclesiásticas e pela progressiva substituição do rito moçárabe pelo rito romano. Neste contexto, terá exercido funções no cabido da Sé toledana, possivelmente como arcediago, participando no movimento de renovação religiosa, disciplinar e litúrgica impulsionado pela Sé Apostólica.

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Episcopado de Coimbra (1099-1108)

Maurício Burdino foi nomeado bispo de Coimbra em 1099, poucas décadas após a reconquista cristã definitiva da cidade, ocorrida em 1064, num período em que Coimbra assumia crescente relevância estratégica no contexto político e religioso do território portucalense. A diocese conimbricense, situada numa região de fronteira, encontrava-se em processo de consolidação institucional, marcado pelo reforço da autoridade episcopal, pela disciplina clerical e pela integração progressiva nas reformas litúrgicas e eclesiásticas promovidas por Roma. Durante o seu episcopado, Maurício participou na reorganização administrativa e religiosa da diocese, contribuindo para o fortalecimento das estruturas eclesiásticas locais, para a afirmação do rito romano e para a articulação entre a autoridade episcopal e os poderes condais. A sua atuação em Coimbra favoreceu a sua aproximação aos círculos políticos de Henrique de Borgonha e D. Teresa, reforçando a sua projeção no quadro eclesiástico e político peninsular.

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Peregrinação à Terra Santa (c. 1104-1108)

Durante o seu episcopado em Coimbra, Maurício Burdino realizou uma peregrinação à Terra Santa entre cerca de 1104 e 1108, episódio amplamente referido pela tradição historiográfica como parte significativa da sua trajetória eclesiástica. Esta viagem inseriu-se nas dinâmicas de circulação religiosa e política características da Cristandade latina no contexto posterior à Primeira Cruzada. O percurso terá incluído passagem por importantes centros religiosos e políticos, como Roma, Constantinopla e Jerusalém, integrando Maurício em redes internacionais de peregrinação e contacto eclesiástico. A viagem esteve igualmente associada à circulação de relíquias e objetos sagrados, elemento relevante da espiritualidade e das práticas diplomáticas medievais. A experiência adquirida durante esta peregrinação ampliou a sua projeção no contexto peninsular, antecedendo a sua promoção à arquidiocese de Braga em 1109. A peregrinação constitui, assim, um episódio relevante para compreender a dimensão internacional da sua carreira eclesiástica.

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Episcopado de Braga (1109-1118)

Após a sua peregrinação à Terra Santa e na sequência da morte de São Geraldo, Maurício Burdino foi nomeado arcebispo de Braga em 1109, assumindo a chefia da sé metropolitana bracarense, uma das mais relevantes estruturas eclesiásticas da Península Ibérica, num período de consolidação institucional do Condado Portucalense. Enquanto arcebispo, Maurício procurou fortalecer a autoridade metropolitana de Braga, reorganizar a disciplina eclesiástica e afirmar a sua jurisdição sobre dioceses sufragâneas e territórios em consolidação cristã. O seu governo desenvolveu-se num contexto de intensas disputas pela primazia eclesiástica da Hispânia, particularmente em confronto com Toledo e Santiago de Compostela, num cenário em que a afirmação institucional de Braga assumia crescente importância política e religiosa. A proximidade a Henrique de Borgonha e D. Teresa reforçou a sua influência na reorganização eclesiástica e política do território portucalense, tornando Braga um centro estratégico de articulação entre autoridade condal, poder episcopal e redes internacionais da Igreja reformista. Sob o seu governo, a arquidiocese bracarense consolidou-se como importante plataforma de projeção diplomática e eclesiástica, ampliando a sua inserção nas dinâmicas peninsulares e europeias.

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Relações com Henrique V e a Querela das Investiduras

Durante o seu arcebispado em Braga, Maurício Burdino envolveu-se progressivamente nas disputas pela primazia eclesiástica da Hispânia, entrando em conflito com Bernardo de Sedirac, arcebispo de Toledo, em torno da autoridade metropolitana sobre os territórios peninsulares. Estas tensões culminaram, em 1114, na sua convocação à Cúria Romana por Pascoal II, onde foi repreendido pelas suas reivindicações jurisdicionais e pela contestação à primazia toledana. Nos anos seguintes, o agravamento da Querela das Investiduras, conflito entre Papado e Império acerca do controlo sobre a nomeação episcopal e a autoridade eclesiástica, criou novas oportunidades políticas para Maurício. Entre 1116 e 1117, no contexto da campanha italiana de Henrique V contra Pascoal II, Maurício aproximou-se do imperador e alinhou-se progressivamente com a política imperial, afastando-se das posições defendidas pela Sé Apostólica.

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Antipapado de Gregório VIII e queda

Em março de 1118, na sequência da eleição de Gelásio II e da recusa de Henrique V em reconhecer o novo pontífice, o partido imperial promoveu a eleição de Maurício Burdino como papa rival, sob o nome de Gregório VIII. A sua proclamação, apoiada por cardeais e prelados favoráveis ao imperador, integrou-se diretamente na estratégia imperial de contestação à autoridade papal no contexto da Querela das Investiduras. Gelásio II respondeu excomungando Henrique V e Gregório VIII, reafirmando a ilegitimidade da eleição imperial. Após a morte de Gelásio, em 1119, Calisto II prosseguiu a política reformista romana e intensificou a ofensiva contra o antipapa. Progressivamente isolado, Gregório VIII refugiou-se em Sutri, onde foi cercado e capturado em abril de 1121 pelas forças fiéis a Calisto II. Conduzido prisioneiro para Roma, foi submetido a humilhação pública, sendo exibido pelas ruas montado de forma invertida sobre um camelo, num ritual simbólico de deslegitimação política e religiosa. Permaneceu em reclusão monástica, provavelmente em Cava de’ Tirreni, onde terá morrido em data incerta após 1121, tradicionalmente situada entre as décadas de 1130 e 1140.

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Historiografia, memória e legado

A figura de Maurício Burdino suscitou interesse historiográfico significativo desde a Idade Média, embora a sua memória tenha sido fortemente condicionada pela condenação pontifícia decorrente da sua eleição como antipapa Gregório VIII. As fontes narrativas medievais, maioritariamente ligadas a ambientes favoráveis ao Papado reformista, contribuíram para consolidar uma imagem predominantemente negativa da personagem, enfatizando a sua oposição à Sé Apostólica e a sua associação ao imperador Henrique V. A tradição cronística posterior difundiu amplamente a designação “Burdino”, frequentemente interpretada como epíteto depreciativo, contribuindo para a construção de uma memória polémica que durante séculos sobrepôs a sua condição de antipapa ao percurso anterior como bispo de Coimbra e arcebispo de Braga. A historiografia contemporânea procurou reavaliar criticamente esta imagem. Estudos pioneiros de Carl Erdmann e Pierre David destacaram a complexidade do seu percurso eclesiástico, político e diplomático, inserindo-o no contexto da reorganização da Igreja hispânica, das redes reformistas transpirenaicas e da Querela das Investiduras.

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